Things I don’t know
Eu não sei se não me esforço demasiado por vezes. Eu não sei se deveria deixar demasiada tristeza e indignação acumular até o meu rosto mostrar que não estou feliz, porque eu sei que raramente alguém percebe a verdadeira razão do meu descontentamento. Eu não sei se aguentarei mais tempo sem me expressar de uma forma mais violenta. Eu não sei porque tenho tantos cabelos brancos numa idade tão jovem. Eu não sei porque me esforço demasiado (ou talvez sei mas nunca o direi a ninguém). Eu não sei porque, de súbito, sinto saudades de todos os meus amigos que me acompanharam nos meus primeiros anos da vida universitária. Eu não sei porque não posso dizer tudo isto mais vezes, sem recear o ridículo do sentimentalismo. Eu não sei porque gosto tanto de colocar os títulos dos meus posts em inglês, ao passo que escrevo o resto em português. Eu não sei porque se torna cada vez mais difícil para mim, com a idade, manter o silêncio. Eu não sei porque continuo a escrever uma carta que sei que tornará uma mulher infeliz porque ela não obterá o divórcio que quer. Eu não sei porque, neste momento, acredito que posts inteiramente pessoais me fazem sentir fútil (mas continuo determinada a clicar no botão publicar).
É melhor parar por aqui porque este post começa a perder a qualidade do sentimento com que foi iniciado.
Does the heart wants to atone?
Um crime que nunca poderá ser apagado tortura a alma até a quebrar em fragmentos. A não ser que essa alma encontre um modo de suavizar a dor, a não ser que essa alma aprenda a conviver com os seus fantasmas e a exorcizá-los na escrita, como Briony Tallis o fez em Expiação (Atonement) de Ian McEwan. As consequências do que Briony viu através da janela da sua casa num Verão alguns anos antes da guerra começar, acabaria não apenas com a sua infância, mas com as vidas das pessoas em seu torno.

A imagem acima reproduz uma das cenas mais emotivas e pungentes do filme Expiação. Comovente porque já então conhecemos a verdade sobre os factos que rodearam as vidas de Cecilia e Robbie.
Não julguem que estão perante um filme sentimental pejado de clichés românticos. É uma história maravilhosa e filmada de forma engenhosa. Quando tiver mais tempo, gostaria muito de escrever sobre o livro e filme, mas por agora fica a recomendação. Está aí nas salas de cinemas para ver e guardar na memória.
Um Homem sem Pátria de Kurt Vonnegut
Publicado pela primeira vez a 3 de Setembro de 2006.
Kurt Vonnegut não é uma voz que deva ser levianamente considerada no mundo da literatura. Alguns manuscritos que saíram debaixo da sua pena são obras seminais que redefiniram o modo como perspectivamos história e sociedade.
Para muitos, é um escritor de ficção científica. E no entanto, transcende esse rótulo. Nesta colectânea de pequenos ensaios da autoria de Vonnegut, publicados ao longo dos anos no jornal In These Times, ele expõe precisamente essa questão em que foi discriminado como um escritor de ficção científica devido à sua formação e abordagem de certas temáticas. Mas se os seus livros dão lugar aos paradoxos e dilemas da ciência e tecnologia, é porque talvez ele sinta essa ser a forma mais indicada de expressar a angústia do seu tempo.
De origem alemã, formou-se na Universidade de Cornell em Química, mas a sua paixão por escrita levou-o desde cedo a desempenhar vários trabalhos como jornalista e repórter. Com o advento da II Guerra Mundial, alistou-se no exército americano, experiência essa que viria a ser determinante para a sua escrita futura. Sobreviveu milagrosamente como prisioneiro de guerra ao bombardeamento de Dresden pela aviação britânica e foi condecorado como herói pelo seu serviço durante a guerra.
Mas não foi capaz de esquecer as atrocidades que testemunhara, o grau de destruição das cidades, as pilhas de mortos que foi forçado a enterrar ou queimar, e porque não desejava que o horror do bombardeamento de Dresden fosse esquecido ou relegado para segundo plano, publicou em 1969 a sua obra mais famosa, Slaughterhouse Five or The Children’s Crusade: A Duty-Dance with Death (Matadouro Cinco ou a Cruzada das Crianças). Combinando elementos de ficção científica como viagens no tempo com uma análise social devastadora, despertou as consciências para a validade das justificações morais tomadas pelos Aliados durante a guerra.
Tornou-se um tema quase obsessivo que perseguiu em outros dos seus romances, levando-o a adoptar um tom cada vez mais satírico e activamente político. A sociedade espantosamente indecente, nas suas palavras, considerada moralmente superior, não deveria escapar de uma confrontação com as suas próprias acções.
Mas nestes pequenos textos, fala-nos um Vonnegut muito mais velho e experiente, mais sábio, capaz de combinar um humanismo inspirador com um desprezo e preocupação pelo rumo que os seus conterrâneos tomaram. De forma quase aleatória, menciona temas e personalidades que descrevem os seus pontos de vista e posições.
Ele confessa assumir-se como um ludita, resistente ao progresso tecnológico mal orientado, e não é capaz de deixar de sentir que o mundo enveredou por um caminho eventualmente auto-destrutivo. A sua ferocidade e raiva reserva-as para a administração Bush que não hesita em criticar impiedosamente, levando-o a assumir-se como um opositor à política externa norte-americana e à guerra do Iraque, em suma, a assumir-se como um homem sem uma pátria com a qual se identifique.
Nem tudo é amargura para Vonnegut. Um toque forte de humor combinado com ternura salta à vista em vários dos textos, e o autor reflecte em especial na ironia de certos eventos na vida. Inesperadamente, o livro revelou-se um best-seller nos Estados Unidos. É, acima de tudo, um triunfo no crepúsculo da vida de um escritor essencialmente humanista com um legado literário influente e que ficará inscrito para a posteridade.
Kurt Vonnegut, Um Homem Sem Pátria, Tinta da China – 12,96€
Títulos do autor publicados em Portugal:
Matadouro Cinco, Caminho
Galápagos, Caminho
Um Homem Sem Pátria, Tinta da China
Retrato de James Joyce enquanto escritor
Publicado pela primeira vez a 14 de Janeiro de 2006
No dia 13 de Janeiro, decorreram sessenta e cinco anos sobre a morte do escritor irlandês James Joyce, uma das figuras literárias de maior impacto na literatura do século XX. Joyce, considerado como um escritor de influências tão decisivas como as excercidas por Franz Kafka e Marcel Proust, é o percussor de uma nova estética radical e inovadora que ficaria marcada por uma viagem mental aos recessos mais profundos do Homem.
Nascido, a 2 de Fevereiro de 1882, nos subúrbios da cidade de Dublin, no seio de uma família católica de comerciantes, aos seis anos de idade juntou-se a um colégio de jesuítas, mas devido a problemas financeiros e a falência decretada pela família Joyce, foi forçado a abandonar os estudos. Mais tarde, aos nove anos de idade, beneficiando de uma bolsa, é inscrito no Jesuíta Belvedere College.
Já então mostrava os primeiros dotes para a escrita e, enquanto muitos do seu círculo íntimo esperavam um ingresso na vida jesuíta, Joyce abandona a fé católica na sua adolescência. Todavia, tal não o impediu de se juntar ao University College, em Dublin, onde viria a revelar os seus primeiros escritos ensaísticos em teatro, em que não esconde a sua profunda admiração pela obra do dramaturgo norueguês Henrik Ibsen.
Após adquirir a sua licenciatura em línguas modernas, em 1902, parte para Paris para dar início aos seus estudos em medicina. Mas a morte iminente da sua mãe, de cancro, forçou-o a um regresso a Irlanda, ao que se seguiu um breve período de incertezas e dúvidas. Ao mesmo tempo que dá aulas, começa a escrever os primeiros contos em que a cidade de Dublin e os seus habitantes ocupam o protagonismo, assim como, o primeiro esboço do que viria a ser A Portrait of the Artist as a Young Man (O Retrato do Artista Enquanto Jovem), mas ainda com o nome de Stephen Hero.
Em 1904, um dos acontecimentos biográficos mais importantes da vida de Joyce toma lugar, quando conhece Nora Barnacle, a mulher que viria a ser a sua amante, companheira e inspiração para o resto da sua vida. Não acreditando na instituição do casamento, e impedido pelas convenções de viver com Nora sem estarem casados, ambos abandonam Dublin e partem num auto-imposto exílio para a Europa, primeiro para Zurique, mais tarde para Roma.
Nunca inteiramente satisfeito, nem nunca adquirindo estabilidade financeira, tenta arranjar um editor que publique a sua primeira colecção de histórias – Dubliners, cuja publicação viria a acontecer em 1914.
Os contos de Dubliners, se lidos individualmente, deixam um leitor perplexo e insatisfeito, e devem ser antes encarados como um mosaico em que as personagens se interligam e se vêem a braços com uma profunda paralisia que tomou conta da cidade e dos seus próprios anseios e ambições pessoais. Em muitos momentos, aparentemente banais e quotidianos, os dubliners são confrontados com uma consciência da alma que permeia todas as coisas, momentos epifânicos que culminam com o último e assombroso conto da colectânea – The Dead.
Nestes contos, era a própria insatisfação e decepção de Joyce pela vida de Dublin que o instigara a exprimir-se através da literatura e o seu próximo trabalho na área – O Retrato do Artista Enquanto Jovem – viria a ser precisamente uma autobiografia sobre maturidade e o despertar da consciência. Através do herói Stephen Dedalus, desenvolve técnicas literárias radicais que viriam a ser largamente utilizadas em Ulysses como o stream of consciousness (uso de monólogo interior), associado ao movimento modernista europeu.
Durante a Primeira Guerra Mundial, a família Joyce refugia-se em Zurique até ao ano de 1920, época em que se viriam a instalar em Paris, por conselho de Ezra Pound, um dos mais fortes defensores da obra de Joyce. Em paralelo com a publicação de algumas colectâneas de poemas, o autor dá início então ao ambicioso projecto de Ulysses.
No centro da narrativa, temos o judeu Leopold Bloom de passagem pela cidade de Dublin. Ao longo de dezoito capítulos intitulados com nomes de personagens da obra de Homero – A Odisseia – com a qual é estabelecida uma correlação com as personagens de Joyce, o escritor descreve um dia aparentemente normal , 16 de Junho de 1904 (Bloomsday), na vida de Leopold Bloom e Stephen Dedalus, em que a uma dada altura os seus caminhos se cruzam. Por detrás desta simples premissa, ocultam-se temas complexos e uma constante exposição da psique humana e de todos os fantasmas que a assombram.

Ainda que Joyce fosse um exilado a viver no continente europeu, muito da sua obra deve ser lida em consonância com as suas raízes irlandesas e dentro de um contexto político e histórico irlandês, numa altura em que o espírito revolucionário e nacionalista da Irlanda atingia o seu auge.
A serialização da obra foi iniciada num jornal americano, entre 1918 e 1920, e publicada pela primeira vez em Paris, por intermédio de Sylvia Beach, proprietária da livraria Shakespeare and Company. O escândalo e controvérsia que causou pelo seu conteúdo granjeou-lhe acusações de pornografia e muitos acorreram em defesa de Ulysses, hoje laureada como uma obra-prima do modernismo e uma das obras cimeiras do séc. XX.
Tendo completado a sua obra-prima, Joyce dedicou o resto da sua vida à elaboração de uma obra ainda mais ambiciosa – Finnegan’s Wake – em que o escritor dá livre rédea à técnica de stream of consciousness e interpretação de sonhos, destruindo por completo quaisquer convenções de linguagem e estrutura narrativa.
Afligido por problemas de saúde, passou os últimos vinte anos da sua vida entre Paris e Zurique, e se conseguiu a escrita e publicação das suas obras, foi graças ao apoio incondicional de amigos e admiradores. Morre em Zurique, em 1941, devido a complicações pós-operatórias.
O seu legado serviu de inspiração para dezenas de escritores e poetas e é talvez o escritor de maior fama, mas de obra literária mais densa e inacessível. É, todavia, quem melhor espelha o fim da tradição familiar e convenções, a busca do Homem por realização, o cosmopolitismo vazio e uma paz interior dilacerada pelos conflitos de uma consciência humana sujeita a perda e usurpação, temas fundamentais que pautaram grande parte da literatura do último século.
Links sobre James Joyce:
James Joyce Centre
Literary Encyclopedia
Biografia e Bibliografia na Wikipedia
A velha lenda e o cobarde que a matou
O western americano morreu há eras. Unforgiven terá sido o último grande western de uma longa linha venerável de obras-primas do cinema americano realizadas por homens como Howard Hawks, John Ford, Sergio Leone, Sam Peckinpah, John Houston e outros. Esses são nomes míticos mas houve outros como King Vidor, Nicholas Ray, William Wyler, Raoul Walsh. O que a maioria do público ir-se-á lembrar ainda desse género são os rostos de certos actores, que viram uma parte importante das suas carreiras associada aos cowboys, rancheiros, foras-da-lei e xerifes. Nomes como Gary Cooper, Henry Fonda, James Stewart e, claro, o incontornável John Wayne.

Pessoalmente, o meu favorito é Rio Bravo de Howard Hawks. Adoro a química entre Dean Martin, John Wayne, Rickie Nelson e Walter Brennan, e poucos conseguiram criar um tal ambiente de camaradagem perante situações adversas.
Tudo começou com Stagecoach de John Ford em 1939, mas é The Searchers que ganhou o título de obra-prima do género e é um clássico que ainda hoje vale a pena revisitar, sem nos sentirmos aborrecidos com os clichés que se instalaram em tantos dos westerns. É hoje considerado um dos melhores exemplos desse cinema, mas outros títulos curiosos deste tempo (falamos das década de 50 e 60) reuniram acólitos como High Noon, The Man who Shot Liberty Valance, Johnny Guitar, The Magnificent Seven.
O western então tinha características claramente definidas. Um género essencialmente americano, temos as longas planícies desérticas e espaços abertos, o retrato de um modo de vida primitivo antes do advento da Revolução Industrial, as confrontações entre o bom e mau pistoleiro, a defesa de território contra o inimigo desconhecido e ameaçador, os nativos. Os cowboys posicionavam-se então no limiar de grandes transformações sociais e históricas que transformariam a identidade americana, e é talvez devido a essa mesma transformação que encontramos um sentimento de nostalgia e lamento subjacente em muitos dos filmes que retratam este tempo.
Sergio Leone revitaliza o género, nos anos 60, com os western spaghetti, filmes produzidos por estúdios italianos, em especial, a trilogia dos dólares que então revelava um desconhecido actor de TV chamado… Clint Eastwood. Leone comete também a proeza de redefinir a figura do cowboy, retratando-o como um homem moralmente ambíguo, ambicioso e cínico, sujo, brutal e implacável na defesa dos seus próprios interesses. Influenciado pelo realizador japonês Akira Kurosawa, ele prossegue em desmistificar os mitos do velho Oeste, dando protagonismo a anti-heróis indiferentes a valores como honra e sacrifício.
A televisão também desempenhou um grande papel na divulgação do western, e muitas séries tornaram-se parte da memória popular colectiva como Bonanza ou Little House on the Prairie. Por essa altura, iniciam-se os anos 70 e o cinema e a televisão seguem novos rumos. Os western tornam-se clássicos de cinema, dando lugar a novas visões e mensagens que ecoam as próprias convulsões históricas, culturais e sociais que os EUA então atravessam.
Posteriormente, o cinema contemporâneo revisita ou mesmo reinventa o género. Danças com Lobos de Kevin Costner terá sido, provavelmente, o último grande western a recuperar os valores tradicionais que surgiram nos primeiros filmes. Unforgiven recupera também muito dos valores, ao mesmo tempo que os subverte. O recente The Proposition de John Hillcoat e argumento de Nick Cave recupera a visão brutal e violenta do Western em que o crime é a única forma de sobreviver num mundo inóspito e cruel.
A imaginação também recupera as velhas lendas dos cowboys, aliando o western à ficção científica. Com o colapso de civiizações tecnológicas, a humanidade é forçada a reverter aos modos de vida primitivos do Oeste, e temos como melhor exemplo a série televisiva Firefly. Também Wild, Wild West ou até mesmo na literatura The Dark Tower series de Stephen King, elementos western voltam a marcar presença, coordenados com elementos ou cenários futuristas.
O mundo do velho Faroeste continua a exercer o seu fascínio em muitos realizadores. Wim Wenders e Sam Shepard criaram uma combinação muito singular da ambiência western com dramas contemporâneos de famílias destroçadas a tentarem encontrar um novo sentido na vida em Paris, Texas ou Don’t Come Knocking. Destaque também para o controverso Brokeback Mountain de Ang Lee, a explorar o confronto entre o velho mundo tradicional dos rancheiros e valores sociais contemporâneos como a homossexualidade.
Após tantos anos, um novo western surge, o filme de Andrew Dominik, The Assassination of Jesse James by the Coward Robert Ford. Clássico, mas também incrivelmente moderno, e é nessa combinação que reside muita da beleza e genialidade do filme de Andrew Dominik. Ressuscita mas também constrói uma nova forma de ler e comprender os filmes western e os heróis que os protagonizam.

Westerns costumavam ser sobre acção, actos cometidos ou por cometer. Mas não é nenhum plano de acção, nem tão só nenhuma demanda ou viagem que impele o filme em direcção à tragédia inevitável que o título deixa antever. É um estudo psicológico de dois homens, Jesse James e Robert Ford.
Quando o filme começa, os irmãos Frank e Jesse James há muito se tornaram uma lenda como foras-da-lei que roubam aos ricos para dar aos pobres. Assaltos a bancos e comboios bem-sucedidos tornaram-nos afamados por toda a América, mas Frank prepara-se para colocar um ponto final à sua vida de fora-da-lei, em parte pelas diferenças irreconciliáveis com o irmão Jesse, temperamental e imprevisível.
Robert Ford, um jovem de 19 anos, tenta tudo por tudo para se juntar ao bando, atraído pelo mito e histórias em torno de Jesse James. Ele admira Jesse e na sua mente tenta imitar o seu herói de infância. Se essa admiração começa por uma veneração do mito que rodeia a figura de Jesse, cedo dá lugar a uma vontade de emular e suplantar o seu ícone.
Jesse, nos seus últimos dias, torna-se um homem mudado, a ceder a paranóias e depressões que tanto o incitam a cenas de raiva e violência, como extrema generosidade e cordialidade. É um homem atormentado pela sua própria lenda, mas é o mais consciente deles todos e consegue pressentir os sinais de que a sua vida está a chegar ao fim.
É o confronto piscológico entre esses dois homens, Jesse James e Robert Ford, que dinamiza o filme. O bando de Jesse vive com um medo mortal do seu líder, que parece sempre estar dentro de todos os segredos, mas Robert tenta conquistar a sua amizade e confiança, esquecendo-se que a natureza solitária e imprevisível de Jesse pode tanto elogiá-lo como escarnecer dele.
É o próprio Jesse que lhe pergunta, Do you want to be like me? Or do you want to be me? ao que o Ford não tem resposta. É importante notar que as grandes proezas de Jesse não são aqui retratadas, e toda a sua grandeza é despida, ficando apenas o homem. He’s just a human being, diz bem Ford, a um dado momento.
Quando os dois homens se distanciam e Robert começa a ganhar um cada vez maior rancor e ressentimento contra Jesse, começa a planear a sua traição. Jesse está cada vez mais paranóico e instável, indo em perseguição dos seus homens. Mas ele próprio admite que não é capaz de lidar com o Robert, o que mais espelha abertamente o seu rancor. No momento crítico, em que Robert e o seu irmão, Charley, encontram-se na casa de Jesse, prontos para cometer a traição, Jesse James sabe que está prestes a ser assassinado e deixa-se ser morto. Talvez demasiado cansado, demasiado alienado pelo homem que se tornou.
As cenas finais retratam a crescente vilanização de Robert Ford pelo acto que cometeu. A lenda de Jesse James esmaga-o e destrói todas as suas ilusões de ser visto como herói ou salvador. O povo acusa-o e marginaliza-o, cantando canções sobre a sua cobardia por ter morto Jesse nas costas, perante a mulher e os filhos. Ele pode ter começado como uma figura patética, a implorar a Frank James para fazer parte do bando, mas à medida que o tempo progride, ele amadurece e sente verdadeiro arrependimento.
No entanto, isso não salva o seu nome ou muda a sua reputação de assassino cobarde e vil. Ele paga um preço demasiado caro, sem que homem algum lamente a sua morte ou o enalteça na posteridade.
A câmara, fotografia e a subtil banda-sonora são exímias e há muito tempo que não via um filme tão bonito e poético na forma como capta cada cena. É propositadamente lento (talvez lento demais no início) e atento à linguagem corporal e facial das personagens, fazendo com que cada momento ganhe uma maior relevância. Em sintonia com a evolução dos acontecimentos, um narrador conta alguns dos factos que ocorreram naquele tempo. E quando o filme assume essa narração em voz-off, a câmara intencionalmente desfoca as imagens, conferindo-lhes uma aura irreal e distante no tempo, como se todos aqueles eventos fossem produto da imaginação e mito.
Sobre os actores, muito já foi dito em outros locais e confirma-se a regra. Brad Pitt e Casey Affleck são excepcionais e suportados por um elenco secundário de actores inteiramente credíveis. Uma pena que a distribuição do filme não lhe tenha permitido atingir as grandes salas, mas com as nomeações e prémios que tem vindo a receber, tem conquistado culto.
The Assassination of Jesse James by the Coward Robert Ford é um western, mas apenas na aparência. É antes de mais, um drama trágico interior sobre os últimos dias de um grande homem e a vida daquele que o matou.
O retrato de Oscar Wilde
Publicado pela primeira vez a 16 de Outubro de 2005. O presente texto insere-se num conjunto de posts sobre personalidades literárias de grande relevo.
Há cento e cinquenta e um anos nasceu em Dublin, o segundo filho de Sir William Wilde e Lady Jane, Oscar Fingal O’Flahertie Wills Wilde. O seu pai notabilizara-se como um cirurgião, distinguido como cavaleiro pelos seus serviços prestados em Medecina, ao passo que sua mãe, uma destacada poetisa e nacionalista irlandesa, convivia regularmente com as grandes figuras literárias do seu tempo, permitindo a Wilde crescer num ambiente marcado pelas Artes e Letras.

Recebeu a sua educação em estudos clássicos numa dos melhores colégios irlandeses, Trinity College, e foi durante esse tempo que surgiu o seu primeiro interesse pelo Esteticismo. Terminados os seus estudos na Irlanda com louvor, recebeu uma bolsa que lhe permitiu continuar a sua formação literária em Magdalene College, Oxford. Seria este o tempo decisivo que acabaria por moldar a sua personalidade e ideais presentes no seu legado literário.
Foi em Oxford que Oscar Wilde teve o primeiro contacto com a arte e filosofia do Esteticismo. O movimento surgira numa fase tardia do Romantismo e se pretendia como reacção contra o conservadorismo da sociedade vitoriana, apologista dos valores clássicos. Wilde entra no mundo da Arte pela Arte por influência da Irmandade Pré-rafaelita de William Morris e Dante Gabriel Rossetti, um movimento de reforma artística que se insurgira contra a adopção dos ideais classicistas. Mas foram também os ensinamentos de John Ruskin e Walter Pater, dois dos filósofos e críticos ingleses mais influentes desse tempo, que motivaram Wilde a enveredar pelo Decadentismo e Dandismo.
Em 1878, Wilde estreou-se triunfante no campo da poesia, ao vencer o prémio anual de poesia Newdigate Prize for Poetry, com o seu poema Ravenna. Pouco tempo depois, iniciou uma série de viagens pelos Estados Unidos e França, onde a sua excentricidade, inteligência e eloquência cedo o tornaram uma celebridade. Para os estetas como ele, estava em causa a independência da arte; os artistas deveriam preocupar-se apenas com o culto da Beleza, entregues à sua adoração e rejeitando qualquer moral. Tornaram-se inevitavelmente alvo de sátira e chacota pela sua excentricidade e oposição ao racionalismo. E no entanto, Wilde tornara-se a figura inglesa mais célebre e proeminente em finais do séc. XIX, o representante por excelência do novo grupo literário.
Após o seu casamento com Constance Lloyd em 1884, dedicou-se a várias actividades como jornalismo e edição literária. Nos anos que se seguiram, inicia a escrita de algumas das suas obras mais notáveis como os contos para crianças, The Happy Prince and Other Stories (O Príncipe Feliz e Outras Histórias), buscando muita da sua inspiração a literatura oral e tradicional.
Em 1890, Wilde publicou o seu primeiro e único romance – The Picture of Dorian Gray (O Retrato de Dorian Gray). A história de um homem agraciado com beleza e encanto, e em que gradualmente assistimos à sua inocência inicial transformar-se em algo grotesco e diabólico, graças a Lord Henry que o induz no caminho da Arte pela Arte, causou um enorme escândalo em ambos os lados do Atlântico, e muitos definiriam o romance como um reflexo da própria relação de Wilde com Lord Alfred Douglas.
Por esta altura, já não era nenhum segredo que mantinha relações homossexuais com vários homens, em particular com o filho do Marquês de Queensberry, Lord Alfred Douglas. Seria esta relação que mais tarde iria ditar a desgraça do autor. Mas ainda antes de se dar a sua queda e humilhação na sociedade vitoriana, produziu algumas das suas melhores peças teatrais.
Em 1893, Wilde escreveu a tragédia Salomé. Devido aos seus temas bíblicos, a peça foi proibida de subir ao palco durantes muitos anos, na Inglaterra. No entanto, acabou por ser publicada em inglês (inicialmente escrita em francês) no ano de 1894, com ilustrações de Audrey Beardsley, expondo a curiosa premissa de que Salomé se teria apaixonado por João Baptista, tendo o amor não-correspondido a levado à loucura.
Destacou-se também por várias comédias de costume que lhe granjearam imenso sucesso, Lady Windermere’s Fan, A Woman of no Importance e The Ideal Husband, onde domina uma forte componente de farsa e sátira. Mas a sua obra-prima dramaturga é, sem contestação, The Importance of Being Earnest. Total nonsense caracteriza esta peça que pretende, no fundo, parodiar muitos aspectos da vida social vitoriana e reduzi-los ao absurdo. A peça aborda também o tema da vida dupla, o que fez com que muitos críticos encarassem esta sua paródia como uma forma de exorcizar os seus próprios fantasmas.
Em 1895, dão-se os primeiros acontecimentos que iriam conduzir ao fim abrupto de toda a glória e fama de Oscar Wilde. O marquês de Queensberry, indignado pela relação do seu filho com Wilde, lança-lhe acusações públicas de sodomia. Por iniciativa do escritor, é iniciado um processo criminal que iria terminar com o julgamento e prisão do próprio Oscar Wilde por homossexualidade. Foi sentenciado a dois anos de prisão, experiência traumatizante do qual nunca viria verdadeiramente a recuperar. Foi nesses anos de reclusão que escreveu uma carta em que inicialmente pretendia exprimir muitos dos seus sentimentos por Douglas, mas que acabou por se transformar numa tocante autobiografia – De Profundis.
A história literária define o julgamento de Wilde como o evento que marca o fim do Esteticismo. Os últimos dez anos do séc. XIX tinham sido marcados pelo contributo de certos artistas e poetas, induzidos a uma glorificação da Arte que acabara por se perverter e culminar numa decadência humana tão bem expressa na obra de Oscar Wilde.
Libertado da prisão, impôs-se a um auto-exílio dos círculos sociais e refugiou-se na Europa, onde passaria os últimos anos da sua vida. Constance reconciliou-se com o marido antes da sua morte, mas ainda assim Wilde nunca mais voltou a ver os dois filhos, e acabou por falecer em Paris, no ano de 1900. Ainda seriam precisas muitas décadas para reconhecer o valor da sua obra literária, mas hoje permanece como figura de indisputável mérito no panteão da Literatura mundial.
Literary Encyclopedia
Biografia de Wilde na Wikipedia
Harold Pinter
Publicado pela primeira vez a 14 de Outubro de 2005, por ocasião da atribuição do Prémio Nobel da Literatura 2005 a Harold Pinter.

Para os que estão familiarizados com o mundo do teatro, o nome do britânico Harold Pinter não passa despercebido. A sua notoriedade e prestígio já tinham sido alcançados muito antes da atribuição do Prémio Nobel da Literatura 2005. Na verdade, já tinha sido distinguido com prémio tão variados e reputados como o European Prize for Literature, Pirandello Prize, Shakespeare Prize, Laurence Oliver Award e a lista continua.
Nascido em 1930, em Londres, Harold Pinter foi forçado aos nove de anos de idade à evacuação da cidade de Londres, durante a II Guerra Mundial, cidade a que só regressou três anos mais tarde, uma experiência que nunca mais esqueceria. Começou por publicar poesia na sua juventude, até se dar a sua entrada no mundo do teatro primeiramente como actor. Foi através da sua actividade de dramaturgo que consolidou muita da sua reputação literária, actividade essa que iniciou na sua primeira peça The Room, encenada pela primeira vez em 1957, por um grupo universitário, em Bristol.
Seguiram-se, em finais dos anos 50 e inícios de 60, as suas peças iniciais mais influentes, como The Birthday Party (1958), The Caretaker (1960) e The Homecoming (1964), que definiram um novo estilo dramático marcado pelo Teatro do Absurdo. Daí que surja como consequência o facto de Harold Pinter considerar Samuel Beckett, uma das figuras mais representantivas do Absurdo, como seu mentor.
Mas o teatro de Pinter acaba por descobrir o seu próprio terreno e demarca-se do Absurdo, criando uma nova forma dramática a que muitos apelidaram de comedy of menace (comédia de ameaça). Nas palavras da Academia Sueca, Pinter é um escritor que, nas suas peças, descobre o precípicio sob a conversa fútil do dia-a-dia e força a entrada nas salas fechadas da opressão.
Por baixo da aparente normalidade e da pretensão das personagens em pensarem que controlam as suas vidas, esconde-se uma tensão e amargura, um grito de raiva abafado, que acaba por instaurar nas peças um autêntico ambiente de irracionalidade e repressão, acentuado pelos diálogos e actos imprevisíveis das personagens.
Não foi apenas no teatro que se distinguiu, mas também pela sua dedicação ao cinema como guionista. Adaptou várias obras literárias para guiões memoráveis, destacando-se em especial aqueles em que colaborou com o realizador Joseph Losey, nos filmes The Servant e The Go-Between, tendo ainda realizado a adaptação cinematográfica da obra de John Fowles, The French Lieutenant’s Woman, em 1981.
A sua preocupação em expor temas como tirania, opressão e injustiça levou-o numa fase mais tardia a enveredar por um caminho cada vez mais marcado por uma voz de protesto político. Um acérrimo defensor dos direitos humanos, tem sido notícia de jornais, nos últimos anos, pelos seus violentos ataques à administração Bush e Blair e a condução das suas políticas externas. Em 2005, anunciou que colocara um término à sua carreira de dramaturgo, pretendendo dedicar-se por completo ao activismo político.
As suas obras foram todas traduzidas para português pela editora Relógio D’àgua e, ao longo dos anos, o grupo Artistas Unidos tem-se dedicado à revisitação e encenação das suas peças teatrais.
Harold Pinter inscreve o seu nome nas letras como uma das figuras mais emblemáticas do teatro contemporâneo pós-guerra, detentor de uma carreira consagrada que culmina com a atribuição do Prémio Nobel da Literatura 2005.
Para os interessados em aprofundar a vida e obra do autor:
Biografia e Bibliografia do autor disponibilizada pela Academia Sueca
Biografia na Wikipedia
Literary Encyclopedia
Edgar Allan Poe
Texto inicialmente publicado a 7 de Outubro de 2005
Edgar Allan Poe morreu há cento e cinquenta e seis anos em circunstâncias misteriosas. Tinha apenas quarenta anos, mas o seu legado literário seria uma influência profunda a vibrar pelas décadas fora.
Nascido a 19 de Janeiro de 1809, Poe perdeu ambos os pais muito cedo, sendo adoptado por uma família de comerciantes de Richmond, Virginia. Nunca fora uma criança e adolescente fácil de lidar e as suas relações com o pai adoptivo chegaram ao ponto de ruptura total, após o seu abandono de uma carreira militar.
Dando início a um novo período da sua vida em Baltimore, Maryland, Edgar Allan Poe começa a trabalhar no meio jornalístico como editor. É por volta desta altura que se casa com a sua prima Virginia, uma noiva de apenas 13 anos de idade. Muitas lendas rodeiam o seu casamento e o seu amor incondicional por Virginia, uma frágil criança-esposa que a morte prematura por tuberculose iria roubar a Poe, destroçando-lhe a vida.
Ele exprimiu a intensidade do seu amor e prestou-lhe o seu tributo no soberbo poema Annabel Lee, a história de dois amantes cujo amor foi invejado pelos próprios anjos.
And the stars never rise but I feel the bright eyes
Of the beautiful Annabel Lee;
And so, all the night-tide, I lie down by the side
Of my darling – my darling – my life and my bride,
In the sepulchre there by the sea,
In her tomb by the sounding sea.
Os Românticos encontram muitos elementos na vida do autor que engrandecem ainda mais o mito de escritor amaldiçoado. Na verdade, ele foi uma das figuras de vanguarda de um género que começava a despontar na literatura norte-americana – o Gótico – onde seriam características como o sobrenatural e o terror psicológico a marcar a diferença.
Mas antes de ser reconhecido como gigante literário, foi com o poema The Raven, publicado num jornal em 1845, que Poe começou a fazer sensação. O poema narra uma visita de um misterioso corvo a um homem destroçado pelo amor. Seria laureado pela posteridade como uma das mais perfeitas composições poéticas norte-americanas e estabeleceu a reputação e o prestígio de Poe como poeta, mas o seu contributo literário ainda não ficaria por aí.
Uma outra forma em que se esmerou, e que abriu o caminho para uma geração inteira de novos escritores, foi no conto, como palco das suas histórias policiais e de crime, onde o terror e o mistério jogam um elemento essencial para a construção da narrativa. Contos como The Murders in the Rue Morgue, The Mystery of Marie Roget ou The Purloined Letter ditaram o nascimento do género detective e mistério, influenciando escritores como Conan Doyle e a sua criação Sherlock Holmes.
São essas peças ficcionais e outros no campo do horror que ditaram a popularidade de Poe, e já são muitas as que se tornaram clássicos com um lugar firme estabelecido no imaginário popular e literário. As suas personagens são, muitas vezes, homens com uma existência atormentada e com o coração oprimido por dor e culpa. Temos nesta onda o já mítico The Fall of the House of Usher ou The Tell-Tale Heart.
Loucura, Morte e alucinação são temas frequentes na sua obra e a própria consciência humana não era alheia a um exame por parte do autor. A sua ficção era constantemente invadida por uma necessidade de reflexão sobre o lado sombrio da alma e a capacidade desta para lidar com o tormento até a um ponto de ruptura em que já não é possível regressar.





