Blogger repórter em 2011

June 19, 2006 at 11:32 am (Livros/BD/revistas)

Graças ao blog da Forbidden Planet, diariamente actualizado com as últimas novidades no mundo da banda desenhada, fantasia e ficção científica, chegou à minha atenção o webcomic The Shooting War.

Com argumento por Antony Lappé, repórter da Guerilla News Network, e design de Dan Goldman , The Shooting War, já com cinco capítulos disponibilizados em exclusivo no magazine online SMITH é uma perspectiva da ocupação americana no Iraque que vai muito mais além das teorias absurdas qua a adminstração Bush alimenta aos americanos de modo a justificar uma guerra desnecessária e já fora de controlo.

ShootingWar

Localizando a história no ano de 2011, num futuro próximo a adquirir contornos negros e distópicos, encontramos Jimmy Burns, um video blogger natural de Brooklyn. No lugar errado, na altura errada, Jimmy testemunha o ataque terrorista no Starbucks por baixo do seu apartamento e o mundo assiste em choque à transmissão em directo de Jimmy. Tornando-se uma celebridade da noite para o dia, é recrutado por uma agência noticiosa (Global News: Your home for 24-hour terror coverage) para servir como o único repórter numa região que já se tornara a terra de ninguém, onde desde há muito que os jornalistas tinham evacuado, o Iraque.

Gostei do ritmo, das montagens com fotografias, da economia de narrativa, e é óbvio que existe uma grande vontade de contar uma história sólida e consistente que repesca alguns temas básicos, mas confere-lhes um toque muito próprio e actual. E coloca na ribalta um dos fenómenos mais intrigantes dos últimos anos, a importância crescente dos blogues na opinião pública. Os blogues têm-se tornado armas poderosas de contestação, acusação, ou até mesmo têm desempenhado funções de jornalismo e até auxílio, como por exemplo no caso do furacão Katrina em New Orleans. Mais do que qualquer outra ferramenta virtual, os blogues criam um forte sentido de comunidade (é estranho como algo tão individual tem este efeito, mas é mesmo isto que ocorre) e The Shooting War evidencia isso na perfeição. Claro que com o passar dos anos, ir-se-á tornar cada vez mais sofisticado, ao ponto de já ser acessível para todos o video-blogging.

Certos detalhes que saltam à vista mostram ao leitor um conhecimento da região e uma leitura da biografia de Lappé revela que serviu como repórter de guerra no Iraque e foi inclusivé o autor do documentário premiado Battleground: 21 Days on the Empire’s Edge, reconhecido como uma das melhores reportagens sobre a guerra a abordar as muitas perspectivas de um conflito do qual, a maioria de nós, já não saberá reconhecer a verdade por detrás da manipulação dos media.

Lappé, ao comentar a sua própria experiência como correspondente de guerra no Iraque que inspirara a realização desta banda-desenhada, diz a uma certa altura uma coisa extraordinária numa entrevista à Forbidden Planet:

We traveled across the country just as the insurgency was beginning to gain strength, trying to understand the various forces that were fueling resistance to the coalition occupation. Near the end of our trip, we found ourselves smack in the middle of the Sunni Triangle interviewing Lt. Col. Nate Sassaman; the cocky former West Point quarterback had become a legend among his men for his aggressive attitude and tactics. After vehemently denying allegations locals made to us that his unit beat up old ladies, shot pets and hauled off innocent young men in midnight raids, a frustrated Sassaman blurted out, “My life is a surreal movie. Everyday I wake up, and it’s a surreal movie.” (Sassaman later resigned in disgrace after trying to cover up the killing of an Iraqi teenager by two of his men).

A Banda-desenhada não escolhe apontar ao leitor a sua posição ideológica ou tenta pregar o que é certo e o que é errado, mas consegue em poucas palavras e imagens mostrar a insanidade de uma guerra e a insanidade de um futuro que tem todas as condições para se tornar o cenário mundial em 2011. Vem-me sempre à memória o Kilgore (Robert Duvall) do filme Apocalypse Now cuja única preocupação era descobrir as melhores praias do Vietname para surfar enquanto os seus helicópteros lançam ataques sobre civis e resistência indiscriminadamente. Ou até mesmo The Thin Red Line de Terrence Malick onde as causas dos soldados e as razões de guerra são esquecidas no campo de batalha e tudo o que resta é a sobrevivência da sanidade a todo o custo.

Torna-se premente a divulgação destes trabalhos que denotam um profundo sentido auto-crítico americano, comparável aos dias de protesto contra a administração Nixon pelo desastre do Vietname. E é grande a necessidade dessa auto-crítica e de uma consciência aberta pela realidade no território iraquiano. Só melhor me apercebi da dimensão da lavagem cerebral a que os norte-americanos foram submetidos ao ver a entrevista do pai de Nick Berg à CNN. Não foram as declarações do pai, extraordinariamente lúcidas, mas sim a posição da jornalista, totalmente maniqueísta e redutora, que me assustou imenso. A América sob a liderança de Bush está a afastar-se da realidade deste mundo, a iludir-se com palavras como iraquian insurgency, war on terrorism, democracy e heaven and hell para ocultar a verdade demasiado feia e cruel de que são os monstros, não os deuses ou heróis desta história.

Os autores já têm disponível ao público gratuitamente cinco capítulos de The Shooting War em:

http://smithmag.us/shootingwar/index.php

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