Sete Livros Iluminados de William Blake

December 31, 2007 at 3:43 pm (Livros/BD/revistas)

Publicado inicialmente a 11 de Agosto de 2005

Actualmente, é indisputável que o génio de William Blake não tem paralelo. Laureado como visionário e profeta por muitos dos seus admiradores, o seu olhar poético não se deixou deslumbrar apenas por um lado místico e espiritual, mas também contemplou as vicissitudes do seu tempo com lucidez e, acima de tudo, com censura e reprovação.

Para melhor desvendar a obra e personalidade de William Blake, o leitor deve procurar compreender a própria época histórica em que o poeta e artista viveu, um delicado período de tempo marcado por várias convulsões políticas, sociais e económicas.

Blake nasceu em Londres, no ano de 1757, num tempo em que se lançavam as primeiras sementes da rebelião das colónias americanas contra o domínio britânico. A Independência Americana foi uma causa ardentemente defendida por Blake, manifestando a sua solidariedade em várias acções políticas. E o ano de 1789 iria ser decisivo na medida em que iria abalar os alicerces da Europa com a proclamação dos novos ideais democráticos da Revolução Francesa.

A Revolução Francesa aplaude os ideais da liberdade, igualdade e fraternidade, intensificando ainda mais o radicalismo político do autor e a sua reacção contra uma sociedade que começava a ser moldada pelo pensamento científico. O experimentalismo de Francis Bacon, o empirismo de John Locke e o racionalismo de Descartes abriram passagem para o Iluminismo e, assim, no séc. XVIII, assistimos a um crescente optimismo e fé nas capacidades dos novos métodos científicos.

A sociedade britânica não escapou às repercussões que estes acontecimentos tiveram no Continente e, além disso, foi em finais do séc. XVIII que a Revolução Industrial criou as suas primeiras raízes, com a introdução de máquinas a vapor que acabariam por criar uma profunda mudança social e económica na sociedade inglesa.

A escravatura ainda era uma realidade praticada e aceite entre os países colonizadores, e considerada uma questão controversa que levou à notoriedade cada vez mais crescente de sociedades abolicionistas. E a agravar ainda mais a total rejeição dos mais básicos direitos humanos, a mulher era desprovida de qualquer estatuto e considerada propriedade do seu marido, o qual este tinha o direito legal de a tratar como um escravo, sujeitando-a, caso necessário, a maus-tratos.

Para Blake, as circunstâncias do seu tempo auguravam pouco de bom para o futuro da sua nação. Numa Inglaterra cada vez mais virada para o desprezo pela parte espiritual do Homem e para o seu aprisionamento dentro de leis cada vez mais rígidas e uma moral cada vez mais sufocante e inibidora, o poeta irá criticar, através da sua poesia, o rumo pelo qual os seus compatriotas decidiram enveredar.

Face a tal cenário político e histórico, a editora Antígona acaba de publicar um conjunto de poemas do autor que incidem particularmente sobre esse conturbado tempo que medeia desde 1788 a 1795 – William Blake – Sete Livros Iluminados, que inclui «Todas as Religiões são Uma Só»; «Não Há Religião Natural»; «O Livro de Thel», «América: Uma Profecia»; «Europa: Uma Profecia»; «A Canção de Los» e «O Livro de Los», em texto bilingue e juntamente com 32 páginas de gravuras a cores. Com efeito, não teria feito sentido não incluir as gravuras, sendo na obra de William Blake a arte e poesia indissociáveis.

O poeta, pintor e gravador William Blake (1757-1827) encontrou no livro impresso iluminado um meio para materializar a sua imaginação visionária. O seu trabalho com a palavra e com a gravura reescreveu e refigurou os mitos da criação para interrogar a natureza das pulsões humanas. Do magma formado por corpo, razão, emoções e imaginação brotam os seres que assombram o leitor. O olho interior abre-se no traço que ilumina a superfície da página.

Face à criação de uma cosmovisão muito própria, tanto através de gravuras realizadas com técnicas inéditas à época, como através do texto, o conjunto de poemas que viria a ser conhecido pelo nome de Profecias ContinentaisAmérica: uma Profecia; Europa: Uma Profecia, A Canção de Los – expõe o radicalismo político do autor em que observamos um recurso a personagens e situações que se movem num plano mitológico, mas são antes um símbolo de determinadas realidades.

Na cosmologia de Blake, Albion é um dos Imortais ou Eternos, sendo um nome tradicionalmente utilizado para representar a Grã-bretanha e todos os seus habitantes. Uma entidade que se desdobra em quatro – The Fourfold Man, os Zoas: Urizen, Los, Luvah e Tharmus, sempre em harmonia quando no estado desperto. Urizen constitui a capacidade da razão do indivíduo. Los é a encarnação da imaginação, sabedoria e criatividade. Luvah o símbolo do amor, da emoção e paixão. Tharmus representa o instinto e poder.

Para o poeta e artista, a Inglaterra do seu tempo é uma Inglaterra doente e acorrentada. E para simbolizar essa ruína, nada melhor do que o mito do gigante Albion, que irá possibilitar a Blake exprimir e transfigurar a angústia do seu tempo.

«Todas as Religiões são Uma Só» e «Não há Religião Natural» apresentam muitas semelhanças entre si quanto a estilo, tema e género, onde ao leitor é anunciada uma divinização humana alcançada através da sublimação do corpo e dos sentidos. São estes que irão sevir de ligação entre espírito e matéria, possibilitando, assim, a transcendência ao Homem e a renúncia ao racionalismo puro e egocêntrico.

He who sees the Infinite in all things sees God. He who sees the Ratio only sees himself only.


A poesia de Blake desdobra-se em múltiplas interpretações e visões que se estendem pelos mais variados campos, numa denúncia ao seu tempo feito de erros e caminhos que ameaçavam deixar profundas cicatrizes na face da sociedade britânica. E, no entanto, nunca deixara de proclamar a construção de uma nova Jerusalém, onde impera a plenitude e comunhão espiritual. Um novo mundo em que o indivíduo veria o seu potencial realizado ao máximo, sem se ver sujeito à tirania de uma moral ou política opressora.

A visão singular de William Blake, ainda que à primeira vista possa parecer crítpica e obscura devido à sua representação em forma de mito e alegoria, é extraodinariamente avançada para o seu tempo; ninguém melhor que este poeta, defensor da liberdade física e espiritual, para servir como a voz profética que viria a abalar e questionar os alicerces conservadores em que se apoiava a sociedade do seu tempo.

Para os interessados em conhecer melhor a obra e o tempo de William Blake, recomendo os Arquivos de Blake

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