Fotografias de Rhys Hughes em Lisboa
Para quem quiser ter um vislumbre da passagem de Rhys Hughes por Lisboa por ocasião da apresentação de A Sereia de Curitiba, pode aceder aqui.
(Finalmente, decidi-me a abrir uma conta pública para fotografias).
Foram três noites fantásticas e penso que as apresentações correram muito bem, em especial, as primeiras duas no Café do Chiado e no British Council. Obrigado a todos os que compareceram e vieram expressar o seu apoio ao autor!
Preacher de Garth Ennis

Tenho estado a ler Preacher de Garth Ennis (arte de Steve Dillon) e tem sido uma experiência intensa. Das nove colectâneas li as primeiras três de rajada. Demasiada violência e sexo? sim. Demasiado gore e horror? Sim. Herético e profano? Sempre. Mas a narrativa é brilhante e a forma como lida com religião é nada menos do que honesta e crua.
Jesse Custer é possuído por uma entidade de nome Genesis, fruto da relação proibida entre um anjo e um demónio. E porque em Genesis a luz alia-se às trevas, a simbiose com a alma de Custer tornou-o o ser mais poderoso da existência, capaz de desafiar o poder de Deus.
Perseguido por figuras insanas e aterrorizadoras, e tendo como companhia apenas a namorada de muitos anos, Tulip, e um vampiro irlandês de nome Cassidy, Jesse procura por Deus numa terra de pecado, mas tudo o que encontra são demónios e homens que tentam manipulá-lo ou destruí-lo.
O que gosto em Jesse Custer? É um preacher por força de circunstâncias, não por devoção ou qualquer acto de fé. O seu colarinho não representa qualquer tipo de moralismo hipócrita e é apenas um ser humano que acidentalmente se torna numa divindade.
O que essencialmente vemos ao longo da história é um homem torturado pela noção de que tem que fazer as escolhas certas entre o bem e o mal. Algumas temáticas retratadas são demasiado fortes, mas estão expostas perante todos, pondo em questão a sociedade americana.
Nem tudo são trevas. Adoro o sentido de humor entre Custer e Cassidy. E gosto ainda mais da sua interacção com Tulip. É no fundo uma história de amor, e Jesse não tem vergonha de mostrar os seus sentimentos.
O slang americano de Texas dá a volta à cabeça ao leitor, mas no momento em que entramos na narrativa, é uma viagem brutal e a redenção não parece estar ao alcance da mão.
Mal posso esperar para ler o resto.
Persepolis de Marjane Satrapi
Já este sábado, às 19h30, no Cinema S. Jorge, o Festival de Cinema Francês irá exibir Persepolis, a longa-metragem de animação, baseada na BD de Marjane Satrapi.
Argumentista de BD e autora de histórias para crianças a viver actualmente na França, Marjane Satrapi é natural do Irão e, como muitas mulheres do seu tempo, testemunhou tempos políticos conturbados na sua terra natal, tendo assistido à queda do regime do Shah da Pérsia e à ascensão do regime islâmico liderado por Ayatollah Khomeini.
Não há falta de livros para descrever esse tempo conturbado na história de Irão, especialmente da perspectiva feminina, uma vez que foram as mulheres quem mais sofreram na pele as transformações ditadas pelo novo regime. Marjane Satrapi é possivelmente a voz que mais alto se ergueu na descrição da mulher iraniana forçada a adaptar-se a novos costumes e aprisonada entre duas culturas distintas, a ocidental liberal e a islâmica conservadora.
Mas Satrapi fá-lo com um sentido de humor, originalidade e mordacidade únicos, escolhendo um formato invulgar, a banda desenhada a preto e branco. Persepolis 1 relata os anos de infância de Marjane Satrapi após a Revolução Islâmica, seguindo-se Persepolis 2, descrição dos anos da guerra entre o Irão e Iraque. Temos ainda Persepolis 3 e 4, cada um relatando etapas diferentes na vida de Marjane.

O filme que hoje irá ser exibido é o resultado de uma adaptação da obra original pela própria Marjane Satrapi e Vincent Paronnaud, com vozes protagonizadas por um elenco de estrelas, Chiara Mastroianni, Catherine Deneuve, Danielle Darrieux e Simon Abkarian.
Persepolis desafia os clichés em torno do Irão, um país oculto por detrás de um véu cerrado, totalmente desconhecido para a maioria dos Ocidentais (para começar, a língua oficial é o persa, não o árabe, como muitos julgam). Independentemente das políticas governamentais, é um país jovem com uma cultura artística contemporânea florescente, e Satrapi personifica essa cultura na perfeição.
Para além de Persepolis, Marjane Satrapi é também autora de Broderies (Embroideries), histórias de mulheres da geração da sua mãe, relatadas com uma malícia feminina e um humor extraordinário. Captura na essência os preconceitos e as superstições dominantes na mentalidade oriental e, especialmente, o idealismo e a ingenuidade feminina a par com a astúcia e sabedoria de quem sabe contornar as regras se for preciso.
E no fundo, Marjane Satrapi representa também muitos orientais que, insatisfeitos com as condições oferecidas pelo seu próprio país, escolheram o auto-exílio e uma vida que nem pertence ao Oriente, nem ao Ocidente, mas que assenta num limbo feito de muitas vivências, algumas gratificantes e, decerto, algumas dolorosas.
A Sereia de Curitiba
As apresentações de A Sereia de Curitiba de Rhys Hughes já têm data marcada para os dias 24, 25 e 26 de Outubro, com presença do autor.
Dia 24 – Café no Chiado, 19h
Dia 25 – British Council, 19h
Dia 26 – Fnac Colombo, 18.30, com apresentação de Fernando Alvim
Julgo que nunca mencionei antes, ao pormenor, o trabalho de tradução que realizei para a Sereia. Não gosto de me debruçar muito sobre o meu trabalho ou tentar explicá-lo. Mas foi um desafio e uma experiência que me enriqueceu muito e tenho orgulho em ter o meu nome na ficha técnica.
É um livro feito com muito empenho por uma pequena equipa composta por escritor, editor, tradutor, ilustrador e revisor. E neste caso, o resultado foi um livro inestimável recheado de absurdo e imaginação mas também muitos toques de sensualidade, sentido de humor e uma vontade de abraçar o mundo e deixar-se abraçar por ele.
E penso que A Sereia de Curitiba ficará muito bem nas estantes.







