Eastern Promises

December 17, 2007 at 9:15 pm (Cinema e TV)

Foi com alguma expectativa que fui assistir ao novo filme de David Cronenberg, um dos candidatos à lista de melhores filmes de 2007, o que não é difícil tendo em conta a colheita cinematográfica fraca deste ano. É a violência masculina que volta a dominar a nova obra de Cronenberg assim como o seu antecessor, A History of Violence.

O início é algo arrepiante e trágico. Uma rapariga adolescente morre a dar à luz uma bebé rapariga e a parteira tenta descobrir as origens e a história desta rapariga sem nome. A origem é russa, o que irá acabar por envolver a parteira numa história de violência, vingança, crueldade e retribuição relacionada com a mafia russa.

Eastern Promises vem na sequência do grande sucesso crítico que foi A History of Violence, a adaptação da BD de John Wagner. Se o filme toma algumas liberdades com a BD, talvez melhorando-a até, o resultado é um filme muito forte sobre a identidade de um homem que é forçado a enfrentar os actos negros do seu passado.

Gostei muito de Uma História de Violência, em especial, o excelente desempenho de Maria Bello e Viggo Mortensen, numa interpretação muito convincente de um casal que tenta lidar com o facto de as suas vidas serem subitamente ameaçadas por uma mentira perigosa.

As expectativas podem não ter sido totalmente cumpridas, mas Eastern Promises (Promessas Perigosas) não deixa de ser também um bom filme, embora um argumento mais forte tivesse provavelmente beneficiado ainda mais a história. Não chega a ser inteiramente satisfatório o desenvolvimento final dado à relação de Viggo Mortensen com o líder da Mafia, Semyon, faltando uma confrontação final verdadeiramente decisiva.

Mas Viggo Mortensen é a estrela que brilha. Um dos poucos actores do elenco do Senhor dos Anéis a ser capaz de se dissociar da trilogia e a criar uma identidade diferente em cada filme que contracena, ele enverga com total credibilidade o rosto de um homem duro e implacável. A cena final de luta na sauna turca seria suficiente para acabar com quaisquer dúvidas acerca das suas qualidades como actor, mas apesar do seu lado frio e cruel, não é de todo desprovido de coração como o vai demonstrando a sua relação com Anna.

Uma personagem ambígua, o espectador começa a desconfiar naturalmente que há mais do que os olhos vêem em Nikolai. Quando revela as tatuagens no seu corpo, elas contam a história dos seus crimes. Não deixa de ser fascinante toda a cultura russa criminal em torno das tatuagens e de como elas revelam a vida e o estatuto de cada pessoa pelos desenhos no corpo. Na verdade, o objectivo de Nikolai é tornar-se merecedor das tão desejadas estrelas que o proclamariam como Vor V Zakone, e aí sim, passaria a deter um novo estatuto de líder dentro da elite de criminosos.

Através de Nikolai, temos acesso ao mundo do crime organizado e ao perigo acima de tudo representado na figura do patriarca, Semyon, numa interpretação sólida de Armin Mueller-Stahl. O final já o adivinhamos e o vemos a chegar de longe, mas o filme não pretende verdadeiramente chocar o espectador com nenhuma surpresa, antes reflectir sobre os códigos de conduta e valores distorcidos do mundo da Mafia russa.

Naomi Watts terá um papel mais passivo neste filme, mas é a ela que cabe expor o lado mais vulnerável de Nikolai. De resto, destaque para um forte elenco secundário, todos eles a contribuírem para um filme credível e consistente sobre as falsas aparências que ocultam, muitas vezes, um poço negro de corrupção onde descobrimos um submundo em que a lei comum não existe.

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