A “Polónia”

July 17, 2006 at 10:36 am (Strange Land)

O computador está ligado mas a vontade é pouca em aceder aos sites noticiosos e ler o piorar da crise hora após hora.

Para os milhares de imigrantes libaneses em todo o mundo, a situação é angustiante. Muitos tinham ido passar as habituais férias de verão no país e ficaram impedidos de regressar às suas vidas, enclausurados num conflito que se acendeu da noite para o dia.

Um amigo em Londres está a tentar desesperadamente retornar a mãe e o irmão mais novo que tinham ido passar umas semanas no país. Falou com o irmão que disse que nas montanhas tudo tem-se mantido calmo, e tirando o constante sobrevoar da aviação israelita, quase não se diria que a capital está a ser submetida diariamente a bombardeamentos, a não ser pelo grande número de indivíduos que se refugiaram na protecção das montanhas. Somos de aldeias vizinhas, por isso, soube bem ouvir isso.

A única forma de a mãe o irmão regressarem é por via Síria, mas pode ser perigoso pois as estradas para a Síria estão sob a vigilância do sempre alerta olho falcão israelita. Uma outra amiga da minha mãe, de dupla nacionalidade, libanesa e francesa, ficou retida no Líbano. Pediu auxílio à embaixada francesa, mas com a evacuação de milhares de cidadãos europeus, disseram-lhe que as crianças e feridos tinham agora prioridade.

É frustrante viver num mundo onde assistimos ao nosso próprio país a ser destruído perante a passividade de todos. Sem que ninguém se insurja de forma ultrajante e diga “Parem, o que estão a fazer quebra todas as leis e todas as convenções dos direitos humanos”.

Em conversa com o Rogério ontem, ele disse uma coisa que me fez pensar. O Líbano, o outrora chamado Suíça do Médio Oriente, é afinal a Polónia do Médio Oriente. E para quem estudou bem a lição de História, sabe bem o que aconteceu a seguir à invasão da Polónia.

Mas se a Polónia tinha pactos secretos com outros países que a auxiliariam em caso de agressão, Líbano está todo sozinho. Os estados árabes que venderam as suas almas aos Estados Unidos receiam comprometer-se. Os estados árabes psicóticos não se importam com a destruição sistemática do Líbano (atenção que o Irão não é árabe). Europa é apenas uma sombra assustada daquilo que era antigamente. Rússia está mais interessada em convencer os seus aliados de que podem contar com ela para providenciar fontes de energia. Estados Unidos apoiam Israel, embora com alguma relutância, pois no ano passado também apoiaram a Revolução dos Cedros. Não existe ninguém, e espero que o estado libanês perceba isso. A perda de Hariri nunca foi tão duramente sentida como agora. Ele era uma força de natureza, um titã poderoso suficiente para deter uma vaga.

Entretanto aceita-se a invasão da “Polónia”. Alguns diriam que é um dano colateral, um mal necessário para um bem maior, a suposta luta contra o terrorismo. Começou no Afeganistão, afundou o Iraque e agora tem como alvos o “eixo do mal” constituído pela Síria e Irão. E não terminará aqui.

Hoje as notícias falam em envio de uma força internacional de paz para a região. Blair afirma que assim a força evitaria ataques do Hezbollah ao Norte de Israel, e em retorno, Israel já não retaliaria. Blair deve ter uma memória prodigiosamente curta para não se lembrar do que aconteceu à última força de paz internacional no Líbano na década de 80. Mais de trezentos soldados americanos e franceses foram mortos num único atentado bombista de proporções devastadoras. Foi o suficiente para pô-los a correr dali para fora e fazê-los desejar nunca terem conhecido Beirute.

Mas a esperança está longe de terminar. Em 1996, houve um conflito semelhante entre Hezbollah e Israel e durou cerca de 16 dias, com igual troca de mísseis e destruição de infra-estruturas. Todavia, as coisas mudaram no último ano. As principais forças envolvidas mudaram de governação nos últimos meses: Líbano, Israel e Palestina. A questão que agora paira na mente de todos é o quão longe está Israel disposta a ir na suposta defesa do seu território. Eu gostaria de pensar que isto foi apenas uma prova de força do novo governo israelita disposto a mostrar aos vizinhos quem é a mais forte potência da região. Mas já nada é garantido.

O que me assusta mais, no entanto, é que quando todos os jornais se cansarem de noticiar os ataques, quando tudo cair no hábito e o desinteresse apoderar-se de um mundo que se cansa facilmente estes dias, quem ainda se irá importar?

Li este excelente artigo sobre Beirute no site da MSNBC e as diversas perspectivas dos seus habitantes sobre este conflito. Mostra o país dividido sobre o papel de Hezbollah e a filosofia de resistência que sempre pautou as relações do Líbano com os seus vizinhos. É uma boa leitura para perceber como o país é fragmentado por muitas confissões religiosas que, de uma forma ou outra, têm sido capazes de conviver na última década.

3 Comments

  1. Dunya said,

    Eu ainda não tinha dito nada porque não sabia o que dizer.
    Continuo sem saber.

    Espero que esteja tudo bem com a tua família e amigos.

    **************

  2. Artur said,

    O que aterroriza é ver que quem sofre as consequências das loucuras geopolíticas é, como sempre, o povo que quer apenas fazer a sua vida.

  3. andresssa said,

    que merda

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