Remake Infernal

December 10, 2006 at 12:39 pm (Cinema e TV)

Aviso: Contém spoilers em relação ao filme The Departed.

No Indie Lisboa de 2005, se a memória não me atraiçoa, assisti à exibição do Infernal Affairs no cinema King. Um dos mais poderosos filmes a sair da fornalha do cinema asiático nos últimos anos, Infernal Affairs reunia duas estrelas de peso do cinema de Hong Kong, Tony Leung, conhecido pela sua presença assídua nos filmes de Wong Kar Wai (In the Mood for Love, Chungking Express, 2046), e Andy Lau, também com um currículo impressionante onde figuram os maiores nomes do cinema de origem chinesa.

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Em Infernal Affairs, a palavra-chave é dualidade. Em cada protagonista principal, vemos representada uma vida dupla, as escolhas que implicam essa vida e as consequências que daí advém. Num jogo em tensão crescente, as identidades de Andy Lau e Tony Leung confundem-se e perdem-se no meio das lealdades e traições, mas muitas vezes reflectem-se um ao outro.

Andy Lau interpreta a personagem de um detective de polícia bem sucedido, secretamente ao serviço das tríades chineses, lideradas por um chefe cruel e implacável. Tony Leung é o polícia à paisana, infiltrado nas tríades há tanto tempo que começa a duvidar da sua sanidade, e apenas o comandante da polícia conhece a sua verdadeira identidade. Ambos os homens irão entrar numa corrida contra o tempo para desmascarar as suas verdadeiras identidades, até se verem frente a frente, na confrontação final.

O que é fascinante no filme é a forma como a tensão é construída em torno destes dois protagonistas e, se no caso de Andy Lau, a ambivalência demonstra-o como um homem de eficiência brutal, frio e contido, no caso de Tony Leung mostra um coração e uma alma à beira da ruptura, um homem que apenas deseja recuperar a sua identidade e vida normal.

Uma das cenas que mais gosto no filme é a cena inicial em que ambos os protagonistas principais, num encontro casual, travam uma conversa trivial sobre audiofilia, e sentam-se num sofá a escutarem e comentarem uma das faixas que constitui a banda-sonora do filme. Na recta final do filme, a mesma música volta a interpôr-se no clímax violento e inesperado que põe um fim à confrontação. São estes pequenos pormenores que tornam o filme tão sólido, e juntando a esta subtileza, o estilo de acção dos filmes de Hong Kong e o próprio carisma dos actores, Infernal Affairs é catapultado para a linha frente de thrillers policiais, na mesma onda de Heat e The Usual Suspects.

Tanto potencial demonstrado fez com que um dos realizadores lendários do cinema de Hollywood, Martin Scorsese, decidisse realizar um remake. Scorsese fundou a sua reputação com clássicos como Mean Streets, Taxi Driver, Raging Bull, Goodfellas, apenas para mencionar alguns da sua filmografia mais icónica. Nunca ganhou um Óscar, facto que ainda hoje é motivo de frustração para o realizador, embora nos últimos anos a pressão sobre a Academia para premiá-lo seja cada vez maior.

Ainda bastante activo na realização, a sua filmografia mais recente está, no entanto, longe do brilhantismo da década de 70, 80 e inícios de 90. O último grande filme sobre crime de Scorsese terá sido Casino, e mesmo esse era já uma repetição e reciclagem das velhas temáticas e velhas personagens sempre presentes nos filmes do realizador de origem italiana.

Este ano, Scorsese apostou forte de novo na temática da violência e crime, com o remake de Infernal Affairs, a que atribuiu o título The Departed, alusão religiosa ao tema bíblico The Faithful Departed, uma referência em que está implícita a ideia de que as almas baptizadas que não expiaram os seus pecados nunca atingirão Graça.

E de facto, o filme e as personagens estão a léguas de qualquer graça. O que era curto, incisivo e seco em Infernal Affairs, tornou-se arrastado, ridículo e cansativo para o espectador em The Departed. Considerei esta obra de Scorsese um dos piores filmes do ano, tão só pela intepretação incrivelmente auto-consciente de Jack Nicholson, claramente a actuar tendo em mente uma nomeação de Óscar.

Gradualmente, o realizador perde o controlo da trama e cedo envolve-se numa confusão de twists inconsequentes, até desembocar num final doloroso de ver pelo seu completo fracasso.

A mim pareceu-me que o filme fracassou não porque a história estivesse mal contada porque realmente tinha um grande potencial dramático já demonstrado por Hong Kong, mas porque Scorsese insistiu em retirar do seu passado as velhas obssessões, nomeadamente, o mundo do crime nas ruas, a violência psicótica sempre presente nos líderes das mafias de origem italiana e irlandesa, a impotência/potência sexual, as drogas e o constante estado alucinatório que induzem, a riqueza opressiva e opulenta, e especialmente, o temor pelas vidas e a paranóia sempre presente.

As melhores cenas de The Departed são as cenas que recriam fielmente os momentos mais tensos do filme original. A morte do inspector de polícia interpretado por Martin Sheen, as operações de polícia à caça dos bad guys, e os paralelos traçados entre os dois jovens polícias, interpretados por Matt Damon e Leonardo DiCaprio. Mas Scorsese perde tempo de câmara e solidez narrativa ao dispersar-se com as crises psicóticas de Frank Costello, interpretado por Jack Nicholson, que cansam e retiram protagonismo à confrontação entre os dois jovens polícias.

Damon é irritante na sua pose de superioridade e na forma como distorce todos os planos da polícia. Não é minha intenção comparar com Infernal Affairs, mas note-se a interpretação de Andy Lau, sempre tão controlada, em oposição ao descontrolo e constante medo de Damon. As personagens de Scorsese mostram-se tão mais à beira do descontrolo, e não que isso seja um defeito, simplesmente retiram toda a força e subtileza à intriga.

E era mesmo necessário introduzir um triângulo amoroso em que a mesma mulher atrai ambos os homens? Não que Vera Farmiga não cumpra bem o seu papel, mas era mesmo necessário introduzir os velhos clichés?

Quanto a Dicaprio, mostra um lado vulnerável e torturado, face à convivência diária e íntima com Frank Costello e os seus comparsas. O destaque vai para Ray Winstone, a substituir Joe Pesci na personagem violenta, demencial e amoral que, onde quer que vá, inunda tudo de poças de sangue.

Vejo em The Departed os velhos temas scorsesianos mastigados e mastigados até à exaustão, esticados até ao limite, até desembocarem num final que perde a credibilidade toda perante o ridículo que se tornou, com todos aqueles tiroteios inconsequentes (não foi à toa que espectadores se riam na sala de cinema nos momentos finais do filme).

E a própria velha lição moral de Scorsese, em que os maus partilham o mesmo destino que os bons, soa a falso. Todas as personagens principais são mortas, em retribuição pelas suas traições e lealdades. No entanto, a morte da personagem de Damon no último minuto não poderia soar mais forçada e mal realizada. Tornou-se mais um tiroteio inconsequente num filme pessimamente gerido entre os twists maníacos de Jack Nicholson e os dois rapazes que tentaram, mas falharam (DiCaprio em menor medida) em transmitir o pathos, a negritude e a amargura de uma existência dupla que conduz a um caminho sem nenhuma possível redenção.

But, please, just give Scorsese the goddamn Oscar!!

6 Comments

  1. Hélder Beja said,

    Não concordo com algumas partes do texto mas também a mim me parece que The Departed está longe de ser o regresso de Scorsese aos tempos áureos de Main Streets e Taxi Driver. De todos os pedaços menos bons do filme, o final é o pior. De acordo. Mas DiCaprio, esse, pareceu-me muito bem. Tal como a banda sonora.
    Cumprimentos.

  2. Safaa Dib said,

    Sim, nem critico muito o DiCaprio no meu texto. Ele e a Vera Farmiga estiveram bem, mas estão longe de redimir o filme.

  3. Hélder Beja said,

    Ah, e eu não vi Infernal Affairs, porque simplesmente ainda não o tive ao alcance das mãos.. Uma lástima. Gostei do post, mostra conhecimento de causa. E como isso importa..
    Cumprimentos.

  4. Lau-san said,

    Ainda te lembras do dia em que te pedi ajuda no irc para a tradução do Infernal Affairs?

    Merry Christmas Lyanna-san🙂

    P.S. Muito obrigado pelas óptimas sugestões que me fizeste a nível de cinema. Desde o Rashômon, até ao Dr Strangelove, passando por Letter From An Unknown Woman, An Affair to Remember e o inesquecível Nausicaä of the Valley of the Winds😉

  5. Safaa Dib said,

    LOL! Não acredito! Parece que já foi há tanto tempo, numa outra vida!

    Encontraste o meu blogue por acaso? Que coincidência engraçada.

    Merry Christmas, Lau-san, e não tens nada que agradecer as sugestões, o prazer foi todo meu.🙂

  6. Nocas said,

    Vi os infernal…. os 3 (viste os 3?!?!?!?!?!) e achei-os geniais! Não me apetece ir ver o Di Caprio….

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