They call me Oscar

February 25, 2007 at 11:27 am (Cinema e TV)

Pela primeira vez na minha vida, visionei todos os filmes nomeados para os Óscares este ano. Um drama doloroso de guerra, uma comédia indie doce e amarga sobre uma família disfuncional, um thriller sobre crime e dupla identidade, um filme inspirado em factos verídicos sobre um momento delicado da história britânica, e um retrato multicultural em que assistimos a várias tragédias atravessarem o globo.

Filmes totalmente díspares entre si, cada um com as suas qualidades e defeitos. Não deixa de ser uma colheita extraordinariamente interessante e ecléctica, demonstrando uma intenção cada vez maior por parte da Academia em premiar todo o tipo de cinema que se tem feito nas suas várias facetas.

Independentemente da relação de amor-ódio que muitos cinéfilos partilham com a noite dos Óscares, é ainda um grande momento que representa o culminar de uma indústria que se prima por artística, tanto como comercial.

O brilhante poster da Academia do ano 2007 é todo ele uma homenagem às frases mais emblemáticas do cinema que marcaram a cultura popular. Palavras que representam uma herança cinematográfica rica que atravessa décadas de arte e sucesso. É a própria memória do cinema que está representada neste poster e o seu poder em emocionar, cativar e expressar aquilo que nos torna humanos.

Sobre Babel e The Departed já comentei anteriormente, e nem um nem o outro encheram-me totalmente as medidas, embora o filme de Iñarritú mostre um maior virtuosismo na direcção e desenvolvimento narrativo.

Little Miss Sunshine de Jonathan Dayton e Valerie Faris

O cinema americano tem vindo desde os anos 70 a dedicar-se com grande apuro cinematográfico à temática da família disfuncional americana, começando por filmes como Ordinary People de Robert Redford em que a incapacidade de uma mãe de lidar com tragédia, e a sua própria natureza inflexível, afasta-a irremediavelmente do marido e filho.

Mas a temática terá voltado em força nos anos 90 com esse grande marco que representou American Beauty, capaz de retratar uma realidade americana desconfortável, ou filmes independentes que conquistaram um lugar entre os cinéfilos como In the Bedroom ou Little Children de Todd Field.

No entanto, mais do que o cinema, foi a televisão que conseguiu representar, através da comédia, as famílias americanas atípicas, com os seus traumas, neuroses, depressões, fobias, alegrias e angústias. The Sopranos é o exemplo mais flagrante, denunciando uma violência urbana extrema, latente nas acções dos protagonistas. Em contraponto, temos Os Simpsons, esse gigante da animação que se tornou icónico. Exemplos não faltam. Arrested Development, Family Guy, etc. Poderíamos dizer que em toda a boa série de televisão americana, existe o elemento disfuncional.

Little Miss Sunshine compõe-se por notas mais negras. O pai de família ilude-se com tentativas mal-sucedidas em fabricar um bom negócio, o avô de família é um produto dos anos 60 e 70, marcadas por guerra, drogas e sexo, não tendo evoluído desde então, o tio é um professor homossexual a reabilitar-se de uma tentativa de suicídio, o filho mais velho mostra-se determinado em se tornar um piloto da Força Aérea e a mais nova, o raio de sol do filme, apenas deseja fazer parte de um concurso de beleza.

Mas longe de nos perturbar com as desilusões que constantemente invadem a vida desta família, o filme tem o dom de transformar a decepção e amargura em esperança e alegria. E isso terá sido melhor representado pela filha mais nova, miss Sunshine, que irradia um afecto e uma alegria genuínos que contaminam os membros mais velhos da família. Ninguém fica indiferente a Abigail Breslin gordinha, de óculos enormes e com um sorriso esplendoroso a dançar no palco.

O cast masculino é excelente. Greg Kinnear, Alan Arkin e Steve Carrell formam um trio com intepretações genuinamente convincentes e o sentido de humor é tão bom que literalmente caímos da cadeira de tanto riso.

Sem qualquer dúvida, é o meu favorito de todos os nomeados. Desde que a temporada de prémios começou em Dezembro, tem ganho um número inesperado e formidável de prémios que o podem tornar o grande vencedor surpresa desta noite (para aqueles que duvidam, lembram-se de Crash?). A ser o vencedor, seria o reconhecimento devido e tardio da Academia ao género da comédia, sempre preterido em favor dos grandes dramas.

Letters from Iwo Jima de Clint Eastwood

A perspectiva do lado dos derrotados que faltava e tardou em chegar, mas ei-la presente aqui nesta seco, doloroso e no-nonsense filme sobre a derrota japonesa na batalha de Iwo Jima durante a II Guerra Mundial. Poderá não trazer nada de novo ou excitante à longa linha de filmes de guerra, mas a realização de Clint Eastwood atinge por vezes um grau emocional tão poderoso que o espectador comunga com a profunda tristeza que emana da tragédia de toda uma geração de homens desperdiçada em nome de uma causa perdida.

As intepretações de Ken Watanabe como General Kuribayashi e Kazunari Ninomiya como Saigo são muito intensas, em especial na forma como se expõem na escrita das cartas, ou na evocação do passado. A cena em que Saigo se recorda da sua vida de padeiro com a sua mulher são o melhor exemplo de uma cena perfeita e cheia de emoção, sem cair em sentimentalismos baratos.

Teria evitado umas quantas cenas moralistas, em especial a leitura da carta do soldado americano, mas ainda assim, não deixa de ser um filme notável, inteligente e sóbrio (atente-se nas cores, nunca se distanciando do cinzento). As suas hipóteses de vencer o Óscar de melhor filme são poucas, mas basta a nomeação para reconhecê-lo e consagrar, mais uma vez, a grande revelação que se tornou Clint Eastwood como realizador.

The Queen de Stephen Frears

Nunca teria escolhido The Queen como filme nomeado para a categoria dos Óscares. Embora a interpretação de Helen Mirren como rainha Isabel II e Michael Sheen como Tony Blair eleve esta obra para além de um telefilme, não é mais do que o retrato da forma como a morte de Lady Diana abalou a monaquia e quase a derrubou.

Eu confesso que o impacto da morte de Diana é fascinante em termos sociológicos, mas isso é uma opinião meramente pessoal. Pondo campanhas de marketing por parte de distribuidoras à parte, como pessoa que aprecia cinema, não consigo discernir nada que torne especial este filme, a não ser precisamente Mirren.

O filme nem seque tenta analisar as razões do impacto da morte de Diana na psique britânica, mas meramente a forma como a famíia real, tão antiquada e criada durante os tempos de guerra, reagiu de forma contida quando deveria ter expressado em público o seu próprio luto. Tem o benefício de retratar a implacável cultura britânica tablóide, uma das mais agressivas no mundo inteiro, e só é pena que não tenha exposto mais o culto doentio de celebridade que afectou de forma trágica a vida da princesa Diana.

O facto é que The Queen retratou de forma mais humana a rainha. Sentimos pena por esta mulher que não foi capaz de acompanhar a mudança e ia quase pagando um preço muito caro por essa incompreensão do seu próprio povo.

E o retrato de Blair é tão simpático que dei por mim a pensar que, se este homem era assim nos primeiros meses quando se tornou primeiro-ministro, então mais tarde vendeu a sua alma ao diabo e nunca mais a recuperou. Mas a frase que fica é a proferida por Cherie Blair, In the end, all labour prime-ministers go gaga for the queen. Desde que a Academia tambem não fique gaga por ela, a não ser na categoria de melhor actriz.

O meu favorito para melhor filme: Little Miss Sunshine

Possível vencedor: Little Miss Sunshine, The Departed ou Babel.

Advertisements

Permalink 3 Comments

Seven Samurai

February 11, 2007 at 3:50 pm (Cinema e TV)

Não há palavras fáceis para descrever a magnitude cinematográfica de um filme como Os Sete Samurais de Akira Kurosawa. Graças a um ciclo dedicado a anime e samurais, a FNAC Chiado ofereceu a oportunidade aos espectadores de assistirem ao filme completo no passado sábado.

Largamente considerado um das mais soberbas criações para cinema, nunca tinha visto o filme completo nos cerca de 200 minutos de duração, mas foi uma experiência imensamente satisfatória. Não só pela cinematografia inspirada, como pela história profundamente absorvente e complexa com a sua mensagem sobre honra, sacrifício, integridade e dever.

Mas é também um filme sobre Japão e o contexto particularmente difícil e delicado que atravessava no pós-guerra. A premissa inicial envolve uma vila sob a ameaça de bandos de bandidos que, no seu desespero, recorre ao auxílio de samurais. Mas pobres e indefesos, o seu pedido de ajuda é rejeitado até encontrarem um samurai veterano e bondoso, Kambei, que se compromete a reunir um grupo de Ronin, samurais sem mestre.

Mais do que a premissa de defesa samurai da vila de um bando de saqueadores, é a antiga divisão entre a classe dos samurais e os camponeses que se torna o foco de atenção do realizador ao longo do filme. O difícil e doloroso relacionamente entre ambas as classes é melhor personificado pela personagem do sétimo samurai, um homem que se esquecera do seu próprio nome, mais tarde baptizado de Kikuchiyo.

Interpretado pelo lendário actor japonês, Toshiro Mifune, com quem Kurosawa iniciaria uma longa colaboração dando à vida clássicos incontornáveis como Yojimbo, Rashomon e Throne of Blood, a personagem de Kikuchiyo é inacreditavelmente selvagem e quase bestial nos primeiros momentos de cena.

Bêbado, e incapaz de mostrar o seu valor perante Kambei que o rejeita, Kikuchiyo, longe de se resignar, persegue o grupo e assume-se como o comic-relief, com os seus trejeitos e atitudes picarescas. Na verdade, Mifune domina o ecrã tal é a sua força de presença, carisma e assomos de energia incontidos.

É a ele que pertencem algumas das cenas emocionais mais poderosas, como a impressionante sequência de diálogos em que Kikuchiyo, num assomo de raiva e amargura, acusa os samurai de serem os responsáveis pela miséria dos camponeses, e assim, revelando a sua própria origem humilde, como um filho de camponês. Ou a cena em que Kikuchiyo salva uma criança do fogo, lembrando-se então do seu próprio passado obscuro.

Há um profundo tom de lamento a envolver as cenas em torno dos sete samurais. Os homens, mulheres e crianças da aldeia conseguem desenvolver espantosamente uma relação comunitária com os seus protectores, sentindo-se seguros, mas as vidas dos samurais vão sendo ceifadas uma a uma, e com os seus sacrifícios e valor, demonstram a verdadeira essência do código samurai, mesmo que Kambei, o mestre líder, se considere como perdedor no fim.

No fundo, talvez seja essa mesmo a ideia que Kurosawa, ele próprio descendente de uma linha de samurais, pretendia transmitir, a de um retorno à pureza dos ideais do código de conduta destes homens, consciente de que muitos deles tinham enveredado por uma via de corrupção e tirania. O que é certo é que ainda hoje o samurai exerce um intenso fascínio nas mentes do Ocidente. E nos filmes de Kurosawa vive ainda.

Permalink 1 Comment

Strange land

February 9, 2007 at 7:19 pm (Strange Land)

Já viram a foto vencedora da última edição do Worldpress Photo?

Foi tirada por Spencer Platt, fotógrafo americano da agência Getty, e a legenda indica Young Lebanese drive through devastated neighborhood of South Beirut, 15 August.

Uma fotografia bizarra, não é? Foi tirada no primeiro dia de cessar-fogo no mais recente conflito israelo-libanês e é perfeita para compreender um país como o Líbano, tão dividido e fracturado pelas mais diversas identidades religiosas e comunitárias.

O fotógrafo captou na perfeição os intensos contrastes e contradições de um país a viver à beira de um constante caos. Num país habituado a anos e anos de violência súbita e agressões, chega um momento em que todo esse tumulto se torna parte da vida quotidiana.

Para a maioria das pessoas, torna-se incrível a ideia de que, no meio de destruição e caos, qualquer aparência de normalidade ainda seja possível. Mas o que impede esse grupo de jovens de assumirem o glamour e cosmopolitismo que são uma das imagens de marca de Beirute? Terão mesmo que sacrificar os seus estilos de vida perante a instabilidade que é a única constante numa cidade como Beirute, pequeno palco para os interesses e jogos de grandes poderes?

Esta fotografia é realmente notável na forma como capta a essência do Líbano. Em segundo plano, as mesmas ruínas, presentes e passadas, que assombram todas as memórias de Beirute. Mas em primeiro plano, beleza, extravagância, juventude e a recusa em baixar a cabeça perante a violência. E nunca, nunca abdicar dos padrões de vida a que todos temos direito, mesmo quando o medo reina nas mentes.

Permalink Leave a Comment

Desânimo em fuga

February 6, 2007 at 11:15 pm (Livros/BD/revistas)

Chegar a casa depois de um dia (desanimador) de trabalho é um momento muito ansiado. Mas torna-se também um momento especial quando temos uma surpresa à nossa espera. Surpresas que surgem do nada e transformam o desânimo em alegria. À minha espera, em cima da mesa de jantar, uma pequena caixa com uma oferta. Dois livros, vindos de quem menos esperava.

E sabendo o meu gosto por literatura fantástica, a pessoa que os oferece partilha comigo algum do seu próprio entusiasmo por ficção científica.

Dandelion Wine de Ray Bradbury, traduzido na colecção azul da Caminho como A Cidade Fantástica. Bradbury é o autor a quem devo a minha primeira incursão séria na ficção científica, graças a Fahrenheit 451.  O livro é, aparentemente, uma evocação semi-autográfica do autor, sem marcianos, sem nenhuma visão extraordinária em especial, a não ser a vivência intensa das alegrias de infância.

Guerreiros do Sol de James Blish da antiga série Antecipação da Galeria Panorama. Muito bem conservado, diga-se de passagem, para um livro tão antigo. Será a minha primeira abordagem deste autor, de quem primeiramente ouvi falar através de referências à famosa colecção Cities in Flight.

Duas ofertas inesperadas e o suficiente para fazer esquecer as pequenas misérias acumuladas do dia.

Permalink 2 Comments