Don’t Look Now

June 11, 2007 at 3:45 pm (Cinema e TV)

Embora nunca tenha mergulhado a fundo na experiência cinematográfica dos anos 70, é verdade que produziu algumas obras notáveis constantemente lembradas ainda hoje num tempo em que os cinéfilos se interrogam para onde foi o verdadeiro cinema.

Don’t Look Now de Nicolas Roeg foi protagonizado por dois actores emblemáticos da década de 60 e 70, a admirável Julie Christie (Fahrenheit 451, Darling, Dr. Zhivago) e Donald Sutherland (M.A.S.H., Ordinary People), baseado num conto de Daphne du Maurier.

Qualquer outro par de actores e o filme teria perdido muito da sua capacidade de surpreender, de emocionar e chocar. É um filme que poderia ser descrito como a história de um casal tentando enfrentar a dor da morte prematura de uma filha, mas cedo se torna um estranho conto povoado de visões fugazes e perseguições pelos labirintos oníricos da cidade de Veneza no pico do Inverno.

Após a morte acidental por afogamento da filha Christine, o casal Baxter refugia-se em Veneza onde John Baxter é o arquitecto responsável pela restauração de uma antiga igreja. Laura tenta esquecer o vazio deixado pela morte da filha, mas todas as memórias regressam quando conhece duas irmãs idosas, em que uma delas clama ser uma médium e ter visões de Christine.

O estranho encontro perturba a harmonia entre o casal, cada um tentando lidar com a tragédia. John sempre racional e céptico, sempre imerso no trabalho, e no entanto, não pode escapar a sinais e presságios que só ele consegue pressentir. Laura é mais vulnerável e aceita do coração qualquer conforto que as irmãs lhe possam dar.

É a forma como Roeg intercala as cenas surreais em torno de Veneza , ameaçada por uma série de crimes inexplicáveis, com o realismo cru de um casal normal a tentar sarar feridas profundas que define muita da qualidade cinematográfica de Don’t Look Now. Um exemplo paradigmático disso será a cena de sexo protagonizada pelo casal, considerada uma das mais eróticas em cinema.

É uma cena notável porque raras vezes se vê sexo transposto para o cinema com tanto sentimento e realismo. As cenas sexuais são intercaladas com cenas do casal após o acto, a vestir-se para sair. Observar esta construção de imagens é como realmente sentir que observamos amantes que são também companheiros, e com muitos anos de vida conjunta entre eles, deixando-se levar ainda por assomos de paixão genuína. É como observar um casal que se ama, na sua rotina diária e íntima, sem falsidades e com a maior naturalidade possível.

Contudo, acaba por ser o tom de thriller psicológico a dominar o filme. Não é à toa que o filme está povoado de símbolos, em especial, a cor do vermelho. Duvidamos muitas vezes do que vemos através do olhar de John, e nos interrogamos sobre a sua própria sanidade mental, até que tudo adquire finalmente sentido com o final inesperado e perturbante. O impacto da cena persiste na mente do espectador muito tempo depois do fim.

Em Português, o filme recebeu o título Aquele Inverno em Veneza, e não duvido que seja conhecido pelos amantes do horror, do bizarro e do paranormal. Todavia, o filme transcende todos esses rótulos e torna-se, no fim de tudo, uma exploração em torno da ideia de dor, perda e a extrema vulnerabilidade da própria vida.

1 Comment

  1. LFS said,

    Um filme fantasmagórico da minha juventude quando o vi na RTP – em particular a imagem da menina (?) de vermelho e o bom desempenho do Donald. Quando finalmente o obtive em DVD eram outros os tempos, e tive mais uma prova de que não devemos rever as nossas influências de infância: o estilo de montagem é demasiado anos 70 e muito daquilo tem rugas e tropeça. Continua a ser contudo um excelente filme sobre os perigos da alienação e da obcessão. (Pena ter um título tão pouco atmosférico…)

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