Porco Rosso

August 10, 2006 at 10:20 am (Cinema e TV)

Em 1992, os estúdios Ghibli lançaram uma nova animação sob mestria de Hayao Miyazaki, Porco Rosso, a história de um piloto da Grande Guerra, Marco Peggot. Desconhecemos a razão porque tem cara de porco e corpo de homem, mas é um facto que fê-lo ganhar o nome de Porco Rosso. Nos anos que se seguiram ao cessar das hostilidades, dissocia-se do fascismo ascendente na Itália (melhor ser um porco do que um fascista) e passa a viver por conta própria, em caça de piratas do ar e mar no Adriático.

PorcoRosso

A sua reputação fá-lo ganhar a inimizade de muitos piratas que decidem contratar um piloto americano, Donald Curtiss, para derrotar e humilhar Porco Rosso. Como consequência, Porco numa disputa aérea vê o seu avião arruinado e é forçado a viajar a Milão, incógnito, de modo a reparar o avião na oficina de Piccolo. É então que trava conhecimento com Fio, a neta de Piccolo, uma engenheira talentosa que se compromete com Porco e irá fazer tudo para auxiliá-lo na sua disputa com Curtiss.

Em contraponto a Fio, temos Gina, uma mulher muito reminiscente das cantoras de cabarets durante os tempos da guerra. Possuidora de uma incrível maturidade e perfeição, Gina tem uma grande afeição por Porco, o seu amigo de infância e por quem sempre nutriu um grande amor. Casada por três vezes, todos os seus maridos morreram durante a guerra. Através de Gina, podemos vislumbrar toda a profundidade de sentimentos na sua relação com Marco; arrependimento, perda, amor, afecto.

Mas o momento mais fascinante do filme será talvez na primeira noite de Fio na ilha de Porco quando o piloto perde-se nas reminiscências do seu passado e é em parte explicada a sua transformação. É uma invocação maravilhosa em que Marco testemunha a perda de todos os seus camaradas numa batalha aérea. Incapaz de voar mais, rende-se à exaustão, mas o avião continua a planar até sobrevoar por cima de uma planície de nuvens e então o piloto assiste ao estranho e perturbante fenómeno em que todos os seus camaradas de guerra e inimigos sobrevoam em harmonia, numa grande congregação, em direcção ao céu. Todavia, a hora de Marco ainda não tinha chegado.

Miyazaki impressionado com os contos de Roald Dahl, um piloto da II Guerra Mundial e também autor infanto-juvenil, de quem era um grande admirador, e especialmente impressionado com o conto They Shall Not Grow Old, homenageia as vidas dos pilotos perdidas em combate através dessa visão de Marco.

Desiludido e amargurado por tantas mortes a uma causa que começara a questionar, Marco perde a sua humanidade e transforma-se num porco. Mas é através da inocência e pureza de Fio que revive e acredita de novo que nem tudo no mundo está perdido, mesmo com o advento da Depressão e uma nova guerra no horizonte.

É curioso constatar como a personagem de Fio é tão semelhante em termos fisícos a uma outra personagem feminina muito próxima do coração de Miyazaki, Nausicaa. Apenas alguém como ela poderia desvanecer as sombras da existência de Marco e restaurá-lo à vida, esquecido todo o ódio e desilusão. As palavras do próprio Miyazaki são também reveladoras acerca das suas intenções:

This film was made for middle-aged men who in their youth dreamed of a pure life, faithful to their principles, but who, little by little, are transformed into ‘pigs’ through the pressures of working like madmen. Despite their intention to reject merely mercenary goals, they are drawn into the world of hyper-consumerism, and when they look for the purpose of their lives, they feel themselves alienated…these men live in solitude and regret.

Porco percorre um caminho, não de auto-descoberta, mas de redescoberta de um “eu” que tinha perdido e que é redimido através do amor e a amizade.

Os filmes de Miyazaki trazem sempre esperança e uma luz animadora a um mundo que caminha, nas suas palavras, para a destruição. Ao ler uma entrevista recente ao realizador, espantou-me como estava tão convencido que o mundo como o conhecíamos chegaria inevitavelmente ao fim e, ainda assim, continuava a realizar estas animações, apesar de todas as angústias que sente.

1 Comment

  1. David Soares said,

    Olá.

    Bom artigo! Os filmes do Miyazaki são muito bons. Não conhecia este, vou procurar, porque me parece bem interessante.

    Deixo, também, uma recomendação. A figura da personagem Porco Rosso faz-me lembrar um álbum de BD editado pela Kitchen Sink Press, mais ou menos há dez anos, intitulado “Oink: Heaven’s Butcher”, escrito e desenhado por John Mueller. Em poucas palavras, trata-se de uma distopia orwelliana na qual a sociedade se encontra subjugada por uma virulenta teocracia e os humanos foram substituídos por escravos híbridos entre o homem e o porco. Existe um elemento da máquina que desperta e a partir daí é o caos para a élite religiosa.
    Ilustrado num traço que nada deve a Simon Bisley, este “Oink: Heaven’s Butcher” é um trabalho intenso e muito original. Deve ser difícil de encontrar, mas é altamente recomendável para quem gosta de narrativas distópicas à la “1984”.

    Cheers.

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