A Lula e a Baleia

The Squid and the Whale é um genuíno produto indie. Quer isto dizer que, na melhor tradição do cinema independente americano, The Squid and the Whale tenta cumprir a sua tarefa. Neste caso em particular, o de reflectir sobre as vicissitudes e agruras que envolvem o doloroso processo da desagregação familiar. Aparentemente, alguns dos melhores filmes indies dos últimos anos têm-se dedicado a esta temática e a explorar o lado negro e perturbante da sociedade americana que a maioria preferiria esquecer.
Baseado nas memórias e experiência de Noah Baumbach, que se terá inspirado na figura paterna do romancista Jonathan Baumbach, A Lula e a Baleia expõe um casal à beira da ruptura, incapaz de conviver um com o outro, de comunicar sem que a agressividade e ressentimento surjam à flor da pele.
A decisão do divórcio é comunicada aos dois filhos adolescentes do casal e então é retratada a forma como a separação afecta as suas vidas e o modo como encaram o mundo e, em especial, as figuras da mãe e o pai.
Jeff Daniels impõe-se como o pai que aceita apenas ver a realidade tal como a sua mente a molda. Laura Linney como a mãe que procura reafirmar a sua voz e identidade, após anos a viver na sombra do marido, numa interpretação que desafia com o seu silêncio e contenção a raiva e frustração sempre emergente do marido.
E em paralelo, assistimos às obsessões sexuais dos filhos, intensificadas com a vida sexual da mãe e a revelação das suas relações extramaritais.
Mas apesar das interpretações sólidas de Jeff Daniels e Laura Linney, e da interessante metáfora da lula e baleia como um símbolo do confronto entre pai e mãe, o filme não produz tanto impacto que deveria. E por estranho que pareça, fica a sensação de ser mais um indie, faltando-lhe o toque especial e cativante que o preserva nas nossas memórias. Sabe a pouco e é uma pena.
Welcome to your world

But look at 2006 through a different lens and you’ll see another story, one that isn’t about conflict or great men. It’s a story about community and collaboration on a scale never seen before. It’s about the cosmic compendium of knowledge Wikipedia and the million-channel people’s network YouTube and the online metropolis MySpace. It’s about the many wresting power from the few and helping one another for nothing and how that will not only change the world, but also change the way the world changes.
The tool that makes this possible is the World Wide Web. Not the Web that Tim Berners-Lee hacked together (15 years ago, according to Wikipedia) as a way for scientists to share research. It’s not even the overhyped dotcom Web of the late 1990s. The new Web is a very different thing. It’s a tool for bringing together the small contributions of millions of people and making them matter.
Este ano, mais do que nunca, provou ser a confirmação de um extraordinário fenómeno que atingiu proporções muito para além do possivelmente imaginado. A revista Time elege como pessoa do ano os milhões de indivíduos que formam a comunidade mundial online e que agora detém uma voz mais forte do que nunca.
A sociedade da informação é alterada à velocidade do nosso próprio poder criativo e inovador. Anónimos fazem a diferença e forçam governos e instituições a prestar atenção. Guerras e atrocidades são registadas e testemunhadas em primeira mão, através de câmaras. Os grandes e os não tão humildes são observados e julgados pelos olhos do público, da mesma forma que o Big Brother gosta de nos observar. Pode ser tudo um produto amador, por vezes perigoso e de natureza totalmente imprevisível, e nem todos têm acesso a ele, ainda sendo uma ferramenta longe do alcance de todos.
Mas pela primeira vez existe um sentimento de verdadeira democracia, de verdadeira expressão, seja pelos idiotas ou pelos intelectuais, pelos pretensiosos ou apenas os verdadeiramente curiosos. Democracia virtual que provavelmente um dia irão tentar censurar e limitar. Mas a revolução já começou e os blogs, videos, sites, mails, unem-se numa enorme massa de informação e entretenimento e cabe a nós, com o movimento dos nossos dedos, escolher o que é ou não digno da nossa atenção.
Irá o excesso de democracia conduzir a anarquia? Ou retirar a força e legitimidade aos meios de informação tradicionais? Não se estes forem capazes de se adaptarem e evoluir de acordo com o ritmo trepidante que a realidade virtual impõe.
Na mesma onda, o texto de Bruce Sterling na Wired, um dos escritores de ficção científica de maior prestígio, confirma e enaltece.
It becomes clear that we’re entering a new era, the post-Internet age, a world in which the Net will be everywhere, like the air we breathe, and we’ll take it for granted. It will be neither the glossy nirvana of technophilic dreams nor the dystopia of traditionalist nightmares. It will look a lot like today – but with higher contrast, sharper focus, and a wide-angle lens.
[…]
The Internet, for instance, crawled out of a dank atomic fallout shelter to become the Mardi Gras parade of my generation. It was not a bolt of destructive lightning; it was the sun breaking through the clouds.
Por isso, um brinde a nós. May we grow and prosper.
Remake Infernal
Aviso: Contém spoilers em relação ao filme The Departed.
No Indie Lisboa de 2005, se a memória não me atraiçoa, assisti à exibição do Infernal Affairs no cinema King. Um dos mais poderosos filmes a sair da fornalha do cinema asiático nos últimos anos, Infernal Affairs reunia duas estrelas de peso do cinema de Hong Kong, Tony Leung, conhecido pela sua presença assídua nos filmes de Wong Kar Wai (In the Mood for Love, Chungking Express, 2046), e Andy Lau, também com um currículo impressionante onde figuram os maiores nomes do cinema de origem chinesa.
Em Infernal Affairs, a palavra-chave é dualidade. Em cada protagonista principal, vemos representada uma vida dupla, as escolhas que implicam essa vida e as consequências que daí advém. Num jogo em tensão crescente, as identidades de Andy Lau e Tony Leung confundem-se e perdem-se no meio das lealdades e traições, mas muitas vezes reflectem-se um ao outro.
Andy Lau interpreta a personagem de um detective de polícia bem sucedido, secretamente ao serviço das tríades chineses, lideradas por um chefe cruel e implacável. Tony Leung é o polícia à paisana, infiltrado nas tríades há tanto tempo que começa a duvidar da sua sanidade, e apenas o comandante da polícia conhece a sua verdadeira identidade. Ambos os homens irão entrar numa corrida contra o tempo para desmascarar as suas verdadeiras identidades, até se verem frente a frente, na confrontação final.
O que é fascinante no filme é a forma como a tensão é construída em torno destes dois protagonistas e, se no caso de Andy Lau, a ambivalência demonstra-o como um homem de eficiência brutal, frio e contido, no caso de Tony Leung mostra um coração e uma alma à beira da ruptura, um homem que apenas deseja recuperar a sua identidade e vida normal.
Uma das cenas que mais gosto no filme é a cena inicial em que ambos os protagonistas principais, num encontro casual, travam uma conversa trivial sobre audiofilia, e sentam-se num sofá a escutarem e comentarem uma das faixas que constitui a banda-sonora do filme. Na recta final do filme, a mesma música volta a interpôr-se no clímax violento e inesperado que põe um fim à confrontação. São estes pequenos pormenores que tornam o filme tão sólido, e juntando a esta subtileza, o estilo de acção dos filmes de Hong Kong e o próprio carisma dos actores, Infernal Affairs é catapultado para a linha frente de thrillers policiais, na mesma onda de Heat e The Usual Suspects.
Tanto potencial demonstrado fez com que um dos realizadores lendários do cinema de Hollywood, Martin Scorsese, decidisse realizar um remake. Scorsese fundou a sua reputação com clássicos como Mean Streets, Taxi Driver, Raging Bull, Goodfellas, apenas para mencionar alguns da sua filmografia mais icónica. Nunca ganhou um Óscar, facto que ainda hoje é motivo de frustração para o realizador, embora nos últimos anos a pressão sobre a Academia para premiá-lo seja cada vez maior.
Ainda bastante activo na realização, a sua filmografia mais recente está, no entanto, longe do brilhantismo da década de 70, 80 e inícios de 90. O último grande filme sobre crime de Scorsese terá sido Casino, e mesmo esse era já uma repetição e reciclagem das velhas temáticas e velhas personagens sempre presentes nos filmes do realizador de origem italiana.
Este ano, Scorsese apostou forte de novo na temática da violência e crime, com o remake de Infernal Affairs, a que atribuiu o título The Departed, alusão religiosa ao tema bíblico The Faithful Departed, uma referência em que está implícita a ideia de que as almas baptizadas que não expiaram os seus pecados nunca atingirão Graça.
E de facto, o filme e as personagens estão a léguas de qualquer graça. O que era curto, incisivo e seco em Infernal Affairs, tornou-se arrastado, ridículo e cansativo para o espectador em The Departed. Considerei esta obra de Scorsese um dos piores filmes do ano, tão só pela intepretação incrivelmente auto-consciente de Jack Nicholson, claramente a actuar tendo em mente uma nomeação de Óscar.
Gradualmente, o realizador perde o controlo da trama e cedo envolve-se numa confusão de twists inconsequentes, até desembocar num final doloroso de ver pelo seu completo fracasso.
A mim pareceu-me que o filme fracassou não porque a história estivesse mal contada porque realmente tinha um grande potencial dramático já demonstrado por Hong Kong, mas porque Scorsese insistiu em retirar do seu passado as velhas obssessões, nomeadamente, o mundo do crime nas ruas, a violência psicótica sempre presente nos líderes das mafias de origem italiana e irlandesa, a impotência/potência sexual, as drogas e o constante estado alucinatório que induzem, a riqueza opressiva e opulenta, e especialmente, o temor pelas vidas e a paranóia sempre presente.
As melhores cenas de The Departed são as cenas que recriam fielmente os momentos mais tensos do filme original. A morte do inspector de polícia interpretado por Martin Sheen, as operações de polícia à caça dos bad guys, e os paralelos traçados entre os dois jovens polícias, interpretados por Matt Damon e Leonardo DiCaprio. Mas Scorsese perde tempo de câmara e solidez narrativa ao dispersar-se com as crises psicóticas de Frank Costello, interpretado por Jack Nicholson, que cansam e retiram protagonismo à confrontação entre os dois jovens polícias.
Damon é irritante na sua pose de superioridade e na forma como distorce todos os planos da polícia. Não é minha intenção comparar com Infernal Affairs, mas note-se a interpretação de Andy Lau, sempre tão controlada, em oposição ao descontrolo e constante medo de Damon. As personagens de Scorsese mostram-se tão mais à beira do descontrolo, e não que isso seja um defeito, simplesmente retiram toda a força e subtileza à intriga.
E era mesmo necessário introduzir um triângulo amoroso em que a mesma mulher atrai ambos os homens? Não que Vera Farmiga não cumpra bem o seu papel, mas era mesmo necessário introduzir os velhos clichés?
Quanto a Dicaprio, mostra um lado vulnerável e torturado, face à convivência diária e íntima com Frank Costello e os seus comparsas. O destaque vai para Ray Winstone, a substituir Joe Pesci na personagem violenta, demencial e amoral que, onde quer que vá, inunda tudo de poças de sangue.
Vejo em The Departed os velhos temas scorsesianos mastigados e mastigados até à exaustão, esticados até ao limite, até desembocarem num final que perde a credibilidade toda perante o ridículo que se tornou, com todos aqueles tiroteios inconsequentes (não foi à toa que espectadores se riam na sala de cinema nos momentos finais do filme).
E a própria velha lição moral de Scorsese, em que os maus partilham o mesmo destino que os bons, soa a falso. Todas as personagens principais são mortas, em retribuição pelas suas traições e lealdades. No entanto, a morte da personagem de Damon no último minuto não poderia soar mais forçada e mal realizada. Tornou-se mais um tiroteio inconsequente num filme pessimamente gerido entre os twists maníacos de Jack Nicholson e os dois rapazes que tentaram, mas falharam (DiCaprio em menor medida) em transmitir o pathos, a negritude e a amargura de uma existência dupla que conduz a um caminho sem nenhuma possível redenção.
But, please, just give Scorsese the goddamn Oscar!!
Uma wishlist especial
Com o trabalho e todas as responsabilidades que acarreta, vem a glória de poder gerir o nosso próprio ganha-pão da forma como melhor nos aprouver. Ninguém pode interferir na forma como gerimos o nosso ganho ao fim do mês. É um bom sentimento que compensa, em parte, as horas de trabalho duras e as frustrações diárias que acompanham o trabalho.
E como se avizinha a época de festas, é tempo para nos mimarmos um pouco com presentes, objectos que desejámos ao longo do ano e que temos mais possibilidades de adquirir nesta altura do ano.
Portanto, para celebrar o meu primeiro mês de trabalho, elaborei uma wishlist de objectos que desejo obter a que me irei oferecer a mim própria. Nada de excentricidades. Na realidade, são livros.
River of Gods de Ian McDonald. A visão de uma Índia futurista e cyberpunk, onde os deuses do Hinduísmo vivem à beira do rio mãe, o rio Ganges, e onde o sub-continente foi dividido em nações de acordo com as suas identidades culturais e religiosas. Povoado da exuberância indiana e personagens extraordinárias, como é possível não nos sentirmos atraídos por este romance que se adivinha poderoso, complexo e um grande desafio ao leitor?

Shakespeare: The Biography de Peter Ackroyd. Ackroyd é considerado justamente um dos grandes biógrafos em língua inglesa, pelo seu talento, rigor e estilo em descrever as vidas e cidades da Brittania dos tempos modernos e antigos. Através do material riquíssimo e cheio de potencial da literatura inglesa, Ackroyd expressa como ninguém a turbulência e dinâmica que move as engrenagens das grandes cidades, em especial, Londres, à qual dedicou um estudo brilhante e extenso, London: The Biography. Mas não só Londres, como também os seus escritores, como Dickens, Blake, Thomas Chatterton, Thomas More e Ezra Pound, mereceram o olhar observador e erudito de Ackroyd, capaz de contar as suas histórias da forma mais fascinante e apelativa. Shakespeare foi o último escolhido, e extremamente difícil de abordar pela obscuridade dos factos que rodeiam a sua vida. Ackroyd é também um escritor de grande mérito, autor de Hawksmoor, Chatterton e The House of Doctor Dee, obras de ficção por vezes ofuscadas pelo brilhante academismo do seu autor, mas merecedoras de toda a atenção.

Little, Big de John Crowley. Há anos que ouço o nome de John Crowley proferido como algo muito semelhante a um génio. E talvez ele seja um. Conheço tão pouco sobre o autor que a única forma de corrigir este lapso é ler a sua opus magnum, Little, Big, a história de Smoky Barnable, um homem que se apaixona por uma mulher e irá viver com ela num lugar que não está indicado em nenhum mapa. Os meus instintos dizem-me que irei ler algo aqui que nunca li antes.
Do mesmo autor, ir-me-ão emprestar Lord Byron’s Novel: The Evening Land.

Recriar a suposta obra-prima perdida da autoria de Byron num romance? Recriá-la e ficcionalizar a vida de Byron e ainda juntar a toda esta construção literária e biográfica, elementos como informática, criptografia e matemática? Isto promete ser algo totalmente único e impressionante.

Os que me conhecem sabem da minha atracção pela sociedade vitoriana, e soube que Tim Powers foi o autor de um dos mais importantes romances de fantasia e ficção científica da década de 80, The Anubis Gates, onde o escritor evoca o mundo do séc. XVII e constrói uma estranha odisseia que envolve intrigas políticas e históricas no tempo de Napoleão, lobisomens, literatura inglesa romântica, e viagens no tempo. Depois de ter lido e gostado de The Drawing of the Dark, confio plenamente no talento de Tim Powers.

Jerusalem Poker de Edward Whittemore. Um dos livros que mais me impressionou em 2005 foi The Sinai Tapestry de um autor norte-americano, antigo agente da CIA, mas que durante muitos anos viveu no Médio Oriente. Whitemore percebeu a complexidade das relações culturais e o profundo apelo de milénios de história que deixaram a sua marca no imaginário dos seus livros. O quarteto continua com Jerusalem Poker, o 2º volume, e cada livro deve ser saboreado com vagar. Só assim, podemos arrebatar-nos por esta ficção espantosa onde Jerusalém seduz e fascina todos os seus habitantes ao longo dos séculos.

Grendel de John Gardner. Não sou nenhuma estranha a Beowulf, o poema épico anglo-saxónico que deu fama à lenda de Grendel. Mas a ideia de criar um romance do ponto de vista de Grendel, uma criatura capaz de nos dizer o significado da vida e visionar a humanidade como um outsider, é uma magnífica premissa para um romance.
Outros livros que certamente irei tentar ler em 2007 são: Air de Geoff Ryman, A Princess of Roumania de Paul Park e The Carpet Makers de Andreas Eschbach.
Tenho que arranjar o tempo para ler tudo isto. Tenho que arranjar o tempo para ler tudo isto. Tenho que arranjar o tempo para ler tudo isto…







