As Noites de Cabíria

March 21, 2007 at 10:27 pm (Cinema e TV)

A minha juventude foi marcada pelo ciclo Cinco Noites, Cinco Filmes na RTP2. Era uma altura em que começava a mostrar uma curiosidade muito forte pelo que se fazia para além do obviamente estampado na minha face. Queria conhecer as coisas feitas antes do meu tempo, antes dos anos 90, e o cinema era um dos meios mais claramente vocacionados para me fazer aceder à imensa riqueza do passado.

Clássicos de todas as décadas, realizadores consagrados, actores que atingiram o estatuto de mito, tudo foi revelado perante os meus olhos ávidos e absorvi o que pude, mesmo numa idade em que ainda não compreendia totalmente o que via.

Um dos realizadores que exerceu um tremendo fascínio em mim foi Federico Fellini. Tudo começou com La Dolce Vita, retrato desencantado de uma certa forma de estar na vida, por vezes brutal, através ds olhos do jornalista Marcello, uma testemunha e participante na decadência e absurdo que contaminou os dias e noites dos romanos. Repleto de imagens icónicas, possuía também um profundo cinicismo e amargura a par com o humor mais inesperado.

É ainda o meu favorito, embora já tenha visto outros como Amarcord, La Cittá delle Donne, 8 1/2, Boccaccio 70, Satyricon e agora Nights of Cabiria.

Cabiria é especial por várias razões. A estrela do filme é Giulietta Masina, a mulher do realizador, e uma actriz que já provara o seu talento como Gelsomina no extraordinário La Strada. Cabiria é um dos seus desempenhos mais aclamados. Ela é Maria Ceccarelli, mais conhecida como Cabiria, uma prostituta com uma personalidade singular que vive a vida.

Ela tem orgulho no facto de possuir a sua própria casa, e quase nunca ter dormido nas ruas, debaixo de arcadas. Feroz, determinada, mas ingénua, acredita no amor piamente. E é por acreditar tão fortemente no amor que a cena de abertura se revela inicialmente idílica para terminar num completo e hilariante desastre. Quando Cabiria quase se afoga e é salva pelos locais, ela espanta tão só pela sua agressividade e rudeza.

Assistimos depois às noites de convívio com a low life de Roma e que fazem o espectador sorrir com a sua exuberância e aparente alegria. E quando Cabiria se deixa levar pela dança parece, por breve momentos, verdadeiramente feliz. Mas não deixa de ser uma ave rara entre as prostitutas e chulos. Tem as suas próprias opiniões fortes sobre a independência de uma mulher que não se deveria submeter à exploração do mundo dominante masculino.

Não poderia deixar de haver algumas estratégias tipicamente fellinianas, como a observação da sociedade através dos olhos da personagem principal. É como se a acção do filme parasse por uns momentos, de modo a nos permitir espreitar janelas que abrem para o mundo italiano oculto por detrás de fachadas. Cabiria, numa noite, descobre um homem a praticar caridade com idosos a viver em cavernas, nas condições mais miseráveis. Ela receia estar a ver o seu próprio futuro no rosto de uma velha prostituta.

E como não nos deixarmos levar por uma certa tristeza quando vemos as suas lágrimas perante um actor famoso e o seu desabafo de que ninguém acreditaria que alguém tão baixo como ela estivera com um homem como ele, um sonho inalcançável.

Mas é a extraodinária cena no teatro de variedades que transporta o filme para além de qualquer retrato comum do mundano. Cabiria é ludibriada para um jogo de hipnose em que o mágico joga cruelmente com a sua própria inocência e pureza interior. Expondo-se em público, e revelando ser uma mulher vulnerável e carente, ela conserva a sua dignidade mesmo perante os olhos de uma plateia que a humilha.

A sua imensa força de carácter revelada ao longo do filme, a par com uma personalidade sonhadora e idealista, é quem a sustém nas cenas mais críticas e lhe dá esperança para continuar em frente, mesmo quando a vida não corresponde de todo às suas expectativas, mesmo quando a vida parece, por momentos, nunca descobrir um caminho para longe da escuridão cerrada.

Mais um extraordinário filme de Fellini.

2 Comments

  1. Artur said,

    Fellini será sempre Fellini. Aquele olhar tão próprio, misto de olhar clínico com visão surreal, traduzido em cenas de uma cinematografia apaixonante, é uma das pérolas do cinema do século XX.

    Também devo a minha formação fílmica a esse mítico ciclo da 2. Tinha sempre a certeza que veria algo de interessante. Isso e muitas noites passadas no King…

  2. dunyazade said,

    Olá.
    Manda-me algumas fotos se puderes do Domingo (minha, tua, etc…)

    dunyazade@gmail.com

    ******

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