O Olho do Mundo

Para que não sejam completamente apanhados de surpresa, sim, escrevi um blurb (uma opinião promocional, à falta de um melhor termo português) para a edição portuguesa de The Eye of the World de Robert Jordan. O meu nome surge associado ao Fórum Fantástico na cinta que prende o livro com o título de O Olho do Mundo. Já está à venda nas livrarias e estará exposto nas montras da Bertrand a partir de dia 25 de Junho.
Foi uma colaboração com a editora no âmbito do evento e mais notícias irão chegar muito em breve sobre esta matéria. Por agora, não fiquem surpreendidos. Foi com o nosso consentimento, claro.
Irei escrever muito sobre o autor e estes livros quando estiver mais repousada e com mais tempo, possivelmente em menos de duas semanas. Neste momento, não tenho tido vida fora do meu trabalho quotidiano.
A distopia dos despojados

Criança num campo de refugiados talibã junto à fronteira do Irão-Afeganistão.
Perhaps our woes are inescapable?
The Dispossessed, Ursula K. Le Guin
Quis rever algumas partes de um dos meus livros favoritos, The Dispossessed de Ursula K. Le Guin. O percurso de Shevek no planeta Anarres, e mais tarde, em Urras. A sua gradual percepção das falhas que percorrem os dois mundos entre os quais se encontra preso.
No seu próprio planeta, impera uma comunidade assente nos princípios anarquistas. Originários do planeta Urras, rebelaram-se contra o capitalismo vigente na sociedade de Urras, e estabeleceram a sua própria comunidade em Anarres.
Shevek é um cientista físico natural de Anarres, determinado a encontrar uma universal teoria que revolucionará o tratamento de tempo e espaço. A sua lealdade pela sua terra não impede que Shevek se aperceba das condições impossíveis e desoladas em que o seu povo vive. Ele sabe no seu coração de que tem a capacidade de trazer mudança, e o universo nunca mais voltará a ser o mesmo depois das suas descobertas. Mas simultaneamente, é impedido de trazer essa mudança por aqueles que desejam servir primeiramente os seus próprios interesses.
O que aparenta ser uma comunidade anarca ideal, cedo revela um sistema não imune a corrupção. Mas na sua viagem a Urras e na aprendizagem que vai adquirindo, o que se torna verdadeiramente notável é a evolução de Shevek como homem, a sua aguda consciência da dor e sofrimento.
Le Guin demonstra-nos que não é possível existir um mundo perfeito criado pelo homem. A falha reside provavelmente na natureza humana, na ambiguidade dos actos que determinam nem sempre o bem maior, mas o bem individual para desprezo de tudo o resto.
Mas não é preciso recorrer a analogias com obras de ficção científica para perceber que o mundo caminha para um extremismo cada vez mais acentuado. Facções, minorias, grupos esforçam-se para captar as atenções e tornarem as suas causas conhecidas por todos os meios possíveis.
Perante a incapacidade por parte das autoridades em estabelecer justiça e igualdade, a solução, que não é solução, é a de realizar justiça com as próprias mãos. A luta entre as facções palestinianas pode, a médio prazo, quebrar a já frágil estabilidade na região.
Estranho que ao ver Children of Men de Alfonso Cuarón, o retrato de um futuro negro e distópico não muito longínquo no tempo, em que o mundo colapsou com a súbita infertilidade das mulheres, tenha detectado muitas cenas profundamente actuais.
Os confrontos entre os exércitos e os rebeldes que defendem os imigrantes ilegais (a invocarem memórias dos prisioneiros de campos de concentração nazis) estará muito longe da luta actual nos territórios palestinianos entre Hamas e Fatah, entre governos e organizações terroristas?
Parece-me a mim que desde o momento em que as grandes estátuas dos Budas em Bamyan caíram por terra, por acção dos talibãs, quebrou-se com elas uma paz já de si frágil e todo o bom senso. Desde essa altura, o mundo mudou irrevogavelmente, por acções de extremistas de AMBOS os lados.
Teremos assistido então, sem sabermos, ao início do colapso, alastrando-se como uma grande mancha, a Afeganistão, Iraque, Líbano, Palestina? E poderemos nós dizer que estamos protegidos nos nossos casulos ocidentais e que somos moralmente superiores àqueles que nem sequer compreendemos?
Don’t Look Now

Embora nunca tenha mergulhado a fundo na experiência cinematográfica dos anos 70, é verdade que produziu algumas obras notáveis constantemente lembradas ainda hoje num tempo em que os cinéfilos se interrogam para onde foi o verdadeiro cinema.
Don’t Look Now de Nicolas Roeg foi protagonizado por dois actores emblemáticos da década de 60 e 70, a admirável Julie Christie (Fahrenheit 451, Darling, Dr. Zhivago) e Donald Sutherland (M.A.S.H., Ordinary People), baseado num conto de Daphne du Maurier.
Qualquer outro par de actores e o filme teria perdido muito da sua capacidade de surpreender, de emocionar e chocar. É um filme que poderia ser descrito como a história de um casal tentando enfrentar a dor da morte prematura de uma filha, mas cedo se torna um estranho conto povoado de visões fugazes e perseguições pelos labirintos oníricos da cidade de Veneza no pico do Inverno.
Após a morte acidental por afogamento da filha Christine, o casal Baxter refugia-se em Veneza onde John Baxter é o arquitecto responsável pela restauração de uma antiga igreja. Laura tenta esquecer o vazio deixado pela morte da filha, mas todas as memórias regressam quando conhece duas irmãs idosas, em que uma delas clama ser uma médium e ter visões de Christine.
O estranho encontro perturba a harmonia entre o casal, cada um tentando lidar com a tragédia. John sempre racional e céptico, sempre imerso no trabalho, e no entanto, não pode escapar a sinais e presságios que só ele consegue pressentir. Laura é mais vulnerável e aceita do coração qualquer conforto que as irmãs lhe possam dar.
É a forma como Roeg intercala as cenas surreais em torno de Veneza , ameaçada por uma série de crimes inexplicáveis, com o realismo cru de um casal normal a tentar sarar feridas profundas que define muita da qualidade cinematográfica de Don’t Look Now. Um exemplo paradigmático disso será a cena de sexo protagonizada pelo casal, considerada uma das mais eróticas em cinema.
É uma cena notável porque raras vezes se vê sexo transposto para o cinema com tanto sentimento e realismo. As cenas sexuais são intercaladas com cenas do casal após o acto, a vestir-se para sair. Observar esta construção de imagens é como realmente sentir que observamos amantes que são também companheiros, e com muitos anos de vida conjunta entre eles, deixando-se levar ainda por assomos de paixão genuína. É como observar um casal que se ama, na sua rotina diária e íntima, sem falsidades e com a maior naturalidade possível.
Contudo, acaba por ser o tom de thriller psicológico a dominar o filme. Não é à toa que o filme está povoado de símbolos, em especial, a cor do vermelho. Duvidamos muitas vezes do que vemos através do olhar de John, e nos interrogamos sobre a sua própria sanidade mental, até que tudo adquire finalmente sentido com o final inesperado e perturbante. O impacto da cena persiste na mente do espectador muito tempo depois do fim.
Em Português, o filme recebeu o título Aquele Inverno em Veneza, e não duvido que seja conhecido pelos amantes do horror, do bizarro e do paranormal. Todavia, o filme transcende todos esses rótulos e torna-se, no fim de tudo, uma exploração em torno da ideia de dor, perda e a extrema vulnerabilidade da própria vida.
Where’s Wally?
Tenho dado poucas notícias, mas entre o trabalho e as actividades extra-laborais sobra-me pouca energia para escrever.
No entanto, o trabalho tem dado frutos, e em breve, os resultados estarão à vista de todos. Novidades e colaborações importantes entretanto surgiram, e no final deste mês podem esperar uma surpresa a que me irei ver associada. Alguns irão odiar, outros irão adorar e não digo mais. Podem também esperar novidades em relação ao Fórum Fantástico.
Mais uma tradução minha irá sair este ano, já este verão. A Sereia de Curitiba já se encontra finalizado e sobrevivi, incólume, à loucura Rhysiana total. Penso que o resultado final irá ser muito interessante, tão só pelas ilustrações de Paulo de Barros, das quais já tivemos um vislumbre aqui, como pelo trabalho gráfico inovador e cuidadoso da Livros de Areia.
Se é a última tradução, não o sei dizer. Podem surgir coisas interessantes no horizonte.
A minha própria escrita não tem avançado absolutamente nada em termos práticos, mas os últimos seis meses têm sido férteis em experiência e ideias e tenho andado a preparar o terreno para um projecto ambicioso. Tenho a sensação de que se começasse a escrever agora, seria vastamente diferente da pessoa que escrevia em 2006, de tal forma tudo mudou.
Talvez um dos grandes desafios dos nossos tempos seja a habilidade de nos adaptarmos à mudança constante, seja para o pior ou melhor. E tal é o ritmo feroz e trepidante que marca o tom e passo nas nossas vidas clamadas por um mundo moderno que, muitas vezes, não conseguimos ver ou saber quando é tempo de seguir em frente e quando é tempo de optar pela via mais segura. Blessed is the man who finds wisdom, é o que se diz.
Nos livros, a passagem pela última feira do livro de Lisboa rendeu-me três preciosidades que fiz questão em adquirir. Três livros de uma prosa mágica, e é absolutamente certo que o autor versa sobre o tema escolhido com a sabedoria que advém da idade e o talento puro.
São eles:
Futebol: Sol e Sombra de Eduardo Galeano

O Segredo do Bosque Velho de Dino Buzzati
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As Cruzadas Vistas pelos Árabes que nunca cheguei a possuir, mas não pude resistir à nova edição elegante da Difel.

Talvez ainda regresse hoje à feira no último dia. Talvez.
Zodiac
Zodiac poderia ter sido um grande filme, se tivesse sido menos fiel aos factos em redor da série de crimes que ocorreram em S. Francisco, nos anos 60 e 70. Da forma como foi realizado, assistimos a uma obra que se centra em obsessões.

Na obsessão de um assassino que o leva a pôr fim às vidas de pessoas inocentes. Na obsessão de um jornalista consciente de esta ser provavelmente a reportagem mais decisiva da sua vida. Na obsessão de um cartonista que não irá ter paz na sua vida até que descubra a identidade do assassino. Na obsessão de um polícia, determinado a encontrar a solução para os crimes. E, finalmente, na obsessão de um realizador em retratar até à exaustão a busca destes homens pela verdade sobre a identidade do assassino.
Baseado em factos verídicos, a história tem o mérito de ser notavelmente construída em torno dos detalhes da investigação policial e jornalística do serial-killer que passou a ser conhecido pelo nome de Zodiac.
É um filme de homens, e o casting não poderia estar melhor composto, com alguns dos melhores actores da actualidade. Robert Downey Jr. é sempre especial nos papéis que desempenha e a sua interpretação do jornalista Paul Avery é talvez a que mais confere um feeling seventies ao filme. Jake Gyllenhaal cumpre o seu papel como sempre, mas talvez tenha admirado mais a interpretação de Mark Ruffalo, Anthony Edwards e até Brian Cox. Uma nota muito positiva também para Chloe Sevigny que acabou por assentar que nem uma luva.
No entanto, sentimos a falta de algo em Zodiac e provavemente o que terá retirado toda a força cinematográfica ao filme é a sensação de que o realizador tomou a decisão de se comprometer com a verdade dos factos. Independentemente do rigor e verdade que ninguém pode negar estar presente em Zodiac, acabam por ter o efeito de inviabilizar uma obra verdadeiramente fascinante.
Após duas horas em que a minúcia dos pormenores toma de assalto o espectador, vem a consciência de que ainda restam mais 30 minutos de filme, indo estes ainda mais ao fundo da investigação, se possível. Por esta altura, o espectador está já cansado e anseia pela luz ao fundo do túnel, ou neste caso, a luz que se acende na sala e anuncia o final do filme, e sim, já podemos ir para casa.
Não podemos culpar os minimamente familiarizados com a obra de David Fincher, autor de dois grandes clássicos do cinema dos anos 90, 7even e Fight Club, por estarem à espera de um outro filme, quiçá mais cinematográfico, com tudo o que este termo implica, e menos factual.





