A velha lenda e o cobarde que a matou

January 6, 2008 at 1:56 pm (Cinema e TV)

O western americano morreu há eras. Unforgiven terá sido o último grande western de uma longa linha venerável de obras-primas do cinema americano realizadas por homens como Howard Hawks, John Ford, Sergio Leone, Sam Peckinpah, John Houston e outros. Esses são nomes míticos mas houve outros como King Vidor, Nicholas Ray, William Wyler, Raoul Walsh. O que a maioria do público ir-se-á lembrar ainda desse género são os rostos de certos actores, que viram uma parte importante das suas carreiras associada aos cowboys, rancheiros, foras-da-lei e xerifes. Nomes como Gary Cooper, Henry Fonda, James Stewart e, claro, o incontornável John Wayne.

Pessoalmente, o meu favorito é Rio Bravo de Howard Hawks. Adoro a química entre Dean Martin, John Wayne, Rickie Nelson e Walter Brennan, e poucos conseguiram criar um tal ambiente de camaradagem perante situações adversas.

Tudo começou com Stagecoach de John Ford em 1939, mas é The Searchers que ganhou o título de obra-prima do género e é um clássico que ainda hoje vale a pena revisitar, sem nos sentirmos aborrecidos com os clichés que se instalaram em tantos dos westerns. É hoje considerado um dos melhores exemplos desse cinema, mas outros títulos curiosos deste tempo (falamos das década de 50 e 60) reuniram acólitos como High Noon, The Man who Shot Liberty Valance, Johnny Guitar, The Magnificent Seven.

O western então tinha características claramente definidas. Um género essencialmente americano, temos as longas planícies desérticas e espaços abertos, o retrato de um modo de vida primitivo antes do advento da Revolução Industrial, as confrontações entre o bom e mau pistoleiro, a defesa de território contra o inimigo desconhecido e ameaçador, os nativos. Os cowboys posicionavam-se então no limiar de grandes transformações sociais e históricas que transformariam a identidade americana, e é talvez devido a essa mesma transformação que encontramos um sentimento de nostalgia e lamento subjacente em muitos dos filmes que retratam este tempo.

Sergio Leone revitaliza o género, nos anos 60, com os western spaghetti, filmes produzidos por estúdios italianos, em especial, a trilogia dos dólares que então revelava um desconhecido actor de TV chamado… Clint Eastwood. Leone comete também a proeza de redefinir a figura do cowboy, retratando-o como um homem moralmente ambíguo, ambicioso e cínico, sujo, brutal e implacável na defesa dos seus próprios interesses. Influenciado pelo realizador japonês Akira Kurosawa, ele prossegue em desmistificar os mitos do velho Oeste, dando protagonismo a anti-heróis indiferentes a valores como honra e sacrifício.

A televisão também desempenhou um grande papel na divulgação do western, e muitas séries tornaram-se parte da memória popular colectiva como Bonanza ou Little House on the Prairie. Por essa altura, iniciam-se os anos 70 e o cinema e a televisão seguem novos rumos. Os western tornam-se clássicos de cinema, dando lugar a novas visões e mensagens que ecoam as próprias convulsões históricas, culturais e sociais que os EUA então atravessam.

Posteriormente, o cinema contemporâneo revisita ou mesmo reinventa o género. Danças com Lobos de Kevin Costner terá sido, provavelmente, o último grande western a recuperar os valores tradicionais que surgiram nos primeiros filmes. Unforgiven recupera também muito dos valores, ao mesmo tempo que os subverte. O recente The Proposition de John Hillcoat e argumento de Nick Cave recupera a visão brutal e violenta do Western em que o crime é a única forma de sobreviver num mundo inóspito e cruel.

A imaginação também recupera as velhas lendas dos cowboys, aliando o western à ficção científica. Com o colapso de civiizações tecnológicas, a humanidade é forçada a reverter aos modos de vida primitivos do Oeste, e temos como melhor exemplo a série televisiva Firefly. Também Wild, Wild West ou até mesmo na literatura The Dark Tower series de Stephen King, elementos western voltam a marcar presença, coordenados com elementos ou cenários futuristas.

O mundo do velho Faroeste continua a exercer o seu fascínio em muitos realizadores. Wim Wenders e Sam Shepard criaram uma combinação muito singular da ambiência western com dramas contemporâneos de famílias destroçadas a tentarem encontrar um novo sentido na vida em Paris, Texas ou Don’t Come Knocking. Destaque também para o controverso Brokeback Mountain de Ang Lee, a explorar o confronto entre o velho mundo tradicional dos rancheiros e valores sociais contemporâneos como a homossexualidade.

Após tantos anos, um novo western surge, o filme de Andrew Dominik, The Assassination of Jesse James by the Coward Robert Ford. Clássico, mas também incrivelmente moderno, e é nessa combinação que reside muita da beleza e genialidade do filme de Andrew Dominik. Ressuscita mas também constrói uma nova forma de ler e comprender os filmes western e os heróis que os protagonizam.

Westerns costumavam ser sobre acção, actos cometidos ou por cometer. Mas não é nenhum plano de acção, nem tão só nenhuma demanda ou viagem que impele o filme em direcção à tragédia inevitável que o título deixa antever. É um estudo psicológico de dois homens, Jesse James e Robert Ford.

Quando o filme começa, os irmãos Frank e Jesse James há muito se tornaram uma lenda como foras-da-lei que roubam aos ricos para dar aos pobres. Assaltos a bancos e comboios bem-sucedidos tornaram-nos afamados por toda a América, mas Frank prepara-se para colocar um ponto final à sua vida de fora-da-lei, em parte pelas diferenças irreconciliáveis com o irmão Jesse, temperamental e imprevisível.

Robert Ford, um jovem de 19 anos, tenta tudo por tudo para se juntar ao bando, atraído pelo mito e histórias em torno de Jesse James. Ele admira Jesse e na sua mente tenta imitar o seu herói de infância. Se essa admiração começa por uma veneração do mito que rodeia a figura de Jesse, cedo dá lugar a uma vontade de emular e suplantar o seu ícone.

Jesse, nos seus últimos dias, torna-se um homem mudado, a ceder a paranóias e depressões que tanto o incitam a cenas de raiva e violência, como extrema generosidade e cordialidade. É um homem atormentado pela sua própria lenda, mas é o mais consciente deles todos e consegue pressentir os sinais de que a sua vida está a chegar ao fim.

É o confronto piscológico entre esses dois homens, Jesse James e Robert Ford, que dinamiza o filme. O bando de Jesse vive com um medo mortal do seu líder, que parece sempre estar dentro de todos os segredos, mas Robert tenta conquistar a sua amizade e confiança, esquecendo-se que a natureza solitária e imprevisível de Jesse pode tanto elogiá-lo como escarnecer dele.

É o próprio Jesse que lhe pergunta, Do you want to be like me? Or do you want to be me? ao que o Ford não tem resposta. É importante notar que as grandes proezas de Jesse não são aqui retratadas, e toda a sua grandeza é despida, ficando apenas o homem. He’s just a human being, diz bem Ford, a um dado momento.

Quando os dois homens se distanciam e Robert começa a ganhar um cada vez maior rancor e ressentimento contra Jesse, começa a planear a sua traição. Jesse está cada vez mais paranóico e instável, indo em perseguição dos seus homens. Mas ele próprio admite que não é capaz de lidar com o Robert, o que mais espelha abertamente o seu rancor. No momento crítico, em que Robert e o seu irmão, Charley, encontram-se na casa de Jesse, prontos para cometer a traição, Jesse James sabe que está prestes a ser assassinado e deixa-se ser morto. Talvez demasiado cansado, demasiado alienado pelo homem que se tornou.

As cenas finais retratam a crescente vilanização de Robert Ford pelo acto que cometeu. A lenda de Jesse James esmaga-o e destrói todas as suas ilusões de ser visto como herói ou salvador. O povo acusa-o e marginaliza-o, cantando canções sobre a sua cobardia por ter morto Jesse nas costas, perante a mulher e os filhos. Ele pode ter começado como uma figura patética, a implorar a Frank James para fazer parte do bando, mas à medida que o tempo progride, ele amadurece e sente verdadeiro arrependimento.

No entanto, isso não salva o seu nome ou muda a sua reputação de assassino cobarde e vil. Ele paga um preço demasiado caro, sem que homem algum lamente a sua morte ou o enalteça na posteridade.

A câmara, fotografia e a subtil banda-sonora são exímias e há muito tempo que não via um filme tão bonito e poético na forma como capta cada cena. É propositadamente lento (talvez lento demais no início) e atento à linguagem corporal e facial das personagens, fazendo com que cada momento ganhe uma maior relevância. Em sintonia com a evolução dos acontecimentos, um narrador conta alguns dos factos que ocorreram naquele tempo. E quando o filme assume essa narração em voz-off, a câmara intencionalmente desfoca as imagens, conferindo-lhes uma aura irreal e distante no tempo, como se todos aqueles eventos fossem produto da imaginação e mito.

Sobre os actores, muito já foi dito em outros locais e confirma-se a regra. Brad Pitt e Casey Affleck são excepcionais e suportados por um elenco secundário de actores inteiramente credíveis. Uma pena que a distribuição do filme não lhe tenha permitido atingir as grandes salas, mas com as nomeações e prémios que tem vindo a receber, tem conquistado culto.

The Assassination of Jesse James by the Coward Robert Ford é um western, mas apenas na aparência. É antes de mais, um drama trágico interior sobre os últimos dias de um grande homem e a vida daquele que o matou.

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