Of books and movies

March 25, 2008 at 8:20 pm (Cinema e TV, Diário da Cinemateca, Livros/BD/revistas)

Estou a atravessar um período de brainsucking, no sentido de que absorvo tudo o que achar digno de ser absorvido pela minha atenção. Mas sendo estes tempos povoados de uma quantidade de informação imensa para que a possamos processar com todo o vagar apropriado, só me resta deixar o meu corpo e mente vogar entre os livros, os filmes e as experiências, algumas deprimentes, outras curiosamente tocantes.

Duas caixas de DVDs de Roman Polanski estão a ser devidamente assimiladas, e a minha mente enche-se com o horror de Rosemary’s Baby, ao mesmo tempo que se deixa fascinar pelos argumentos e a subtileza psicológica de Cul de Sac, Knife in the Water e Chinatown. Este último é o perfeito exemplo de como a escrita de um filme, juntamente com uma boa realização, produz obras-primas.

Tive ocasião de ver pela primeira vez a versão completa de A Clockwork Orange de Kubrick na Cinemateca Portuguesa, baseado na obra de Anthony Burgess, e ainda hoje é uma obra-prima que anuncia a distopia que, nos últimos tempos, tem ameaçado tornar-se uma realidade quotidiana. É um brilhante trabalho por parte do actor Malcolm McDowell, absolutamente aterrorizador no papel de um jovem imoral capaz de tudo, até que é forçado a submeter-se a uma experiência de reabilitação que nunca esquecerá, nem o espectador…

The Servant de Joseph Losey é outro achado a que assisti, na minha tentativa de descobrir mais sobre o cinema britânico dos anos 60, e movida pela minha eterna curiosidade em relação a este realizador afugentado pela era McCarthy e que nos ofereceu algumas das mais brilhantes interpretações no ecrã de Dirk Bogarde.

Regressando ao cinema mainstream, ou talvez não tão mainstream dada a quantidade de obras independentes que marcaram a cerimónia dos Óscares este ano, devo dizer que No Country for Old Men foi uma desilusão que me deixou algo fria e indiferente. Está longe do melhor dos irmãos Coen, e por mais aterrorizadora e impiedosa que seja a figura maníaca e psicopata de Anton Chigurh, desempenhada por Javier Bardem, é uma marioneta de papel sem vida e sem nenhum background que alimente uma ponta de interesse. Bem mais cativante era a personagem do ladrão, Moss, que acaba apanhado pela força das circunstâncias.

There will be Blood provou ser uma experiência cinematográfica bem mais gratificante. É difícil escrever sobre este filme de uma forma que esteja à altura da sua força épica e brutalidade da sua personagem principal. Daniel Plainview é um homem tão consumido pela busca do ouro negro que o seu coração torna-se gradualmente tão negro como o petróleo que emana da terra seca e árida. E se durante semanas interroguei-me sobre o final, hesitando entre classificá-lo como uma completa catástrofe ou um momento de incrível genialidade, tenho que concluir que o espectador não está pronto para um cinema tão corajoso como o realizado por Paul Thomas Anderson.

De livros, não tenho lido menos do que tenho visto. Encontro-me a concluir o calhamaço massivo de Pillars of the Earth de Ken Follett, descrição da sociedade medieval inglesa do séc. XII, e de uma leitura muito fácil e de grande entretenimento. Atrevo-me a dizer que me deixei envolver tanto por algumas das personagens que fiquei zangada com alguns actos de crueldade por parte do autor. A sequela foi recentemente publicada, World Without End e a depender do final do primeiro livro, decidirei se continuo a ler ou não.

No meu regresso a ficção científica, aventurei-me por Ray Bradbury e li pela primeira vez na língua inglesa The Martian Chronicles, para o que parto a seguir para a descoberta de Roger Zelazny, Lord of Light.

E num curioso achado, provavelmente uma raridade, encontrei a edição original do álbum de banda-desenhada (1973), Wanya, Escala em Orongo, considerada a melhor produção em ficção científica na área de BD portuguesa. Com textos de Augusto Mota e desenhos de Nelson Dias, a história ecoa a turbulência política do seu tempo, o período que antecedeu a Revolução de 25 de Abril. Embora tenha achado os textos algo datados, os desenhos são incrivelmente bons, denotando influências do melhor da BD europeia dessa década. Numa edição comemorativa dos 35 anos decorridos desde a sua primeira publicação, Wanya foi reeditado recentemente pela Gradiva.

Lembro-me também de um fim de semana em que li de rajada três livros de três autoras que estiveram presentes no Fórum Fantástico 2007, Prelúdio de Inês Botelho (sim, Inês, eu já li e esqueci-me de te dizer de todas as vezes que falámos ultimamente), O Sonho de Borges de Blanca Riestra e O Segredo do Ourives de Elia Barceló. O primeiro comoveu-me, o segundo fascinou-me e ensinou-me coisas que não sabia, e o terceiro é uma triste história de amor que me fez lembrar o filme Chronos de Guillermo del Toro.

No departamento das curtas, tenho lido a ficção curta nomeada para o Prémio Nébula, em parte como forma de me manter actualizada sobre o melhor que se tem feito nos últimos tempos pelos autores de língua inglesa. Li há poucos dias a maravilhosa noveleta de Ted Chiang, nomeada na categoria de noveletas, The Merchant and the Alchemist’s Gate, sobre um comerciante de Baghdad que através de um artefacto misterioso que lhe permite viajar no tempo, aprende uma valiosa lição de vida. Era demasiado fácil derrapar no tema sempre complexo de viagens no tempo, mas Chiang revela uma mestria e um conhecimento da cultura e religião entre os árabes que confere à narrativa uma alma densa e rica.

Podem ver quais os contos nomeados e aceder aos links dos textos através deste post da SF SIGNAL.

MAs mais do que tudo o que já mencionei, fundamental para mim tem sido a redescoberta da peça teatral The Mahabharata encenada por Peter Brook, com argumento de Jean-Paul Carrière. Não me recordo se já referi esta obra anteriormente neste blogue, mas passou pela primeira vez na televisão em 1998, dividida em três partes. Assisti como adolescente aos diálogos soberbamente escritos, aos actores extraordinariamente convicentes, e fiquei encantada por esta história universal de uma guerra que traz salvação e destruição. A edição em DVD por parte do British Film Institute (e viva a Amazon…!) permitiu-me voltar a redescobrir este clássico que tanto me marcou então.

E para finalizar, não poderia deixar de mencionar a morte de Arthur C. Clarke que nos deixou com a tremenda idade de 90 anos na semana passada. E embora eu não seja uma grande admiradora da sua prosa, que me deixa sonolenta e decepcionada more often than not, reconheço que não só a literatura de ficção científica, mas como o mundo de hoje, não seria o mesmo sem as suas visões e sonhos e esperanças para o futuro. Era o último titã da Idade de Ouro da FC e, por mais triste que seja, vai ser cada vez mais frequente a partir de agora ver todos os monstros gigantes da FC a desaparecerem um por um, estando grande parte deles em idade avançada (Ballard, Aldiss, Bradbury, só para mencionar alguns).

Algumas das obras que mencionei ao longo deste post poderão, mais tarde, merecer uma crítica mais extensa da minha parte. Entretanto, continuarei o processo de brainsucking e continuarei a assimilar tudo o que vejo e leio, até me sentir pronta para escrever de novo.

1 Comment

  1. Miguel Garcia said,

    Boa noite!
    Concordo com as opiniões sobre esses dois recentes filmes… não percebi nada desta edição dos Oscar’s… não percebo como é que o Johnny Depp é nomeado para melhor actor com o sweeney todd, que a meu ver é um apelo ao facilistismo… O vencerdor de melhor filme está completamente no bréu da minha compreensão, de certeza que não percebi o filme..ou então é de facto mau… quanto ao There Will Be Blood, seria a meu ver o justo vencedor desse mesmo prémio… mas o júri decide.
    Anotei alguns dos livros aqui falados, parecem-me muito interessantes
    Cumprimentos

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