Short Story Conference

June 14, 2006 at 7:08 pm (Strange Land)

Hoje queria destacar a importância de uma forma literária a que, infelizmente, não se dá o devido crédito e reconhecimento em Portugal – o conto.

Seja em que língua for, o conto não é nunca uma arte menor nem nenhum filho de um deus menor. É sim, por direito próprio, uma das mais excelsas formas de expressão literária com tão ou maior valor que o romance. Tem as suas próprias técnicas e subtilezas, e nas mãos de um mestre pode provocar uma autêntica revolução emocional e mental no leitor. Experimentem ler um conto de Tchékov, Borges, Hemingway, Hoffman ou Eça de Queiroz e Miguel Torga para compreenderem como o conto é imbuído de características próprias e uma capacidade de em palavras parcas e bem escolhidas abarcar toda uma tragédia ou alegria.

Em Portugal, o conto vende mal. É pouco apreciado. Relegado para segundo plano e tratado como sobras de refeição. Um aspirante a escritor em Portugal não opta por se iniciar em narrativas mais curtas, mas planeia trilogias e septologias em que cada volume atinge proporções hercúleas. Há a ideia de que contar muita coisa é essencial, a ideia de que despejar informação, o tão infame info-dump, é a única forma de contar uma história. Há escritores que conseguem ter o fôlego para grandes obras e é a única forma que encontraram de exprimir a sua visão. Mas terá a maioria realmente experimentado aventurar-se no conto?

Entre os ingleses e americanos felizmente que se atribui a importância devida ao conto e são instituídos imensos e variadíssimos prémios que distinguem todos os anos grandes contistas, seja de que género forem.

E isto a propósito de uma iniciativa que vai tomar lugar em Portugal. Como faço parte da casa, não podia deixar de divulgar, nem que seja pela trabalho todo que teve a organização em que se encontram envolvidos antigos e actuais professores meus, a conferência que se irá realizar na Faculdade de Letras de Lisboa, de 21 a 25 de Junho, a 9ª Conferência Internacional de Short Story em Inglês.

Views from the Edge: A Short Story Revisited é o lema pelo qual se irão guiar as muitas palestras, leituras de contos, apresentações e workshops em que foram convidados críticos especialistas, contistas, escritores e académicos de todo o mundo. Não faltarão espectáculos e um concurso de contos. A impressionante lista de personalidades conta com nomes como Amiri Baraka, Hanif Kureishi, Bharati Mukherjee, Robert Olen Butler e Katherine Vaz. A representação nacional estará assegurada por praticamente todas as figuras de peso da literatura portuguesa contemporânea, assim como alguns proeminentes académicos.

O programa foi disponibilizado esta semana e requer um pré-registo pago a assistentes da conferência. Inclui um vastíssimo repertório de actividades e apresentações que procuram abordar todas as facetas que envolvem a produção, análise, tradução e publicação do conto, conferindo o destaque a várias figuras literárias fundamentais no conto em língua inglesa, como William Faulkner, Ernest Hemingway, Fernando Pessoa, Herman Melville, Charles Bukowski, só para mencionar alguns.

No campo do fantástico, surgem algumas comunicações relevantes no âmbito do painel The Art of Science Fiction que irá incluir as leituras:

    Cordwainer Smith: Centuries of Human Future History Told in Short-Stories por Maria do Rosário Monteiro da Universidade Nova de Lisboa.
    Asimov’s Robots and the Frankenstein Complex por Cláudia M. J. Pinto da Universidade de Coimbra.
    A.I. Artificial Intelligence the Film Recreation of Brian W. Aldiss’s ‘Supertoys Last all Summer Long’ por Maria Elena Rodriguez MArtín da Universidade de Granada.

Mas não só a ficção científica recebe honras de painel, como também o escritor Edgar Allan Poe irá ser homenageado com uma série de comunicações, da qual destaco:

    From Novel to Tale, A Transatlantic Transposition: Edward Bulwer Lytton’s ‘Paul Clifford’ as a Multiple Source in Edgar Allan Poe’s Short-Stories por Marta Miquel Baldellon da Universidade de Lleida.

Aconselho uma vista de olhos atenta ao programa que considero bastante completo e de interesse para todos os estudiosos de literatura e não só. Destes encontros, resultará a edição de uma antologia bilingue orientada pelo centro de estudos Anglísticos da Faculdade de Letras de Lisboa.

Comentário:

Demasiado caro o registo. Só terei a certeza do preço exacto na terça-feira (tenho direito a desconto como aluna, vá lá), mas penso que é um número que leva 3 dígitos. Isto é o perfeito exemplo do que representa o fino academismo literário que gosta de fechar as suas portas e tornar tudo tão absolutamente exquisite a ponto de só mesmo a elite da elite poder assistir às conferências. Espero que os meus professores passem um bom tempo enquanto tudo o resto fica à porta.

Edit: Afinal o preço do congresso vai ser muito mais acessível para os estudantes de letras do que incialmente se deu a entender.

3 Comments

  1. Druida_da_Ilha said,

    Como lhe dou razão no seu comentário!
    Mas infelizmente é tipicamente Português o elitismo através da separação económica.
    Ricos tem acesso a dita cultura fina e as pessoas de classes mais baixas têm de se contentar com o resto…abençoada seja a Internet porque aqui até o rico mais elitista vale tanto quanto eu, no que toca ao acesso a informação.
    Continue o bom trabalho, comentários desses só mostram a sua verdadeira qualidade face a esse elitistas.

  2. Luís Rodrigues said,

    Tipicamente português não será, porque cobrar pela admissão a uma conferência é prática corrente em muitos países estrangeiros. É uma forma de autonomizar o evento, para que não dependa de fundos públicos que vão e vêm ao sabor dos ventos políticos, bem como garantir a participação exclusiva dos interessados.

    Independentemente de concordar ou não com esta abordagem, o “povinho” não precisa de conferências nem de elites académicas para nada. Quem quer acesso à cultura fina, não tem mais do que dar corda aos sapatinhos e ir a uma biblioteca pública, onde os livros se encontram ao dispor de toda a gente.

  3. Safaa Dib said,

    Eu não ponho em questão a prática de cobrar pela admissão de conferências, o que me chateia é ser um preço tão inflacionado tendo em conta que a organização nem sequer pagou pelo local e sei que recebeu patrocínios para trazer cá os escritores. Até alguns espectáculos são organizados por pessoas da casa. Tipicamente português é o facto de as organizações de conferências ou outros eventos serem, regra geral, incrivelmente dispendiosas, sem qualquer controlo de custos ou tentativa de contenção de despesas.

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