Volver de Pedro Almodóvar

September 28, 2006 at 9:18 am (Cinema e TV)

Volver de Pedro Almodóvar é verdadeiramente uma daquelas obras que entra na lista reduzida de filmes pelo qual valeu a pena pagar o bilhete de cinema. Isto porque Volver comove com as suas mulheres que procuram por afecto e perdão.

Não conheço a obra anterior de Almodóvar e sou uma de entre as muitas pessoas que passou a prestar atenção ao realizador apenas depois do sucesso internacional de Tudo sobre mi madre.

Habla con Ella não me inspirou mais do que um certo interesse. A história adquire uns contornos surrealistas que não me pareceu que se integrassem em pleno com o tom do filme, antes o tornaram um objecto demasiado estranho.

Mas em Volver, Almodóvar atinge um equilíbrio que me pareceu perfeito entre esse mesmo bizarro que pontua a sua obra cinematográfica com a realidade de uma aldeia espanhola dominada pela superstição e velhos credos e costumes.

A cena de abertura do filme deixa logo adivinhar que nos espera um bom filme. Mulheres a limparem as campas de família, ou até mesmo as próprias campas, dos turbilhões de pó trazidos pelo vento do Leste, vento esse que propaga os fogos e dizima colheitas, casas e famílias. É impossível não sentir a influência da literatura de realismo mágico sul-americano semeada por entre o enredo de Volver.

E depois temos o toque pessoal de Almodóvar que se reflecte principalmente na forma como ama as mulheres e a sua força perante a adversidade. Os homens são perfeitamente irrelevantes, na verdade, assumem-se como tiranos nesta história. É à mulher que cabe enfrentar os maiores desafios de sobrevivência, especialmente a mulher que dinamiza todo o elenco, Raimunda (Penélope Cruz), uma mãe que tem que procurar por alguma forma de sustento da família.

É nas suas relações com os membros da família que se constrói a história. Temos Paula, a filha adolescente de Raimunda. A irmã de Raimunda , Sole, com um cabeleireiro ilegal em casa. E a tia Paula, senil e meio cega, que estranhamente consegue viver sozinha há muitos anos. E temos a figura de uma mãe ausente, morta há muitos anos, mas sempre presente e vigilante pelo bem estar das suas filhas.

Volver implica um regresso. Mas um regresso profundo de significado que procura por reconciliação e aceitação. Poderia ser quase banal se não fosse o humor simples e autêntico gerado pelo grupo de mulheres, o irreal que se aceita sem estranheza ou a forte emoção expressa nos olhos sempre à beira das lágrimas.

Penélope Cruz nunca esteve tão bonita e viu o seu talento tão aproveitado como neste filme de Almodóvar, mas as outras actrizes todas acompanham-na a par e passo, em especial, Carmen Maura como Abuela Irene, a mãe. É justo o prémio atribuído no último festival de Cannes a todo o elenco feminino de Volver.

Especial e imperdível, mesmo que não se seja fã da filmografia de Almodóvar.

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