Beowulf – O poder literário de uma lenda antiga

May 1, 2006 at 10:27 pm (Livros/BD/revistas)

Neil Gaiman chama a atenção no seu blogue para um artigo do The New York Times sobre a crescente atenção mediática do poema Beowulf que nos últimos dois anos já sofreu não menos do que cinco adaptações, em cinema, ópera e musical. Irei prestar especial atenção à versão nórdica de Beowulf & Grendel do realizador Sturla Gunnarsson que me pareceu recriar com grande beleza as raízes nórdicas do poema anglo-saxónico.

beowulf

Como se explica que um poema anónimo escrito há mais de mil anos detenha hoje um tão grande poder apelativo?

Escrito em Inglês Antigo, tem raízes numa literatura oral que terá sido transmitida de geração em geração até ao registo escrito possivelmente por um monge que introduziu referências cristãs. Ainda que a língua seja o Inglês Antigo, conta as histórias das tribos escandinavas e uma sociedade guerreira germânica onde ainda era forte a mentalidade pagã, sendo a força e bravura características que distinguiam o guerreiro do comum dos mortais.

Mas é talvez graças a uma soberba tradução para inglês moderno do grande poeta irlandês Seamus Heaney que Beowulf saiu na última década do confinamento académico (o próprio Tolkien foi um dos estudiosos mais destacados desta obra) e saltou para a primeira linha de grande saga heróica e épica na melhor tradição das epopeias da Antiguidade, em especial, a Íliada. É essa a tradução disponível na Norton Anthology of English Literature e a recomendada a todos os estudantes de letras ou curiosos.

Através do talento póetico de Seamus Heaney conseguimos apreciar o poder narrativo que invoca uma sociedade pagã onde os homens guerreiros lutavam contra velhos poderes da terra e forças da natureza conhecidas pela sua ferocidade sanguinária. Monstros e dragões são obstáculos a Beowulf e terá que lutar contra essas criaturas míticas se quer conquistar honra e valor. Mas se o apelo deste poema anglo-saxónico estende-se até hoje deve-se à violência do seu tempo que parece ecoar a violência dos tempos actuais e não é com indiferença que consideramos a bravura dos homens face à uma natureza e a um mundo hostil.

Quando o hall do grande rei Hrothgar é ameaçado por uma criatura de nome Grendel que mata e devora homens a meio da noite, Beowulf proclama frente ao seu anfitrião que irá livrar o povo da crueldade de Grendel. E com efeito o guerreiro inflige uma ferida mortal ao monstro que foge do hall com a vida prestes a esgotar-se.

Mas na noite seguinte, a comunidade é atacada por uma ainda mais poderosa força, a mãe de Grendel que procura por vingança e sacia-se com o sangue de um dos guerreiros mais valorosos de Hrothgar. Seguem a criatura até ao seu covil num lago e nesse local ocorre a segunda batalha de Beowulf, em que põe fim à vida da besta.

Conquistada a fama e nome para todo o sempre, passam muitos anos abastados para Beowulf até que um novo mal ameaça as suas terras e o povo, o fogo de dragão. E já no seu crepúsculo, o guerreiro prova mais uma vez o seu valor e ganha um lugar merecido nos grandes banquetes de Valhalla (embora o relato tenha sido cristianizado). Ele mata o dragão, mas é mortalmente ferido e nesse momento terminam os grandes feitos de Beowulf.

Se nos esquecermos do facto de que se trata de um poema milenar, quase poderíamos acreditar na possibilidade de estarmos perante um texto de high-fantasy (fantasia épica). Tem sido longo o debate entre os apreciadores de literatura fantástica a relevância da inclusão ou não de epopeias da Antiguidade nas listas de leitura obrigatória do género. Se actualmente poderíamos considerá-los realmente como produtos rotulados de fantasia épica, o mesmo poderia ser dito dos povos que viveram na época e acreditavam nas histórias dos deuses e nos combates singulares entre heróis provocados por uma mulher que facilmente devastava com a sua beleza um Império? Eles acreditavam que isto era, na realidade, História e não fantasia. É o mesmo que dizer que os mitos que constituem as bases das nossas religiões são fantasia, seja épica ou não. Quando na verdade são alegorias ou construções metafóricas, mas nunca histórias que devem ser interpretadas de forma literal.

É através do poder simbólico das histórias que se atinge o coração do crente. E os monges desses tempos entenderam isso melhor do que ninguém, ao registarem para a posteridade as lendas antigas. Beowulf é um poderoso símbolo de força e bravura perante um mundo cruel. É uma glorificação do poder primordial e visceral do Homem e um sobrevivente durante séculos de guerra e civilização. Se conseguirmos apreciá-lo, então saberemos apreciar também o ritmo primordial que bate no coração do nosso mundo.

Deixo aqui um excerto da recta final do poema.

Inspired again
by the thought of glory, the war king threw
his whole strenght behind a sword stroke
and connected with the skull. And Naegkling snapped.
Beowulf’s ancient iron-gray sword
let him down in the fight. It was never his fortune
to be helped in combat by the cutting edge
of weapons made of iron.
(…)
Then the bane of that people, the fire breathing-dragon,
was mad to attack for a third time.
When a chance came, he caught the hero
in a rush of flame and clamped sharp fangs
into his neck. Beowulf’s body
ran wet with his life-blood.
(…)
Once again the king
gathered his strenght and drew a stabbing knife
he carried on his belt, sharpened for battle.
He stuck it deep in the dragon’s flank.
Bewulf dealt it a deadly wound.
But now for the king
This would be the last of his many labors
and triumphs in the world.

Extraído da Norton Anthology of English Literature, Vol. 1, 7th Edition
tradução de Seamus Heaney

4 Comments

  1. Bruno Monlevade said,

    Ola, eu li sobre o poema em varios lugares, inclusive na obra de Tolkien (meu escritor favorito).
    Gostei do que li e ouvi e gostaria de saber onde posso encotra-lo para ler.

    Se você o tiver no pc, pode me enviar?

    Agradeço.

  2. Eu said,

    que legal…

  3. Eu said,

    isso é uma besteira e tanto

  4. [arte e vício] » Ai ai essas capas de filmes! ¬¬ said,

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s

%d bloggers like this: