O homem vitoriano

September 23, 2006 at 9:23 am (Cinema e TV, Livros/BD/revistas)

Sendo um dos meus grandes interesses a literatura vitoriana (eu tenho umas quantas teorias sobre este meu intenso fascínio), uma interrogação tem-me cruzado a mente várias vezes.

Para o sexo feminino, existe algo de incrivelmente atraente no homem vitoriano no auge dos seus poderes. Temos como exemplo, Colin Firth que, em 1995, alcançou o estrelato com a sua interpretação de Mr. Darcy em Pride and Prejudice. Ninguém se esqueceu da cena já icónica da camisa molhada a pingar, momento em que se encontra acidentalmente com Lizzy. Mas Darcy foi mais do que isso. Um gentleman de coração e rosto de pedra que cede gradualmente aos encantos e charme de uma jovem que o iguala em tudo, até mesmo no orgulho. O facto de surgir num dos romances mais amados de Jane Austen faz com que Darcy epitomize uma certa forma de estar e lidar própria do seu tempo.

Mas como esta incrível atracção pode acontecer se estamos perante um tempo marcado por uma moralidade rígida, ditada pelos preceitos da corte da Rainha Vitória, onde o convencionalismo excluía todos os que se rebelassem contra essa mesma convenção? E o que definia um gentleman? Classe social? Propriedades? Um sentido de honra e dever que o elevava acima do homem comum?

Nos dramas históricos deste tempo, observamos como as relações entre homens e mulheres eram definidas por extremo decoro e uma certa distância. Em muitos romances desse tempo, temos conhecimento de como a mulher que escolhesse deserdar a família e fugir com o amado, seria para sempre deserdada, manchando irremediavelmente a reputação da família. Emily em David Copperfield de Charles Dickens, Mary em Mary Barton de Elizabeth Gaskell, ou de forma ainda mais dramática, Tess em Tess of the D’Urbervilles de Thomas Hardy, são todas mulheres caídas em desgraça, de forma involuntária ou consciente.

Tornam-se a vergonha dos seus pares, mesmo por actos isentos de culpa. A maioria dos enredos dos romances realistas giram em torno desta problemática, da tentação e queda da mulher (como bom exemplo de uma mulher de princípios que resiste moralmente à tentação temos Jane Eyre de Charlotte Brönte), vítima de homens sem escrúpulos e de uma sociedade claustrofóbica. Em North and South de Elizabeth Gaskell é a possibilidade de que Margaret não se tenha comportado de forma digna e maidenly que atormenta Thornton e fá-la alvo de uma grande injustiça.

Se para uma mulher, ser maidenly era essencial para a sua boa reputação, o homem não era menos sujeito a deveres e obrigações em comportar-se como o homem moderno civilizado. Ele também corria riscos se ousasse um pequeno desvio que fosse do caminho.

Em North and South há um diálogo muito interessante entre as personagens principais sobre a palavra gentleman. A personagem masculina principal, John Thornton, refere a uma certa altura à personagem feminina:

I differ from you. A man is to me a higher and a completer being than a gentleman. […] I take it that “gentleman” is a term that only describes a person in his relation to others; but when we speak of him as “a man” we consider him not merely with regard to his fellow-man, but in relation to himself, – to life – to time – to eternity.

É uma perspectiva invulgar e não muitas vezes defendida. Mas Thornton afinal começou na classe social mais baixa em direcção ao topo. O facto de não ter nascido e crescido no seio da classe média alta e alta contribui inevitavelmente para o seu desrprezo por um termo que não abarca todo o seu sofrimento e luta como homem.

Richard Armitage como John Thornton em “North and South” (2004)

Curiosamente, este livro foi adaptado pela BBC em 2004. North and South revelou-se um estrondoso sucesso e reavivou a personagem do homem vitoriano. O que provocou isso foi um actor carismático e inteligente o suficiente para perceber os nuances requeridos pelo papel como um gentleman do séc. XIX. John Thornton tem uma consciência intensa de contacto corporal com Margaret, o seu objecto de desejo, e é na subtileza dos olhares e do toque e no facto de ser forçado a manter uma aparência para bem das convenções que cresce uma tensão sexual que … well… põe as mulheres espectadoras fora de si. Richard Armitage, o actor em questão, responde a essa questão numa entrevista:

Put a handsome bloke in a period costume and his popularity rating goes off the scale. What’s that about?

Suppression. Not being able to touch someone, or say what you feel, because it’s inappropriate. That tightens the sexual tension. You want to metaphorically rip off their corset! We don’t think twice about such stuff nowadays – anything goes in our society.

Ou então, podemos simplesmente constatar que o público feminino adora um romance à good old-fashioned way. Não é à toa que os livro de Jane Austen e outros romancistas do seu tempo ainda são lidos tantas décadas depois. Os romances realistas, os que não estavam ocupados em dissecar a realidade feia e cruel, eram de natureza essencialmente romântica, mas um romantismo pouco dado ao sentimental, antes a uma observação de costumes e regras que poderiam se interpor no caminho do amor.

É o testemunho de uma forma de estar e viver que já não se coaduna com o nosso tempo. E no entanto, é uma época irresistivelmente fascinante para muitos, uma época que exigia muitos mais sacrifícios, devoção e integridade, mais astúcia e cuidado na forma de expressar amor e afecto. Claro que falamos de um microcosmos limitado a determinadas classes sociais, e há quem professe o seu desagrado por esse mundo tão limitado, introvertido e centrado em si próprio. Mas não era o gentleman vitoriano o máximo representante da nova civilização que se construía, dominada pelo Imperialismo britânico, e por vezes demasiado brutal na sua relação com outras culturas? A sua relação com o macrocosmos é inteiramente diferente da sua posição como homem de família e negócios dentro da sua própria comunidade, e isso seria tema adequado para outras dissertações.

Mesmo a propósito da literatura vitoriana, chamaram-me a atenção para a Encyclopedia de Fantastic Victoriana editada por Jesse Nevins:

From detective fiction to historical novels, from well-known authors like Jules Verne and H.G. Wells, to Russian newspaper serials and Chinese martial arts novels, the Encyclopedia of Fantastic Victoriana offers an exhaustive look at every aspect of fantastic literature in the days of Queen Victoria.

A enciclopédia é uma compilação (revista e acrescentada) do material que Jesse Nevins escreveu para o seu site dedicado a Fantastic, Misterious and Adventurous Victoriana. O conteúdo já não está disponível, mas as críticas parecem, até agora, bastante positivas. A vertente fantástica vitoriana é incrivelmente estimulante na medida em que complementa os romances de pendor mais realista. Não se tratava de criar monstros ou situações impossíveis e extremas, mas antes expor as fobias, o fruto proibido, a intensa moralidade que inibe o instinto primitivo, e até mesmo os conflitos e dilemas a que se sujeita o novo homem civilizado. Através de material fantástico, este tipo particular de romances vitorianos consegue denunciar todos esses aspectos, forçando a um confronto com o lado negro. E tudo o que resta é enfrentar com dignidade, coragem e racionalidade os acontecimentos que escapam ao controlo do indivíduo.

1 Comment

  1. Mad_Max2024 said,

    “Para o sexo feminino, existe algo de incrivelmente atraente no homem vitoriano no auge dos seus poderes.”

    Para o sexo masculino tambem existe algo de incrivelmente atraente na mulher vitoriana no auge dos seus corpetes apertados…

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