Um Homem sem Pátria de Kurt Vonnegut

January 12, 2008 at 12:27 pm (Livros/BD/revistas)

Publicado pela primeira vez a 3 de Setembro de 2006. 

Kurt Vonnegut não é uma voz que deva ser levianamente considerada no mundo da literatura. Alguns manuscritos que saíram debaixo da sua pena são obras seminais que redefiniram o modo como perspectivamos história e sociedade.

Para muitos, é um escritor de ficção científica. E no entanto, transcende esse rótulo. Nesta colectânea de pequenos ensaios da autoria de Vonnegut, publicados ao longo dos anos no jornal In These Times, ele expõe precisamente essa questão em que foi discriminado como um escritor de ficção científica devido à sua formação e abordagem de certas temáticas. Mas se os seus livros dão lugar aos paradoxos e dilemas da ciência e tecnologia, é porque talvez ele sinta essa ser a forma mais indicada de expressar a angústia do seu tempo.

De origem alemã, formou-se na Universidade de Cornell em Química, mas a sua paixão por escrita levou-o desde cedo a desempenhar vários trabalhos como jornalista e repórter. Com o advento da II Guerra Mundial, alistou-se no exército americano, experiência essa que viria a ser determinante para a sua escrita futura. Sobreviveu milagrosamente como prisioneiro de guerra ao bombardeamento de Dresden pela aviação britânica e foi condecorado como herói pelo seu serviço durante a guerra.

Mas não foi capaz de esquecer as atrocidades que testemunhara, o grau de destruição das cidades, as pilhas de mortos que foi forçado a enterrar ou queimar, e porque não desejava que o horror do bombardeamento de Dresden fosse esquecido ou relegado para segundo plano, publicou em 1969 a sua obra mais famosa, Slaughterhouse Five or The Children’s Crusade: A Duty-Dance with Death (Matadouro Cinco ou a Cruzada das Crianças). Combinando elementos de ficção científica como viagens no tempo com uma análise social devastadora, despertou as consciências para a validade das justificações morais tomadas pelos Aliados durante a guerra.

Tornou-se um tema quase obsessivo que perseguiu em outros dos seus romances, levando-o a adoptar um tom cada vez mais satírico e activamente político. A sociedade espantosamente indecente, nas suas palavras, considerada moralmente superior, não deveria escapar de uma confrontação com as suas próprias acções.

Mas nestes pequenos textos, fala-nos um Vonnegut muito mais velho e experiente, mais sábio, capaz de combinar um humanismo inspirador com um desprezo e preocupação pelo rumo que os seus conterrâneos tomaram. De forma quase aleatória, menciona temas e personalidades que descrevem os seus pontos de vista e posições.

Ele confessa assumir-se como um ludita, resistente ao progresso tecnológico mal orientado, e não é capaz de deixar de sentir que o mundo enveredou por um caminho eventualmente auto-destrutivo. A sua ferocidade e raiva reserva-as para a administração Bush que não hesita em criticar impiedosamente, levando-o a assumir-se como um opositor à política externa norte-americana e à guerra do Iraque, em suma, a assumir-se como um homem sem uma pátria com a qual se identifique.

Nem tudo é amargura para Vonnegut. Um toque forte de humor combinado com ternura salta à vista em vários dos textos, e o autor reflecte em especial na ironia de certos eventos na vida. Inesperadamente, o livro revelou-se um best-seller nos Estados Unidos. É, acima de tudo, um triunfo no crepúsculo da vida de um escritor essencialmente humanista com um legado literário influente e que ficará inscrito para a posteridade.

Kurt Vonnegut, Um Homem Sem Pátria, Tinta da China – 12,96€

Títulos do autor publicados em Portugal:

Matadouro Cinco, Caminho
Galápagos, Caminho
Um Homem Sem Pátria, Tinta da China

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