À descoberta de Ambrose Bierce

September 9, 2006 at 7:13 pm (Livros/BD/revistas)

Li recentemente a colectânea de ensaios de Kurt VonnegutA Man Without a Country – publicado pela Tinta da China sob o título de Um Homem sem Pátria. Sobre este livro e o autor falei no último texto que escrevi para o site Filhos de Athena. Após um longo interregno, o site volta à actividade e a minha intenção doravante é a de contribuir semanalmente com um texto.

Mas a minha menção do livro de Kurt Vonnegut vem a propósito da sua admiração por Ambrose Bierce (1842 – 1914?).

Muitas vezes o nome do escritor Ambrose Bierce tinha-me surgido pela frente, não necessariamente nos meus estudos, mas nas minhas pesquisas e leituras errantes. Nessa altura, foi-me recomendada a leitura do conto, disponível online, An Occurrence at Owl Creek Bridge, e então decidi dar-lhe uma oportunidade. Quando acabei de ler, pensei como ser possível que este escritor não fosse mais divulgado e aclamado do que na realidade é.

Bierce

Kurt Vonnegut confessa ser essa uma das melhores e mais brilhantes criações literárias na língua inglesa e de leitura imperativa. E de facto, raras vezes se observa um tal domínio de linguagem, uma tal mestria na narrativa marcada pelo uso do inglês na sua forma literária mais sólida e pura, produzindo uma história com alma.

Ambrose Bierce era um contista, jornalista e satirista norte-americano do séc. XIX. O décimo de treze filhos, nasceu em Ohio, e passou a sua adolescência numa quinta em Alabama. Com o início da guerra civil Americana, alista-se no exército do Norte e serve como engenheiro topográfico, propiciando-lhe a oportunidade de assistir a algumas das batalhas mais sangrentas da guerra.

A sua vida como militar seria determinante para a sua escrita e carreira de jornalista que desempenhou de forma notável. Um dos mais reconhecidos jornalistas do seu tempo, conhecido pelo crítica social e sátira, marca presenças nas livrarias de hoje graças ao The Devil’s Dictionary, também recentemente publicado em português pela Tinta da China. E por mais mérito que tenha o Dicionário do Diabo onde o politicamente incorrecto e a sátira andam de mãos dadas, muito fica por dizer em relação aos contos de guerra que Bierce escreveu, antes de desaparecer de forma tão misteriosa no fim da sua vida. A lenda diz que abandonou tudo aos setenta anos e partiu para o México onde terá morrido num cerco de um forte.

(Recomendaria que lessem o conto primeiro antes de lerem o parágrafo abaixo).

Em Um Acontecimento na Ponte de Owl Creek, um homem, Peyton Farquhar, foi sentenciado à morte por enforcamento. Peyton, um apoiante da causa secessionista, tinha tentado destruir uma ponte antes que fosse alcançada por tropas da União. À beira de enfrentar a sua sentença, o destino intervém e a corda parte-se. Ele cai no rio e é capaz de nadar para longe, em segurança. Durante dias, não é capaz de pensar em outra coisa senão alcançar a sua casa e família até que finalmente avista ao longe a sua mulher. E nesse momento o sonho é despedaçado como se nunca tivesse sido quando o corpo de Peyton Farquhar encontra-se suspenso na ponte de Owl Creek, com o pescoço partido.

A força das últimas linhas atinge o leitor como um soco no estômago. Tudo não fora mais do que fruto da imaginação do narrador. Mas se a ilusão é quebrada, ainda mais pungente se torna no devastador Chickamauga, talvez o meu conto favorito.

Uma pequena criança, filho de um agricultor, vive e triunfa no seu pequeno mundo de batalhas e conquistas, representante de uma raça vitoriosa e seu legítimo herdeiro. O amor do pai pelos livros e histórias folclóricas é incutido na criança e a sua imaginação é despertada e flui livremente nas suas brincadeiras infantis. Perdido, como um pequeno fauno, por entre a natureza selvagem, atravessa-se no seu caminho uma estranha procissão de criaturas.

A descrição medeia entre aquilo que o rapaz percepciona e o que na realidade se trata – homens moribundos a arrastarem-e em direcção a um rio, soldados à beira da morte em fuga de uma batalha mortífera. A criança fita fascinada esta fila de homens destroçados e acredita neles não inteiramente como seres humanos, mas como seres imaginários, fruto das histórias que povoam a sua mente. A ilusão dura até ao fim, até ao momento em que é confrontada com a dura realidade. Mas o súbito despertar para a realidade opera-se de forma tão inflexível e intensa por Ambrose Bierce que impressiona o leitor de forma indelével.

A sua colectânea, Tales of Soldiers and Civilians (1892), em que se incluem ambas estas histórias, reúne a melhor da sua ficção curta onde os relatos de guerra se combinam com elementos do sobrenatural. De facto, Bierce fora também um notável escritor de contos macabros e de histórias de fantasmas. Com um legado literário de importante contributo para a cultura americana num tempo decisivo para a formação da sua identidade, Bierce transcende as fronteiras territoriais e os conflitos do seu tempo para nos oferecer uma ficção curta intemporal que merece imperativamente uma maior divulgação.

1 Comment

  1. Artur said,

    Para um olhar sobre a obra fantástica do autor o Can Such Things Be? é imperdível.

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