Retrato de James Joyce enquanto escritor

January 8, 2008 at 5:16 pm (Livros/BD/revistas)

Publicado pela primeira vez a 14 de Janeiro de 2006

No dia 13 de Janeiro, decorreram sessenta e cinco anos sobre a morte do escritor irlandês James Joyce, uma das figuras literárias de maior impacto na literatura do século XX. Joyce, considerado como um escritor de influências tão decisivas como as excercidas por Franz Kafka e Marcel Proust, é o percussor de uma nova estética radical e inovadora que ficaria marcada por uma viagem mental aos recessos mais profundos do Homem.

Nascido, a 2 de Fevereiro de 1882, nos subúrbios da cidade de Dublin, no seio de uma família católica de comerciantes, aos seis anos de idade juntou-se a um colégio de jesuítas, mas devido a problemas financeiros e a falência decretada pela família Joyce, foi forçado a abandonar os estudos. Mais tarde, aos nove anos de idade, beneficiando de uma bolsa, é inscrito no Jesuíta Belvedere College.

Já então mostrava os primeiros dotes para a escrita e, enquanto muitos do seu círculo íntimo esperavam um ingresso na vida jesuíta, Joyce abandona a fé católica na sua adolescência. Todavia, tal não o impediu de se juntar ao University College, em Dublin, onde viria a revelar os seus primeiros escritos ensaísticos em teatro, em que não esconde a sua profunda admiração pela obra do dramaturgo norueguês Henrik Ibsen.

Após adquirir a sua licenciatura em línguas modernas, em 1902, parte para Paris para dar início aos seus estudos em medicina. Mas a morte iminente da sua mãe, de cancro, forçou-o a um regresso a Irlanda, ao que se seguiu um breve período de incertezas e dúvidas. Ao mesmo tempo que dá aulas, começa a escrever os primeiros contos em que a cidade de Dublin e os seus habitantes ocupam o protagonismo, assim como, o primeiro esboço do que viria a ser A Portrait of the Artist as a Young Man (O Retrato do Artista Enquanto Jovem), mas ainda com o nome de Stephen Hero.

Em 1904, um dos acontecimentos biográficos mais importantes da vida de Joyce toma lugar, quando conhece Nora Barnacle, a mulher que viria a ser a sua amante, companheira e inspiração para o resto da sua vida. Não acreditando na instituição do casamento, e impedido pelas convenções de viver com Nora sem estarem casados, ambos abandonam Dublin e partem num auto-imposto exílio para a Europa, primeiro para Zurique, mais tarde para Roma.

Nunca inteiramente satisfeito, nem nunca adquirindo estabilidade financeira, tenta arranjar um editor que publique a sua primeira colecção de histórias – Dubliners, cuja publicação viria a acontecer em 1914.

Os contos de Dubliners, se lidos individualmente, deixam um leitor perplexo e insatisfeito, e devem ser antes encarados como um mosaico em que as personagens se interligam e se vêem a braços com uma profunda paralisia que tomou conta da cidade e dos seus próprios anseios e ambições pessoais. Em muitos momentos, aparentemente banais e quotidianos, os dubliners são confrontados com uma consciência da alma que permeia todas as coisas, momentos epifânicos que culminam com o último e assombroso conto da colectânea – The Dead.

Nestes contos, era a própria insatisfação e decepção de Joyce pela vida de Dublin que o instigara a exprimir-se através da literatura e o seu próximo trabalho na área – O Retrato do Artista Enquanto Jovem – viria a ser precisamente uma autobiografia sobre maturidade e o despertar da consciência. Através do herói Stephen Dedalus, desenvolve técnicas literárias radicais que viriam a ser largamente utilizadas em Ulysses como o stream of consciousness (uso de monólogo interior), associado ao movimento modernista europeu.

Durante a Primeira Guerra Mundial, a família Joyce refugia-se em Zurique até ao ano de 1920, época em que se viriam a instalar em Paris, por conselho de Ezra Pound, um dos mais fortes defensores da obra de Joyce. Em paralelo com a publicação de algumas colectâneas de poemas, o autor dá início então ao ambicioso projecto de Ulysses.

No centro da narrativa, temos o judeu Leopold Bloom de passagem pela cidade de Dublin. Ao longo de dezoito capítulos intitulados com nomes de personagens da obra de Homero – A Odisseia – com a qual é estabelecida uma correlação com as personagens de Joyce, o escritor descreve um dia aparentemente normal , 16 de Junho de 1904 (Bloomsday), na vida de Leopold Bloom e Stephen Dedalus, em que a uma dada altura os seus caminhos se cruzam. Por detrás desta simples premissa, ocultam-se temas complexos e uma constante exposição da psique humana e de todos os fantasmas que a assombram.

Ainda que Joyce fosse um exilado a viver no continente europeu, muito da sua obra deve ser lida em consonância com as suas raízes irlandesas e dentro de um contexto político e histórico irlandês, numa altura em que o espírito revolucionário e nacionalista da Irlanda atingia o seu auge.

A serialização da obra foi iniciada num jornal americano, entre 1918 e 1920, e publicada pela primeira vez em Paris, por intermédio de Sylvia Beach, proprietária da livraria Shakespeare and Company. O escândalo e controvérsia que causou pelo seu conteúdo granjeou-lhe acusações de pornografia e muitos acorreram em defesa de Ulysses, hoje laureada como uma obra-prima do modernismo e uma das obras cimeiras do séc. XX.

Tendo completado a sua obra-prima, Joyce dedicou o resto da sua vida à elaboração de uma obra ainda mais ambiciosa – Finnegan’s Wake – em que o escritor dá livre rédea à técnica de stream of consciousness e interpretação de sonhos, destruindo por completo quaisquer convenções de linguagem e estrutura narrativa.

Afligido por problemas de saúde, passou os últimos vinte anos da sua vida entre Paris e Zurique, e se conseguiu a escrita e publicação das suas obras, foi graças ao apoio incondicional de amigos e admiradores. Morre em Zurique, em 1941, devido a complicações pós-operatórias.

O seu legado serviu de inspiração para dezenas de escritores e poetas e é talvez o escritor de maior fama, mas de obra literária mais densa e inacessível. É, todavia, quem melhor espelha o fim da tradição familiar e convenções, a busca do Homem por realização, o cosmopolitismo vazio e uma paz interior dilacerada pelos conflitos de uma consciência humana sujeita a perda e usurpação, temas fundamentais que pautaram grande parte da literatura do último século.

Links sobre James Joyce:

James Joyce Centre
Literary Encyclopedia
Biografia e Bibliografia na Wikipedia

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