Leituras sobre cinema

May 28, 2006 at 11:13 pm (Cinema e TV, Strange Land)

Uma vez que por razões pessoais tenho andado temporariamente impossibilitada de dedicar a atenção que quero ao blogue, não tenho tido o tempo ou a capacidade mental para escrever de uma forma mais atenta e trabalhada. Ou seja, ultimamente as amibas devem ler mais do que eu e quanto a escrever resenhas, nem vê-las. O que me tem limitado a leituras de textos na Internet sobre os mais variados acontecimentos notáveis do momento. Curiosamente, cerca de 65% das minhas leituras são sobre cinema.

Com algum pesar meu, não tenho o sentido crítico a cinema como desejaria. E quando falo em sentido crítico, falo na capacidade de escrever resenhas sobre filmes e acertar na mouche. Pelo menos sinto que nunca o fiz de forma tão satisfatória como faço o mesmo em relação a livros. Mas a minha relação com a literatura foi sempre muito mais profunda e se dedicar tempo suficiente, um bom livro revela-me todos os seus segredos, mas nunca um filme que constantemente me perturba ou me deixa perplexa com as suas múltiplas leituras.

Ainda assim, um dos meus guilty pleasures é passar todo o tempo que me for possível a ler sobre cinema. Leio de tudo o que encontrar na web. E isto é o que encontrei nos últimos tempos digno de ser partilhado.

Li há uns dias uma reflexão um tanto ou quanto informal sobre o desaparecimento do glamour em Hollywood.
Não é uma questão nova e desde há muitas décadas, mais precisamente desde os anos 60, que o glamour que imortalizou Hollywood nos seus primórdios morreu.

glamour

Fundamental to glamour were wit, urbanity, intelligence and a talent for adapting to change.

Glamour tem tanto a ver com dignidade, como com todos estes factores. A verdadeira diva estava acima dos mortais comuns e vivia num mundo de estrelato só seu e dos que escolhesse acompanhá-la. Mas a existência do glamour nunca se limitou a uma questão de compostura e classe, sendo antes desencadeada por um conjunto de circunstâncias históricas vitais para compreender a relação entre América e Hollywood. Os musicais (Top Hat, Swing Time, Shall We Dance) e as screwball comedies dos anos 30 e 40 (My Man Godfrey, Bringing Up Baby) serviam como fantasias escapistas numa era marcada pela Grande Depressão e instabilidade política, moral e económica. Os actores e actrizes de estúdio eram produtos de uma fábrica de sonhos determinada a manter o sonho vivo. E por isso era essencial que se apresentassem com rostos, penteado, vestuário imaculado, com o estilo certo e, acima de tudo, com o talento certo para personificar um ideal.

Ainda dentro desta temática, para os que estejam interessados em ler uma curta panorâmica da história do cinema americano (em português) através de uma perspectiva de géneros, recomendo este excelente resumo que atravessa uma história de décadas e que teve como ponto de partida a reflexão sobre a vida e morte dos mais variados géneros, desde o horror, comédia, aventura, passando pelo filme noir, drama, até ao fantástico e ficção científica. Palavra que se fica a conhecer melhor a história do cinema, embora de forma condensada.

Goste-se ou não de animação japonesa, mais vulgarmente designada por anime, o seu impacto no cinema fantástico é fundamental e foi capaz de levá-lo a um ponto tão além das convenções do género que é loucura descartar o seu potencial e legado. Sobre este assunto, e em particular, sobre a capacidade de os animes se assumirem como espelhos da sociedade japonesa, chamaram-me a atenção estes dois excelentes textos sobre Akira e Spirited Away (A Viagem de Chihiro). Resenhas muito bem escritas e incisivas.

E eis uma boa notícia. Finalmente, após vinte e cinco anos desde a sua estreia, irá ser lançado em 2007 a special edition do clássico de ficção científica Blade Runner que irá incluir as quatro versões do filme, tendo já sido resolvido o problema em relação aos direitos de autor (A Warner não irá perder agora a oportunidade de fazer dinheiro, devem vender o mesmo filme em diferentes edições de DVD).

BR

E vindo de Cannes, o vencedor foi Ken Loach com o seu filme simpatizante da causa irlandesa The Wind that Shakes the Barley, mas na verdade o nome do vencedor é o facto de menor relevância num festival que pode revelar-se perigoso para produtoras americanas menos cautelosas em relação aos seus produtos comodistas ou defraudores de expectativas. Até porque é sabido como Cannes rendeu-se a decisões mais pautadas por activismo político do que propriamente valor artístico. Essa avaliação cinéfila e artística cabe antes de mais, não ao júri, mas à crítica internacional que irá recomendar ao público se deve ou não perder o seu tempo com os filmes em cena. E eles não terão misericórdia de nenhum cineasta, por mais consagrado que seja.

A Hollywood Reporter expôs bem essa questão num artigo que aponta alguns casos paradigmáticos dessa má gestão de expectativas por parte das grandes produtoras e distribuidoras: Sofia Coppola com Marie-Antoinette, Southland Tales de Richard Kelly e, acima de tudo, O Código Da Vinci de Howard foram vaiados e apupados, vendo bastante da sua credibilidade afectada (finalmente! A crítica demorou em reconhecer a realização asquerosa, manipuladora e puramente blockbuster de Ron Howard).

Novas aquisições na feira do livro:

Pequenas Grandes Infâmias de Panos Karnezis (autografado)

O Agente de Bizâncio de Harry Turtledove (2 volumes)

Se puderem, passem pelo stand da Tinta da China, uma editora recém-nascida, mas já com um livro vencedor em 2005, o excelente ensaio de Rui Tavares, O Pequeno Livro do Grande Terramoto. Apesar dos relativamente poucos livros, o design e grafismo de qualidade, aliado a apostas irreverentes e ousadas, pode tornar esta editora the next big thing. Se puderem, vejam também a mítica esponja de lavar louça exposta no stand. Só me limito a dizer que não se trata de uma simples esponja…

3 Comments

  1. Dunya said,

    Meu Deus, consegues escrever tanto!
    I wish😐

    Ontem esqueci-me de te perguntar a tua data de nascimento (para espreitar a tua carta astrológica, hehe :p).

    I’m curious.

    Talvez apareça no irc hoje à noite e se estiveres lá dizes-me🙂

  2. Safaa Dib said,

    LOL

    Eu digo-te se apareceres no IRC.😉

    E eu não escrevo nem metade do que desejaria escrever.

  3. Dunya said,

    Estava aqui a imprimir umas coisas e o raio da máquina nunca mais😡
    Não deu para ir. Amanhã passo por lá.

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