O pequeno e desprezado formato de bolso

June 29, 2006 at 2:15 pm (Livros/BD/revistas)

Li este texto no Diário de Notícias, (que li por via do blog da editora Livros de Areia) muito interessante pelas conclusões acerca do livro em formato de bolso e o seu insucesso entre os leitores portugueses. O Pedro Marques também aborda a questão nesse post do blog da editora, fala dessa obsessão portuguesa por livros grandes.

Um aspecto que gostaria de aprofundar melhor, e que só foi referido superficialmente no texto do DN:

O insucesso é, nesta perspectiva, uma questão de mentalidade. As pessoas são reticentes face à má qualidade de muitos livros que foram editados neste formato e isso criou um estigma.

Esses muitos livros que foram editados em formato bolso foram precisamente os livros de bolso da colecção Europa-América, mas principalmente, os da colecção Argonauta. De forma muito pragmática e clara, basta dizer que ambas as colecção mataram o formato de bolso em Portugal. Anos de edições em papel fraco com más traduções, design e grafismo a deixar muito a desejar tornaram o formato de bolso indissociável de má qualidade. E com toda a razão. As argonautas de O Agente de Bizâncio de Harry Turtledove têm uma tradução inenarrável que destrói o prazer da leitura, só para dar um exemplo.

Mas isso não significa que tenha que se manter um estigma para todo o sempre. Uma gestão bem planificada de colecções de bolso, com títulos bem sucedidos e que não sejam reedições de clássicos, mas precisamente livros contemporâneos ou best-sellers, poderia vir a fazer uma diferença significativa no mercado. Tem é que se pôr de lado a ideia de que o formato de bolso só serve exclusivamente para clássicos de literatura.

E surge aqui outra questão interessante. No mercado inglês e americano de literatura fantástica, surgem geralmente 3 edições diferentes do mesmo livro. Primeiro é lançada a hardcover (capa dura e muito apreciada entre coleccionadores), uma edição entre os 25 e 40 euros, dependendo do autor e género, que é posta à venda por cerca de alguns meses ou semanas até que surge a edição trade paperback. Quando chega a altura desta edição, o preço baixa para 16 a 25 euros, e é esta a edição optada pela esmagadora maioria das editoras portuguesas. Mas, cerca de 1 ano após o lançamento da hardcover, o mercado anglo-saxónico ainda beneficia da edição mass-market; geralmente o mesmo design mas numa edição de formato de bolso, com um papel mais fraco. E o custo varia entre os 8 a 12 euros.

E eu nem sequer falei do mercado francófono que tem quase toda a literatura do mundo disponível em boas edições de formato de bolso (penso que é através das edições Gallimard) e o preço não chega a 5 euros.

Em Portugal não se publica uma edição mass-market (nem sequer uma hardcover). Aqui é simplesmente lançada uma edição única e quem não puder gastar tanto dinheiro num livro bonitinho e de bom papel, não lê!

Face a isto, porquê uma cada vez maior fatia de leitores a recorrerem à leitura em inglês ou francês? Não se trata de uma escolha snob ou elitista. Na realidade não há opção de escolha. Ou um leitor lê em inglês/francês os livros de edição mass market disponíveis nas grandes livrarias, ou simplesmente não lê a esmagadora maioria de títulos que nunca chegam a ser traduzidos em Portugal. Mesmo quando são traduzidos, é com um grande atraso e implica dispensar muito mais dinheiro numa edição que nem sequer é na língua original.

Um exemplo flagrante: Kafka on the Shore de Murakami, um dos títulos mais aclamados de 2005, foi lançado em português há uns meses pela Casa das Letras, sob o título Kafka à Beira-Mar, pela bonita soma de 18 euros. Na Fnac, na secção inglesa, está o mesmo livro em formato de bolso (e é uma edição com a mesma capa que a hardcover, não estamos a falar de Argonautas) por 10euros. Uma diferença chocante de 8 euros. E no caso do Lunar Park de Bret Easton Ellis a diferença ainda é mais gritante.

Para quem não lê em inglês, é forçado a gastar muito mais dinheiro em livros ou a comprá-los a preço de desconto nas feiras dos livros.

Uma boa sugestão para inverter esta tendência é começar a cultivar a cultura dos best-sellers em formato de bolso, ou seja, 1 ano após o lançamento da 1ª edição portuguesa, lançar-se o livro num formato mais pequeno e barato. Caso resulte, poderá ser o primeiro passar para destruir esta mentalidade de que o formato de bolso não presta.

Curiosamente, soube há pouco tempo que uma certa editora está a planear fazer mesmo isso. Publicar um grande best-seller dos últimos anos em formato de bolso. Mas sobre isto haverá mais novidades para a semana que vem, espero eu.

3 Comments

  1. Sirlene de Paula Silva said,

    Já revirei essa net para saber como eu faço para participar de feiras de livros em Portugal. Sou escritora brasileira…
    Com um trabalho de literatura infanto juvenil a ser divulgado.
    Algém pode me informar?

  2. Safaa Dib said,

    Para poder participar nas feiras dos livros portuguesas, o melhor era divulgar o seu livro junto das editoras portuguesas vocacionadas para literatura infanto-juvenil que poderiam publicar o seu livro em Portugal.

    Pode sempre tentar as editoras portuguesas Gailivro, Presença ou Edições Asa. Procure enviar-lhes mails com uma carta de apresentação em relação ao seu trabalho e a recepção que teve no Brasil. Tentar não custa.

    E até talvez seja melhor informar-se junto dessas editoras e outras sobre a melhor forma de atingir os seus objectivos.

  3. Neil Gaiman lê seu novo livro: The Graveyard Book « Caducando, lendo e assistindo. said,

    […] como é o caso de O Código Da Vinci, de Dan Brown ou O Senhor dos Anéis, de Tolkien. (Pelo que vi os portugueses passam pelos mesmos aborrecimentos, que nós. Eu acrescentaria à postagem no Stranger in a Strange Land que, tendo participado de […]

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