Bleak House na RTP2

March 23, 2007 at 8:54 pm (Cinema e TV)

Por obra do acaso, só hoje descobri que a RTP 2 estreou no passado dia 19 de Março a muito aclamada adaptação da BBC, Bleak House.

Obra inteiramente do acaso. Calhou folhear hoje um jornal antigo de Março em que se mencionava o rejuvenescimento da nova (ou antiga) RTP2.

Para quem desconhece, Bleak House trata-se de uma obra de Charles Dickens. O resumo do livro apenas o iria fazer parecer chato, por isso, mais vale que acompanhem esta série de grande qualidade, premiada com vários BAFTA. Para quem gosta destas coisas, não se vai arrepender.

Estou chateada porque já perdi o 1º episódio. Em compensação são mais catorze episódios que vão ser transmitidos todas as segundas, às 22.30.

A título de curiosidade, uma das personagens-chave da intriga, Lady Dedlock, é interpretada por Gillian Anderson. Quem, como eu, assistiu durante anos aos Ficheiros Secretos, sabe muito bem de quem se trata. E que surpresa agradável se revelou esta actriz em papéis de época. Vejam o interessante House of Mirth (baseado na obra de Edith Wharton) se não acreditam em mim.

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As Noites de Cabíria

March 21, 2007 at 10:27 pm (Cinema e TV)

A minha juventude foi marcada pelo ciclo Cinco Noites, Cinco Filmes na RTP2. Era uma altura em que começava a mostrar uma curiosidade muito forte pelo que se fazia para além do obviamente estampado na minha face. Queria conhecer as coisas feitas antes do meu tempo, antes dos anos 90, e o cinema era um dos meios mais claramente vocacionados para me fazer aceder à imensa riqueza do passado.

Clássicos de todas as décadas, realizadores consagrados, actores que atingiram o estatuto de mito, tudo foi revelado perante os meus olhos ávidos e absorvi o que pude, mesmo numa idade em que ainda não compreendia totalmente o que via.

Um dos realizadores que exerceu um tremendo fascínio em mim foi Federico Fellini. Tudo começou com La Dolce Vita, retrato desencantado de uma certa forma de estar na vida, por vezes brutal, através ds olhos do jornalista Marcello, uma testemunha e participante na decadência e absurdo que contaminou os dias e noites dos romanos. Repleto de imagens icónicas, possuía também um profundo cinicismo e amargura a par com o humor mais inesperado.

É ainda o meu favorito, embora já tenha visto outros como Amarcord, La Cittá delle Donne, 8 1/2, Boccaccio 70, Satyricon e agora Nights of Cabiria.

Cabiria é especial por várias razões. A estrela do filme é Giulietta Masina, a mulher do realizador, e uma actriz que já provara o seu talento como Gelsomina no extraordinário La Strada. Cabiria é um dos seus desempenhos mais aclamados. Ela é Maria Ceccarelli, mais conhecida como Cabiria, uma prostituta com uma personalidade singular que vive a vida.

Ela tem orgulho no facto de possuir a sua própria casa, e quase nunca ter dormido nas ruas, debaixo de arcadas. Feroz, determinada, mas ingénua, acredita no amor piamente. E é por acreditar tão fortemente no amor que a cena de abertura se revela inicialmente idílica para terminar num completo e hilariante desastre. Quando Cabiria quase se afoga e é salva pelos locais, ela espanta tão só pela sua agressividade e rudeza.

Assistimos depois às noites de convívio com a low life de Roma e que fazem o espectador sorrir com a sua exuberância e aparente alegria. E quando Cabiria se deixa levar pela dança parece, por breve momentos, verdadeiramente feliz. Mas não deixa de ser uma ave rara entre as prostitutas e chulos. Tem as suas próprias opiniões fortes sobre a independência de uma mulher que não se deveria submeter à exploração do mundo dominante masculino.

Não poderia deixar de haver algumas estratégias tipicamente fellinianas, como a observação da sociedade através dos olhos da personagem principal. É como se a acção do filme parasse por uns momentos, de modo a nos permitir espreitar janelas que abrem para o mundo italiano oculto por detrás de fachadas. Cabiria, numa noite, descobre um homem a praticar caridade com idosos a viver em cavernas, nas condições mais miseráveis. Ela receia estar a ver o seu próprio futuro no rosto de uma velha prostituta.

E como não nos deixarmos levar por uma certa tristeza quando vemos as suas lágrimas perante um actor famoso e o seu desabafo de que ninguém acreditaria que alguém tão baixo como ela estivera com um homem como ele, um sonho inalcançável.

Mas é a extraodinária cena no teatro de variedades que transporta o filme para além de qualquer retrato comum do mundano. Cabiria é ludibriada para um jogo de hipnose em que o mágico joga cruelmente com a sua própria inocência e pureza interior. Expondo-se em público, e revelando ser uma mulher vulnerável e carente, ela conserva a sua dignidade mesmo perante os olhos de uma plateia que a humilha.

A sua imensa força de carácter revelada ao longo do filme, a par com uma personalidade sonhadora e idealista, é quem a sustém nas cenas mais críticas e lhe dá esperança para continuar em frente, mesmo quando a vida não corresponde de todo às suas expectativas, mesmo quando a vida parece, por momentos, nunca descobrir um caminho para longe da escuridão cerrada.

Mais um extraordinário filme de Fellini.

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Em como se descobre que este blogue fez 1 ano e se anunciam outras coisas

March 18, 2007 at 11:59 am (Strange Land)

Foi apenas ontem, ao celebrar o dia de St. Patrick no Irish Pub, que me recordei que um dos primeiros posts em Stranger in a Stranger Land era precisamente sobre o dia de St. Patrick. Um ano e muitos templates depois, continuo aqui a escrever quando posso. O balanço é provavelmente positivo. O que é certo é que ainda tenho muita vontade em escrever sobre as coisas que vejo ou leio, os eventos em que participo.

No entanto, as actualizações, tanto neste blogue como no da Épica, ressentiram-se muito nas últimas semanas simplesmente porque me encontro em fase final da tradução de A Sereia de Curitiba de Rhys Hughes. Tradutor em fase final de tradução, need I say more?

É provavelmente a última tradução que farei. Posso estar a precipitar-me a dizer isto, e bem dizem que nunca se deve dizer nunca, mas espero encerrar este capítulo e dedicar-me a outros com maior afinco, nomeadamente, ao capítulo da escrita.

A actividade nos fóruns dei praticamente por concluída já há alguns meses. Ainda não era oficial, mas este é um sítio tão adequado como os fóruns para anunciá-lo. Demiti-me do meu cargo de moderadora nos fóruns Filhos de Athena e Sci-freaks. Para os meus amigos de longa data, e fiz muitos ao longo destes últimos 3 anos através dests dois fóruns, fica o reconhecimento de anos de diversão, entretenimento, prazer da descoberta (e algumas dores de cabeça).

Os fóruns estão associados a uma das melhores alturas na minha vida, a vida universitária, e foram muitos os grandes momentos, com as suas guerras e tempestades, mas também períodos de calma. Adorei ter ajudado a construir estas comunidades e ainda espero continuar a participar como mera leitora e interessada.

Não gostaria de considerar isto um abandono. Dei muito de mim nos últimos três anos ao Sci-freaks e Filhos de Athena. E afinal foi através do Sci-freaks que travei muitos conhecimentos vitais para o trabalho que vim posteriormente a desenvolver na área do fantástico. É importante para mim que se reconheça que, sem este fórum e o outro, muitas das coisas que se realizaram nunca teriam acontecido.

Porque anuncio que me vou embora? Porque prefiro dizer isto do que venham a dizer depois que a Luthien se marimbou para os fóruns. Se não dissesse nada, aí sim, seria um abandono. E quanto às razões? Tenho um emprego full-time, tenho vários projectos em mente que consomem tempo e energia, tenho o Fórum Fantástico, e tenho que estabelecer prioridades. Não quero mais dispersar-me em muita coisa ao mesmo tempo.

Dito isto, só me resta agradecer, do coração, o Bruno (Sturm), a Filipa (Hen), o Tó (Borg), o Pedro (Grim), e numa fase posterior, a Sara (Starita), o João (–Z–) e a Cristina (Acrisalves), todos grandes amigos e que ainda continuam a sê-lo. E também a todos os que, não sendo moderadores ou administradores, apoiaram e encorajaram todo o trabalho que foi desenvolvido.

But our present story is ended. Pelo menos a minha história com os Sci-freaks e Filhos de Athena.

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