Dark waters

August 27, 2006 at 10:34 am (Strange Land)

Há muitos anos, numa das minhas viagens ao Líbano, viajei de carro pela costa mediterrânica. A viagem começou em Beirute e seguimos em direcção ao Norte, ao longo da costa. Fizemos várias paragens para apreciar as praias de Jounie, um dos principais centros das comunidades cristãs. A água azul límpida e o branco da areia fazem parte das minhas memórias desta viagem. Existe uma luz especial a banhar as baías do Mediterrâneo, a lembrar a luz do sol a incidir nas águas do rio de Tejo ao fim de uma tarde de verão.

Continuámos a seguir o trajecto de vários quilómetros que nos levaria a Byblos, Jbail em árabe. Byblos é uma pequena cidade costeira, famosa pela sua História que vive ainda nas ruínas e muralhas que durante muitos séculos permaneceram como testemunhos de civilizações antigas. Debaixo do solo de Byblos, acumulam-se as várias identidades históricas que viveram e extinguiram-se no Ocidente e Oriente, desde o tempo do Neolítico.

Lembro-me de ter entrado no castelo do séc. XII que ficou do tempo das Crusadas. Mais do que o castelo, foi a beleza da paisagem vista do topo das muralhas que tornou toda essa visão tão especial. A imagem acima não reproduz por inteiro aura que Byblos impõe sobre os seus visitantes. Nos labirintos da cidade costeira que nada tem de simples, caminhamos por entre os souks, os cafés, as bancas de vendedores onde estão expostos souvenirs turísticos ou arguilés.O recente conflito israelo-libanês não chegou a Byblos. A cidade foi intocada pelos bombardeamentos, mas a guerra encontra muitas maneiras de envenenar cidades e povos e não pára até ver destruição consumada. Reservas de petróleo atingidas pelos israelitas provocaram um derrame durante o conflito. E então o veneno negro infiltrou-se nas águas e areias de Byblos, desfigurando as suas paisagens. É mais uma triste pedra de história a amontoar-se ao seu legado milenar.

Mas Byblos sobrevive ao longo dos séculos, parte de uma identidade cultural que aprendeu a viver em constante ameaça de extinção. A história de Byblos é a história de Líbano; os ossos da terra mantém-se firmes e não se quebram tão facilmente, mesmo que à superfície tudo pereça.

As praias serão eventualmente limpas e o turismo irá regressar, primeiro a conta-gotas, depois, quando a memória deste conflito se desvanecer, regressa à normalidade. Não deverá levar muito tempo para sarar as feridas.

O fim do conflito trouxe contigo uma trégua frágil, mas nenhum sentimento de derrota para os libaneses. Agora, a iminência da chegada da força das Nações Unidas poderá trazer uma garantia de paz ao sul e prevenir novas hostilidades. Resta esperar e assistir a uma nova esperança a erguer-se dos escombros.

1 Comment

  1. Alkimyst said,

    Espero que com as Nações Unidas a coisa acalme para aqueles lados mas honestamente não me parece que seja para durar….😦

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