Os seres mais infelizes do mundo

July 30, 2006 at 10:52 am (Strange Land)

Samir Kassir foi um jornalista libanês do An-Nahar e o fundador da revista Orient Express. Foi também um historiador e professor de ciência política. Em 2003, publicou uma obra de referência, Histoire de Beyrouth. Uma voz política activa contra a ocupação síria no Líbano e um opositor das ditaduras dos regimes árabes e do extremismo israelita, ele pagou o mesmo preço que muitos grandes homens, jornalistas e políticos libaneses, pagaram por erguerem a sua voz de oposição. Em Junho de 2005, foi assassinado em Beirute.

Kassir

Mas antes de morrer, também escreveu um ensaio de nome Considérations sur le Malheur Arabe. Foi recentemente publicado pelas Edições Cotovia, com o título Considerações sobre a Desgraça Árabe. De certa forma, talvez tenha sido uma benção para Samir Kassir ter morrido antes do seu tempo. Não teve que assistir mais uma vez à destruição impune do Líbano.

Nesse ensaio, o primeiro capítulo de todos diz tudo de forma transparente e clara – Onde se vê que os árabes são os seres mais infelizes do mundo, mesmo que não o reconheçam.

A impotência é, incontestavelmente, o emblema da actual desgraça árabe. Impotência de sermos o que pensamos dever ser. Impotência de agir para afirmar a nossa vontade de ser, mais que não seja com uma possibilidade, perante o Outro que nos nega, nos despreza e, agora, de novo nos domina. Impotência para fazer calar o sentimento de já não sermos mais do que uma quantidade desprezível no tabuleiro planetário, quando a partida se trava na nossa casa.

Desde essa altura [1973, ano do Yom Kippur], Israel reina solitariamente no Médio Oriente. Desembaraçado da dissuasão egípcia pela paz de Sadate, certo de poder contar com o apoio indefectível da potência americana, confiante na impunidade moral que lhe é garantida pela má consciência europeia e dispondo de um arsenal nuclear adquirido graças a uma potência ocidental – a França – e que não cessa de crescer perante o silêncio das nações, Israel pode fazer literalmente o que quiser e o que lhe ditarem os fantasma de dominação dos seus dirigentes.
Desta supremacia que estrutura a visão do mundo e de si próprios que é hoje a dos árabes, o paradigma foi dado pelo cerco de Beirute durante o Verão de 1982. Para esta estreia, um assalto a uma capital árabe, a aviação israelita estava como em plena exibição , multiplicando tapetes de bombas – as quais não escapou a sinagoga de Beirute , protegida pelos combatentes palestinianos – exercícios de acrobacia com munições reais e mesmo tentativas de assassínio contra a pessoa de Yasser Arafat – utilizando a dada altura uma bomba de implosão que varreu um edifício inteiro de uma só vez. Ao que se acrescentaram técnicas de outros tempos, como o bloqueio alimentar e o corte da água sem que ninguém, em parte nenhuma e em momento algum, nem “massas árabes” nem diplomacias petrolíferas, pudesse fazer cessar esta indignidade.

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