Volver de Pedro Almodóvar
Volver de Pedro Almodóvar é verdadeiramente uma daquelas obras que entra na lista reduzida de filmes pelo qual valeu a pena pagar o bilhete de cinema. Isto porque Volver comove com as suas mulheres que procuram por afecto e perdão.
Não conheço a obra anterior de Almodóvar e sou uma de entre as muitas pessoas que passou a prestar atenção ao realizador apenas depois do sucesso internacional de Tudo sobre mi madre.
Habla con Ella não me inspirou mais do que um certo interesse. A história adquire uns contornos surrealistas que não me pareceu que se integrassem em pleno com o tom do filme, antes o tornaram um objecto demasiado estranho.
Mas em Volver, Almodóvar atinge um equilíbrio que me pareceu perfeito entre esse mesmo bizarro que pontua a sua obra cinematográfica com a realidade de uma aldeia espanhola dominada pela superstição e velhos credos e costumes.
A cena de abertura do filme deixa logo adivinhar que nos espera um bom filme. Mulheres a limparem as campas de família, ou até mesmo as próprias campas, dos turbilhões de pó trazidos pelo vento do Leste, vento esse que propaga os fogos e dizima colheitas, casas e famílias. É impossível não sentir a influência da literatura de realismo mágico sul-americano semeada por entre o enredo de Volver.
E depois temos o toque pessoal de Almodóvar que se reflecte principalmente na forma como ama as mulheres e a sua força perante a adversidade. Os homens são perfeitamente irrelevantes, na verdade, assumem-se como tiranos nesta história. É à mulher que cabe enfrentar os maiores desafios de sobrevivência, especialmente a mulher que dinamiza todo o elenco, Raimunda (Penélope Cruz), uma mãe que tem que procurar por alguma forma de sustento da família.
É nas suas relações com os membros da família que se constrói a história. Temos Paula, a filha adolescente de Raimunda. A irmã de Raimunda , Sole, com um cabeleireiro ilegal em casa. E a tia Paula, senil e meio cega, que estranhamente consegue viver sozinha há muitos anos. E temos a figura de uma mãe ausente, morta há muitos anos, mas sempre presente e vigilante pelo bem estar das suas filhas.
Volver implica um regresso. Mas um regresso profundo de significado que procura por reconciliação e aceitação. Poderia ser quase banal se não fosse o humor simples e autêntico gerado pelo grupo de mulheres, o irreal que se aceita sem estranheza ou a forte emoção expressa nos olhos sempre à beira das lágrimas.
Penélope Cruz nunca esteve tão bonita e viu o seu talento tão aproveitado como neste filme de Almodóvar, mas as outras actrizes todas acompanham-na a par e passo, em especial, Carmen Maura como Abuela Irene, a mãe. É justo o prémio atribuído no último festival de Cannes a todo o elenco feminino de Volver.
Especial e imperdível, mesmo que não se seja fã da filmografia de Almodóvar.
O homem vitoriano
Sendo um dos meus grandes interesses a literatura vitoriana (eu tenho umas quantas teorias sobre este meu intenso fascínio), uma interrogação tem-me cruzado a mente várias vezes.
Para o sexo feminino, existe algo de incrivelmente atraente no homem vitoriano no auge dos seus poderes. Temos como exemplo, Colin Firth que, em 1995, alcançou o estrelato com a sua interpretação de Mr. Darcy em Pride and Prejudice. Ninguém se esqueceu da cena já icónica da camisa molhada a pingar, momento em que se encontra acidentalmente com Lizzy. Mas Darcy foi mais do que isso. Um gentleman de coração e rosto de pedra que cede gradualmente aos encantos e charme de uma jovem que o iguala em tudo, até mesmo no orgulho. O facto de surgir num dos romances mais amados de Jane Austen faz com que Darcy epitomize uma certa forma de estar e lidar própria do seu tempo.
Mas como esta incrível atracção pode acontecer se estamos perante um tempo marcado por uma moralidade rígida, ditada pelos preceitos da corte da Rainha Vitória, onde o convencionalismo excluía todos os que se rebelassem contra essa mesma convenção? E o que definia um gentleman? Classe social? Propriedades? Um sentido de honra e dever que o elevava acima do homem comum?
Nos dramas históricos deste tempo, observamos como as relações entre homens e mulheres eram definidas por extremo decoro e uma certa distância. Em muitos romances desse tempo, temos conhecimento de como a mulher que escolhesse deserdar a família e fugir com o amado, seria para sempre deserdada, manchando irremediavelmente a reputação da família. Emily em David Copperfield de Charles Dickens, Mary em Mary Barton de Elizabeth Gaskell, ou de forma ainda mais dramática, Tess em Tess of the D’Urbervilles de Thomas Hardy, são todas mulheres caídas em desgraça, de forma involuntária ou consciente.
Tornam-se a vergonha dos seus pares, mesmo por actos isentos de culpa. A maioria dos enredos dos romances realistas giram em torno desta problemática, da tentação e queda da mulher (como bom exemplo de uma mulher de princípios que resiste moralmente à tentação temos Jane Eyre de Charlotte Brönte), vítima de homens sem escrúpulos e de uma sociedade claustrofóbica. Em North and South de Elizabeth Gaskell é a possibilidade de que Margaret não se tenha comportado de forma digna e maidenly que atormenta Thornton e fá-la alvo de uma grande injustiça.
Se para uma mulher, ser maidenly era essencial para a sua boa reputação, o homem não era menos sujeito a deveres e obrigações em comportar-se como o homem moderno civilizado. Ele também corria riscos se ousasse um pequeno desvio que fosse do caminho.
Em North and South há um diálogo muito interessante entre as personagens principais sobre a palavra gentleman. A personagem masculina principal, John Thornton, refere a uma certa altura à personagem feminina:
I differ from you. A man is to me a higher and a completer being than a gentleman. […] I take it that “gentleman” is a term that only describes a person in his relation to others; but when we speak of him as “a man” we consider him not merely with regard to his fellow-man, but in relation to himself, – to life – to time – to eternity.
É uma perspectiva invulgar e não muitas vezes defendida. Mas Thornton afinal começou na classe social mais baixa em direcção ao topo. O facto de não ter nascido e crescido no seio da classe média alta e alta contribui inevitavelmente para o seu desrprezo por um termo que não abarca todo o seu sofrimento e luta como homem.

Richard Armitage como John Thornton em “North and South” (2004)
Curiosamente, este livro foi adaptado pela BBC em 2004. North and South revelou-se um estrondoso sucesso e reavivou a personagem do homem vitoriano. O que provocou isso foi um actor carismático e inteligente o suficiente para perceber os nuances requeridos pelo papel como um gentleman do séc. XIX. John Thornton tem uma consciência intensa de contacto corporal com Margaret, o seu objecto de desejo, e é na subtileza dos olhares e do toque e no facto de ser forçado a manter uma aparência para bem das convenções que cresce uma tensão sexual que … well… põe as mulheres espectadoras fora de si. Richard Armitage, o actor em questão, responde a essa questão numa entrevista:
Put a handsome bloke in a period costume and his popularity rating goes off the scale. What’s that about?
Suppression. Not being able to touch someone, or say what you feel, because it’s inappropriate. That tightens the sexual tension. You want to metaphorically rip off their corset! We don’t think twice about such stuff nowadays – anything goes in our society.
Ou então, podemos simplesmente constatar que o público feminino adora um romance à good old-fashioned way. Não é à toa que os livro de Jane Austen e outros romancistas do seu tempo ainda são lidos tantas décadas depois. Os romances realistas, os que não estavam ocupados em dissecar a realidade feia e cruel, eram de natureza essencialmente romântica, mas um romantismo pouco dado ao sentimental, antes a uma observação de costumes e regras que poderiam se interpor no caminho do amor.
É o testemunho de uma forma de estar e viver que já não se coaduna com o nosso tempo. E no entanto, é uma época irresistivelmente fascinante para muitos, uma época que exigia muitos mais sacrifícios, devoção e integridade, mais astúcia e cuidado na forma de expressar amor e afecto. Claro que falamos de um microcosmos limitado a determinadas classes sociais, e há quem professe o seu desagrado por esse mundo tão limitado, introvertido e centrado em si próprio. Mas não era o gentleman vitoriano o máximo representante da nova civilização que se construía, dominada pelo Imperialismo britânico, e por vezes demasiado brutal na sua relação com outras culturas? A sua relação com o macrocosmos é inteiramente diferente da sua posição como homem de família e negócios dentro da sua própria comunidade, e isso seria tema adequado para outras dissertações.
Mesmo a propósito da literatura vitoriana, chamaram-me a atenção para a Encyclopedia de Fantastic Victoriana editada por Jesse Nevins:
From detective fiction to historical novels, from well-known authors like Jules Verne and H.G. Wells, to Russian newspaper serials and Chinese martial arts novels, the Encyclopedia of Fantastic Victoriana offers an exhaustive look at every aspect of fantastic literature in the days of Queen Victoria.
A enciclopédia é uma compilação (revista e acrescentada) do material que Jesse Nevins escreveu para o seu site dedicado a Fantastic, Misterious and Adventurous Victoriana. O conteúdo já não está disponível, mas as críticas parecem, até agora, bastante positivas. A vertente fantástica vitoriana é incrivelmente estimulante na medida em que complementa os romances de pendor mais realista. Não se tratava de criar monstros ou situações impossíveis e extremas, mas antes expor as fobias, o fruto proibido, a intensa moralidade que inibe o instinto primitivo, e até mesmo os conflitos e dilemas a que se sujeita o novo homem civilizado. Através de material fantástico, este tipo particular de romances vitorianos consegue denunciar todos esses aspectos, forçando a um confronto com o lado negro. E tudo o que resta é enfrentar com dignidade, coragem e racionalidade os acontecimentos que escapam ao controlo do indivíduo.
Uma breve pausa
Eu adoro escrever para este blog, mas rouba-me alguma energia e tempo que, neste momento, tenho que imperativamente dedicar a outras prioridades. Os prazos começam a apertar e o tempo passa veloz de uma forma assustadora. E eu nunca gostei de escrever algo que não fosse minimamente relevante. Eu gosto de escrever um texto, seja ele escrita criativa, resenha, ou um mero anúncio de lançamento, de uma forma que possa olhar para ele e dizer “vale a pena guardar isto porque faz uma diferença em relação a muitos outros textos, por mais pequena que seja” ou “se a net for destruída de um dia para o outro, vai ser uma pena perder aquele ou outro texto”.
Consequentemente, tenho mesmo que redefinir prioridades. A lista de coisas para cumprir é monstruosa. E neste momento que atravesso, extremamente delicado em termos pessoais e profissionais, é natural que o blog se sujeite a alguns períodos de calma. Não quer dizer que vou parar de contribuir com posts, apenas serão mais esporádicos e espaçados.
O facto de ter que imperativamente (gosto muito desta palavra, ultimamente tem assumido uma preponderância espantosa no meu vocabulário) procurar por um emprego fixo definitivo, a par do mestrado, está literalmente a matar-me as forças (e ânimo) aos poucos.
Espero voltar em força já no próximo mês com muitas novidades.
Apesar de estar um pouco offline, não vou deixar de estar presente no lançamento de O Último Papa de Luís Miguel Rocha que se irá realizar no dia 29 de Setembro, pelas 19.30 com presença do autor e o Francisco José Viegas, nas ruínas do Convento do Carmo. Vou mais pelo local que deve ser bonito (nunca estive lá dentro), porque eu gosto de estar presente nessas ocasiões, e também porque estou curiosa em relação ao livro, tendo em conta todo o hype, embora nunca me passe pela cabeça comprá-lo uma vez que não é o tipo de literatura que particularmente me agrade.
Bom, o aviso está feito e agora já posso ir. Wish me luck!
À descoberta de Ambrose Bierce
Li recentemente a colectânea de ensaios de Kurt Vonnegut – A Man Without a Country – publicado pela Tinta da China sob o título de Um Homem sem Pátria. Sobre este livro e o autor falei no último texto que escrevi para o site Filhos de Athena. Após um longo interregno, o site volta à actividade e a minha intenção doravante é a de contribuir semanalmente com um texto.
Mas a minha menção do livro de Kurt Vonnegut vem a propósito da sua admiração por Ambrose Bierce (1842 – 1914?).
Muitas vezes o nome do escritor Ambrose Bierce tinha-me surgido pela frente, não necessariamente nos meus estudos, mas nas minhas pesquisas e leituras errantes. Nessa altura, foi-me recomendada a leitura do conto, disponível online, An Occurrence at Owl Creek Bridge, e então decidi dar-lhe uma oportunidade. Quando acabei de ler, pensei como ser possível que este escritor não fosse mais divulgado e aclamado do que na realidade é.

Kurt Vonnegut confessa ser essa uma das melhores e mais brilhantes criações literárias na língua inglesa e de leitura imperativa. E de facto, raras vezes se observa um tal domínio de linguagem, uma tal mestria na narrativa marcada pelo uso do inglês na sua forma literária mais sólida e pura, produzindo uma história com alma.
Ambrose Bierce era um contista, jornalista e satirista norte-americano do séc. XIX. O décimo de treze filhos, nasceu em Ohio, e passou a sua adolescência numa quinta em Alabama. Com o início da guerra civil Americana, alista-se no exército do Norte e serve como engenheiro topográfico, propiciando-lhe a oportunidade de assistir a algumas das batalhas mais sangrentas da guerra.
A sua vida como militar seria determinante para a sua escrita e carreira de jornalista que desempenhou de forma notável. Um dos mais reconhecidos jornalistas do seu tempo, conhecido pelo crítica social e sátira, marca presenças nas livrarias de hoje graças ao The Devil’s Dictionary, também recentemente publicado em português pela Tinta da China. E por mais mérito que tenha o Dicionário do Diabo onde o politicamente incorrecto e a sátira andam de mãos dadas, muito fica por dizer em relação aos contos de guerra que Bierce escreveu, antes de desaparecer de forma tão misteriosa no fim da sua vida. A lenda diz que abandonou tudo aos setenta anos e partiu para o México onde terá morrido num cerco de um forte.
(Recomendaria que lessem o conto primeiro antes de lerem o parágrafo abaixo).
Em Um Acontecimento na Ponte de Owl Creek, um homem, Peyton Farquhar, foi sentenciado à morte por enforcamento. Peyton, um apoiante da causa secessionista, tinha tentado destruir uma ponte antes que fosse alcançada por tropas da União. À beira de enfrentar a sua sentença, o destino intervém e a corda parte-se. Ele cai no rio e é capaz de nadar para longe, em segurança. Durante dias, não é capaz de pensar em outra coisa senão alcançar a sua casa e família até que finalmente avista ao longe a sua mulher. E nesse momento o sonho é despedaçado como se nunca tivesse sido quando o corpo de Peyton Farquhar encontra-se suspenso na ponte de Owl Creek, com o pescoço partido.
A força das últimas linhas atinge o leitor como um soco no estômago. Tudo não fora mais do que fruto da imaginação do narrador. Mas se a ilusão é quebrada, ainda mais pungente se torna no devastador Chickamauga, talvez o meu conto favorito.
Uma pequena criança, filho de um agricultor, vive e triunfa no seu pequeno mundo de batalhas e conquistas, representante de uma raça vitoriosa e seu legítimo herdeiro. O amor do pai pelos livros e histórias folclóricas é incutido na criança e a sua imaginação é despertada e flui livremente nas suas brincadeiras infantis. Perdido, como um pequeno fauno, por entre a natureza selvagem, atravessa-se no seu caminho uma estranha procissão de criaturas.
A descrição medeia entre aquilo que o rapaz percepciona e o que na realidade se trata – homens moribundos a arrastarem-e em direcção a um rio, soldados à beira da morte em fuga de uma batalha mortífera. A criança fita fascinada esta fila de homens destroçados e acredita neles não inteiramente como seres humanos, mas como seres imaginários, fruto das histórias que povoam a sua mente. A ilusão dura até ao fim, até ao momento em que é confrontada com a dura realidade. Mas o súbito despertar para a realidade opera-se de forma tão inflexível e intensa por Ambrose Bierce que impressiona o leitor de forma indelével.
A sua colectânea, Tales of Soldiers and Civilians (1892), em que se incluem ambas estas histórias, reúne a melhor da sua ficção curta onde os relatos de guerra se combinam com elementos do sobrenatural. De facto, Bierce fora também um notável escritor de contos macabros e de histórias de fantasmas. Com um legado literário de importante contributo para a cultura americana num tempo decisivo para a formação da sua identidade, Bierce transcende as fronteiras territoriais e os conflitos do seu tempo para nos oferecer uma ficção curta intemporal que merece imperativamente uma maior divulgação.
El Laberinto del Fauno

Aquele que podemos esperar ser um dos filmes mais interessantes dentro do fantástico a estrear este ano ou no próximo – El Laberinto del Fauno de Guillermo del Toro – tem apaixonado os espectadores que já tiveram o privilégio de o visionar.
Del Toro, já conhecido pelo grande público por obras como Hellboy e Blade II é, na realidade, um realizador mexicano obcecado por certas temáticas recorrentes na sua filmografia. A Guerra Civil de Espanha, fascismo, religião e mito, fantasmas, todos estão presentes ou são aludidos em filmes como El Espinazo del Diablo, El Laberinto del Fauno e mesmo até na sinopse de Hellboy 2, previsto para o verão de 2008.
Combinando uma realidade histórica em que figuram a guerra e violência com um sense of wonder apresentado pelo olhar de uma inocente, é melhor prestarmos atenção ao teaser trailer e aguardarmos a estreia porque promete ser um dos melhores argumentos originais no cinema fantástico dos últimos anos.
Site oficial de Pan’s Labyrinth






