A distopia dos despojados

June 16, 2007 at 7:49 pm (Livros/BD/revistas, Strange Land)

Criança num campo de refugiados talibã junto à fronteira do Irão-Afeganistão.

Perhaps our woes are inescapable?

The Dispossessed, Ursula K. Le Guin

Quis rever algumas partes de um dos meus livros favoritos, The Dispossessed de Ursula K. Le Guin. O percurso de Shevek no planeta Anarres, e mais tarde, em Urras. A sua gradual percepção das falhas que percorrem os dois mundos entre os quais se encontra preso.

No seu próprio planeta, impera uma comunidade assente nos princípios anarquistas. Originários do planeta Urras, rebelaram-se contra o capitalismo vigente na sociedade de Urras, e estabeleceram a sua própria comunidade em Anarres.

Shevek é um cientista físico natural de Anarres, determinado a encontrar uma universal teoria que revolucionará o tratamento de tempo e espaço. A sua lealdade pela sua terra não impede que Shevek se aperceba das condições impossíveis e desoladas em que o seu povo vive. Ele sabe no seu coração de que tem a capacidade de trazer mudança, e o universo nunca mais voltará a ser o mesmo depois das suas descobertas. Mas simultaneamente, é impedido de trazer essa mudança por aqueles que desejam servir primeiramente os seus próprios interesses.

O que aparenta ser uma comunidade anarca ideal, cedo revela um sistema não imune a corrupção. Mas na sua viagem a Urras e na aprendizagem que vai adquirindo, o que se torna verdadeiramente notável é a evolução de Shevek como homem, a sua aguda consciência da dor e sofrimento.

Le Guin demonstra-nos que não é possível existir um mundo perfeito criado pelo homem. A falha reside provavelmente na natureza humana, na ambiguidade dos actos que determinam nem sempre o bem maior, mas o bem individual para desprezo de tudo o resto.

Mas não é preciso recorrer a analogias com obras de ficção científica para perceber que o mundo caminha para um extremismo cada vez mais acentuado. Facções, minorias, grupos esforçam-se para captar as atenções e tornarem as suas causas conhecidas por todos os meios possíveis.

Perante a incapacidade por parte das autoridades em estabelecer justiça e igualdade, a solução, que não é solução, é a de realizar justiça com as próprias mãos. A luta entre as facções palestinianas pode, a médio prazo, quebrar a já frágil estabilidade na região.

Estranho que ao ver Children of Men de Alfonso Cuarón, o retrato de um futuro negro e distópico não muito longínquo no tempo, em que o mundo colapsou com a súbita infertilidade das mulheres, tenha detectado muitas cenas profundamente actuais.

Os confrontos entre os exércitos e os rebeldes que defendem os imigrantes ilegais (a invocarem memórias dos prisioneiros de campos de concentração nazis) estará muito longe da luta actual nos territórios palestinianos entre Hamas e Fatah, entre governos e organizações terroristas?

Parece-me a mim que desde o momento em que as grandes estátuas dos Budas em Bamyan caíram por terra, por acção dos talibãs, quebrou-se com elas uma paz já de si frágil e todo o bom senso. Desde essa altura, o mundo mudou irrevogavelmente, por acções de extremistas de AMBOS os lados.

Teremos assistido então, sem sabermos, ao início do colapso, alastrando-se como uma grande mancha, a Afeganistão, Iraque, Líbano, Palestina? E poderemos nós dizer que estamos protegidos nos nossos casulos ocidentais e que somos moralmente superiores àqueles que nem sequer compreendemos?

1 Comment

  1. LFS said,

    Obra magistral da FC, proposta conseguida de aplicar o instrumento especulativo sobre áreas tão vastas mas imprescindíveis como o social, o político, o ético, o científico e inclusive o económico. Embora não considerada como tal, é talvez a mais completa obra de world-building jamais feita, incorporando ainda uma perfeita dimensão humana, um estilo literário incomparável e uma estrutura narrativa taoista que tudo encerra e tudo abre. Absolutamente fenomenal, e nem a própria LeGuin conseguiu equiparar-se a si mesma posteriormente. Há livros que só podem nascer num certo momento, e não depois.

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