Memórias de uma Gueixa de Arthur Golden

December 30, 2007 at 10:27 pm (Livros/BD/revistas)

Nos próximos tempos, vou transferir para este blogue alguns dos textos mais significativos que escrevi para o site de literatura dos Filhos de Athena no ano de 2005. É uma forma de centralizar os meus textos e manter alguma ilusão de controlo sobre o material que escrevo. Os textos dos FdA são particularmente importantes para mim, na medida em que passei a exigir mais da minha própria escrita.

Começando por ordem cronológica de escrita, o primeiro texto a ser republicado é sobre Memórias de uma Gueixa de Athur Golden, publicado online pela primeira vez a 2 de Julho de 2005.

Desd sempre houve um fascínio imemorial pelo Extremo Oriente e por toda uma cultura florescente exótica, totalmente alienígena ao modo de pensar ocidental.

O País do Sol Nascente cedo viu nascer uma civilização na aurora dos tempos que ainda hoje é motivo de fascínio para posteriores gerações, pelo encantamento que proporcionou a sua arte e literatura. No início do séc. XII, Lady Shikibu Murasaki deslumbrou com Genji Monogatari – A História de Genji, pela sua subtileza psicológica e complexidade de enredo, oferecendo ao mundo o primeiro romance, como é entendido na sua acepção moderna.

Mas a literatura e arte japonesa não se ficou por aqui, revelando sempre ao longo dos seus vários períodos históricos, uma apurada sensibilidade poética, visível nas formas tradicionais Waka, Haiku ou Shi. É como se o mundo e todos os seus elementos naturais pudessem ser exprimidos através de breves vislumbres que, estranhamente, contém uma maior profundidade e uma visão mais além. É uma comunhão estabelecida entre o mundo empírico e o espírito criativo que é tocado pela sua condição humana.

Existem muitos outros aspectos para além da literatura que fascinam os Ocidentais, aspectos que vão desde a história feudal marcial, dominada pelo código samurai e por Shoguns, até aspectos relacionados com as relações sociais e os costumes imemoriais que marcam ainda presença na cultura japonesa, preservando a sua tradição e aliando-a à modernidade.

Mas se há algo que sempre perturbou as mentes ocidentais seduzidas pelo Japão, e que as deixou mergulhadas num misto de curiosidade e perplexidade, foi a figura da Gueixa.

Não deixa de ser um aspecto curioso sobre as Gueixas o facto de quase toda a literatura produzida sobre estas mulheres ser da autoria de ocidentais, a maioria britânicos ou norte-americanos que desenvolveram extensas pesquisas sobre a educação de uma Gueixa e o seu estatuto na sociedade japonesa. Mais recentemente, têm-se notabilizado os trabalhos de Liza Dalby, antropóloga americana, especialista em cultura japonesa, e autora de vários romances, entre eles Geisha, baseado na sua experiência como Gueixa noviça no Japão.

Uma dessas obras, Memórias de uma Gueixa – Memoirs of a Geisha de Arthur Golden, publicada pela primeira vez em 1997 e traduzido pela Editorial Presença, revelou-se um estrondoso êxito. Nesta obra, o romancista norte-americano documenta um relato ficcional na 1º pessoa de Nitta Sayuri a um historiador, encarregado de escrever as suas memórias.

O relato principia por descrever os anos de infância de Sayuri, filha de um pescador pobre que, desprovido de recursos, aceita vender a sua filha para ser criada como Gueixa. Nos sécs. XVIII e XIX, época em que a arte da Gueixa atingiu o pico da popularidade, era prática comum a compra de crianças a famílias pobres para serem educadas nas casas de Gueixas. Sayuri foi apenas mais uma de entre muitas, mas a sua beleza e encanto prometiam desabrochar numa das mais brilhantes e desejadas cortesãs japonesas do séc. XX.

Mas antes que se pudesse sublimar na arte da Gueixa, a criança foi forçada a passar por uma série de circunstâncias cruéis e penosas, tudo parte da sua educação. Numa fase inicial, é obrigada a desempenhar tarefas de criada até subir de estatuto e alcançar a posição de assistente da Gueixa sénior da casa. São muitos os anos que implicam este treino e passa por uma educação em toda uma variedade de artes, desde perícia em instrumentos musicais como o Shamisen, o canto, a dança tradicional, arranjos florais, saber compor um Kimono, até atingir uma idade mais madura e iniciar-se nos segredos da arte de conversação e sedução.

É importante que o leitor ocidental compreenda que Gueixas não são prostitutas. São elas próprias que tomam a decisão livre de rejeitar ou acolher um homem, decidindo sempre as fronteiras de compromisso e envolvimento, nunca sendo forçadas a nada. A arte das Gueixas consiste, essencialmente, na arte de entreter o homem.

No entanto, isso não impedia a concretização de certas práticas, como o Mizuage, um dos acontecimentos mais importantes na vida de uma Gueixa, e que consistia na venda da sua virgindade. A primeira relação física de uma gueixa era leiloada a preços exorbitantes, e podia cimentar muito da sua reputação e prestígio. Sayuri não foi nenhuma excepção a esta regra e também foi submetida a esta cerimónia.

São estes acontecimentos e muitos outros a povoarem o relato que o tornam tão fascinante e abrem-nos uma janela secreta para o mundo das cortesãs, cujo objectivo é conquistarem a sua liberdade e encontrarem dannas – homens abastados que se comprometam a sustentarem os seus modos de vida exuberantes.

Sayuri rapidamente amadurece e prepara-se para fazer entrada no mundo social de Kyoto e brilhar como gueixa, tendo sido a sua educação financiada por um secreto mecenas, situação que ela própria desconhece. Mas já após o seu triunfo, todo esse mundo isolado sofre um fim abrupto com o advento da II Guerra mundial que se abate sobre o Japão com uma mão destruidora. O mundo da felicidade efémera e dos desejos secretos é substituído por um mundo de privação e hostilidade.

Mesmo com o fim da guerra e uma tentativa de regresso à normalidade, as casas de Gueixas entram no seu período do ocaso, não mais registando-se no seu interior o mesmo ambiente de espontaneidade e entretenimento, assombrados pelo fantasma do passado e por glórias irrecuperáveis. Sayuri, ainda assim, foi mais feliz que a maioria. E acabou por ser recompensada por toda uma vida de atribulações que lhe proporcionaram os melhores momentos da sua vida, assim como os mais amargos. A única nota negativa do livro talvez seja o final demasiado inverosímil no meio de um relato tão verosímil.

Memórias de uma Gueixa são memórias onde soam o canto do cisne pelo período áureo das Gueixas, quando eram objecto da mais elevada admiração num universo dominado por boémia e prazer, mas ainda que actualmente tenham diminuído em número, e se tenham tornado numa rara figura de porcelana inacessível à maioria, a figura da Gueixa ainda hoje assombra o imaginário da mente ocidental como um ser misterioso capaz de mostrar ao homem caminhos obscuros para a sua felicidade.

A obra literária foi adaptado para o cinema e estreia no final do ano 2005, pelas mãos do realizador Rob Marshall e conta no elenco com estrelas como Ziyi Zhang e Michelle Yeoh.

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