Quando o cinema e a literatura se tornam um só

May 6, 2006 at 1:15 pm (Cinema e TV, Livros/BD/revistas)

The Guardian colocou ontem online a sua eleição dos cinquenta melhores filmes adaptados de livros. Curiosamente, ou talvez não surpreenda ninguém, alguns títulos significativos da lista se enquadram no âmbito da FC&F. Transcrevo aqui a lista, e aproveito para deixar o link à notícia.


1984 (Michael Radford, 1984)
A Clockwork Orange (Stanley Kubrick, 1971)
Alice ( Jan Svankmajer, 1988)
American Psycho (Mary Harron, 2000)
Apocalypse Now (Francis Ford Coppola, 1979)
Blade Runner (Ridley Scott, 1982)
Breakfast at Tiffany’s (Blake Edwards, 1961)
Brighton Rock (John Boulting, 1947)
Brokeback Mountain (Ang Lee, 2005)
Catch-22 (Mike Nichols, 1970)
Charlie and the Chocolate Factory (Tim Burton, 2005)
Dangerous Liaisons (Stephen Frears, 1988)
Devil in a Blue Dress (Carl Franklin, 1995)
Doctor Zhivago (David Lean, 1965)
Empire of the Sun (Steven Spielberg, 1987)
Fight Club (David Fincher, 1999)
Get Shorty (Barry Sonnenfeld, 1995)
Goldfinger (Guy Hamilton, 1964)
Goodfellas (Martin Scorsese, 1990)
Jaws (Steven Spielberg, 1975)
Kes (Ken Loach, 1969)
LA Confidential (Curtis Hanson, 1997)
Lolita (Stanley Kubrick, 1962)
Lord of the Flies (Peter Brook, 1963)
Oliver Twist (David Lean, 1948)
One Flew over The Cuckoo’s Nest (Milos Forman, 1975)
Orlando (Sally Potter, 1992)
Pride and Prejudice (Joe Wright, 2005)
Rebecca (Alfred Hitchcock, 1940)
Schindler’s List (Stephen Spielberg, 1993)
Sin City (Frank Miller & Robert Rodriguez, 2005)
Tess (Roman Polanski, 1979)
The Day of the Triffids (Steven Sekely, 1962)
The English Patient (Anthony Minghella, 1996)
The French Lieutenant’s Woman (Karel Reisz, 1981)
The Godfather (Francis Ford Coppola, 1972)
The Hound of the Baskervilles (Terence Fisher, 1959)
The Jungle Book (Wolfgang Reitherman, 1967)
The Maltese Falcon (John Huston, 1941)
The Outsiders (Francis Ford Coppola, 1983)
The Prime of Miss Jean Brodie (Ronald Neame, 1969)
The Railway Children (Lionel Jeffries, 1970)
The Remains of the Day (James Ivory, 1993)
The Shawshank Redemption (Frank Darabont, 1994)
The Spy Who Came in From the Cold (Martin Ritt, 1965)
The Talented Mr Ripley (Anthony Minghella, 1999)
The Vanishing (George Sluizer, 1988)
To Kill a Mockingbird (Robert Mulligan, 1962)
Trainspotting (Danny Boyle, 1996)
Watership Down (Martin Rosen, 1978)

No geral, é uma lista satisfatória, se bem que não vi alguns dos filmes ou não li os livros que lhes deram origens. Tenho pena de não ter visto ser considerado Oscar e Lucinda de Gillian Armstrong baseado no livro de Peter Carey. Deve ser um dos filmes mais injustamente esquecidos do final da década de 90. Estranho também a omissão de O Carteiro de Pablo Neruda baseado no livro de Antonio Skarmeta, e embora não tenha lido o livro, afiançam-me de que o filme conseguiu superá-lo. Mas a omissão mais flagrante e imperdoável de todas é a de Cyrano de Bergerac de Jean Paul Rappeneau, baseado na peça de Edmond Rostand. É de culpar a tradicional hegemonia britânica e americana nestas listas que desconsidera, sem desculpas, outras nacionalidades.

Mas enfim, fazendo vista grossa a esse facto, não queria deixar de fazer alguns comentários a certos filmes.

1984 de Michael Radford, baseado no livro de George Orwell
Este é um caso paradoxal. O filme respeita integralmente o livro, e é talvez das adaptações mais fiéis que já tive oportunidade de ver e, contudo, falha redondamente em transmitir a mesma dinâmica que move a narrativa de Orwell. Tornou-se um filme cinzento, deprimente, aborrecido, miserável. Dir-me-ão que é mesmo disso que se trata o livro. Mas se é assim tão deprimente e negro, o que faz um leitor continuar a virar as páginas vorazmente? Michael Radford tentou fazer uma boa homenagem, e o que conseguiu foi transmitir uma adaptação competente, mas seca. Fiel, mas insípida.

Lord of the Flies de Peter Brook, baseado no livro de William Golding
Teria qualquer outro realizador sem ser Peter Brook sido capaz de expor o coração das trevas por trás da face de cada homem, mesmo sendo este homem não mais do que um rapaz aparentemente inocente? Mais de cinquenta anos depois, O Deus das Moscas encontra ainda perturbantes ecos na actualidade e não terá certamente sido ignorado pelos criadores da série Lost que já deixaram no ar várias referências.

Blade Runner de Ridley Scott, baseado no livro de Phillip K. Dick
As ovelhas não terão a importância no filme que têm no livro de Phillip K. Dick, mas está la a complexidade temática e toda a ambiência futurista noir que tornou esta obra de Ridley Scott objecto de culto para gerações posteriores. Terá o homem o direito de negar humanidade à inteligência artificial que criou? Pode um deus virar a face à sua criação e aos seus apelos por uma melhor vida?

Empire of the Sun de Steven Spielberg, baseado no livro de J. G. Ballard
Em décadas passadas, o seu autor foi (e ainda é) talvez o mais aclamado autor de ficção científica, embora hoje se aventure por outros géneros. James Ballard ainda detém notoriedade mundial mais devido à sua biografia dos anos de guerra e detenção que foi forçado a suportar em Shangai na adolescência, do que propriamente pelos romances controversos e viscerais que levaram à criação de uma nova palavra “Ballardian”. Spielberg no seu melhor deixou que o jovem rapaz contasse a sua história de uma forma majestosa e tocante.

Orlando de Sally Potter, baseado no livro de Virginia Woolf
Quando o modernismo veio, a literatura nunca mais voltou a ser a mesma. Estabeleceu novas vozes e novas direcções nunca antes experimentadas. O ar andrógeno de Tilda Swinton encaixa que nem uma luva neste filme que é, na realidade, uma história sobre o amor entre mulheres. Mas também ele é povoado de tons fantásticos, ao descrever a vida transsexual da personagem principal ao longo de 500 anos, desde o reinado isabelino até ao séc. XX, permitindo a Woolf escrever sobre a nova mulher do seu tempo.

Sin City de Roberto Rodriguez baseado na BD de Frank Miller
Odeie-se ou ame-se o filme, Sin City de Rodriguez, baseado nos comics de Frank Miller, conseguiu transpor o mundo gráfico da BD para o ecrã. A cidade do pecado fervilha de personagens entregues a dissipação, crime e desejo de vingança, e graças ao seu visual estilizado conquistou audiências e despertou o público para o potencial da Banda Desenhada adulta.

The Day of the Triffids de Steven Sekely, baseado no livro de John Wyndham.
Se esta é a versão que penso que é, my god. Não só é horrível, mesmo dando desconto ao facto de ter sido realizado nos anos 60 (mas também 2001: Odisseia no Espaço foi realizado nos anos 60), simplesmente não faz jus ao livro de maneira nenhuma. Embora não seja tão convicente como outras obras de literatura FC distópica, O Dia das Trífides de Wyndham contém algumas questões relevantes nos tempos actuais, nomeadamente, a cegueira universal que poderia ser entendida num sentido mais metafórico, conduzindo ao desmoronar de uma sociedade ainda na alvorada do verdadeiro conhecimento e civilização.

Já distanciado do fantástico, não posso deixar de expressar o meu espanto pela inclusão de Pride and Prejudice, versão de 2005, baseado no livro de Jane Austen. Se se esperava uma maior exigência da parte das ilhas, habituados a um certo rigor e excelência de adaptações históricas e literárias, maior é a surpresa por este filme ter recebido críticas positivas. Não sei o que será pior: o pessimo elenco, à excepção de Matthew Macfadyen, ou o completo desprezo pelas convenções sociais da época. Mas sobre isto, escrevi um texto mais aprofundado por altura da estreia do filme e podem lê-lo aqui.

Apocalypse Now de Coppola, baseado na obra de Joseph Conrad.
Em anos mais recentes, a obra de Conrad tem sido reavaliada a uma luz que considero redutora e castradora do potencial e profundidade da narrativa de Conrad. Acusada de racismo e de reinforçar os valores colonialistas e imperialistas britânicos (muito graças ao escritor nigeriano Chinua Achebe, do qual discordo totalmente), Conrad, através de Marlow, deixa o testemunho das imensas atrocidades de uma época que devora o coração e a sanidade mental dos homens, e fá-los ultrapassar as fronteiras da sua condição e ir a um ponto sem retorno. Coppola entendeu isso e adaptou o livro ao cenário da guerra do Vietname. De modo nenhum isso afecta a adaptação, pois a viagem pelo rio acima continua ainda a exprimir todo o horror.

Tess de Roman Polanski, baseado na obra de Thomas Hardy
Existiu alguma vez uma história tão trágica e comovente como a de Tess of the D’Urbervilles? Como poderia a sua beleza e pureza resistir a um tempo feito de opressão e mentes corruptas que a esmagam com a força do desejo e ambição masculinos? Nastassja Kinski é memorável no papel de Tess, com a frescura e timidez certas que tornam este filme uma obra-prima tão intemporal quanto o livro que lhe deu origem.

Rebecca de Alfred Hitchcock, baseado no livro de Daphne du Maurier
Há mais de sessenta e cinco anos, Hitchcock realizou uma verdadeira obra-prima sobre a sombra de uma mulher na relação de um casal recém-casado. Sou uma grande admiradora de Joan Fontaine, e ler o livro não é tão satisfatório quanto ver o filme e o gradual desenlace do mistério que rodeia Rebecca. O ambiente sombrio e gótico, os twists na história, o elenco secundário ao nível do desempenho de Fontaine e Laurence Olivier, tudo contribui para o fabrico de uma pérola do seu tempo.

The English Patient de Anthony Minghella, baseado no livro de Michael Ondaatje
Se eu não ler o livro antes de ver o filme, é provável que a obra literária perca imenso do seu valor perante os meus olhos. E caso seja um excelente filme, o livro está condenado. Eu deveria ter tentado ler The English Patient antes de ver o filme. E o que aconteceu foi não querer estragar a visão cinematográfica que se tornara quase perfeita e sagrada para mim. A prosa de Ondaatje terá certamente o seu valor, mas o que Minghella fez foi um autêntico monstro que adquire vida própria em relação ao seu criador. O drama de um paciente moribundo, que nem inglês é, ao recordar o amor que viveu e perdeu durante os anos da guerra, é tão eterno como as areias do deserto cujas imagens e beleza assombram o ecrã.

1 Comment

  1. Panagiote said,

    Nice…

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