Um olhar cinematográfico do conflito

July 19, 2006 at 7:18 pm (Cinema e TV, Strange Land)

Tinha prometido a mim própria elaborar uma lista de filmes que retratassem o conflito do Médio Oriente. Mas não se iludam. Isto implica décadas de história, e não só história, mas envolve etnias religiosas com crenças específicas que afectam as políticas de Estado.

Muitas das coisas a passarem-se ou que se passaram naquela região chocam profundamente a sensibilidade mais liberal e democrata do Ocidente, e no entanto são consideradas normais e parte do quotidiano.

Infelizmente, não existe separação da religão e o Estado entre os países árabes, o que poderá ser apontado como uma das causas de todos os males. Acho que foi o João Ventura que me disse uma vez que os árabes não tinham tido a sua Revolução Francesa como a Europa. É uma grande verdade.

Nesta pequena lista que compilei incluí temas mais abrangentes como a religião islâmica da qual é preciso ter alguns conhecimentos básicos para perceber muitos dos conflitos. Começo pela início, pela guerra que ainda hoje o Médio Oriente está a pagar as consequências, a II Guerra Mundial.

A Lista de Schindler de Steven Spielberg

O filme representante, por excelência, do percurso trágico dos judeus às mãos das autoridades nazis. Spielberg atingiu um nível cinematográfico ímpar, e embora acuse o seu relato de uma certa manipulação emocional do espectador de modo a favorecer a sua ideologia, devia ser de exibição obrigatória. Juntamente com O Pianista de Roman Polanski, ambos os filmes são testemunhos demolidores das atrocidades dos campos de concentração e do sofrimento de muitos indivíduos naquele tempo, mantendo mais viva do que nunca a memória do drama de sobrevivência durante a II Guerra Mundial.

A Mensagem de Moustapha Akkad

Um relato de grande precisão histórica sobre a vida e feitos do profeta Maomé e a ascensão do Islamismo com Anthony Quinn no papel de Hamza, tio do profeta. Maomé nunca é visualmente retratado no filme por ser considerado blasfémia pelos princípios religiosos islâmicos quaisquer representações pictóricas do profeta. Curiosamente, os militares norte-americanos compraram 100.000 cópias deste filme para distribuir pelo exército antes da invasão do Afeganistão ou Iraque.

Documentário Lady of the Palace de Youssef Chahine, um importante realizador árabe contemporâneo, sobre a vida de Nazira Joumblatt, uma figura pioneira na história política libanesa que com a morte do marido assumiu as rédeas da liderança drusa, preparando-a para o seu filho, Kamal Joumblatt, um das figuras mais influentes do mundo árabe do séc. XX.

Tive a sorte de ver este documentário em 2004, no Líbano, quando foi transmitido em todas as cidades libanesas. Tem uma brilhante análise histórica sobre uma das facções vitais que se envolveram na guerra, os drusos, e conta o percurso desta minoria até à data do assassinato do seu líder, Kamal Joumblatt. O seu filho que lhe sucedeu, Walid Joumblatt, é actualmente um dos mais ferozes opositores à política síria e foi uma figura chave na resistência libanesa durante a guerra civil.

Munich de Steven Spielberg

Munich

Baseado no livro de George Jonas, Vengeance, Munich conta a história da resposta de Israel ao massacre de onze atletas israelitas nos jogos Olímpicos de Munique de 72. The true story of an Israeli Counter-Terrorist Team é o subtítulo do livro e, efectivamente, durante três horas o filme irá mostrar o percurso de quatro homens, agentes secretos, a quem foi atribuída a missão de eliminar os supostos responsáveis palestinianos do grupo Setembro Negro. É um magnífico filme que questiona, através da personagem de Avner, a política de assassinatos selectivos encetada por Israel e a política de olho por olho, dente por dente. Eric Bana é soberbo na interpretação de um agente leal ao seu país, mas a dúvida começa lentamente a infiltrar-se na sua mente, levando-o a distanciar-se cada vez mais de uma doutrina inescapável, representada pela frase emblemática, dita no filme pela primeira-ministra israelita, Every civilization finds it necessary to negotiate compromises with its own values.

Deadline de Nathaniel Gutman

Vi este filme quando deu tarde uma noite na RTP1. Um jornalista americano, interpretado por Christopher Walken, fora providenciado com falsas informações que causaram bastante impacto. De forma a salvar a sua reputação, ele procura por fontes que lhe possam providenciar boas notícias. Temporariamente sediado em Beirute no ano de 1983, ele descobre factos que apontam para a iminência dos massacres nos campos de refugiados palestinianos cometidos pelos libaneses falangistas. Os israelitas, da perspectiva do filme, não são os maus da fita e chegaram a tentar impedir os crimes. Politicamente, o filme retrata de forma duvidosa as várias facções então envolvidas, e é confuso, mas o que me chamou a atenção foi quase o toque de documentário realista nas cenas finais em que o jornalista observa em choque e fotografa as centenas de corpos no chão após o massacre.

Hostages

Na década de 80, o Líbano fez muitas manchetes de jornais com o rapto de reféns europeus que foram mantidos presos durante vários anos até serem libertados. Esta série televisiva, embora não sendo excepcional, reúne um excelente elenco que inclui Colin Firth, Ciáran Hinds e Harry Dean Stanton, e providencia a perspectiva dos reféns e as suas família, mostrando o que realmente aconteceu naquele tempo.

Zozo de Josef Fares

No Líbano, chamamos os homens de nome Youssef ou Joseph de Zozo (Zuzu). Este filme retrata a vida de um pequeno adolescente que cresceu durante os anos da guerra civil libanesa. A tragédia persegue-o mas no meio de uma época turbulenta é capaz de encontrar a sua própria voz e identidade, mesmo que isso implique abandonar o país e a recorrer a uma vida de imigrante. Há muitas cenas inesquecíveis no filme, mas quando Zozo fala com um pintainho e convida-o a vir com ele para a Suécia, onde os seus avós viviam há muitos anos, o pintainho responde (muito à libanesa) que não tinha forma de poder acompanhá-lo porque não tinha passaporte. O retrato que fazia falta sobre a vida e emigração em tempo de guerra.

Paradise Now de Hany Abu-Assad

Confesso que ainda não vi este filme, mas acompanhei um documentário na televisão libanesa sobre o filme e entrevistas aos realizadores aquando a sua nomeação para os Óscares. A história centra-se em dois amigos de infância que foram recrutados para um atentado suicida em Telavive. É uma questão incómoda para muitos, mas o filme parece ter sido capaz de entrar nas mentes destes sucidas e revelar as suas motivações e a intensa luta pessoal. Se o filme tenta ser moralista ou não, não sei dizer, mas parece-me que é capaz de reflectir sobre uma questão que precisa de ser reflectida.

Yadon Ilaheyya de Elia Suleiman, mais conhecido como Intervenção Divina

Embora ainda não tenha visto este filme, incluí-o pelas diversas críticas positivas. Humorístico e um tanto ou quanto absurdo, a complementar todas estas visões dramáticas ou trágicas que perseguem as vidas dos palestinianos e os seus vizinhos.

Para além destes filmes que já adquiriram bastante mediatismo, temos um circuito independente de obras sobre muçulmanos e a sua relação com Israel e o resto do mundo, e que atravessam regiões como Afeganistão, Iraque, Palestina e Israel, abordando questões complexas como o uso do hijab (o véu) ou as regras de sobrevivência no meio de uma guerra. Acedam a este site para saberem quais os filmes em foco.

Haverá muitos outros e convido-vos a falarem sobre eles no espaço dos comentários.

4 Comments

  1. Pedro Marques said,

    Há um do Volker Schlondorff (o do “Tambor”), feito no pico da Guerra do Líbano, em 1981/1982, chamado “Die fälschung” (título inglês ou americano: Circle of Deceit). Parece que é um dos grandes papéis do Bruno Ganz (no anos em que fez a “Cidade branca” em Lisboa), ao lado da Schygulla.

  2. Safaa Dib said,

    Estive a ver no IMDB:

    http://www.imdb.com/title/tt0082429/

    Não conhecia, parece ser bastante bom. Ainda por cima teve a participação de Jean-Claude Carrière no guião que tem feito obras excelentes no cinema e televisão.

  3. Safaa Dib said,

    E descobri hoje mais um novo filme, “Yes” de Sally Potter, sobre uma mulher britânica, casada com um político, que tem um caso amoroso com um médico libanês muçulmano a viver em UK. Mas a uma certa altura, saltam à vista as incompatibilidades e os choques culturais. Fica aqui a ficha:

    http://www.imdb.com/title/tt0381717/

  4. Lívia said,

    Olá…fiquei sabendo que existe um filme/documentário que conta a história do Libano, da guerra civil, etc..
    Alguém sabe que filme é esse e onde posso encontrá-lo?!?!!

    Agradeço desde ja..

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