E a roda gira no tempo

April 9, 2006 at 7:52 pm (Livros/BD/revistas)

Há vários anos, encontrei numa livraria britânica, em Paris, os primeiros dois volumes de uma série de fantasia intitulada The Wheel of Time do escritor Robert Jordan. A leitura era viciante e o meu entusiasmo pelas sequelas da saga, actualmente constituída por onze volumes, não esmoreceu e tornei-me aquilo que se diria uma fangirl.

Muitos se queixam das serializações de livros de fantasia e, de facto, em certos casos é com bastante razão. Depois de ler o 10º volume, senti alguma decepção para com os livros de Robert Jordan, porque foi só então que me apercebi claramente da técnica de fazer render o peixe. As histórias arrastam-se interminavelmente, são criadas dezenas de sub-enredos que se alongam de forma exasperante e as personagens sofreram várias transformações que já mal nos lembramos das origens.

Mesmo sabendo disto tudo, o gozo de ler Wheel of Time foi imenso e proporcionou-me um grande entretenimento ao longo de nove volumes. Foi por volta desta fase que há uns anos, como mero passatempo, traduzi o prólogo do 1º livro que nos retrata um momento vital da mitologia do mundo de Wheel of Time (dêem-lhe um desconto que foi uma das minhas primeiras tentativas sérias a tradução literária). Gosto deste prólogo não só pela carga mitológica, mas também pelo impacto dramático que sempre foi um dos aspectos que inconscientemente procurei em literatura fantástica.

Agora dedico-me a um outro tipo de literatura fantástica, e tenho vindo a fugir de serializações. Mas com as notícias recentes da doença grave que aflige o autor, que se encontrava a trabalhar no 12º e último volume da saga, A Memory of Light, pareceu-me apropriado partilhar este pequeno trabalho que fiz e divulgar um pouco do seu trabalho na língua portuguesa.

Os onze volumes actualmente publicados seguem a seguinte ordem: The Eye of The World, The Great Hunt, The Dragon Reborn, The Shadow Rising, The Fires of Heaven, Lord of Chaos, A Crown of Swords, The Path of Daggers, Winter’s Heart, Crossroads of Twilight e A Knife of Dreams.

De que se trata? Em linhas muito gerais, descreve um mundo onde existe uma fonte inesgotável de energia, o poder que gira a roda do tempo, e que é manejado por homens e mulheres que se tornam os mais poderosos humanos à face da terra. Nem todos nascem com essa capacidade, mas aqueles que demonstram a habilidade de tocar a fonte e manipular o Poder, são treinados para se tornarem Aes Sedai, a classe mais elevada da escala social desse mundo.

No entanto, devido a uma devastadora guerra que ocorreu há milénios, a parte masculina do Poder foi contaminada e todos os homens Aes Sedai enlouqueceram, não sem causarem grande destruição antes de serem abatidos. Daí que quando o 1º volume começa só existem mulheres Aes Sedai e os homens que demonstrem a mais pequena habilidade são logo capturados e “amansados”.

Mas as profecias indicam que nascerá de novo um homem, a reencarnação do mais poderoso Aes Sedai masculino, e que irá defrontar o Grande Senhor da Escuridão e trazer com ele a Apocalipse. Mais não revelo. Estes livros actualmente são muito fáceis de encontrar nas FNACs mas só os recomendaria para quem estiver disposto a ler enormes calhamaços, em inglês.

E sem mais delongas, para os interessados, aqui partilho convosco a minha tradução do prólogo de The Eye of the World.

Prólogo

O monte do Dragão

O palácio ainda tremia ocasionalmente à medida que a terra ribombava com a memória, gemendo como se podendo negar o que se passara. Raios de luz infiltrados em fendas nas paredes faziam brilhar partículas de pó ainda suspensas no ar. Marcas de incêndio desfiguravam as paredes, o chão, os tectos. Extensas manchas negras cobriam pinturas arruinadas e ornamentos de outrora brilhantes murais, fuligem acumulava-se em esculturas desmoronadas de homens e animais que pareciam ter tentado caminhar antes da loucura se acalmar. Os mortos jaziam por todo o lado. Homens, mulheres e crianças, abatidos na sua tentativa de fuga das luzes que tinham irrompido por todos os corredores, ou cercados pelos fogos que os tinham perseguido, ou enterrados debaixo de pedra do palácio, pedras que tinham flutuado, quase vivas, antes da acalmia reinar de novo. Num bizarro contraste, tapeçarias coloridas e pinturas, todas elas obras de arte, permaneciam suspensas imperturbadamente, excepto onde paredes em ruína as tinham desordenado. Mobílias elaboradas e de grande requinte, embutidas de marfim e ouro, permaneciam intactas salvo onde tremores de terra as tinham deitado abaixo. A mente distorcida tinha atacado o centro nevrálgico, ignorando coisas periféricas.
Lews Therin Telamon vagueava pelo palácio, mantendo precariamente o seu equilíbrio quando a terra se deslocava.
― Ilyena, meu amor, onde estás?
A borda da sua capa cinzento pálido arrastou-se por sangue ao cruzar o corpo de uma mulher, a beleza dos seus cabelos dourados desfigurada pelo horror dos seus últimos momentos, os olhos ainda abertos, vítreos, espelhando a sua descrença.
― Onde estás, minha esposa? Onde se esconderam todos?
O seu olhar captou a sua própria reflexão num espelho torto pendurado em mármore. As suas roupas tinham sido noutro tempo magníficas, em cinzento, escarlate e dourado; agora os tecidos ricamente elaborados, trazidos por mercadores do além-mar, apresentavam-se sujos e rasgados, revestidos pela mesma camada de pó que cobria o seu cabelo e a sua pele. Por um instante, traçou com os dedos o símbolo na sua capa, um círculo metade branco e metade negro, as cores separadas por uma sinuosa linha. Significava algo, esse símbolo. Mas o círculo bordado não era capaz de prender a sua atenção por mais tempo. Depois olhou para a sua própria imagem quase com o mesmo espanto. Um homem alto, de meia-idade, outrora bonito, mas agora com o cabelo mais branco do que castanho, uma face envelhecida pela fadiga e pela preocupação e uns olhos escuros que já tinham visto demasiado. Lews Therin desatou-se a rir e o seu riso ecoou pelos corredores sem vida.
― Ilyena, meu amor! Vem até mim, minha esposa. Tens que ver isto.
Atrás dele o ar ondulou e vibrou até se solidificar num homem que olhou à sua volta, a sua boca contorcendo-se, por instantes, num esgar de nojo. Não tão alto como Lews Therin, estava completamente trajado de negro, salvo a renda branca ao pescoço e a prata nas canas dobradas das botas que lhe davam pela coxa. Caminhou com cuidado, manejando a sua capa fastidiosamente, de modo a evitar tocar os mortos. O chão tremia com réplicas, mas a sua atenção estava fixada no homem a olhar-se ao espelho e a rir-se.
― Senhor da manhã – Ele disse – Vim para assistir à tua hora.
O riso cessou como se nunca tivesse existido e Lews Therin virou-se, não parecendo surpreendido.
― Ah, um convidado. Possuis a Voz, estranho? Não tarda será o tempo para Cantar e aqui todos são bem vindos para tomar parte do Canto. Ilyena, meu amor, temos um convidado. Ilyena, onde estás?
Os olhos do homem de negro arregalaram-se de espanto, depois incidiram sobre o corpo da mulher de cabelos dourados para voltarem a observar Lews Therin.
― Que Shai’ Tan te leve, a corrupção já se apoderou tanto assim do teu espírito?
― Esse nome. Shai…
Lews Therin estremeceu e ergueu uma mão como se para repelir algo.
― Não deves pronunciar esse nome. É perigoso.
― Então ainda te lembras disso ao menos. Perigoso para ti, seu imbecil, não para mim. Que mais te recordas? Lembra-te, seu idiota cego pela Luz! Não deixarei que isto acabe contigo envolto em ignorância. Lembra-te!
Por um momento, Lews Therin ficou a admirar a sua mão erguida, fascinado pelas marcas de sujidade. Depois limpou a mão no seu ainda mais sujo casaco e devolveu a atenção para o outro homem.
― Quem és tu? O que desejas?
O homem de negro respondeu-lhe numa pose arrogante.
― Em tempos eu fui Elan Morin Tedronai, mas agora…
― Traidor da esperança. – Sussurrou Lews Therin. As suas memórias começavam a insurgir-se de novo, mas recusava-se a enfrentá-las.
― Então ainda te lembras de algumas coisas. Sim, Traidor da Esperança. Assim os homens me chamaram, como te chamaram a ti Dragão, mas ao contrário de ti, eu aceitei o nome. Deram-me esse nome para me injuriar, mas ainda os farei ajoelharem-se e venerá-lo. O que farás com o teu nome? Depois deste dia, os homens chamar-te-ão de Fratricida. O que farás perante isso?
Lews Therin franziu as sobrancelhas ante o palácio arruinado.
― Ilyena deveria estar aqui para oferecer as boas-vindas – Murmurou distraído, depois ergueu a sua voz. ― Ilyena, onde estás?
O chão tremeu, o corpo da mulher de cabelos dourados moveu-se como se em resposta ao chamamento. Os seus olhos não a viam.
Elan Morin fez um trejeito de repúdio.
― Olha para ti. ― Disse com desprezo.
― Em tempos, foste o primeiro entre os Servos. Em tempos, usaste o anel de Tamyrlin e sentaste-te no Alto trono. Em tempos, invocaste os nove bastões do Domínio. Agora olha para ti! Um desprezível e arruinado miserável! E como se tal não bastasse, humilhaste-me no Conselho dos Servos. Derrotaste-me às portas de Paaran Disen. Mas agora superei-te. E não te deixarei morrer sem que o saibas. Quando morreres, o teu último pensamento será a total consciência da tua derrota, do quão completa e implacável foi a tua derrota. Se permitir sequer que morras.
― Não consigo imaginar o que estará a reter Ilyena. Ela ir-me-á fazer ouvir um dos seus sermões se pensar que lhe andei a esconder um convidado. Espero que gostes de conversar, pois ela não há dúvidas que adora. Estás avisado. Ilyena far-te-á tantas perguntas que o mais provável é acabares por lhe contar tudo o que sabes.
Sacudindo para trás a sua capa negra, Elan Morai flectiu as suas mãos.
― É uma pena para ti que nenhuma das tuas Irmãs esteja presente. Nunca fui muito dotado em Cura e agora dedico-me a um Poder diferente. Mas mesmo elas só seriam capazes de te conceder uns breves momentos lúcidos, isso se não as destruísses primeiro. O que sou capaz de fazer serve perfeitamente para os meus propósitos.
O seu súbito sorriso foi cruel.
― Porém, temo que a cura de Shai’ Tan seja diferente daquela que conheces. Sê curado, Lews Therin.
Ele estendeu a sua mão e a claridade do dia extinguiu-se como se uma sombra tivesse coberto o sol.
Dores excruciantes atingiram Lews Therin, e ele gritou, um grito vindo do seu âmago, um grito que era incapaz de suster. Fogo queimava a sua medula, ácido corria nas suas veias. Tombou de costas, estatelando-se no chão de mármore. A sua cabeça atingiu a pedra e ressaltou. O seu coração batia tentando saltar do peito e cada batida induzia uma nova chama através dele. Vulnerável, o seu corpo entrou em convulsões, o crânio parecia uma esfera de pura agonia prestes a explodir. Os seus gritos roucos ressoavam por todo o palácio.
Lentamente, muito lentamente, a dor abrandou. A efusão pareceu demorar mil anos e deixou-o a estremecer fracamente, sugando ar pela garganta em sangue. Outros mil anos pareceram passar antes que ele se conseguisse movimentar com os músculos combalidos e tentasse de um modo tremido suportar-se nos seus joelhos e mãos. O seu olhar recaiu sobre a mulher de cabelos dourados, e o grito que lhe foi arrancado nesse momento ultrapassou qualquer som que tivesse feito antes.
Cambaleante, rastejou pelo chão até a alcançar. Precisou de todas as suas forças para poder suportá-la nos seus braços. As suas mãos tremiam à medida que afastava os cabelos da sua face.
― Ilyena, ajuda-me Luz, Ilyena!
Curvou o corpo em redor do dela, tentado protegê-la, os seus soluços a expressão de lamento de um homem a quem já não restava mais nenhuma razão para viver.
― Ilyena, não! Não!
― Podes tê-la de volta, Fratricida. O grande Senhor da Escuridão pode ressuscitá-la, se o servires. Se me servires.
Lews Therin ergueu a sua cabeça e o homem de negro recuou involuntariamente, afastando-se do seu olhar.
― Dez anos, Traidor – Lews Therin disse numa voz suave e perigosa como o som de aço a ser desembainhado – Durante dez anos, o teu vil Senhor causou destruição no mundo. E agora isto. Eu irei…
― Dez anos! Seu miserável! Esta guerra não dura há dez anos mas sim desde o início do tempo. Tu e eu já travámos mil batalhas com o girar da Roda, mil vezes mais mil, e continuaremos a lutar até o tempo morrer e a Sombra triunfar!
Terminou com um grito, de punho erguido, e foi a vez de Lews Therin se afastar, respiração acelerada ante o brilho dos olhos do Traidor.
Cuidadosamente, Lews Therin deitou Ilyena, dedos gentilmente acariciando os seus cabelos. Lágrimas nublavam a sua visão ao erguer-se, mas a sua voz permaneceu dura como o ferro.
― Por tudo o resto que fizeste não pode existir perdão, Traidor, mas pela morte de Ilyena eu destruir-te-ei para além de toda a capacidade de cura do teu Senhor. Prepara-te para…
― Lembra-te, seu idiota! Lembra-te do teu inútil ataque contra o grande Senhor da Escuridão! Lembra-te do seu contra-ataque! Lembra-te! Neste mesmo momento, os Cem Companheiros destroem o mundo e a cada dia que passa cem mais juntam-se a eles. Que mão chacinou Ilyena Cabelos Dourados, Fratricida? Não a minha. Que mão foi a responsável pela morte infligida ao sangue do teu sangue? A todos aqueles que te amavam, todos aqueles que tu amavas? Não a minha mão, Fratricida. Não a minha. Lembra-te. E que saibas ser este o preço a pagar por te opores a Shai’Tan!
Suor começou, subitamente, a escorrer pela face de Lews Therin, criando rastos por entre o pó e a sujidade. Então lembrou-se. As suas memórias pareciam nubladas como se fossem o sonho de um sonho, mas soube serem verdadeiras.
O seu uivo ecoou pelas paredes, o uivo de um homem que acabara de descobrir a alma condenada pelas suas próprias mãos e arranhou as suas faces como se numa tentativa de pôr fim à visão do que havia feito.
Para onde quer que virasse, o seu olhar encontrava os mortos. Os corpos dilacerados, quebrados ou queimados, ou meio enterrados em pedra.
Por todo o lado, jaziam rostos sem vida que conhecera, rostos que amara. Velhos servos e amigos de infância, companheiros leais ao longo dos muitos anos de batalha. E os seus filhos. Os próprios filhos e filhas, deitados como bonecos partidos, as suas brincadeiras para sempre terminadas. Todos chacinados por ele. As faces dos seus filhos acusavam-no, olhos apagados perguntando porquê, e as suas próprias lágrimas não serviam como resposta. O riso do Traidor fustigava-o, afogava os seus gritos. Não podia mais suportar os rostos, a dor. Não podia mais suportar aquele local. Desesperado, alcançou a Verdadeira Fonte, saidin contaminado, e Viajou.
A terra à sua volta era plana e vazia. Um extenso rio fluía perto e sentiu não existir mais ninguém num raio de cem léguas. Estava sozinho, tão sozinho quanto era possível a um homem vivo, e contudo, não conseguia escapar à memória. Os olhos perseguiam-no através das infinitas cavernas da sua mente. Não conseguia esconder-se deles. Os olhos dos seus filhos. Os olhos de Ilyena. Lágrimas brilhavam nas suas faces ao erguer o rosto para os céus.
― Luz, perdoa-me.
Não acreditava que pudesse obter perdão. Não para o que fizera. Mas gritou aos céus de qualquer maneira, implorando por aquilo que acreditava não poder receber.
― Luz, perdoa-me.
Ainda tocava saidin, a parte masculina do Poder que impelia o universo, que girava a Roda do Tempo, e conseguia sentir a mancha oleosa que pervertia a sua superfície, a corrupção que resultara do contra-ataque da Sombra, a corrupção que condenara o mundo. Por causa dele. Por causa do seu orgulho que o levara a acreditar que os homens podiam igualar o Criador, podiam emendar o que o Criador tinha feito e eles haviam arruinado. Na sua soberba, acreditara.
Absorveu profundamente da Verdadeira Fonte, e ainda mais profundamente, como um homem morrendo de sede. Rapidamente, já tinha absorvido do Poder mais do que um homem sozinho conseguia manejar. Sentia a sua pele como se estivesse em chamas. Com um tremendo esforço, forçou-se a si próprio a beber mais, tentou sugar tudo.
― Luz, perdoa-me! Ilyena!
O ar tornou-se fogo e o fogo tornou-se luz liquefeita. O raio caído dos céus teria queimado e cegado, nesse instante, qualquer pessoa. Dos céus ele caiu, brilhando intensamente através de Lews Therin Telamon, perfurando as entranhas da terra. Ao seu contacto, rocha tornou-se vapor. A terra abanou e tremeu como um ser vivo em agonia. Só por uma batida de coração a luz desse raio existiu, ligando terra e céu, mas mesmo após ter desaparecido, a terra ainda se encrespava como o mar numa tempestade. Rocha fundida foi expelida para o ar a uma altura de 500 pés e o terreno ergueu-se, expelindo o jacto ardente para cima, cada vez mais alto. Do Norte e Sul, do Leste e Oeste, o vento uivava, quebrando árvores como frágeis ramos, guinchando e soprando, como se tentando ajudar a montanha em crescimento a atingir o céu. A crescer cada vez mais em direcção ao céu.
Por fim, o vento esmoreceu, a terra acalmou os seus rugidos. De Lews Therin Telamon não restava sinal. Onde estivera, erguia-se agora uma enorme montanha, lava fluida ainda a ser despejada do seu cume partido. O extenso rio foi forçado a desviar-se da montanha, e lá dividia-se para fluir em redor de uma enorme ilha no seu centro. A sombra da montanha quase alcançava a ilha; estendia-se negra sobre a terra como a mão ominosa da profecia. Durante um tempo, apenas os fracos protestos da terra se fizeram ouvir.
Na ilha, o ar vibrou e coalesceu. O homem trajado de negro ficou a observar a montanha em fogo erguida da planície perante si. A sua face contorceu-se em raiva e desprezo.
― Não escaparás tão facilmente, Dragão. Ainda não está tudo resolvido entre nós. Não estará até ao fim do Tempo.
Ele partiu, então, deixando a ilha e o monte sozinhos. À espera.

E a sombra abateu-se sobre a terra e o mundo foi fendido não deixando nenhuma pedra intacta, os oceanos fugiram, as montanhas foram engolidas e as nações dispersas pelos oito cantos do mundo. A lua lembrava sangue e o sol cinzas. Os mares ferviam e os vivos invejavam os mortos. Tudo foi despedaçado e tudo se perdeu excepto a memória e uma memória acima de todas as outras, daquele que trouxe a Sombra e a Quebra do mundo e a ele deram o nome de Dragão.

De Aleth nin Taerin alta Camora, A Quebra do Mundo.
Autor desconhecido, Quarta era

Como fora antes e voltaria a ser depois, a Escuridão abateu-se sobre a terra e pesou nos corações dos homens. A natureza murchou e a esperança morreu e os homens ergueram as suas vozes para o Criador dizendo: Ó Luz dos céus, Luz do mundo, que o prometido nasça da montanha de acordo com as profecias, como ele nasceu há eras passadas e voltará a nascer em eras que virão. Que o Príncipe da Manhã volte a cantar para a terra que a natureza florescerá e os vales voltarão a abrigar cordeiros. Que o braço do Senhor da Madrugada nos volte a proteger da Escuridão e a grande espada da justiça nos defenda. Que o Dragão volte a caminhar nos ventos do tempo.

De Charal Drianaan te Calamon,
O Ciclo do Dragão, autor desconhecido, Quarta Era

4 Comments

  1. Bruno Jacinto said,

    Esse texto faz-me pensar em prologo, e em muitos aspectos. Quando te conheci, já lá vão cerca de três anos, disseste-me que te interesavas por tradução, e mostraste-me este mesmo texto.

    Pensar nesses dias, que na prática foram um prologo para tantos projectos, e para uma amizade já duradoura, faz pensar em muita coisa, e em muitas viragens da roda.

    E pessoalmente, mesmo sendo comercial, e extensivo, continuo a gostar de Wheel of Time :p

  2. Safaa Dib said,

    Pois foi! E é engraçado porque foi este mesmo texto que depois me iniciou no mundo profissional da tradução. Mas falas como se já tivéssemos chegado ao fim da meta, quando ainda acho que só agora estamos a aquecer em projectos.😛

  3. Bruno Jacinto said,

    Mas quem fala em fim?

    Quanto muito fim do 1º livro, mas podemos sempre armarmo-nos em Robert Jordan ou afins e fazer uma catrefada de volumes :p

  4. Miguel said,

    Não me esqueço que o gajo roubou-me as ideias quase todas…;)

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