O que recordo de 2006 nas Letras

January 7, 2007 at 3:15 pm (Livros/BD/revistas)

No ano 2006 posso não ter lido tanto quanto desejaria, e na recta final do ano, quase que me esqueci da sensação de desfolhar as páginas de um livro e deixar-me levar pela história, com tempo e sem obrigações que constantemente interrompessem a leitura.

Mesmo assim, tendo 2006 sido o primeiro ano em que me dei ao trabalho de anotar os livros que li, revejo agora essa lista e, com tristeza, concluo que poderia ter lido mais e poderia ter escrito também mais sobre o que aprendi.

Todavia, algumas leituras ficaram na memória.

The Drawing of the Dark de Tim Powers foi o primeiro livro de 2006, encontrado por 1 euro numa prateleira esquecida num canto de uma livraria parisiense. Com a neve e a lama a cobrir as ruas, e o frio intenso, não restava muito mais que ler no aconchego de uma casa perto de um aquecedor. A estranha e mágica aventura de Brian Duffy no ano de 1529, numa Europa ameaçada pelo avanço do império otomano, conduz os seus passos a uma Viena sitiada onde o coração espiritual do Ocidente se oculta numa … cervejaria.

Em Duffy reencarna uma antiga e mítica força que irá combater os exércitos do Islão, mas também a magia em ambos os lados da batalha irá exercer a sua influência e ser determinante para a derrota ou vitória final. Duffy não é mais do que o soldado comum, com alguns talentos, muitos defeitos, a sua própria história de lutas e amores. O seu sentido de humor e um certo sarcasmo contribuem também para o retrato de um homem subitamente envolvido numa complexa e gigantesca teia e da qual não pediu para fazer parte. O final poderia ter sido menos apressado, mas não deixa de ser um livro muito imaginativo e levado a cabo por um escritor de calibre.

The Stars my Destination de Alfed Bester é, indubitavelmente, o livro que eu deveria ter lido na minha adolescência, na mesma altura que li O Senhor dos Anéis de JRR Tolkien. Escrito na década de 50, conta a história extraordinária de um homem, Gully Foyle, que se encontra no início do romance na situação mais desesperada possível, reduzido quase a um animal, perdido entre os destroços de uma nave de espaço, a Nómada, até que surge uma outra nave, Vorga, mas que ignora o seu pedido de salvamento.

Como diria um dos oficiais em Apocalypse Now, Every man has a breaking point, e o breaking point de Foyle é atingido nesse preciso momento em que vê a salvação recusada. Consumido por uma raiva e desejo de vingança inumanos, ele irrompe do seu estado de letargia e abandono para se tornar num dos homens mais perigosos do sistema solar.

Para conseguir a sua vingança, Foyle transforma-se num homem sofisticado, rico e inteligente, capaz de lidar com a nata da sociedade, representada pelo milionário Presteign. Todos perseguem Foyle implacavelmente, pois só ele sabe o segredo capaz de travar uma guerra interplanetária.

No entanto, esse segredo é secundário face à evolução de Foyle que assistimos; uma das personagens mais fascinantes, começa por ser um vilão desprezível, assassino, com tendências de psicopata, mas lentamente se torna em alguém com uma consciência humana, humanizando até os seus próprios inimigos nesse processo de transformação. Ele é condenado e admirado ao mesmo tempo, e a sua natureza de tigre que se reflecte no rosto nunca é completamente apaziguada, mesmo quando tenta exercer controlo sobre as suas emoções.

Há muito mais para dizer sobre as páginas deste romance, da autoria de Alfred Bester, e é espantoso o facto de ter sido escrito nos anos 50, mas ainda hoje o livro apresenta as suas ideias frescas e um ritmo de acção alucinante e sem falhas, com cenas maravilhosas e incrivelmente imaginativas.

E o final é provavelmente um dos melhores fins em Ficção Científica. Raramente, encontra-se um final tão satisfatório como este. Na realidade, o livro inteiro é satisfatório e a cada releitura uma pessoa só irá vislumbrar novas coisas. The Stars my Destination é talvez o melhor exemplo para perceber o quão longe alcançam os braços da Ficção Científica, numa busca incessante de fronteiras, fronteiras essas que foram tão facilmente quebradas por Gully Foyle.

prestige

The Prestige de Christopher Priest. Segredo e ilusão são as palavras chaves que dominam a narrativa de Alfred Borden e Rupert Angiers, dois mágicos de palco do séc. XIX que se envolvem numa rivalidade sem precedentes, levando-os a cometerem actos monstruosos. É através dos seus descendentes, Katherine Angiers e Andrew Westley, que vão sendo revelados os conteúdos dos diários de Borden e Angiers. E se a perspectiva de Borden nos apresenta um homem dominado pela sua profissão, a ponto de fazer enormes sacrifícios, é o ponto de vista de Rupert Angiers que nos faz ver o quanto cada um foi tão longe na sua rivalidade e na preservação dos seus segredos a todo o custo, atingindo um ponto sem retorno.

O romance brilha na forma como é construído à volta das ilusões que os próprios querem manter. A narrativa de Borden vive de aparências, assim como ele próprio viveu da aparência. Se o propósito das personagens é o de enganar os espectadores, o propósito do livro será precisamente também o de enganar o leitor. E nesse aspecto é notável como Priest controlou todos os aspectos da história até ao clímax final.

No fim, resta uma imensa amargura e tristeza por terem desperdiçado uma importante parte das suas vidas numa confrontação inútil, mas que acabou por se tornar desumana. Não é um livro perfeito, mas Priest obtém um fulminante prestígio pelo conjunto da obra.

A Sombra do Torturador de Gene Wolfe , já comentado anteriormente neste blogue aqui.

North and South de Elizabeth Gaskell. O romance inglês do séc. XIX mais adorável que li este ano. Foi um prazer descobrir este livro que se tornou inestimável para mim. North and South poderá parecer muito fiel ao esquema adoptado por Jane Austen em Orgulho e Preconceito, mas Gaskell expõe a sua própria experiência pessoal do mundo emergente industrial do Norte de Inglaterra e o princípio das confrontações entre mestres e operários, cada um profundamente desconfiado do outro.

Com essas cenas sociais como pano de fundo, lemos a história de uma família do Sul, forçada a abandonar a sua comunidade e adaptar-se à realidade hostil e agressiva do Norte. Margaret Hale é a heroína que irá tentar de tudo ao seu alcance para se integrar na nova casa, mas solidão e incompreensão constantemente a envolvem. Até mesmo o seu próprio orgulho a faz desdenhar a classe dos mestres e donos de fábricas, representada acima de tudo pelo amigo do pai, John Thornton.

No entanto, Margaret gradualmente apercebe-se das qualidades de honra, integridade e disciplina de trabalho encarnadas em Thornton, e tão necessárias para uma harmonia de classes tão distintas. O amor cresce, é rejeitado, tornando-se ainda mais forte, até eventualmente se concretizar. E adoramos cada detalhe e cada pensamento até esse final.

Flowers for Algernon de Daniel Keyes. Se alguma vez eu li um pedaço de prosa profundamente triste, terá sido Flowers for Algernon. A leitura do relato na primeira pessoa de Charlie Gordon, um deficiente mental, é perturbante e comovente, para dizer o minímo. São os erros de escrita e a ingenuidade e infantilidade que dominam a primeira parte da narrativa. Charlie não compreende o mundo como nós compreendemos, o que faz com que as suas descrições de vida sejam pontuadas por uma profunda inocência. Mas perante a crueldade do mundo a que por vezes é submetido, a sua ignorância poderá ser encarada como uma benção.

Até que a vida de Charlie muda ao ser submetido a uma experiência científica que permitirá desenvolver o seu intelecto. Gradualmente, os erros ortográficos diminuem, as capacidades de percepção de Charlie são amplificadas e ele começa a compreender a realidade em seu redor. A evolução é impressionante. De retardado mental, ele transforma-se num génio, mais inteligente do que os próprios cientistas e professores que convivem com ele.

E nesse processo de transformação, dá-se o despertar emocional e sexual de Charlie, ao mesmo tempo que cresce nele amargura por uma sociedade com que não se identifica de todo. Com o fracasso da experiência científica, dá-se o rápido declínio de Charlie e o regresso ao seu estado original. E ao lermos a gradual perda de tudo o que aprendeu, encarando-se ao mesmo tempo como um fardo para as pessoas que o amam, rendemo-nos a esta narrativa impressionante e profundamente humana.

A banda-desenhada mereceu também a minha atenção no ano passado, e destaco as obras de Alan Moore, Watchmen e V For Vendetta, que já comentei noutros sítios, tendo-me impressionado fortemente.

Y-The Last Man de Brian K. Vaughan e Pia Guerra foi outra grande surpresa. Também A History of Violence de John Wagner, com o excelente filme de David Cronenberg a complementá-lo. E por fim, A Contract with God de Will Eisner, incisivo e duro na sua descrição das vidas de judeus que viveram nos Estados Unidos no início do séc. XX.

Num dos próximos posts, escreverei sobre o que recordo de 2006 em cinema e televisão.

4 Comments

  1. acrisalves said,

    🙂 Mais umas coisitas para acrescentar à wishlist
    Eheh😉

  2. artur said,

    The Stars My Destination e Flowers for Algernon são clássicos indiscutíveis. A tristeza no final da ascensão e queda de Charlie é avassaladora.

  3. Bruno said,

    Não sabia que também andavas a ler o Y the Last Man.

    Não é das minhas séries preferidas, mas tem sido bastante consistente em termos de qualidade… Diria até que tem vindo a ficar melhor com o tempo e na última trade já se começa a perceber a razão dos homens todos terem morrido.

    Tens de pedir-me mais coisas porque eu esqueço-me de perguntar se estás interessada em ler. Acho que provavelmente ias gostar do Fables (embora confesse que também não é das minhas séries preferidas). Das séries regulares actuais da Vertigo recomendo o Lucifer (já acabou mas ainda estou à espera do último trade) sempre que posso e ha uma muito recente chamada American Virgin que também promete. Mais relacionado com ficção científica, provavelmente ias gostar do 100% do Paul Pope. Foi um dos comics de que gostei mais do ano passado. E de certeza que também vais gostar do livro novo do Scott McCloud chamado “Making Comics”.

    Entre as compras dos últimos tempos está o “Lost Girls” do Alan Moore, mas isso é outra história… Acho que fiquei chocado lol, ainda nem sei bem o que pensar daquilo.

  4. Safaa Dib said,

    Então não sabias, Bruno, que andava a ler o Y The Last Man? E houve um encontro que passei o tempo a comentar o comic com o Darjeeling que também andava bastante entretido com a série. Ainda não li a última trade, não sei ainda nada sobre a razão que levou à morte dos homens.

    Acabei foi de ler o “The Fountain” que me emprestaste e… é estranho. Mas ainda vou escrever um post sobre ele.

    Tenho agora andada entretida com a BD de Marjane Satrapi, de um sentido de humor delicioso.

    Já estive a dar um sneak no Lost Girls e não gostei muito do traço. Mas hás-de me emprestar. Tens o ano todo de 2007 para me emprestar aos poucos essas maravilhas que tu tens.😛

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