Uma wishlist especial

December 3, 2006 at 4:28 pm (Livros/BD/revistas)

Com o trabalho e todas as responsabilidades que acarreta, vem a glória de poder gerir o nosso próprio ganha-pão da forma como melhor nos aprouver. Ninguém pode interferir na forma como gerimos o nosso ganho ao fim do mês. É um bom sentimento que compensa, em parte, as horas de trabalho duras e as frustrações diárias que acompanham o trabalho.

E como se avizinha a época de festas, é tempo para nos mimarmos um pouco com presentes, objectos que desejámos ao longo do ano e que temos mais possibilidades de adquirir nesta altura do ano.

Portanto, para celebrar o meu primeiro mês de trabalho, elaborei uma wishlist de objectos que desejo obter a que me irei oferecer a mim própria. Nada de excentricidades. Na realidade, são livros.

riverofgods.jpg

River of Gods de Ian McDonald. A visão de uma Índia futurista e cyberpunk, onde os deuses do Hinduísmo vivem à beira do rio mãe, o rio Ganges, e onde o sub-continente foi dividido em nações de acordo com as suas identidades culturais e religiosas. Povoado da exuberância indiana e personagens extraordinárias, como é possível não nos sentirmos atraídos por este romance que se adivinha poderoso, complexo e um grande desafio ao leitor?

Shakespeare: The Biography de Peter Ackroyd. Ackroyd é considerado justamente um dos grandes biógrafos em língua inglesa, pelo seu talento, rigor e estilo em descrever as vidas e cidades da Brittania dos tempos modernos e antigos. Através do material riquíssimo e cheio de potencial da literatura inglesa, Ackroyd expressa como ninguém a turbulência e dinâmica que move as engrenagens das grandes cidades, em especial, Londres, à qual dedicou um estudo brilhante e extenso, London: The Biography. Mas não só Londres, como também os seus escritores, como Dickens, Blake, Thomas Chatterton, Thomas More e Ezra Pound, mereceram o olhar observador e erudito de Ackroyd, capaz de contar as suas histórias da forma mais fascinante e apelativa. Shakespeare foi o último escolhido, e extremamente difícil de abordar pela obscuridade dos factos que rodeiam a sua vida. Ackroyd é também um escritor de grande mérito, autor de Hawksmoor, Chatterton e The House of Doctor Dee, obras de ficção por vezes ofuscadas pelo brilhante academismo do seu autor, mas merecedoras de toda a atenção.

Little, Big de John Crowley. Há anos que ouço o nome de John Crowley proferido como algo muito semelhante a um génio. E talvez ele seja um. Conheço tão pouco sobre o autor que a única forma de corrigir este lapso é ler a sua opus magnum, Little, Big, a história de Smoky Barnable, um homem que se apaixona por uma mulher e irá viver com ela num lugar que não está indicado em nenhum mapa. Os meus instintos dizem-me que irei ler algo aqui que nunca li antes.

Do mesmo autor, ir-me-ão emprestar Lord Byron’s Novel: The Evening Land.

Recriar a suposta obra-prima perdida da autoria de Byron num romance? Recriá-la e ficcionalizar a vida de Byron e ainda juntar a toda esta construção literária e biográfica, elementos como informática, criptografia e matemática? Isto promete ser algo totalmente único e impressionante.

Os que me conhecem sabem da minha atracção pela sociedade vitoriana, e soube que Tim Powers foi o autor de um dos mais importantes romances de fantasia e ficção científica da década de 80, The Anubis Gates, onde o escritor evoca o mundo do séc. XVII e constrói uma estranha odisseia que envolve intrigas políticas e históricas no tempo de Napoleão, lobisomens, literatura inglesa romântica, e viagens no tempo. Depois de ter lido e gostado de The Drawing of the Dark, confio plenamente no talento de Tim Powers.

Jerusalem Poker de Edward Whittemore. Um dos livros que mais me impressionou em 2005 foi The Sinai Tapestry de um autor norte-americano, antigo agente da CIA, mas que durante muitos anos viveu no Médio Oriente. Whitemore percebeu a complexidade das relações culturais e o profundo apelo de milénios de história que deixaram a sua marca no imaginário dos seus livros. O quarteto continua com Jerusalem Poker, o 2º volume, e cada livro deve ser saboreado com vagar. Só assim, podemos arrebatar-nos por esta ficção espantosa onde Jerusalém seduz e fascina todos os seus habitantes ao longo dos séculos.

Grendel de John Gardner. Não sou nenhuma estranha a Beowulf, o poema épico anglo-saxónico que deu fama à lenda de Grendel. Mas a ideia de criar um romance do ponto de vista de Grendel, uma criatura capaz de nos dizer o significado da vida e visionar a humanidade como um outsider, é uma magnífica premissa para um romance.

Outros livros que certamente irei tentar ler em 2007 são: Air de Geoff Ryman, A Princess of Roumania de Paul Park e The Carpet Makers de Andreas Eschbach.

Tenho que arranjar o tempo para ler tudo isto. Tenho que arranjar o tempo para ler tudo isto. Tenho que arranjar o tempo para ler tudo isto…

8 Comments

  1. Bruno said,

    Isso sim é um cabaz de Natal🙂

    Este ano acho que eu vou ser muito mais modesto, só quero comprar o Lurulu (o último do Jack Vance que ainda não tenho) e o River of Gods que também estava na lista. Ou pelo menos é esse o plano, a ver se me consigo conter.

  2. Rogério said,

    O Drawing of the Dark é claramente uma primeira obra. Se gostaste, notarás uma evolução no The Anubis Gates.

  3. Artur said,

    Isso tempo arranja-se sempre. Desde que não falte cafeína…

  4. Mso said,

    Sei perfeitamente, a sensação de gerir o nosso ganha pão, aquele prazer de após todas as responsabilidades , ainda ter “tempo” para de vez em quando nos dar-nos um mimo a nós próprios, de irmos contra todas as regras de prioridades de leitura, e apaixonar-nos por um livro que acabamos de ver, levá-lo para casa e desfolhar as suas páginas até ao final. Sim é um prazer que se ganha quando temos autonomia financeira.

    Parabéns pelo cantinho que não conhecia.

  5. Luís Rodrigues said,

    Not quite, Roger: o primeiro livro do Tim Powers chama-se _The Skies Discrowned_, tendo escrito outros dois antes do _Drawing of the Dark_.

  6. Safaa Dib said,

    Bruno, em contenção de despesas logo no Natal?? Tu sabes bem que não resistes a comprar mais, confessa lá.

    Artur, o problema é quando não somos viciados em cafeína.😉

    Mso, obrigado. É realmente uma óptima sensação a de ter alguma autonomia financeira para nos podermos mimar a nós próprios de vez em quando.

  7. Rogério said,

    Luís, esses não contam😉
    Acho que são serializações num universo partilhado.

  8. Thanatos said,

    E o Little, Big teve agora uma edição limitada comemorativa do 25º aniversário. Para o coleccionador interessado os preços começam nos 120 dólares para a trade edition indo até aos 300 dólares pela numerada. A edição super especial de 25 exemplares lettered infelizmente já esgotou, mesmo custando 900 dólares.

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