O retrato de Oscar Wilde

January 5, 2008 at 11:59 am (Livros/BD/revistas)

Publicado pela primeira vez a 16 de Outubro de 2005. O presente texto insere-se num conjunto de posts sobre personalidades literárias de grande relevo.

Há cento e cinquenta e um anos nasceu em Dublin, o segundo filho de Sir William Wilde e Lady Jane, Oscar Fingal O’Flahertie Wills Wilde. O seu pai notabilizara-se como um cirurgião, distinguido como cavaleiro pelos seus serviços prestados em Medecina, ao passo que sua mãe, uma destacada poetisa e nacionalista irlandesa, convivia regularmente com as grandes figuras literárias do seu tempo, permitindo a Wilde crescer num ambiente marcado pelas Artes e Letras.

Recebeu a sua educação em estudos clássicos numa dos melhores colégios irlandeses, Trinity College, e foi durante esse tempo que surgiu o seu primeiro interesse pelo Esteticismo. Terminados os seus estudos na Irlanda com louvor, recebeu uma bolsa que lhe permitiu continuar a sua formação literária em Magdalene College, Oxford. Seria este o tempo decisivo que acabaria por moldar a sua personalidade e ideais presentes no seu legado literário.

Foi em Oxford que Oscar Wilde teve o primeiro contacto com a arte e filosofia do Esteticismo. O movimento surgira numa fase tardia do Romantismo e se pretendia como reacção contra o conservadorismo da sociedade vitoriana, apologista dos valores clássicos. Wilde entra no mundo da Arte pela Arte por influência da Irmandade Pré-rafaelita de William Morris e Dante Gabriel Rossetti, um movimento de reforma artística que se insurgira contra a adopção dos ideais classicistas. Mas foram também os ensinamentos de John Ruskin e Walter Pater, dois dos filósofos e críticos ingleses mais influentes desse tempo, que motivaram Wilde a enveredar pelo Decadentismo e Dandismo.

Em 1878, Wilde estreou-se triunfante no campo da poesia, ao vencer o prémio anual de poesia Newdigate Prize for Poetry, com o seu poema Ravenna. Pouco tempo depois, iniciou uma série de viagens pelos Estados Unidos e França, onde a sua excentricidade, inteligência e eloquência cedo o tornaram uma celebridade. Para os estetas como ele, estava em causa a independência da arte; os artistas deveriam preocupar-se apenas com o culto da Beleza, entregues à sua adoração e rejeitando qualquer moral. Tornaram-se inevitavelmente alvo de sátira e chacota pela sua excentricidade e oposição ao racionalismo. E no entanto, Wilde tornara-se a figura inglesa mais célebre e proeminente em finais do séc. XIX, o representante por excelência do novo grupo literário.

Após o seu casamento com Constance Lloyd em 1884, dedicou-se a várias actividades como jornalismo e edição literária. Nos anos que se seguiram, inicia a escrita de algumas das suas obras mais notáveis como os contos para crianças, The Happy Prince and Other Stories (O Príncipe Feliz e Outras Histórias), buscando muita da sua inspiração a literatura oral e tradicional.

Em 1890, Wilde publicou o seu primeiro e único romance – The Picture of Dorian Gray (O Retrato de Dorian Gray). A história de um homem agraciado com beleza e encanto, e em que gradualmente assistimos à sua inocência inicial transformar-se em algo grotesco e diabólico, graças a Lord Henry que o induz no caminho da Arte pela Arte, causou um enorme escândalo em ambos os lados do Atlântico, e muitos definiriam o romance como um reflexo da própria relação de Wilde com Lord Alfred Douglas.

Por esta altura, já não era nenhum segredo que mantinha relações homossexuais com vários homens, em particular com o filho do Marquês de Queensberry, Lord Alfred Douglas. Seria esta relação que mais tarde iria ditar a desgraça do autor. Mas ainda antes de se dar a sua queda e humilhação na sociedade vitoriana, produziu algumas das suas melhores peças teatrais.

Em 1893, Wilde escreveu a tragédia Salomé. Devido aos seus temas bíblicos, a peça foi proibida de subir ao palco durantes muitos anos, na Inglaterra. No entanto, acabou por ser publicada em inglês (inicialmente escrita em francês) no ano de 1894, com ilustrações de Audrey Beardsley, expondo a curiosa premissa de que Salomé se teria apaixonado por João Baptista, tendo o amor não-correspondido a levado à loucura.

Destacou-se também por várias comédias de costume que lhe granjearam imenso sucesso, Lady Windermere’s Fan, A Woman of no Importance e The Ideal Husband, onde domina uma forte componente de farsa e sátira. Mas a sua obra-prima dramaturga é, sem contestação, The Importance of Being Earnest. Total nonsense caracteriza esta peça que pretende, no fundo, parodiar muitos aspectos da vida social vitoriana e reduzi-los ao absurdo. A peça aborda também o tema da vida dupla, o que fez com que muitos críticos encarassem esta sua paródia como uma forma de exorcizar os seus próprios fantasmas.

Em 1895, dão-se os primeiros acontecimentos que iriam conduzir ao fim abrupto de toda a glória e fama de Oscar Wilde. O marquês de Queensberry, indignado pela relação do seu filho com Wilde, lança-lhe acusações públicas de sodomia. Por iniciativa do escritor, é iniciado um processo criminal que iria terminar com o julgamento e prisão do próprio Oscar Wilde por homossexualidade. Foi sentenciado a dois anos de prisão, experiência traumatizante do qual nunca viria verdadeiramente a recuperar. Foi nesses anos de reclusão que escreveu uma carta em que inicialmente pretendia exprimir muitos dos seus sentimentos por Douglas, mas que acabou por se transformar numa tocante autobiografia – De Profundis.

A história literária define o julgamento de Wilde como o evento que marca o fim do Esteticismo. Os últimos dez anos do séc. XIX tinham sido marcados pelo contributo de certos artistas e poetas, induzidos a uma glorificação da Arte que acabara por se perverter e culminar numa decadência humana tão bem expressa na obra de Oscar Wilde.

Libertado da prisão, impôs-se a um auto-exílio dos círculos sociais e refugiou-se na Europa, onde passaria os últimos anos da sua vida. Constance reconciliou-se com o marido antes da sua morte, mas ainda assim Wilde nunca mais voltou a ver os dois filhos, e acabou por falecer em Paris, no ano de 1900. Ainda seriam precisas muitas décadas para reconhecer o valor da sua obra literária, mas hoje permanece como figura de indisputável mérito no panteão da Literatura mundial.

Literary Encyclopedia
Biografia de Wilde na Wikipedia

2 Comments

  1. Miguel Garcia said,

    Parabens pela iniciativa, ou re-iniciativa.
    Oscar Wilde é dos meus eleitos escritores, consegue deliciar-nos com contos fantásticos, aterrorizar com histórias como O Retrato de Dorian Gray, fazer-nos rir, por exemplo com The Counterville Ghost, e no Profundis e Declínio da Mentira temos o contacto directo com essa mente estranha, profunda e sensivel, onde vemos a injustiça que se abateu sobre essa grande personalidade da arte.
    Bram Stooker entrou no mundo da artistico inglês graças a Oscar Wilde, aquando da sua entrada no Trinity College.

    Fico à espera do próximo post!
    Cumprimentos

  2. Safaa Dib said,

    Obrigado, Miguel!

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