Babel de Alejandro Iñárritu

January 8, 2007 at 5:45 pm (Cinema e TV)

O deserto é uma presença constante em Babel. A paisagem árida e solitária destituída de Humanidade. O deserto do México, o deserto de Marrocos, mas também as paisagens urbanas de Tóquio, onde cada habitante vive preso no seu mundo de solidão e isolamento.

E nestas paisagens movem-se personagens díspares entre si, cada um pertencendo a uma cultura distinta. Um casal de turistas americanos em Marrocos, dois jovens irmãos pastores na aridez das montanhas desérticas de Marrocos, uma rapariga surda-muda no Japão, uma imigrante ilegal mexicana a viver há muitos anos nos Estados Unidos. E o que partilham em comum é um sentimento universal de tragédia a dominar as suas vidas, como se não conseguissem fugir de uma escuridão a pairar, à espera da altura certa para se abater e envolvê-los em negritude.

É um filme também sobre decisões levadas até às últimas consequências. Confrontados com essas consequências, resistirão à pressão e à espiral demencial dos eventos que escapam ao seu controlo? Escaparão ao sentimento de impotência e vulnerabilidade extrema?

O cenário multicultural de Babel realmente não poderia ter sido melhor escolhido para transmitir esse sentimento de universalidade, o sentimento de uma congregação de seres humanos, dispersos pelo mundo, a partilharem a mesma angústia e as mesmas experiências, qualquer que seja o credo, raça, classe, origem. Mas todos ligados por um estranho acaso do destino. Tem sido algo bastante abordado recentemente, quer em cinema (até mesmo na filmografia anterior de Iñárritu) como em televisão com Lost ou Heroes.

No caso de Babel, dois desempenhos sobressaem acima dos outros. A da rapariga japonesa surda-muda e a da empregada doméstica mexicana. As cenas que envolvem Chieko raiam a perturbação, tanto pelo despudor como pela vivência extrema de uma adolescente no meio da turbulência e quase insanidade de Tóquio. Chieko comunica com o mundo da melhor forma que pode, descarregando uma frustração e agressividade que mais não faz do que ocultar uma grande carência de afecto e amor.

Emilia, a imigrante ilegal mexicana, tem que pagar um preço demasiado caro por um erro que cometeu. Mas quando abandonada no deserto e à procura de uma vivalma que a salvasse e às crianças, comungamos com o seu desespero que comove o coração mais duro.

Mas porquê então a leve desilusão que fica após o visionamento de Babel?

Talvez porque cansa a insistência na mesma mensagem. Todas as histórias em Babel representam o mesmo, desde a primeira imagem até à última. Há uma moral e uma ideia da qual nos apercebemos após os primeiros 15 minutos, mas que se prolonga por duas horas. Deveria isto ser encarado como um defeito? Não necessariamente. Mas faz perder a força e o brilho a uma obra que, não sendo má, linearizou demasiado o seu conteúdo, fazendo-me sentir estranhamente aborrecida.

5 Comments

  1. Ringthane said,

    Olá e parabéns por mais este teu projecto🙂 Bom ano!

  2. Hélder Beja said,

    Gostei de Babel. E confesso que me é difícil dizer que não a qualquer um dos filmes assinados por este senhor até ao momento.
    Também me impressionou o desempenho da menina surda-muda, bem como a dos dois miúdos marroquinos.
    Um senão (existiram muitos outros, certamente): parece-me extremamente forçada a ligação que Iñárritu estabelece entre o segmento japonês e o marroquino. Percebe-se perfeitamente que tinha duas boas histórias distintas para contar e que decidiu uni-las a todo o custo. Pecou.
    Cumprimentos.

  3. João C. said,

    Concordo com o Hélder, a união japão marrocos foi um pouco forçada. E o filme, apesar de bom, peca por longo. Quer dizer, gosto da forma como ele filma os ambientes, da fotografia rápida, mas… o filme com menos 30 minutos seria muito menos aborrecido.

  4. alfredo lima said,

    babel é uma obra-prima, não peca por ser longo,porque tudo faz sentido em sua diegese.a insistencia na mesma mensagem cria um clima pertubante e isso é demasiado importante para representar a sociedde conteporênea dita pós moderna.trata-se de uma das maiores obras dos últimos dez anos…

  5. Mônica T. said,

    Babel é uma das maiores obras primas q assisti no cinema!… cada momento do filme é extasiante pela beleza, adequaçao e originalidade…perfeito manejo da linguagem cinematográfica para expressar sentimentos humanos e diversidade cultural globalizada…espetacular!!!

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