O pequeno e desprezado formato de bolso
Li este texto no Diário de Notícias, (que li por via do blog da editora Livros de Areia) muito interessante pelas conclusões acerca do livro em formato de bolso e o seu insucesso entre os leitores portugueses. O Pedro Marques também aborda a questão nesse post do blog da editora, fala dessa obsessão portuguesa por livros grandes.
Um aspecto que gostaria de aprofundar melhor, e que só foi referido superficialmente no texto do DN:
O insucesso é, nesta perspectiva, uma questão de mentalidade. As pessoas são reticentes face à má qualidade de muitos livros que foram editados neste formato e isso criou um estigma.
Esses muitos livros que foram editados em formato bolso foram precisamente os livros de bolso da colecção Europa-América, mas principalmente, os da colecção Argonauta. De forma muito pragmática e clara, basta dizer que ambas as colecção mataram o formato de bolso em Portugal. Anos de edições em papel fraco com más traduções, design e grafismo a deixar muito a desejar tornaram o formato de bolso indissociável de má qualidade. E com toda a razão. As argonautas de O Agente de Bizâncio de Harry Turtledove têm uma tradução inenarrável que destrói o prazer da leitura, só para dar um exemplo.
Mas isso não significa que tenha que se manter um estigma para todo o sempre. Uma gestão bem planificada de colecções de bolso, com títulos bem sucedidos e que não sejam reedições de clássicos, mas precisamente livros contemporâneos ou best-sellers, poderia vir a fazer uma diferença significativa no mercado. Tem é que se pôr de lado a ideia de que o formato de bolso só serve exclusivamente para clássicos de literatura.
E surge aqui outra questão interessante. No mercado inglês e americano de literatura fantástica, surgem geralmente 3 edições diferentes do mesmo livro. Primeiro é lançada a hardcover (capa dura e muito apreciada entre coleccionadores), uma edição entre os 25 e 40 euros, dependendo do autor e género, que é posta à venda por cerca de alguns meses ou semanas até que surge a edição trade paperback. Quando chega a altura desta edição, o preço baixa para 16 a 25 euros, e é esta a edição optada pela esmagadora maioria das editoras portuguesas. Mas, cerca de 1 ano após o lançamento da hardcover, o mercado anglo-saxónico ainda beneficia da edição mass-market; geralmente o mesmo design mas numa edição de formato de bolso, com um papel mais fraco. E o custo varia entre os 8 a 12 euros.
E eu nem sequer falei do mercado francófono que tem quase toda a literatura do mundo disponível em boas edições de formato de bolso (penso que é através das edições Gallimard) e o preço não chega a 5 euros.
Em Portugal não se publica uma edição mass-market (nem sequer uma hardcover). Aqui é simplesmente lançada uma edição única e quem não puder gastar tanto dinheiro num livro bonitinho e de bom papel, não lê!
Face a isto, porquê uma cada vez maior fatia de leitores a recorrerem à leitura em inglês ou francês? Não se trata de uma escolha snob ou elitista. Na realidade não há opção de escolha. Ou um leitor lê em inglês/francês os livros de edição mass market disponíveis nas grandes livrarias, ou simplesmente não lê a esmagadora maioria de títulos que nunca chegam a ser traduzidos em Portugal. Mesmo quando são traduzidos, é com um grande atraso e implica dispensar muito mais dinheiro numa edição que nem sequer é na língua original.
Um exemplo flagrante: Kafka on the Shore de Murakami, um dos títulos mais aclamados de 2005, foi lançado em português há uns meses pela Casa das Letras, sob o título Kafka à Beira-Mar, pela bonita soma de 18 euros. Na Fnac, na secção inglesa, está o mesmo livro em formato de bolso (e é uma edição com a mesma capa que a hardcover, não estamos a falar de Argonautas) por 10euros. Uma diferença chocante de 8 euros. E no caso do Lunar Park de Bret Easton Ellis a diferença ainda é mais gritante.
Para quem não lê em inglês, é forçado a gastar muito mais dinheiro em livros ou a comprá-los a preço de desconto nas feiras dos livros.
Uma boa sugestão para inverter esta tendência é começar a cultivar a cultura dos best-sellers em formato de bolso, ou seja, 1 ano após o lançamento da 1ª edição portuguesa, lançar-se o livro num formato mais pequeno e barato. Caso resulte, poderá ser o primeiro passar para destruir esta mentalidade de que o formato de bolso não presta.
Curiosamente, soube há pouco tempo que uma certa editora está a planear fazer mesmo isso. Publicar um grande best-seller dos últimos anos em formato de bolso. Mas sobre isto haverá mais novidades para a semana que vem, espero eu.
Contos de fadas em versão adulta
O congresso terminou com nota positiva! Foi uma pena não poder assistir a vários painéis mas esse é o problema de serem realizados em simultâneo, forçam-nos a escolher os temas que mais nos interessam. Regra geral, as mulheres oradoras foram mais interessantes que os homens, embora tenha gostado bastante da comunicação sobre Chuck Palahnuik por Philip Coleman da Trinity College de Dublin. Também realço a comunicação da professora Maria Aline Seabra Ferreira sobre Angela Carter, em particular, a questão dos espelhos e da sua significância no conto Reflections e o filme The Blood of a Poet de Jean Cocteau.
Por falar em Angela Carter, recomendo este ensaio disponível no The Guardian sobre The Bloody Chamber, uma das suas obras mais influentes e leccionada nas aulas de literatura inglesa. Aparentemente, tem atingido um público cada vez mais vasto nos últimos anos.
The Bloody Chamber is often wrongly described as a group of traditional fairy tales given a subversive feminist twist. In fact, these are new stories, not re-tellings.

Mais à frente:
Her work caused shock waves when it appeared, and it continues to shock. The Bloody Chamber, which has been extensively studied in universities over the past decade, apparently elicits furious hostility from a significant number of students, who are outraged when they recognise the bedtime stories of their childhood newly configured as tales of sex and violence. But as Carter said, “I was taking … the latent content of those traditional stories and using that; and the latent content is violently sexual.”
E ainda:
but while she used fantasy to discuss ideas, it is also obvious that it was the landscapes and imagery of fairy tales and legends that fired her imagination – bloodstains and ravens’ feathers on snow, moonlight on a dust-grimed mirror, graveyards on Walpurgisnacht. The stories in The Bloody Chamber reverberate with deep and unmistakable imaginative pleasure. There is an astonishing extravivid materiality to this alternative world she invented, down to the last sensuous detail, like the candle which drops hot wax on to the girl’s bare shoulders in “The Tiger’s Bride”. She loved to describe the trappings of luxury, to display rich scenery in rich language.
E se ficaram convencidos do valor desta obra inigualável, sugiro que comprem a edição original, embora exista uma edição portuguesa na colecção azul da Caminho (O Quarto dos Horrores) com uma tradução muito pobre. Este livro merecia uma reedição de luxo em Portugal e com todas as honras possíveis.
A propósito desse artifício em que um escritor se inspira em histórias tradicionais de modo a criar o seu próprio universo ficcional, é pertinente mencionar a nova BD de Alan Moore (já completa), Lost Girls. Com a colaboração da sua companheira, a artista Melinda Gebbie, Moore continua tão controverso como sempre.
Não é sem algum desconforto que Lost Girls começou a ser vendido nas lojas. Isto para as lojas que se atrevem a vender. Porque por detrás de uma capa em traços e cores femininas delicadas, oculta-se a história de Wendy do livro Peter Pan, Alice de Lewis Carroll e Dorothy do Feiticeiro de Oz. Três raparigas, já mulheres feitas, a partilharem as suas experências (e traumas) sexuais. Sexualmente explícito. Indiferente a tabus e convenções. Pornográfico para muitos, erótico para outros tantos. Relevante em conteúdo? Assim Neil Gaiman o considera neste artigo que escreveu sobre Lost Girls.
Mas aparte a polémica em relação ao conteúdo, os media têm dado muita atenção à questão dos direitos de autor em relação à peça de teatro de James Barrie, direitos esses que pertencem ao Great Ormond Street Hospital de Londres. É uma complicação desmesurada e cheia de meandros legais obscuros. E absolutamente irrelevante. Trata-se do mesmo que Angela Carter fez em relação aos contos de fadas de Perrault e não significa que sejam um spin-off, mas são histórias que adquirem uma vida muito própria, independentemente das suas fontes. Pelo que percebi, a Wendy de Alan Moore em nada se assemelha à Wendy de Barrie, existindo apenas várias ressonâncias.
É curioso notar esse paralelo entre The Bloody Chamber e Lost Girls em que salta a vista uma nova leitura dos contos de fadas e clássicos para crianças, mas não uma leitura com o intuito de chocar só para chocar, antes uma tentativa de expor e denunciar sementes latentes de sexualidade e violência, sempre presentes e sempre negadas mas lá existentes, à espera que a luz se apague para que os monstros saltem debaixo da cama. Moore e Carter não esperaram para que a noite caísse e a luz se apagasse. Todo o desejo, medo e raiva e prazer e muito mais são postos a nu impiedosamente, a uma luz brilhante e feroz. A controvérsia apenas existe talvez porque o leitor não está preparado para lidar com tal nudez que magoa os olhos e ofende a mente incauta.
Num outro registo, sempre que me lembro de Peter Pan, já só me vem unicamente à cabeça o sublime filme Finding Neverland com Kate Winslet e Johnny Depp. Um retrato muito emocional e tocante sobre as relações entre a família vitoriana, mas também lida com as dificuldades em ser-se um rapaz e tornar-se um homem prematuramente. E embora as más línguas digam que o filme em nada se assemelha à verdade, não importa a fidelidade aos factos verídicos, pois Finding Neverland eleva a condição do rapaz órfão a tais alturas, sem ceder a sentimentalismos supérfluos, que quase quebra o coração. E no centro da narrativa, ecoam as palavras bíblicas, When I was a child, I spake as a child, I felt as a child, I thought as a child: now that I am become a man, I have put away childish things. É sobre essa inevitabilidade of putting away childish things, com toda a dor da perda de uma era dourada da infância que isso implica, que Finding Neverland expõe de forma tão comovente e digna. Recomendo em absoluto e foi, sem dúvida, um dos melhores do ano 2004.
De volta à BD, aproveitei ontem para espreitar a Feira Laica na Bedeteca e saí de lá com um maior conhecimento em revistas e fanzines alternativas que não fazia ideia que existiam. É grave, mas a verdade é que revistas e zines nascem e morrem de forma alarmante e sem que ninguém se aperceba disso. Comprei a Kzine, n.º 1, e ainda descobri a revista Underworld, edição de Abril, que continha uma boa entrevista ao David Soares, o mestre do horror nacional, a propósito do seu último livro, Os Ossos do Arco-Íris.
Última aquisição em livros:
Desirable Daughters de Bharati Mukherjee
Ainda sobre a Short Story Conference
Inicia-se amanhã o congresso da Short Story Conference. Os estudantes da Faculdade de Letras receberam a boa notícia de que o departamento de Estudos Anglísticos irá subsidiar a participação dos alunos nas actividades do congresso. O dia 21 será dedicado à realização dos workshops, de uma vertente mais teórica do que essencialmente prática. Os orientadores serão convidados a partilhar as suas experiências como escritores e leitores com os presentes. As mesas de registo abrem às 9h e os workshops iniciam-se às 10h, tendo cada um a duração de 4 horas.
Os workshops da manhã (10h-13h) são três a decorrerem em simultâneo, sendo os orientadores: Rui Zink, Amiri Baraka e Ana Castillo. Da parte da tarde (15h-18h) cabe a Francine Prose, Katherine Vaz e Robert Olen Butler orientar as sessões.
Às 18.30 decorrerá na Aula Magna, de entrada gratuita para todos os interessados, o espectáculo Fernando Pessoa and the Short Story, organizado pelo grupo Lisbon Players do Estrela Hall.
Quinta-feira dá-se início às conferências com 42 painéis ao todo a comporem o programa de leituras de contos e comunicações. O programa pode ser consultado no site do evento.
O último dia, Domingo, decorre em Oeiras e haverá camionetas a partirem do Campo Grande especialmente destinadas ao local do congresso.
Com muita pena minha, Hanif Kureishi já não se encontra entre a lista de convidados, tendo sido impedido de participar por imprevistos de última hora.
Quem estiver interessado em participar, basta dirigir-se a uma das mesas de registo disponíveis (são atribuídos atestados de presença) no átrio da Faculdade de Letras de Lisboa e depois a dificuldade está na escolha.
Blogger repórter em 2011
Graças ao blog da Forbidden Planet, diariamente actualizado com as últimas novidades no mundo da banda desenhada, fantasia e ficção científica, chegou à minha atenção o webcomic The Shooting War.
Com argumento por Antony Lappé, repórter da Guerilla News Network, e design de Dan Goldman , The Shooting War, já com cinco capítulos disponibilizados em exclusivo no magazine online SMITH é uma perspectiva da ocupação americana no Iraque que vai muito mais além das teorias absurdas qua a adminstração Bush alimenta aos americanos de modo a justificar uma guerra desnecessária e já fora de controlo.

Localizando a história no ano de 2011, num futuro próximo a adquirir contornos negros e distópicos, encontramos Jimmy Burns, um video blogger natural de Brooklyn. No lugar errado, na altura errada, Jimmy testemunha o ataque terrorista no Starbucks por baixo do seu apartamento e o mundo assiste em choque à transmissão em directo de Jimmy. Tornando-se uma celebridade da noite para o dia, é recrutado por uma agência noticiosa (Global News: Your home for 24-hour terror coverage) para servir como o único repórter numa região que já se tornara a terra de ninguém, onde desde há muito que os jornalistas tinham evacuado, o Iraque.
Gostei do ritmo, das montagens com fotografias, da economia de narrativa, e é óbvio que existe uma grande vontade de contar uma história sólida e consistente que repesca alguns temas básicos, mas confere-lhes um toque muito próprio e actual. E coloca na ribalta um dos fenómenos mais intrigantes dos últimos anos, a importância crescente dos blogues na opinião pública. Os blogues têm-se tornado armas poderosas de contestação, acusação, ou até mesmo têm desempenhado funções de jornalismo e até auxílio, como por exemplo no caso do furacão Katrina em New Orleans. Mais do que qualquer outra ferramenta virtual, os blogues criam um forte sentido de comunidade (é estranho como algo tão individual tem este efeito, mas é mesmo isto que ocorre) e The Shooting War evidencia isso na perfeição. Claro que com o passar dos anos, ir-se-á tornar cada vez mais sofisticado, ao ponto de já ser acessível para todos o video-blogging.
Certos detalhes que saltam à vista mostram ao leitor um conhecimento da região e uma leitura da biografia de Lappé revela que serviu como repórter de guerra no Iraque e foi inclusivé o autor do documentário premiado Battleground: 21 Days on the Empire’s Edge, reconhecido como uma das melhores reportagens sobre a guerra a abordar as muitas perspectivas de um conflito do qual, a maioria de nós, já não saberá reconhecer a verdade por detrás da manipulação dos media.
Lappé, ao comentar a sua própria experiência como correspondente de guerra no Iraque que inspirara a realização desta banda-desenhada, diz a uma certa altura uma coisa extraordinária numa entrevista à Forbidden Planet:
We traveled across the country just as the insurgency was beginning to gain strength, trying to understand the various forces that were fueling resistance to the coalition occupation. Near the end of our trip, we found ourselves smack in the middle of the Sunni Triangle interviewing Lt. Col. Nate Sassaman; the cocky former West Point quarterback had become a legend among his men for his aggressive attitude and tactics. After vehemently denying allegations locals made to us that his unit beat up old ladies, shot pets and hauled off innocent young men in midnight raids, a frustrated Sassaman blurted out, “My life is a surreal movie. Everyday I wake up, and it’s a surreal movie.” (Sassaman later resigned in disgrace after trying to cover up the killing of an Iraqi teenager by two of his men).
A Banda-desenhada não escolhe apontar ao leitor a sua posição ideológica ou tenta pregar o que é certo e o que é errado, mas consegue em poucas palavras e imagens mostrar a insanidade de uma guerra e a insanidade de um futuro que tem todas as condições para se tornar o cenário mundial em 2011. Vem-me sempre à memória o Kilgore (Robert Duvall) do filme Apocalypse Now cuja única preocupação era descobrir as melhores praias do Vietname para surfar enquanto os seus helicópteros lançam ataques sobre civis e resistência indiscriminadamente. Ou até mesmo The Thin Red Line de Terrence Malick onde as causas dos soldados e as razões de guerra são esquecidas no campo de batalha e tudo o que resta é a sobrevivência da sanidade a todo o custo.
Torna-se premente a divulgação destes trabalhos que denotam um profundo sentido auto-crítico americano, comparável aos dias de protesto contra a administração Nixon pelo desastre do Vietname. E é grande a necessidade dessa auto-crítica e de uma consciência aberta pela realidade no território iraquiano. Só melhor me apercebi da dimensão da lavagem cerebral a que os norte-americanos foram submetidos ao ver a entrevista do pai de Nick Berg à CNN. Não foram as declarações do pai, extraordinariamente lúcidas, mas sim a posição da jornalista, totalmente maniqueísta e redutora, que me assustou imenso. A América sob a liderança de Bush está a afastar-se da realidade deste mundo, a iludir-se com palavras como iraquian insurgency, war on terrorism, democracy e heaven and hell para ocultar a verdade demasiado feia e cruel de que são os monstros, não os deuses ou heróis desta história.
Os autores já têm disponível ao público gratuitamente cinco capítulos de The Shooting War em:
Short Story Conference
Hoje queria destacar a importância de uma forma literária a que, infelizmente, não se dá o devido crédito e reconhecimento em Portugal – o conto.
Seja em que língua for, o conto não é nunca uma arte menor nem nenhum filho de um deus menor. É sim, por direito próprio, uma das mais excelsas formas de expressão literária com tão ou maior valor que o romance. Tem as suas próprias técnicas e subtilezas, e nas mãos de um mestre pode provocar uma autêntica revolução emocional e mental no leitor. Experimentem ler um conto de Tchékov, Borges, Hemingway, Hoffman ou Eça de Queiroz e Miguel Torga para compreenderem como o conto é imbuído de características próprias e uma capacidade de em palavras parcas e bem escolhidas abarcar toda uma tragédia ou alegria.
Em Portugal, o conto vende mal. É pouco apreciado. Relegado para segundo plano e tratado como sobras de refeição. Um aspirante a escritor em Portugal não opta por se iniciar em narrativas mais curtas, mas planeia trilogias e septologias em que cada volume atinge proporções hercúleas. Há a ideia de que contar muita coisa é essencial, a ideia de que despejar informação, o tão infame info-dump, é a única forma de contar uma história. Há escritores que conseguem ter o fôlego para grandes obras e é a única forma que encontraram de exprimir a sua visão. Mas terá a maioria realmente experimentado aventurar-se no conto?
Entre os ingleses e americanos felizmente que se atribui a importância devida ao conto e são instituídos imensos e variadíssimos prémios que distinguem todos os anos grandes contistas, seja de que género forem.
E isto a propósito de uma iniciativa que vai tomar lugar em Portugal. Como faço parte da casa, não podia deixar de divulgar, nem que seja pela trabalho todo que teve a organização em que se encontram envolvidos antigos e actuais professores meus, a conferência que se irá realizar na Faculdade de Letras de Lisboa, de 21 a 25 de Junho, a 9ª Conferência Internacional de Short Story em Inglês.
Views from the Edge: A Short Story Revisited é o lema pelo qual se irão guiar as muitas palestras, leituras de contos, apresentações e workshops em que foram convidados críticos especialistas, contistas, escritores e académicos de todo o mundo. Não faltarão espectáculos e um concurso de contos. A impressionante lista de personalidades conta com nomes como Amiri Baraka, Hanif Kureishi, Bharati Mukherjee, Robert Olen Butler e Katherine Vaz. A representação nacional estará assegurada por praticamente todas as figuras de peso da literatura portuguesa contemporânea, assim como alguns proeminentes académicos.
O programa foi disponibilizado esta semana e requer um pré-registo pago a assistentes da conferência. Inclui um vastíssimo repertório de actividades e apresentações que procuram abordar todas as facetas que envolvem a produção, análise, tradução e publicação do conto, conferindo o destaque a várias figuras literárias fundamentais no conto em língua inglesa, como William Faulkner, Ernest Hemingway, Fernando Pessoa, Herman Melville, Charles Bukowski, só para mencionar alguns.
No campo do fantástico, surgem algumas comunicações relevantes no âmbito do painel The Art of Science Fiction que irá incluir as leituras:
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Cordwainer Smith: Centuries of Human Future History Told in Short-Stories por Maria do Rosário Monteiro da Universidade Nova de Lisboa.
- Asimov’s Robots and the Frankenstein Complex por Cláudia M. J. Pinto da Universidade de Coimbra.
- A.I. Artificial Intelligence the Film Recreation of Brian W. Aldiss’s ‘Supertoys Last all Summer Long’ por Maria Elena Rodriguez MArtín da Universidade de Granada.
Mas não só a ficção científica recebe honras de painel, como também o escritor Edgar Allan Poe irá ser homenageado com uma série de comunicações, da qual destaco:
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From Novel to Tale, A Transatlantic Transposition: Edward Bulwer Lytton’s ‘Paul Clifford’ as a Multiple Source in Edgar Allan Poe’s Short-Stories por Marta Miquel Baldellon da Universidade de Lleida.
Aconselho uma vista de olhos atenta ao programa que considero bastante completo e de interesse para todos os estudiosos de literatura e não só. Destes encontros, resultará a edição de uma antologia bilingue orientada pelo centro de estudos Anglísticos da Faculdade de Letras de Lisboa.
Comentário:
Demasiado caro o registo. Só terei a certeza do preço exacto na terça-feira (tenho direito a desconto como aluna, vá lá), mas penso que é um número que leva 3 dígitos. Isto é o perfeito exemplo do que representa o fino academismo literário que gosta de fechar as suas portas e tornar tudo tão absolutamente exquisite a ponto de só mesmo a elite da elite poder assistir às conferências. Espero que os meus professores passem um bom tempo enquanto tudo o resto fica à porta.
Edit: Afinal o preço do congresso vai ser muito mais acessível para os estudantes de letras do que incialmente se deu a entender.
The greatest living or the most popular?
De acordo com esta notícia , a autora J. K. Rowling que já dispensa apresentações mas, de qualquer forma, vou constatar o óbvio, e autora do fenómeno Harry Potter, foi nomeada como, e transcrevo em inglês para captarem na perfeição a pompa do título, the greatest living british writer.
Rowling ultrapassou em grande número o escritor Terry Pratchett, o criador do universo Discworld, assim como nomes mais proeminentes da literatura inglesa contemporânea como Kazuo Ishiguro, Ian McEwan e Salman Rushdie. No campo da fantasia, outros nomes foram ultrapassados como Phillip Pullman, Iain Banks e Alasdair Gray.
A votação foi recebida não sem algum desagrado entre as hostes mais conservadoras, curiosamente tanto da parte do establishment literário britânico como da parte da ficção especulativa anglo-saxónica. Ambos os lados unânimes em considerar com algum desconforto a nomeação de Rowling. Se tivesse que arriscar um palpite, diria que tal se deve à perspectiva fechada do establishment literário britânico que não consegue conceber a ideia de uma fantasia juvenil ser tão popular a ponto de destronar o que se diria ser a Literatura com “L” maiúsculo. Quanto à ficção especulativa, talvez porque tem consciência de que Rowling é o pior exemplo de fantasia que poderia ter sido tornado popular e nunca poderia ser um bom veículo de divulgação de uma literatura especulativa mais adulta e sofisticada.
Não é sem surpresa que o nome desta autora surge no topo. O que não pode ser considerado sem alguma indignação é o facto de o próprio título dar azo a más interpretações e conduzir erradamente à ideia de que a ficção de Rowling é the greatest fiction por consequência de ser the greatest living british writer, para não dizer outras coisas. Mais correcto seria dizer que Rowling é a autora mais popular, e aí encerrava-se a controvérsia toda e aceitava-se um facto que não pode ser rebatido, que Potter é rei e senhor em vendas e já tão icónico como Frodo e o anel de Sauron.
São nomeações como estas promovidas pela Book Magazine que expõem cada vez mais a futilidade de se realizarem polls que automaticamente se constituem como fraudes, na medida em que espelham as melhores operações de marketing. E aqui vou eu constatar o óbvio de novo: ser um grande autor nunca foi sinónimo de ser o autor mais popular. Mal seria se assim fosse. Quantos autores morreram na obscuridade e miséria para posteriormente serem resgatados da ingratidão e incompreensão dos seus conterrâneos?
O conselho que todos dão é o de ignorar estas votações pois são o produto de um público que se deixa reger pelas regras do mainstream. É uma desculpa confortável mas será tão linear assim? Mais uma vez está à vista o grande fosso entre o que é comercial (que nem sempre é sinónimo de má qualidade) e o que não é. Parece que tudo acaba por girar em torno desta problemática que assenta na divisão entre o produto intelectual (seja lá o que isto for) e o popular.
A nota positiva que não se pode deixar de realçar é o facto de os primeiros dois autores da lista pertencerem ao género fantástico. Mas no mundo anglo-saxónico foi sempre com muito mais respeito e conhecimento que se encarou o género. Ao contrário do mercado português que ainda não tem uma verdadeira visão do potencial e alcance da ficção especulativa.
Num aparte, vim a saber de óptimas notícias no campo da publicação de fantástico em Portugal por parte de uma editora que ainda prefiro não nomear (não, não é a Saída de Emergência). As coisas aparentemente já avançaram e tomaram forma, mas fico à espera que os responsáveis oficializem primeiro as coisas de modo a poder divulgar as novidades no site da Épica. Aparentemente, avizinha-se uma óptima altura para o público português que quer ler mais do bom e melhor fantástico.
Super Bang, Super Rock
A semana que passou é o que poderia ser chamada de uma semana diferente. Deixou-me de rastos e impediu-me de actualizar este espaço tanto quanto desejaria. Alguns momentos da semana que merecem menção especial:
Sábado, dia 3 – Apresentação da Bang!
Apareceu a malta toda do fandom e que participou na revista, com muitas outras presenças inesperadas e esperadas. A óptima localização do stand da Saída de Emergência, à sombra das árvores, protegeu-nos do sol abrasador e então a tarde prolongou-se com muita conversa, livros e até não faltou uma leitura surpresa da parte do João Ventura.
Ao contrário do que julgava, o escritor José Manuel Lopes tinha estado presente na feira no dia anterior mas graças à editora mais querida do mundo, a Maria João, a quem agradeço imenso por se ter lembrado de mim, recebi uma edição autografada do livro Fragmentos de uma Conspiração.
A feira foi o local ideal para renovar contactos e conhecer novas pessoas que se mostraram interessadas em colaborar em vários projectos, tanto no Fórum Fantástico, como na revista. E curiosamente estavam lá representantes de todas as comunidades a passear pela feira, Filhos de Athena, BBDE, Bookcrossing, Allaryia, and so on.
O que eu perdi e gostava de ter visto: Parece que o David Soares é um grande fã da Miffy, tanto que os dois foram vistos aos abraços mais tarde. Já vi umas fotos bem reveladoras…
Quarta-feira, dia 7 – Super Bock, Super Rock
Este ano marquei presença no festival Super Bock, Super Rock no dia dedicado a um programa marcado por música indie ou alternativa. Fixem o nome desta banda: The Editors. Logo a abrir o festival às 18h de uma tarde solarenga, os very british e very indie Editors deram um dos melhores concertos que já tive a oportunidade de assistir, com um vocalista de voz muito segura e confiante e um desfile de músicas do grande álbum revelação que foi The Back Room a transmitirem uma energia fantástica que cativou o público por cerca de 45 minutos irrepreensíveis.
Com bandas portugueses com direito a tocarem meia hora entre as internacionais, atacou a seguir a banda belga dEUS . Não sou uma grande fã da banda mas gostei da actuação, e embora sempre tenha achado as músicas um pouco longas e eventualmente cansativas, o vocalista terminou numa nota bastante positiva.
E por falar em bandas portuguesas, será assim tão fraca a produção nacional que tenham que ser aquelas bandas a desfilar em palco? Acusam um enorme amadorismo em tantos níveis e ainda que revelem um bom som instrumental, ou peca a voz, ou peca o som, ou peca simplesmente tudo (que saudades dos Ornatos Violeta). A excepção foi para o Legendary Tiger Man, com uma encenação segura e a subir o nível à representação portuguesa do SBSR.
The Cult passaram-me ao lado. Só conhecia a banda de nome e tinha a ideia de uma banda com um rock bem mais pesado mas afinal revelaram um som a tender para o mainstream e ligeiro. Talvez tenham tido outros dias de glória no passado, não sei.
Keane. Há quem discorde da inclusão desta banda no meio de tantas bandas indies, tendo já atingido um nível de popularidade vasto. Mas curiosamente as versões MP3 que tenho das músicas dos Keane são versões acústicas gravadas na RFM por ocasião da vinda dos Keane a Portugal pela primeira vez. Habituei-me de tal forma a elas que já não é com muito agrado que ouço as versões que normalmente passam nas rádios. Tom Chaplin canta muito bem e continuou a cantar bem no festival.
Mas a noite pertenceu aos

Franz Ferdinand. Já tinha estado presente no concerto dos FF em Agosto do ano passado no Doca Pesca. Simplesmente o de dia 7 não se lhe compara. Excederam-se absolutamente numa performance apurada e em total sintonia com os festivaleiros. Alex Kapranos soube muito bem gerir as expectativas do público e fez uma actuação impecável com músicas novas a alternar com os clássicos Take me out, This Fire, Walk Away, Do You Want To. A título de curiosidade, esta banda tem uma música de nome Love and Destroy dedicada a um grande clássico da literatura, Margarita e o Mestre de Mikhail Bulgakov. Foi, aliás, isso que me chamou inicialmente a atenção para uma banda que ainda só conhecia superficialmente na altura.
Quinta-feira, dia 8
O dia foi rocambolesco demais, mas é o episódio do House, M. D. que gostava de referir. Era o segundo da nova temporada sobre a menina a morrer de cancro. Para além de manter o interesse da primeira série, tem agora uma banda-sonora porreira a complementar os dramas e estranhas disposições de House. Foi logo a música Hallelujah de Jeff Buckley, uma das minhas favoritas, a fechar o episódio de estreia. Mas que este médico não seja nunca um exemplo a seguir, lembrou-me o diabo a influenciar o paciente a escolher a morte.
Sexta-feira, dia 9
A sobrinha partiu e estou de coração destroçado.
Divulgação da Bang!
Só para relembrar que amanhã, dia 3 de Junho, pelas 16h, os autores que participaram nos números da revista Bang! vão estar presentes na feira do livro de Lisboa para uma sessão informal de apresentação e autógrafos. E em princípio, estará lá também a dar autógrafos José Manuel Lopes, o autor de Os Fragmentos da Conspiração. Se quiserem juntar-se ao bando, basta fixarem o número 182, o número do pavilhão, do lado esquerdo de quem vem da entrada principal.
Mais do que tudo, trata-se de um esforço de divulgação da parte dos editores em suscitar o interesse pela única revista de literatura fantástica no país. A Bang! precisa de leitores para continuar a ter uma vida fabulosa, mítica e … longa. Por isso, passem a palavra. Até porque a revista está a ser vendida a metade do preço no stand da Saída de Emergência.

E engraçado que tenho vindo a descobrir que vai estar amanhã na feira meio mundo que eu conheço.
Posso desde já é dizer adeus a compras de livros. Uma passagem pelos alfarrabistas hoje acabou por ser tão frutuosa que me impede de dar livre rédea aos meus impulsos consumistas na feira de Lisboa.
As minhas aquisições do dia foram todas na área da ficção científica, assumindo-se já como clássicos dentro do género.
– O livro que já andava à procura há muito tempo, A Sombra do Torturador de Gene Wolfe da colecção Nébula e que tinha sido recomendado pelo João Seixas numa antiga edição da revista Os Meus Livros como um dos 10 livros de leitura obrigatória no género. E é também o primeiro livro da galardoada série The Book of the New Sun.
(a ver se repesco essa edição da revista para me relembrar de quais eram os outros clássicos de FC editados em português recomendados pelo Seixas).
A Guerra das Salamandras de Karel Capek
Os Três Estigmas de Palmer Eldritch de Philip K. Dick
Não tarda nada este blog vira uma lista dos livros que compro. Prometo que vou variar mais daqui em diante, isto é, se a minha sobrinha de 2 anos me deixar estar sentada ao computador. Trinta minutos e já me dou por felizarda.
O fim em Apocalypto
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É bom saber que, ao contrário dos trailers que têm vindo a declinar em qualidade artística, os posters de cinema esmeram-se no impacto emocional e beleza visual. Uma imagem vale mil palavras e esta imagem do novo filme de Mel Gibson é esplendorosa pela carga mítica e épica que transmite.
Gibson tem vindo a surpreender audiências nos últimos dez anos na realização de filmes que apelam às emoções de uma audiência, sem sacrificar a sua própria visão de homens que desde o início se vêem como outsiders e com um forte consciência do destino a guiar as suas vidas. O discreto The Man Without a Face precedeu Braveheart, um dos últimos grandes e excelentes épicos do cinema americano (apesar das liberdades históricas) e o controverso The Passion of the Christ, um sincero e perturbante tributo de um homem que encontrou todas as suas respostas na história de uma alma que se auto-sacrifica por todas as outras almas.
E porque a sensibilidade de Gibson me toca profundamente, Apocalypto é o filme do ano onde residem todas as minhas expectativas. Tendo como pano de fundo os últimos dias do Império Maya, o filme é todo falado na língua nativa com um elenco de actores desconhecidos.
When a man’s idyllic existence is brutally disrupted by a violent invading force, he is taken on a perilous journey to a world ruled by fear and oppression…
A estreia está marcada para 8 de Dezembro.
Leituras:
Novo capítulo de A Dance With Dragons dedicado a Tyrion Lannister no site do autor. E confirma a minha ideia de que os passos de Tyrion irão conduzi-lo a uma certa personagem que não nomearei. Como um amigo meu me disse, vai ser o encontro mais esperado da década em fantasy.





