Persepolis de Marjane Satrapi

October 13, 2007 at 11:48 am (Cinema e TV, Livros/BD/revistas)

Já este sábado, às 19h30, no Cinema S. Jorge, o Festival de Cinema Francês irá exibir Persepolis, a longa-metragem de animação, baseada na BD de Marjane Satrapi.

Argumentista de BD e autora de histórias para crianças a viver actualmente na França, Marjane Satrapi é natural do Irão e, como muitas mulheres do seu tempo, testemunhou tempos políticos conturbados na sua terra natal, tendo assistido à queda do regime do Shah da Pérsia e à ascensão do regime islâmico liderado por Ayatollah Khomeini.

Não há falta de livros para descrever esse tempo conturbado na história de Irão, especialmente da perspectiva feminina, uma vez que foram as mulheres quem mais sofreram na pele as transformações ditadas pelo novo regime. Marjane Satrapi é possivelmente a voz que mais alto se ergueu na descrição da mulher iraniana forçada a adaptar-se a novos costumes e aprisonada entre duas culturas distintas, a ocidental liberal e a islâmica conservadora.

Mas Satrapi fá-lo com um sentido de humor, originalidade e mordacidade únicos, escolhendo um formato invulgar, a banda desenhada a preto e branco. Persepolis 1 relata os anos de infância de Marjane Satrapi após a Revolução Islâmica, seguindo-se Persepolis 2, descrição dos anos da guerra entre o Irão e Iraque. Temos ainda Persepolis 3 e 4, cada um relatando etapas diferentes na vida de Marjane.

O filme que hoje irá ser exibido é o resultado de uma adaptação da obra original pela própria Marjane Satrapi e Vincent Paronnaud, com vozes protagonizadas por um elenco de estrelas, Chiara Mastroianni, Catherine Deneuve, Danielle Darrieux e Simon Abkarian.

Persepolis desafia os clichés em torno do Irão, um país oculto por detrás de um véu cerrado, totalmente desconhecido para a maioria dos Ocidentais (para começar, a língua oficial é o persa, não o árabe, como muitos julgam). Independentemente das políticas governamentais, é um país jovem com uma cultura artística contemporânea florescente, e Satrapi personifica essa cultura na perfeição.

Para além de Persepolis, Marjane Satrapi é também autora de Broderies (Embroideries), histórias de mulheres da geração da sua mãe, relatadas com uma malícia feminina e um humor extraordinário. Captura na essência os preconceitos e as superstições dominantes na mentalidade oriental e, especialmente, o idealismo e a ingenuidade feminina a par com a astúcia e sabedoria de quem sabe contornar as regras se for preciso.

E no fundo, Marjane Satrapi representa também muitos orientais que, insatisfeitos com as condições oferecidas pelo seu próprio país, escolheram o auto-exílio e uma vida que nem pertence ao Oriente, nem ao Ocidente, mas que assenta num limbo feito de muitas vivências, algumas gratificantes e, decerto, algumas dolorosas.

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