Sob cerco

July 14, 2006 at 11:38 am (Strange Land)

Eu estava de volta à acção… Entusiasmada em discutir imensos assuntos, em voltar à escrita. Mas a semana que passou deu lugar a uma sucessão de más notícias que nunca vêm sós.

Perante isto, todos os assuntos de repente parecem fúteis e estou preocupada demais para poder agora dedicar-me à escrita de coisa alguma, embora agradeça a distracção.

Por isso, não se surpreendam se durante uns tempos não der sinais de vida. Estou aqui, atenta, a ler tudo, mas como eu gosto de escrever posts sobre literatura, cinema, blah blah blah, estes pode ser que vejam a sua dose ser substancialmente diminuída. Pelo menos, até saber que não há mais motivos de preocupação.

Algumas pessoas têm-me mandado mails ou perguntado pela minha família no Líbano, devido à recente escalada de crise e queria agradecer pelo apoio e lembrança. A minha família vive numa aldeia a meia hora de Beirute, no monte Líbano, e têm saído incólumes desta crise, embora alguns familiares vivam em Beirute. A altura não foi a melhor pois estamos todos de luto pela morte prematura de um familiar muito querido.

Geralmente sou muito reservada e não gosto de me expor pessoalmente, mas achei que era tempo de tentar dar uma perspectiva de uma situação incompreensível para muitos e para me poupar também a comentários inconscientemente pautados por ignorância e, assim, não arriscarem a ferir as minhas susceptibilidades. Chamem-me de egoísta.

Vou tentar transmitir o menos possível a minha opinião, mas nunca obviamente seria imparcial e nunca, nunca, nunca proferiria uma palavra benigna que seja a favor de Israel, por mais politicamente incorrecto que isso seja. Não tenho razões para falar bem de Israel ou ser politicamente correcta. Se alguém quiser dar a perspectiva israelita do confronto, iria ler e aceitar, embora provavelmente discorde de muitas coisas ditas. Como pode um estado que foi construído sobre sangue, o sangue do Holocausto e o sangue de todos os árabes e israelitas conseguir alguma vez sobreviver em paz ou ter alguma credibilidade perante o mundo? Peço desculpa se ofendo alguém, mas já é tempo de encarar a realidade de frente e não disfarçá-la com o politicamente correcto. Há um tabu que impera na sociedade ocidental que dita ser de mau tom criticar judeus, mas é importante frisar a distinção entre israelitas e judeus, e por isso quando critico, não critico a religião, mas critico a nação e o seu governo.

Acho importante lançar umas luzes sobre um conflito que faz parte de um outro conflito ainda maior – o israelo-árabe – que em 2008 irá ver 60 anos decorridos desde o seu início. Lançar umas luzes não é o mesmo que dar agora uma lição rigorosa de história. Talvez elabore uma lista de livros e filmes sobre a temática, embora também não seja nenhuma especialista na matéria. Muitos jornalistas devem saber mais do que eu.

Palestina (não existe Palestina neste momento, apenas para o mundo árabe essa palavra ainda é usada e teima em sobreviver contra todas as expectativas) é o coração do conflito. Desde a criação do estado de Israel em 1948, reclamam os territórios que lhes foram sucessivamente capturados, mas muitas vezes recorrendo a métodos e tácticas condenáveis. A partir dos anos 50, milhares de palestinianos refugiaram-se no Líbano, até se tornarem motivo de desconforto para a sociedade libanesa, dividida sobre a forma como se deveria lidar com os refugiados. Os palestinianos nunca foram inocentes e têm muita culpa a assumir, mas não se deve julgar a maioria como sendo terroristas selvagens. É preciso compreender que, perante a complacência da comunidade internacional perante alguns actos de Israel, muitos jovens canalizaram a sua frustração e impotência para grupos organizados que prometiam o que os seus governos nunca conseguiram oferecer – o direito a uma nação, recuperação da honra e, para muitos deles, vingança.

O problema é que escolheram sediar em Beirute as operações terroristas da OLP (Organização para a Libertação da Palestina), então liderada por Yasser Arafat. Israel, obcecada pela protecção do seu território a todo o custo, lançou uma ofensiva em 82 (não completamente aprovada pelo governo israelita, mas decretada pelo então infame ministro da defesa, Ariel Sharon) que visava a invasão do Líbano e a destruição da OLP.

Aparte este conflito israelo-palestiniano que se desenrolou no Líbano, ocorreu a guerra civil (1975-1990) motivada em parte por causa desse conflito, mas também por muitas outras razões. A complexidade desta guerra é difícil de resumir em algumas palavras.

Mas agora existem medos de que Israel volte a invadir o Líbano como o fez em 1982 para destruir a OLP. Ainda que a ocupação israelista tenha durado apenas 1 ano, o ano mais negro da guerra civil libanesa (82-83), mantiveram posições militares no Sul do Líbano até ao ano 2000 de modo a evitar ataques no Norte de Israel.

Desta vez, Israel pretende a eliminação do Hezbollah, uma milícia guerrilheira libanesa a soldo da Síria e Irão, mas que com o tempo subiu em poder e influência até deter uma representação no parlamento libanês. Os sentimentos libaneses em relação ao Hezbollah são sempre contraditórios; se por um lado defenderam o Sul e expulsaram as tropas israelitas em 2000, estão a arrastar uma nação para um conflito desnecessário que ninguém deseja, sem o consentimento de ninguém. É considerado desleal e de mau tom criticar as acções do Hezbollah contra Israel, mas muitos apontam agora o dedo para o mau caminho tomado pela organização.

O governo libanês está praticamente de mãos atadas e o presidente da república (em completo desacordo com a coligação Hariri actualmente no poder) é uma marioneta às mãos do governo sírio, que tomou a decisão de intervir militarmente nos anos 80 no Líbano, para pôr um travo à guerra civil. O preço a pagar por esta intervenção (que de certa forma salvou o Líbano da destruição total) foi a abdicação velada da soberania libanesa, cujas principais decisões passaram então a ser tomadas nunca sem o consentimento dos leões de Damasco (o apelido da família Assad significa leão em árabe). A situação mudou recentemente, mas a um preço muito caro. Na realidade, a história do Líbano é essa. Paga sempre um preço demasiado pesado. Muitos líderes no passado foram eliminados por se revoltarem contra a situação, por exigirem independência e a retirada do exército sírio com o fim da guerra.

Mas os sírios cometeram um erro quando a 14 de Fevereiro de 2005, o ex-primeiro-ministro Rafik Hariri foi assassinado através de uma detonação de uma bomba no seu veículo, com potência suficiente para abrir uma cratera no chão e arruinar um bairro inteiro. Hariri, um homem que construiu a sua fortuna bilionária graças a negócios com os sauditas, foi o principal arquitecto dos acordos de Taifa que puseram um fim à guerra civil e declararam cessar-fogo entre as mais variadas confissões religiosas que tinham arruinado o país com as suas hostilidades. Mas mais do que isso, foi o homem responsável pela reconstrução de Beirute, toda reduzida a ruínas e quarteirões inteiros de prédios fantasma esburacados por balas de metralhadoras ou destruídos por tanques.

Com Hariri, Beirute tinha-se lentamente reerguido das cinzas e ele permaneceu ao longo dos anos 90 como uma das raras figuras a reunir o consenso de todas as facções libanesas. Usou a sua fortuna para construir a cidade, fundar inúmeras instituições de caridade e graças a ele muito libaneses adquiriram bolsas que lhes permitiam continuar os estudos no estrangeiro. Nos últimos dois anos antes da sua morte, preparava-se para declarar abertamente a sua oposição à Síria e reunia os apoios para formar uma coligação.

A injustiça da sua morte era demasiado sufocante e venenosa para poder ser engolida sem protesto. Pela primeira vez em décadas, a sociedade libanesa, profundamente dividida pela guerra, uniu-se numa série de manifestações que visavam expulsar as autoridades sírias e restaurar a independência. Foi a chamada Revolução dos Cedros e, efectivamente, a Síria submetida a intensa pressão internacional e crescente isolacionismo, não teve outro remédio senão retirar-se.

Isso passou-se em 2005. Não quer dizer que a situação libanesa se tenha tornado um mar de rosas. Apesar das eleições antecipadas terem garantido o poder ao filho de Hariri, Saad Hariri, seu sucessor, ainda existiam muitos espinhos no pé político libanês, mas estava aberto o caminho para uma possível reconciliação, ou pelo menos, uma convivência pacífica. A Síria não deixou de interferir, e é a provável responsável por uma série de execuções sumárias de políticos e jornalistas proeminentes anti-sírios. Embora da perspectiva libanesa isto seja um facto, e não uma probabilidade.

Esta semana o Líbano foi cercado por Israel num acto de guerra desproporcionado pelo rapto de 3 soldados israelitas na fronteira, capturados pelo Hezbollah.

A crise escalou e o Líbano está, na prática, detido como refém. O país foi sempre usado como campo de batalha para um ódio e uma hostilidade sem precendentes que sempre esteve presente nas relações israelo-árabes. Hezbollah enfrenta a sua hora mais crítica; continuará a ignorar as crescentes críticas e a teimar num conflito indesejado pela própria nação ou ir-se-á submeter à autoridade do governo libanês que procura agora reafirmar o seu controlo em todo o território?

Não me admiriria que a Síria tivesse ordenado a luta armada aos guerrilheiros de hezbollah de modo a terem de novo um pretexto para intervirem no Líbano, embora ache que a reacção extremamente agressiva israelita tenha apanhado todos de surpresa. Os israelitas sempre foram paranóicos e agora mais do que nunca com um governo palestiniano liderado pelo Hamas.

Ninguém deseja uma nova guerra na região, mas como um libanês de nome Edmond Khoury comentou com a BBC:

This country is carrying the pains of the entire Arab world.

11 Comments

  1. Alkimyst said,

    Agradeço imenso o post.
    Dá-me uma perspectiva que não se consegue ter através dos pseudo-telejornais que se limitam a dar imagens de malta na rua com kalashnikovs em punho…

    Tudo de bom para a tua familia.

  2. Pedro Miranda said,

    Realmente, uma visão que nunca na vida imaginava. Muito bom post. Bençãos para ti e para a tua família.

  3. Pedro Marques said,

    Oi, Safaa! Daqui votos de que esteja tudo bem com os teus em Beirute.

  4. Safaa Dib said,

    Oi!

    Muito obrigado a todos pelas vossas mensagens.

    Até agora, a família está em segurança mas a situação no país está a piorar a cada dia que passa.

    Resta esperar e ver como as coisas evoluem!

  5. Olhar Marciano » Blog Archive » Abater pombos com bazookas said,

    […] A cruel realidade…Um facto da vidaPrometeu & LúciferLa Vida Secreta de Las PalabrasSob cerco […]

  6. Dextro said,

    Excelente prespectiva e um optimo resumo de uma parte importante da historia da região. Eu não gosto muito de me pronunciar nesta questão, até porque sou bastante pro-israelita, mas compreendo perfeitamente como o Líbano está a ser neste momento um campo de batalha para uma guerra que não devia ser a sua, só espero que esta situação se resolva rapidamente e que haja o minimo de danos colaterais possiveis, especialmente no que toca ás vidas humanas.

  7. Bruno said,

    Bem, eu tinha-me abstido de comentar aqui a situação até agora, apesar de já ter conversado contigo sobre ela. Só quero reafirmar aquilo que já te tinha dito, ou seja força, e espero que corra tudo bem. O resto já o leste no meu post de hoje.

    Um beijinho

  8. songohan said,

    Muito boa prespectiva de alguem que está em contacto directo com pessoas apanhadas no meio deste conflito.
    O hezbollah deve ter pensado que israel estava muito mais fraco por estar espalhado por gaza em buscas pelo soldado raptado e quiseram tentar a sua sorte com um ataque totalmente inesperado onde capturaram 2 soldados. Para o hezbollah tanto lhes dá que o libano seja destruído ou não. O que lhes interessa é conseguirem tempo de antena contra israel.Infelizmente para muitos dos libaneses apanhados neste fogo cruzado, nada podem fazer. O governo do libano não pode decretar guerra ao hezbollah, pois reconhece-os como força partidária e está no governo com ligações a eles. Não os pode apoiar porque então seria um sinal para israel ir para uma guerra aberta. As hipoteses são nulas. Os civis e pobres é que sofrem.

  9. Jurek said,

    muito bom post. Faço minhas as palavras de quem respondeu em 1º

  10. Saul said,

    Um post excelente, uma perspectiva que embora já conhecesse, nunca tinha visto tão bem desenvolvida.
    Tudo de bom para ti e para os teus.

  11. Walter Leite said,

    Parabéns pela coragem, não reprima suas opniões, pois são elas as ferramentas de Deus para realização de sua obra, morei em Genim sul do Líbano em 1991 e pude ver inúmeras injustiças, inaceitáveis aos olhos de qualquer religião que tenha um Deus cheio de Amor e Fraternidade, qualquer uma, atribuir o conflito a mera divergencia apostolica, é ignorar centenas de anos de intolerância e ações truculentas. Que seus caminhos sejam cobertos de bençãos, e nunca falte tua coragem para continuar a mostrar ao mundo tua verdade e de teu povo.

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