Sete Livros Iluminados de William Blake

December 31, 2007 at 3:43 pm (Livros/BD/revistas)

Publicado inicialmente a 11 de Agosto de 2005

Actualmente, é indisputável que o génio de William Blake não tem paralelo. Laureado como visionário e profeta por muitos dos seus admiradores, o seu olhar poético não se deixou deslumbrar apenas por um lado místico e espiritual, mas também contemplou as vicissitudes do seu tempo com lucidez e, acima de tudo, com censura e reprovação.

Para melhor desvendar a obra e personalidade de William Blake, o leitor deve procurar compreender a própria época histórica em que o poeta e artista viveu, um delicado período de tempo marcado por várias convulsões políticas, sociais e económicas.

Blake nasceu em Londres, no ano de 1757, num tempo em que se lançavam as primeiras sementes da rebelião das colónias americanas contra o domínio britânico. A Independência Americana foi uma causa ardentemente defendida por Blake, manifestando a sua solidariedade em várias acções políticas. E o ano de 1789 iria ser decisivo na medida em que iria abalar os alicerces da Europa com a proclamação dos novos ideais democráticos da Revolução Francesa.

A Revolução Francesa aplaude os ideais da liberdade, igualdade e fraternidade, intensificando ainda mais o radicalismo político do autor e a sua reacção contra uma sociedade que começava a ser moldada pelo pensamento científico. O experimentalismo de Francis Bacon, o empirismo de John Locke e o racionalismo de Descartes abriram passagem para o Iluminismo e, assim, no séc. XVIII, assistimos a um crescente optimismo e fé nas capacidades dos novos métodos científicos.

A sociedade britânica não escapou às repercussões que estes acontecimentos tiveram no Continente e, além disso, foi em finais do séc. XVIII que a Revolução Industrial criou as suas primeiras raízes, com a introdução de máquinas a vapor que acabariam por criar uma profunda mudança social e económica na sociedade inglesa.

A escravatura ainda era uma realidade praticada e aceite entre os países colonizadores, e considerada uma questão controversa que levou à notoriedade cada vez mais crescente de sociedades abolicionistas. E a agravar ainda mais a total rejeição dos mais básicos direitos humanos, a mulher era desprovida de qualquer estatuto e considerada propriedade do seu marido, o qual este tinha o direito legal de a tratar como um escravo, sujeitando-a, caso necessário, a maus-tratos.

Para Blake, as circunstâncias do seu tempo auguravam pouco de bom para o futuro da sua nação. Numa Inglaterra cada vez mais virada para o desprezo pela parte espiritual do Homem e para o seu aprisionamento dentro de leis cada vez mais rígidas e uma moral cada vez mais sufocante e inibidora, o poeta irá criticar, através da sua poesia, o rumo pelo qual os seus compatriotas decidiram enveredar.

Face a tal cenário político e histórico, a editora Antígona acaba de publicar um conjunto de poemas do autor que incidem particularmente sobre esse conturbado tempo que medeia desde 1788 a 1795 – William Blake – Sete Livros Iluminados, que inclui «Todas as Religiões são Uma Só»; «Não Há Religião Natural»; «O Livro de Thel», «América: Uma Profecia»; «Europa: Uma Profecia»; «A Canção de Los» e «O Livro de Los», em texto bilingue e juntamente com 32 páginas de gravuras a cores. Com efeito, não teria feito sentido não incluir as gravuras, sendo na obra de William Blake a arte e poesia indissociáveis.

O poeta, pintor e gravador William Blake (1757-1827) encontrou no livro impresso iluminado um meio para materializar a sua imaginação visionária. O seu trabalho com a palavra e com a gravura reescreveu e refigurou os mitos da criação para interrogar a natureza das pulsões humanas. Do magma formado por corpo, razão, emoções e imaginação brotam os seres que assombram o leitor. O olho interior abre-se no traço que ilumina a superfície da página.

Face à criação de uma cosmovisão muito própria, tanto através de gravuras realizadas com técnicas inéditas à época, como através do texto, o conjunto de poemas que viria a ser conhecido pelo nome de Profecias ContinentaisAmérica: uma Profecia; Europa: Uma Profecia, A Canção de Los – expõe o radicalismo político do autor em que observamos um recurso a personagens e situações que se movem num plano mitológico, mas são antes um símbolo de determinadas realidades.

Na cosmologia de Blake, Albion é um dos Imortais ou Eternos, sendo um nome tradicionalmente utilizado para representar a Grã-bretanha e todos os seus habitantes. Uma entidade que se desdobra em quatro – The Fourfold Man, os Zoas: Urizen, Los, Luvah e Tharmus, sempre em harmonia quando no estado desperto. Urizen constitui a capacidade da razão do indivíduo. Los é a encarnação da imaginação, sabedoria e criatividade. Luvah o símbolo do amor, da emoção e paixão. Tharmus representa o instinto e poder.

Para o poeta e artista, a Inglaterra do seu tempo é uma Inglaterra doente e acorrentada. E para simbolizar essa ruína, nada melhor do que o mito do gigante Albion, que irá possibilitar a Blake exprimir e transfigurar a angústia do seu tempo.

«Todas as Religiões são Uma Só» e «Não há Religião Natural» apresentam muitas semelhanças entre si quanto a estilo, tema e género, onde ao leitor é anunciada uma divinização humana alcançada através da sublimação do corpo e dos sentidos. São estes que irão sevir de ligação entre espírito e matéria, possibilitando, assim, a transcendência ao Homem e a renúncia ao racionalismo puro e egocêntrico.

He who sees the Infinite in all things sees God. He who sees the Ratio only sees himself only.


A poesia de Blake desdobra-se em múltiplas interpretações e visões que se estendem pelos mais variados campos, numa denúncia ao seu tempo feito de erros e caminhos que ameaçavam deixar profundas cicatrizes na face da sociedade britânica. E, no entanto, nunca deixara de proclamar a construção de uma nova Jerusalém, onde impera a plenitude e comunhão espiritual. Um novo mundo em que o indivíduo veria o seu potencial realizado ao máximo, sem se ver sujeito à tirania de uma moral ou política opressora.

A visão singular de William Blake, ainda que à primeira vista possa parecer crítpica e obscura devido à sua representação em forma de mito e alegoria, é extraodinariamente avançada para o seu tempo; ninguém melhor que este poeta, defensor da liberdade física e espiritual, para servir como a voz profética que viria a abalar e questionar os alicerces conservadores em que se apoiava a sociedade do seu tempo.

Para os interessados em conhecer melhor a obra e o tempo de William Blake, recomendo os Arquivos de Blake

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Memórias de uma Gueixa de Arthur Golden

December 30, 2007 at 10:27 pm (Livros/BD/revistas)

Nos próximos tempos, vou transferir para este blogue alguns dos textos mais significativos que escrevi para o site de literatura dos Filhos de Athena no ano de 2005. É uma forma de centralizar os meus textos e manter alguma ilusão de controlo sobre o material que escrevo. Os textos dos FdA são particularmente importantes para mim, na medida em que passei a exigir mais da minha própria escrita.

Começando por ordem cronológica de escrita, o primeiro texto a ser republicado é sobre Memórias de uma Gueixa de Athur Golden, publicado online pela primeira vez a 2 de Julho de 2005.

Desd sempre houve um fascínio imemorial pelo Extremo Oriente e por toda uma cultura florescente exótica, totalmente alienígena ao modo de pensar ocidental.

O País do Sol Nascente cedo viu nascer uma civilização na aurora dos tempos que ainda hoje é motivo de fascínio para posteriores gerações, pelo encantamento que proporcionou a sua arte e literatura. No início do séc. XII, Lady Shikibu Murasaki deslumbrou com Genji Monogatari – A História de Genji, pela sua subtileza psicológica e complexidade de enredo, oferecendo ao mundo o primeiro romance, como é entendido na sua acepção moderna.

Mas a literatura e arte japonesa não se ficou por aqui, revelando sempre ao longo dos seus vários períodos históricos, uma apurada sensibilidade poética, visível nas formas tradicionais Waka, Haiku ou Shi. É como se o mundo e todos os seus elementos naturais pudessem ser exprimidos através de breves vislumbres que, estranhamente, contém uma maior profundidade e uma visão mais além. É uma comunhão estabelecida entre o mundo empírico e o espírito criativo que é tocado pela sua condição humana.

Existem muitos outros aspectos para além da literatura que fascinam os Ocidentais, aspectos que vão desde a história feudal marcial, dominada pelo código samurai e por Shoguns, até aspectos relacionados com as relações sociais e os costumes imemoriais que marcam ainda presença na cultura japonesa, preservando a sua tradição e aliando-a à modernidade.

Mas se há algo que sempre perturbou as mentes ocidentais seduzidas pelo Japão, e que as deixou mergulhadas num misto de curiosidade e perplexidade, foi a figura da Gueixa.

Não deixa de ser um aspecto curioso sobre as Gueixas o facto de quase toda a literatura produzida sobre estas mulheres ser da autoria de ocidentais, a maioria britânicos ou norte-americanos que desenvolveram extensas pesquisas sobre a educação de uma Gueixa e o seu estatuto na sociedade japonesa. Mais recentemente, têm-se notabilizado os trabalhos de Liza Dalby, antropóloga americana, especialista em cultura japonesa, e autora de vários romances, entre eles Geisha, baseado na sua experiência como Gueixa noviça no Japão.

Uma dessas obras, Memórias de uma Gueixa – Memoirs of a Geisha de Arthur Golden, publicada pela primeira vez em 1997 e traduzido pela Editorial Presença, revelou-se um estrondoso êxito. Nesta obra, o romancista norte-americano documenta um relato ficcional na 1º pessoa de Nitta Sayuri a um historiador, encarregado de escrever as suas memórias.

O relato principia por descrever os anos de infância de Sayuri, filha de um pescador pobre que, desprovido de recursos, aceita vender a sua filha para ser criada como Gueixa. Nos sécs. XVIII e XIX, época em que a arte da Gueixa atingiu o pico da popularidade, era prática comum a compra de crianças a famílias pobres para serem educadas nas casas de Gueixas. Sayuri foi apenas mais uma de entre muitas, mas a sua beleza e encanto prometiam desabrochar numa das mais brilhantes e desejadas cortesãs japonesas do séc. XX.

Mas antes que se pudesse sublimar na arte da Gueixa, a criança foi forçada a passar por uma série de circunstâncias cruéis e penosas, tudo parte da sua educação. Numa fase inicial, é obrigada a desempenhar tarefas de criada até subir de estatuto e alcançar a posição de assistente da Gueixa sénior da casa. São muitos os anos que implicam este treino e passa por uma educação em toda uma variedade de artes, desde perícia em instrumentos musicais como o Shamisen, o canto, a dança tradicional, arranjos florais, saber compor um Kimono, até atingir uma idade mais madura e iniciar-se nos segredos da arte de conversação e sedução.

É importante que o leitor ocidental compreenda que Gueixas não são prostitutas. São elas próprias que tomam a decisão livre de rejeitar ou acolher um homem, decidindo sempre as fronteiras de compromisso e envolvimento, nunca sendo forçadas a nada. A arte das Gueixas consiste, essencialmente, na arte de entreter o homem.

No entanto, isso não impedia a concretização de certas práticas, como o Mizuage, um dos acontecimentos mais importantes na vida de uma Gueixa, e que consistia na venda da sua virgindade. A primeira relação física de uma gueixa era leiloada a preços exorbitantes, e podia cimentar muito da sua reputação e prestígio. Sayuri não foi nenhuma excepção a esta regra e também foi submetida a esta cerimónia.

São estes acontecimentos e muitos outros a povoarem o relato que o tornam tão fascinante e abrem-nos uma janela secreta para o mundo das cortesãs, cujo objectivo é conquistarem a sua liberdade e encontrarem dannas – homens abastados que se comprometam a sustentarem os seus modos de vida exuberantes.

Sayuri rapidamente amadurece e prepara-se para fazer entrada no mundo social de Kyoto e brilhar como gueixa, tendo sido a sua educação financiada por um secreto mecenas, situação que ela própria desconhece. Mas já após o seu triunfo, todo esse mundo isolado sofre um fim abrupto com o advento da II Guerra mundial que se abate sobre o Japão com uma mão destruidora. O mundo da felicidade efémera e dos desejos secretos é substituído por um mundo de privação e hostilidade.

Mesmo com o fim da guerra e uma tentativa de regresso à normalidade, as casas de Gueixas entram no seu período do ocaso, não mais registando-se no seu interior o mesmo ambiente de espontaneidade e entretenimento, assombrados pelo fantasma do passado e por glórias irrecuperáveis. Sayuri, ainda assim, foi mais feliz que a maioria. E acabou por ser recompensada por toda uma vida de atribulações que lhe proporcionaram os melhores momentos da sua vida, assim como os mais amargos. A única nota negativa do livro talvez seja o final demasiado inverosímil no meio de um relato tão verosímil.

Memórias de uma Gueixa são memórias onde soam o canto do cisne pelo período áureo das Gueixas, quando eram objecto da mais elevada admiração num universo dominado por boémia e prazer, mas ainda que actualmente tenham diminuído em número, e se tenham tornado numa rara figura de porcelana inacessível à maioria, a figura da Gueixa ainda hoje assombra o imaginário da mente ocidental como um ser misterioso capaz de mostrar ao homem caminhos obscuros para a sua felicidade.

A obra literária foi adaptado para o cinema e estreia no final do ano 2005, pelas mãos do realizador Rob Marshall e conta no elenco com estrelas como Ziyi Zhang e Michelle Yeoh.

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Douglas Sirk, melodrama no seu melhor

December 29, 2007 at 10:26 pm (Cinema e TV)

Imitation of Life, Douglas Sirk, 1959

Lora

It’s been five months without a job…

Steve

Then I guess you’ll have to marry me. It’s the least you can do for me for Christmas. I love you.

Lora

But, darling, you’re… you’re just getting started and… It would be foolish.

Steve

At least we would be foolish together.

Lora

But marriage is such a big step.

Steve

I want us to be together.

Lora

Well, we are, most of the time.

Steve

Most of the time you’re out fighting to get somewhere. Breaking your heart, trying to do for yourself and Susie… what I want to do for you, what I finally can do for you. I want to give you a home, take care of you, love you.

Lora

Oh Steve, you don’t know me at all. I still love the theater.

Steve

You tried it and it’s only hurt you. Realize that and you’ll get over it.

Lora

I want to be honest with you, darling. I want more. Everything. Maybe too much.

Steve

Don’t think I want any less. So let’s settle something right now. Do you love me?

Lora

I think I do, but…

Steve

Come here. I want to kiss you so badly.

Lora

But if you did, the way things are right now, I might say something I wouldn’t really mean.

Steve

That’s why I want to kiss you.

Imitation of Life de Douglas Sirk no Nimas

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Onde se sente a falta de um 2007 excepcional…

December 28, 2007 at 1:21 pm (Strange Land)

Terá havido algo verdadeiramente excepcional neste ano prestes a terminar que se distanciasse de um comodismo geral que se parece ter instalado, de forma tão insidiosa, nas artes e letras? Porque eu não me consigo recordar de alguma estrela que tivesse iluminado o resto do ano, algum sol radiante que não se tivesse logo extinguido, alguma aparição que não se tivesse desvanecido com vergonha da sua falsidade. Não obstante, alguns fogos fátuos, não mais do que chamas fugitivas, libertaram-se e foram vislumbrados.

É triste que chegue à conclusão de que as coisas verdadeiramente excepcionais descobertas, por mim, neste ano são já fabrico de anos anteriores, proventura mais produtivos e reveladores.

Até quando o terramoto que é preciso para mudar o panorama e elevar o grau de exigência a nível de artes, comunicação social e entretenimento em Portugal?

(E contudo, ainda houve alguns pirilampos a saltitarem no firmamento, os quais serão aqui oportunamente mencionados).

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Eastern Promises

December 17, 2007 at 9:15 pm (Cinema e TV)

Foi com alguma expectativa que fui assistir ao novo filme de David Cronenberg, um dos candidatos à lista de melhores filmes de 2007, o que não é difícil tendo em conta a colheita cinematográfica fraca deste ano. É a violência masculina que volta a dominar a nova obra de Cronenberg assim como o seu antecessor, A History of Violence.

O início é algo arrepiante e trágico. Uma rapariga adolescente morre a dar à luz uma bebé rapariga e a parteira tenta descobrir as origens e a história desta rapariga sem nome. A origem é russa, o que irá acabar por envolver a parteira numa história de violência, vingança, crueldade e retribuição relacionada com a mafia russa.

Eastern Promises vem na sequência do grande sucesso crítico que foi A History of Violence, a adaptação da BD de John Wagner. Se o filme toma algumas liberdades com a BD, talvez melhorando-a até, o resultado é um filme muito forte sobre a identidade de um homem que é forçado a enfrentar os actos negros do seu passado.

Gostei muito de Uma História de Violência, em especial, o excelente desempenho de Maria Bello e Viggo Mortensen, numa interpretação muito convincente de um casal que tenta lidar com o facto de as suas vidas serem subitamente ameaçadas por uma mentira perigosa.

As expectativas podem não ter sido totalmente cumpridas, mas Eastern Promises (Promessas Perigosas) não deixa de ser também um bom filme, embora um argumento mais forte tivesse provavelmente beneficiado ainda mais a história. Não chega a ser inteiramente satisfatório o desenvolvimento final dado à relação de Viggo Mortensen com o líder da Mafia, Semyon, faltando uma confrontação final verdadeiramente decisiva.

Mas Viggo Mortensen é a estrela que brilha. Um dos poucos actores do elenco do Senhor dos Anéis a ser capaz de se dissociar da trilogia e a criar uma identidade diferente em cada filme que contracena, ele enverga com total credibilidade o rosto de um homem duro e implacável. A cena final de luta na sauna turca seria suficiente para acabar com quaisquer dúvidas acerca das suas qualidades como actor, mas apesar do seu lado frio e cruel, não é de todo desprovido de coração como o vai demonstrando a sua relação com Anna.

Uma personagem ambígua, o espectador começa a desconfiar naturalmente que há mais do que os olhos vêem em Nikolai. Quando revela as tatuagens no seu corpo, elas contam a história dos seus crimes. Não deixa de ser fascinante toda a cultura russa criminal em torno das tatuagens e de como elas revelam a vida e o estatuto de cada pessoa pelos desenhos no corpo. Na verdade, o objectivo de Nikolai é tornar-se merecedor das tão desejadas estrelas que o proclamariam como Vor V Zakone, e aí sim, passaria a deter um novo estatuto de líder dentro da elite de criminosos.

Através de Nikolai, temos acesso ao mundo do crime organizado e ao perigo acima de tudo representado na figura do patriarca, Semyon, numa interpretação sólida de Armin Mueller-Stahl. O final já o adivinhamos e o vemos a chegar de longe, mas o filme não pretende verdadeiramente chocar o espectador com nenhuma surpresa, antes reflectir sobre os códigos de conduta e valores distorcidos do mundo da Mafia russa.

Naomi Watts terá um papel mais passivo neste filme, mas é a ela que cabe expor o lado mais vulnerável de Nikolai. De resto, destaque para um forte elenco secundário, todos eles a contribuírem para um filme credível e consistente sobre as falsas aparências que ocultam, muitas vezes, um poço negro de corrupção onde descobrimos um submundo em que a lei comum não existe.

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Viagem ao País das Rosas

December 12, 2007 at 11:42 am (Livros/BD/revistas, Strange Land)

No dia 6 de Dezembro tive oportunidade de participar no lançamento do novo livro de Adalberto Alves, lançado pela editora Ésquilo, Irão, Viagem ao País das Rosas. O livro tem uma particularidade que o distingue entre os demais: consiste numa edição bilingue, português e persa, estando a tradução para o persa a cargo da Prof. Sépideh Radfar. O resultado é uma edição gráfica belíssima composta por gravuras persas clássicas, acompanhadas pelas aguarelas da pintora Isabel Ferreira da Silva.

Na apresentação do livro estiveram presentes o Sr. Mohammad Mehdi Mokhtari, o actual Encarregado de Negócios e chefe de Missão da Embaixada do Irão em Lisboa, Dra. Sépideh Radfar, autora da versão farsi, Dr. Luís Raposo, Director do Museu Nacional de Arqueologia, Isabel Ferreira de Silva, autora das aguarelas, o editor da Ésquilo, Paulo Loução e, claro, o Mestre Adalberto Alves.

Adalberto Alves é autor de uma vasta produção na área de estudos orientais, em particular, a poesia árabe, luso-árabe e persa. É graças à sua contribuição e esforços que hoje podemos apreciar várias edições de poesia árabe clássica na língua portuguesa, do qual destacaria os livros Ibn’ Amar Al-Andalusi, Al-Mu’tamid – Poeta do Destino, As Sandálias do Mestre e O Meu Coração é Árabe. Mais recentemente, a sua colaboração com a editora Ésquilo deu à estampa Portugal e o Islão Iniciático, sobre a influência do sufismo na produção literária árabe na Península Ibérica.

Irão, Viagem ao País das Rosas resultou de uma viagem de Adalberto Alves ao Irão, a terra de grandes poetas místicos persas como Ferdowsi, Attar, Rumi e Omar Khayyam. Inspirando-se na poesia persa da Antiguidade, o autor presta o seu tributo e celebra os laços de amizade intercultural com um país outrora detentor de uma civilização e história excepcionais.

Prestei a minha modesta contribuição na sessão de lançamento deste livro, declamando a poesia de Adalberto Alves na língua portuguesa, acompanhada pela música do saltério persa tocado por Imani Ferdoss. Já há muitos anos que não declamava textos, desde os meus tempos de escola, e foi um prazer voltar a fazê-lo (acho que me saí bem!) por convite da prof. Radfar, colega e amiga.

Foi uma noite certamente muito exótica e cativante para quem quis ficar a conhecer um pouco mais a cultura persa/iraniana que se fez representar ao seu melhor.

Em relação ao saltério, confesso que é um instrumento musical muito curioso e à falta de palavras para descrever o seu som, podem apreciar neste vídeo um excerto musical que foi gravado precisamente na sessão de lançamento do livro que decorreu na sala nobre do Teatro D. Maria II, na presença de cerca de 300 pessoas.

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We will always have Paris

December 8, 2007 at 5:53 pm (Strange Land)

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Paris é uma das cidades mais visitadas do mundo. Tem uma população do mesmo número que a inteira população portuguesa e, em muitas alturas, foi o centro de convulsões políticas e históricas que transformaram a Europa.

É conhecido pelas suas muitas facetas. Cidade do amor, cidade de História, cidade artística, dos museus de arte e jardins e bosques até onde o olhar alcança. Actualmente, é uma cidade cosmopolita cheia de vida, sujeita a um clima rigoroso durante o Inverno. Mas os parisienses não deixam o frio intrometer-se nas suas vidas e aproveitam tudo o que a cidade tem para oferecer. Que é muito.

Tudo está concentrado em Paris. Desde a opulência excessiva das lojas de grande marca até aos souks onde os imigrantes do Norte de África ganham a vida a vender bens e produtos, passando pelas lojas francesas que tentam acompanhar o ritmo extenuante de vida numa das maiores cidades do mundo, o que nem sempre é fácil.

Família em Paris levou-me várias vezes a visitar a cidade. Conheço a cidade razoavelmente bem depois de um verão inteiro, há muitos anos, a explorar sozinha as ruas, livrarias, jardins (em especial as Tulherias) , museus, bairros históricos e monumentos.

Alguns motivos levaram-me de volta à cidade na semana passada. Algumas zonas faço questão de visitar sempre, mas foi-me impossível desta vez. Notre-Dame de Paris tem um charme irresistível rodeada como está pelo rio Sena.

Não muito longe da catedral, encontram-se as ruelas sinuosas e estreitas polvilhadas de cafés parisienses típicos que constituem o famoso Bairro Latino. Foi nesta zona que encontrei acidentalmente a livraria Shakespeare and Company, livraria de culto pelo acolhimento que proporcionou a alguns dos maiores escritores da geração pós-guerra, em especial, os beats. A linhagem da livraria actual, na Rua Bucherie, remonta à primeira livraria Shakespeare & Company fundada por Sylvia Beach que viria a publicar um dos maiores clássicos do séc. XX, Ulysses de James Joyce.

Paris não tem falta de histórias marcantes que viriam a transformar as artes&letras do mundo ocidental. Noutro bairro, Montmartre, ainda hoje as ruas se animam com artistas, pintores e cantores, que oferecem os seus serviços para os turistas e transeuntes. Ficou essa herança do século XIX, um tempo em que uma nova arte começava a dar os primeiros passos e notabilizaram-se nomes como Toulouse-Lautrec, Renoir, Degas, Cézanne e Monet. Os seus trabalhos, inovadores para aquele tempo, podem ser vistos no Museu d’Orsay numa antiga estação de comboios convertida em museu à beira da margem esquerda do rio Sena.

É o que gosto em Paris, embora pudesse nomear muitas outras que desgosto, como por exemplo, os transportes que são imensamente opressivos e os túneis do metro mais se assemelham a corredores claustrofóbicos de bunkers, sem um fim à vista.

Mas Paris é um dos melhores símbolos da civilização ocidental no seu máximo esplendor, sem sinais de decadência, antes sempre a florescer, sem esquecer o passado, e com os olhos postos no futuro. É uma cidade-guia para o século XXI.

Ficam aqui as minhas fotos de Paris.

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