Desgraça

July 18, 2006 at 10:19 am (Strange Land)

Li esta notícia via o blogue do artista e designer John Coulthart.
Estou tomada por uma fúria e raiva tão descontrolada que quase não consigo escolher as palavras que quero escrever.

LEBANON CIVILIAN DEATHS MORALLY NOT SAME AS TERROR VICTIMS – diz o embaixador dos EUA nas Nações Unidas.

US Ambassador John Bolton said there was no moral equivalence between the civilian casualties from the Israeli raids in Lebanon and those killed in Israel from “malicious terrorist acts”.

Asked to comment on the deaths in an Israeli air strike of eight Canadian citizens in southern Lebanon Sunday, he said: “it is a matter of great concern to us …that these civilian deaths are occurring. It’s a tragedy.”

“I think it would be a mistake to ascribe moral equivalence to civilians who die as the direct result of malicious terrorist acts,” he added, while defending as “self-defense” Israel’s military action, which has had “the tragic and unfortunate consequence of civilian deaths”.

(A notícia completa está neste link).

A vida fora do Ocidente nunca foi tão insignificante como agora. Matem os chinocas, os árabes terroristas, os negros, os aborígenes, os nativos de ilhas, como os timorenses. Deixem-nos morrer às mãos de potências que se julgam moralmente superiores e que se acham no direito de condenar civis. A vida de um europeu vale mais do que a vida de um árabe. O que são cem vidas de africanos perante a vida de um único americano? Não prestamos. Não somos civilizados o suficiente, não somos poderosos o suficiente. Vítimas desafortunadas o suficiente para se terem metido no caminho dos moralmente superiores.

Tudo isso já estava mentalmente interiorizado há muitos séculos, mas agora é dito frontalmente. Mesmo que aceite a ideia de que esse embaixador está induzido em erro e vive de acordo com uma mentalidade ignorante, ele teve a honestidade de dizer, finalmente, de alto e bom som para todos ouvirem, o que vai na cabeça de todos os abutres líderes políticos deste mundo; que as vidas dos libaneses são vidas baratas e sem o mesmo peso moral que as vidas de um país civilizado que cometem massacres e genocídios disfarçados de actos legítimos de auto-defesa.

A destruição do Líbano é desconfortável para a consciência política, mas está tudo dito: não vale o incómodo e a indignação. É muito mais indigno morrer um americano ou um israelita ou um europeu, porque são sempre vítimas. Tudo o resto é carne para canhão ou vilões.

5 Comments

  1. acrisalves said,

    Há pessoas com afirmações muito infelizes… Uma morte é uma morte independentemente da nacionalidade, do credo ou da cor da pele…..

  2. Safaa Dib said,

    Pois! Embora esse embaixador esteja a fazer a distinção entre vítimas de ataques terroristas e vítimas casuais como consequência de ataques movidos por auto-defesa, se formos a ver bem, essa lógica só se aplica a países que não pertencem à 1ª linha de “civilização” e que podem ser usados e descartados como lixo para as suas suas políticas e interesses.

    A questão aqui é que existe um pensamento profundamente perverso subjacente a todos os discursos políticos da sociedade ocidental de que são senhores do mundo, o que pressupõe que os seus países estão acima das leis e convenções e que as suas populações são especialmente privilegiadas. Por consequência, todo o resto é inferior e não detém o mesmo valor.

    Eles não desvalorizam o resto do mundo por causa da cor da sua pele ou credo, isso são coisas que vieram por consequência e que os enojam e perturbam, mas eles acima de tudo desvalorizam porque sabem que não têm poder para rodar as engrenagens que movem a máquina gepolítica do mundo, e têm muito menos poder para detê-los.

    Distribuem julgamento moral como deuses, decretando que aquele ditador é tirano e submeteu o seu país a uma tirania, então atacam-no, despojam-no da sua dignidade, não sendo capazes de perceber que ao despojá-lo da sua dignidade, estão a despojar a dignidade do seu povo, mas fecham os olhos propositadamente às suas acções e às acções dos seus aliados, aos erros que cometeram, considerando que servem propósitos justos e legítimos. O que não conseguem simplesmente sequer vislumbrar é a ideia de que usam as mesmas técnicas, as mesmas estratégias de submissão, o mesmo arsenal, e assumem a mesma ambição e os interesses económicos desse tirano que acabaram de prender.

    De qualquer modo, permanece o facto, evidente para todos, de que nem todas as vidas neste mundo têm o mesmo valor.

  3. Artur said,

    A frase do embaixador resume muito bem aquilo que realmente está subjacente à filosofia política por detrás dos jogos geopolíticos, ou da globalização. Parece que grande parte dos seres humanos, pelos vistos, não tem nenhum interesse.

  4. Bhangra Man said,

    Muito feio. Muito feio mesmo.
    Mas pelo menos finalmente disseram em público aquilo que já se sabia que era o que pensavam, o que mostra ainda mais a sua estupidez, até do ponto de vista político (a nível humanitário essa estupidez é mais que evidente).
    Pode ser que estas broncas, cada vez mais constantes e mediáticas vão erodindo os poleiros onde se meteram estes “crapulas”.
    (mas não estou muito optimista… :S)

  5. Saul said,

    Para mim todas essas vidas têm o mesmo valor, ao que parece para ti também, e a grande diferença entre hoje e o passado é que num passado não muito distante não haveria espaço nenhum onde isso pudesse ser dito, onde sem reservas nem subterfugios a politica dos senhores do mundo pudesse ser contestada, Os blogs iniciaram algo que se pode transformar numa revolução.

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