A Mulher de Branco de Wilkie Collins

August 30, 2006 at 12:02 pm (Livros/BD/revistas)

No período fértil da literatura Vitoriana, muitos outros autores de valor podem ser encontrados para além do escritor que os eclipsa a todos em estilo e caracterização, Charles Dickens. Novas técnicas literárias eram experimentadas, algumas sem produzir resultados dignos de nota, outras ganharam um tal sucesso e popularidade que se tornavam a conversa da nação.

Expectativas tornaram-se altas quando Wilkie Collins começou a serialização em folhetim do seu romance The Woman in White em 1859. É um romance fascinante por muitas razões. Ao dar lugar ao relato de vários protagonistas em que cada um relata a sua versão dos acontecimentos, torna-se papel do leitor desvendar onde reside a falsidade e onde reside a verdade de cada história contada.

Nesse sentido, poderíamos classificar A Mulher de Branco como um romance epistolar, mas também um romance de mistério, ou então, o termo que recebeu à época, romance de sensação.

Começa com o relato de Walter Hartright, um pintor, e o extraordinário encontro nocturno que teve com uma misteriosa mulher de branco em Londres. Prestando-lhe auxílio e ciente de que a mulher em questão está a ser vítima de perseguição, descobre ser uma foragida de um asilo. É com a memória ainda fresca desse encontro que Hartright parte no dia seguinte de Londres para servir como perceptor durante alguns meses, numa casa rica pertencente a um senhor com duas sobrinhas.

WC

O destino prega-lhe uma partida ao pô-lo no caminho de ambas as meio-irmãs. A mais velha, Marian Halcombe, encarna todas as qualidades de uma lady à frente do seu tempo, e se lhe faltam atributos físicos (o narrador diz que o seu rosto é feio) ela compensa com a sua inteligência, determinação, perspicácia e afecto pela sua irmã mais nova, Laura Fairlie.

Laura é o oposto. Inocente, uma criança em muitos aspectos e, todavia, a mulher angelical por excelência, a sua beleza fulmina Walter que fica irremediavelmente perdido de amores. Semana a semana, um amor proibido e nunca declarado cresce entre os dois jovens, mas Laura é uma herdeira rica e há muitos anos se encontra noiva de um barão, Sir Percival Glyde, tornando a concretização do seu amor impossível. Walter vê-se então forçado a abandonar a casa, para sua grande mágoa, mantendo amizade com ambas as irmãs, em especial com Marian que vê nele honra e bondade.

Até este momento, a narrativa não se distingue por nenhuma característica espcial, aparentando ser uma típica história romântica onde desabrocha um amor condenado à partida. Mas não nos podemos esquecer da mulher de branco. Walter vê-se confrontado com uma estranha coincidência; a mulher fugida do asilo mencionara o nome de uma senhora que se revela ser a mãe de Laura Fairlie e Marian Halcombe. Confidenciando a Marian o encontro nocturno, ambos tentam descobrir a identidade da mulher e a razão por detrás da sua fuga através de correspondência antiga. A juntar a isto, existe o estranho facto de haver uma notável semelhança física entre Anne Catherick, a louca, e Laura Fairlie.

É então que a iminência do casamento de Laura com Sir Percival é ameaçado por uma carta anónima em que é revelado o mau carácter do futuro marido e posto a nu o seu coração negro. Com a sua reputação posta em causa, Sir Percival é forçado a provar que detém nada mais do que boas intenções e reafirma a sua intenção em desposar Laura. Suspeita na mente de Marian nunca é realmente extinguida e é com um coração pesado que vê o casamento a ser finalmente consumado.

Uma nova etapa do romance se inicia e que irá introduzir uma personagem absolutamente trepidante, ambígua e fascinante, o italiano Conde Fosco. Da minha experiência de romances vitorianos, e já li a minha quota parte, Fosco é uma das melhores criações literárias deste tempo. Marian leva páginas e páginas do seu diário na construção da personalidade do Conde e, de início, sente-se atraída pelo seu carisma. A excentricidade do italiano, a intensidade do seu olhar, a força da sua eloquência, a sua inteligência levam-na a considerar o Conde como seu igual.

O casamento entre Sir Glyde e Laura rapidamente degrada-se e, passo a passo, a mansão cede a uma atmosfera de constante intriga e conspiração, ameaçando chegar a vias de facto entre Marian e Sir Percival. A tensão acumulada está prestes a explodir e as aparências só se mantém graças à intervenção do Conde do qual desconhecemos os propósitos. A sua ambiguidade desconcerta as heroínas, mas não faltará muito para que sejam postos em marcha eventos que alterarão radicalmente as vidas de Laura e Marian.

Embora o centro das atenções seja focado na conspiração maquiavélica que ameaça as personagens do romance, Collins dispõe-se a denunciar a condição da mulher vitoriana, forçada a sacrificar a sua liberdade e bens a favor do marido que poderia dispor da sua mulher e propriedades da melhor forma que entendesse. Marian refere as leis de Inglaterra que protegem as mulheres da violência, mas essas mesmas leis são cegas perante os casamentos de conveniência que muitas vezes conduzem à delapidação da fortuna de uma mulher pelo marido, o roubo flagrante da sua herança, mas mais do que isso, da sua própria identidade confinada ao silêncio das quatro paredes e a uma degradação espiritual, mais do que física, que clama prematuramente as vidas dessas mulheres.

Anne Catherick é fechada num asilo, mas Laura não está em melhor condições. Ambas espelham-se uma à outra no seu infortúnio, mas não irão partilhar o mesmo destino. Não quero estragar as muitas surpresas do romance, e basta dizer que por altura da sua publicação serializada, tornou-se um monstruoso sucesso que causou filas de espera pela compra do próximo periódico. A nação seguia ávida os infortúnios, tragédias e perfídia que saltavam de cada página com vivacidade de descrição e faziam o público temer pelas vidas das personagens.

O Conde Fosco é também uma das razões para o dinamismo e excitação que impregna o romance; um estrangeiro com um misterioso passado, dado a sentimentalismos e a uma profundidade de emoções, assume também uma inteligência diabólica e um maquiavelismo impressionantes. Dizem que nem todos os vilões vestem-se de preto.

O romance foi adaptado pela BBC para uma série de grande qualidade e que se mantém fiel ao suspense e mistério de uma forma que chega a superar a estrutura do romance, embora cometa várias liberdades, mas ainda assim é fiel ao espírito do livro.

O musical de Andrew Lloyd Webber é também o motivo porque este romance não foi esquecido entre outros tantos. Ainda falarei de outro romance vitoriano publicado anos depois do livro de Wilkie Collins que partilha muitas afinidades com The Woman in White, mas infelizmente foi remetido para o esquecimento por muitos – Uncle Silas de Sheridan Le Fanu.

About these ads

5 Comments

  1. cleide Argolo said,

    gostaria de receber este resumo do livro a mulher de branco em inglês

  2. comicozinho said,

    quero resumo nao ça porra gigante

  3. Valderrama said,

    É ESTRANHO , É ESTRANHO

  4. duarte gameiro said,

    gostava de saber se esta história e uma especie de sequela de the woman in black

    • fofa said,

      logico que nao né fofa. é só olhar os diretores de the woman in black , e olhar a diferença entre as hitorias !

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s

Follow

Get every new post delivered to your Inbox.

%d bloggers like this: