Seven Samurai

February 11, 2007 at 3:50 pm (Cinema e TV)

Não há palavras fáceis para descrever a magnitude cinematográfica de um filme como Os Sete Samurais de Akira Kurosawa. Graças a um ciclo dedicado a anime e samurais, a FNAC Chiado ofereceu a oportunidade aos espectadores de assistirem ao filme completo no passado sábado.

Largamente considerado um das mais soberbas criações para cinema, nunca tinha visto o filme completo nos cerca de 200 minutos de duração, mas foi uma experiência imensamente satisfatória. Não só pela cinematografia inspirada, como pela história profundamente absorvente e complexa com a sua mensagem sobre honra, sacrifício, integridade e dever.

Mas é também um filme sobre Japão e o contexto particularmente difícil e delicado que atravessava no pós-guerra. A premissa inicial envolve uma vila sob a ameaça de bandos de bandidos que, no seu desespero, recorre ao auxílio de samurais. Mas pobres e indefesos, o seu pedido de ajuda é rejeitado até encontrarem um samurai veterano e bondoso, Kambei, que se compromete a reunir um grupo de Ronin, samurais sem mestre.

Mais do que a premissa de defesa samurai da vila de um bando de saqueadores, é a antiga divisão entre a classe dos samurais e os camponeses que se torna o foco de atenção do realizador ao longo do filme. O difícil e doloroso relacionamente entre ambas as classes é melhor personificado pela personagem do sétimo samurai, um homem que se esquecera do seu próprio nome, mais tarde baptizado de Kikuchiyo.

Interpretado pelo lendário actor japonês, Toshiro Mifune, com quem Kurosawa iniciaria uma longa colaboração dando à vida clássicos incontornáveis como Yojimbo, Rashomon e Throne of Blood, a personagem de Kikuchiyo é inacreditavelmente selvagem e quase bestial nos primeiros momentos de cena.

Bêbado, e incapaz de mostrar o seu valor perante Kambei que o rejeita, Kikuchiyo, longe de se resignar, persegue o grupo e assume-se como o comic-relief, com os seus trejeitos e atitudes picarescas. Na verdade, Mifune domina o ecrã tal é a sua força de presença, carisma e assomos de energia incontidos.

É a ele que pertencem algumas das cenas emocionais mais poderosas, como a impressionante sequência de diálogos em que Kikuchiyo, num assomo de raiva e amargura, acusa os samurai de serem os responsáveis pela miséria dos camponeses, e assim, revelando a sua própria origem humilde, como um filho de camponês. Ou a cena em que Kikuchiyo salva uma criança do fogo, lembrando-se então do seu próprio passado obscuro.

Há um profundo tom de lamento a envolver as cenas em torno dos sete samurais. Os homens, mulheres e crianças da aldeia conseguem desenvolver espantosamente uma relação comunitária com os seus protectores, sentindo-se seguros, mas as vidas dos samurais vão sendo ceifadas uma a uma, e com os seus sacrifícios e valor, demonstram a verdadeira essência do código samurai, mesmo que Kambei, o mestre líder, se considere como perdedor no fim.

No fundo, talvez seja essa mesmo a ideia que Kurosawa, ele próprio descendente de uma linha de samurais, pretendia transmitir, a de um retorno à pureza dos ideais do código de conduta destes homens, consciente de que muitos deles tinham enveredado por uma via de corrupção e tirania. O que é certo é que ainda hoje o samurai exerce um intenso fascínio nas mentes do Ocidente. E nos filmes de Kurosawa vive ainda.

1 Comment

  1. JB Mael said,

    A obra de Kurosawa há muito que me fascina, bem como a própria biografia deste inigualável realizador… O drama humano que permeia toda a sua obra está também patente na sua vida pessoal e familiar. Um homem de contrastes, com talento e capacidades inexcedíveis mas também alguns traços de personalidade sombrios e desagradáveis.
    A sua relação com um outro grande talento que ajudou a despertar, o grande Mifune, foi espelho disso mesmo. De parceria e admiração mútua ao início, foi manchada por discussões e diatribes de tal ordem que, diz quem assistiu, faziam tremer as próprias fundações do estúdio.

    Em relação à sua obra propriamente dita, e excluindo as pequenas curtas metragens que foi obrigado a produzir pelo regime, na altura da guerra (as quais estavam sujeitas a um alto grau de censura e que o próprio desconsiderava); toda ela está marcada pela herança cultural que nele se depositava. As injustiças e verdades ocultas da sociedade feudal japonesa, desde o lado mais negro de camponeses e lordes, a ignorância e o despostismo, a superstição e a loucura sanguinária com que os povos desse arquipélago se chacinaram ao longo dos tempos; a visão altamente machista e diabólica com que a vasta maioria das mulheres são retratadas; etc etc etc…
    Todos os seus filmes remetem para uma reflexão profunda e , sobretudo, COMPLEXA de muitos dos aspectos da sociedade e mentalidade japonesa, bem como da própria humanidade. Para além da grandiosidade da fotografia e das reconstituições históricas, da intensidade dramática das interpretações, do esforço dispendido ao pormenor de cada gesto de cada personagem…
    Filmes para ver e rever; pois de facto são pérolas da cinematografia a nível mundial e histórico.
    A cinemateca costuma repetir ciclos de Akira Kurosawa todos os anos; é bom aproveitar.

    ps- até que enfim que te dignaste a ver o filme completo (e foi preciso ir ver à cinemateca, a minha reles cassete de vídeo não chegava! Agora será preciso mais X anos para veres o Ran e os outros?😛
    Recomenda vivamente documentários sobre a obra e vida de A. Kurosawa também.

    Gostei do tema. Um motivo para cá voltar.
    (parece que é o meu 1º post…)

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