Contos de fadas em versão adulta

June 25, 2006 at 1:25 pm (Livros/BD/revistas)

O congresso terminou com nota positiva! Foi uma pena não poder assistir a vários painéis mas esse é o problema de serem realizados em simultâneo, forçam-nos a escolher os temas que mais nos interessam. Regra geral, as mulheres oradoras foram mais interessantes que os homens, embora tenha gostado bastante da comunicação sobre Chuck Palahnuik por Philip Coleman da Trinity College de Dublin. Também realço a comunicação da professora Maria Aline Seabra Ferreira sobre Angela Carter, em particular, a questão dos espelhos e da sua significância no conto Reflections e o filme The Blood of a Poet de Jean Cocteau.

Por falar em Angela Carter, recomendo este ensaio disponível no The Guardian sobre The Bloody Chamber, uma das suas obras mais influentes e leccionada nas aulas de literatura inglesa. Aparentemente, tem atingido um público cada vez mais vasto nos últimos anos.

The Bloody Chamber is often wrongly described as a group of traditional fairy tales given a subversive feminist twist. In fact, these are new stories, not re-tellings.

bloodychamber

Mais à frente:

Her work caused shock waves when it appeared, and it continues to shock. The Bloody Chamber, which has been extensively studied in universities over the past decade, apparently elicits furious hostility from a significant number of students, who are outraged when they recognise the bedtime stories of their childhood newly configured as tales of sex and violence. But as Carter said, “I was taking … the latent content of those traditional stories and using that; and the latent content is violently sexual.”

E ainda:

but while she used fantasy to discuss ideas, it is also obvious that it was the landscapes and imagery of fairy tales and legends that fired her imagination – bloodstains and ravens’ feathers on snow, moonlight on a dust-grimed mirror, graveyards on Walpurgisnacht. The stories in The Bloody Chamber reverberate with deep and unmistakable imaginative pleasure. There is an astonishing extravivid materiality to this alternative world she invented, down to the last sensuous detail, like the candle which drops hot wax on to the girl’s bare shoulders in “The Tiger’s Bride”. She loved to describe the trappings of luxury, to display rich scenery in rich language.

E se ficaram convencidos do valor desta obra inigualável, sugiro que comprem a edição original, embora exista uma edição portuguesa na colecção azul da Caminho (O Quarto dos Horrores) com uma tradução muito pobre. Este livro merecia uma reedição de luxo em Portugal e com todas as honras possíveis.

A propósito desse artifício em que um escritor se inspira em histórias tradicionais de modo a criar o seu próprio universo ficcional, é pertinente mencionar a nova BD de Alan Moore (já completa), Lost Girls. Com a colaboração da sua companheira, a artista Melinda Gebbie, Moore continua tão controverso como sempre.

Não é sem algum desconforto que Lost Girls começou a ser vendido nas lojas. Isto para as lojas que se atrevem a vender. Porque por detrás de uma capa em traços e cores femininas delicadas, oculta-se a história de Wendy do livro Peter Pan, Alice de Lewis Carroll e Dorothy do Feiticeiro de Oz. Três raparigas, já mulheres feitas, a partilharem as suas experências (e traumas) sexuais. Sexualmente explícito. Indiferente a tabus e convenções. Pornográfico para muitos, erótico para outros tantos. Relevante em conteúdo? Assim Neil Gaiman o considera neste artigo que escreveu sobre Lost Girls.

Mas aparte a polémica em relação ao conteúdo, os media têm dado muita atenção à questão dos direitos de autor em relação à peça de teatro de James Barrie, direitos esses que pertencem ao Great Ormond Street Hospital de Londres. É uma complicação desmesurada e cheia de meandros legais obscuros. E absolutamente irrelevante. Trata-se do mesmo que Angela Carter fez em relação aos contos de fadas de Perrault e não significa que sejam um spin-off, mas são histórias que adquirem uma vida muito própria, independentemente das suas fontes. Pelo que percebi, a Wendy de Alan Moore em nada se assemelha à Wendy de Barrie, existindo apenas várias ressonâncias.

É curioso notar esse paralelo entre The Bloody Chamber e Lost Girls em que salta a vista uma nova leitura dos contos de fadas e clássicos para crianças, mas não uma leitura com o intuito de chocar só para chocar, antes uma tentativa de expor e denunciar sementes latentes de sexualidade e violência, sempre presentes e sempre negadas mas lá existentes, à espera que a luz se apague para que os monstros saltem debaixo da cama. Moore e Carter não esperaram para que a noite caísse e a luz se apagasse. Todo o desejo, medo e raiva e prazer e muito mais são postos a nu impiedosamente, a uma luz brilhante e feroz. A controvérsia apenas existe talvez porque o leitor não está preparado para lidar com tal nudez que magoa os olhos e ofende a mente incauta.

Num outro registo, sempre que me lembro de Peter Pan, já só me vem unicamente à cabeça o sublime filme Finding Neverland com Kate Winslet e Johnny Depp. Um retrato muito emocional e tocante sobre as relações entre a família vitoriana, mas também lida com as dificuldades em ser-se um rapaz e tornar-se um homem prematuramente. E embora as más línguas digam que o filme em nada se assemelha à verdade, não importa a fidelidade aos factos verídicos, pois Finding Neverland eleva a condição do rapaz órfão a tais alturas, sem ceder a sentimentalismos supérfluos, que quase quebra o coração. E no centro da narrativa, ecoam as palavras bíblicas, When I was a child, I spake as a child, I felt as a child, I thought as a child: now that I am become a man, I have put away childish things. É sobre essa inevitabilidade of putting away childish things, com toda a dor da perda de uma era dourada da infância que isso implica, que Finding Neverland expõe de forma tão comovente e digna. Recomendo em absoluto e foi, sem dúvida, um dos melhores do ano 2004.

De volta à BD, aproveitei ontem para espreitar a Feira Laica na Bedeteca e saí de lá com um maior conhecimento em revistas e fanzines alternativas que não fazia ideia que existiam. É grave, mas a verdade é que revistas e zines nascem e morrem de forma alarmante e sem que ninguém se aperceba disso. Comprei a Kzine, n.º 1, e ainda descobri a revista Underworld, edição de Abril, que continha uma boa entrevista ao David Soares, o mestre do horror nacional, a propósito do seu último livro, Os Ossos do Arco-Íris.

Última aquisição em livros:

Desirable Daughters de Bharati Mukherjee

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