As Fabulosas Aventuras de Salomão Kane
Recentemente, foi publicado mais um livro de contos da autoria de Robert E. Howard. Conan e a Rainha da Costa Negra foi a primeira publicação da Saída de Emergência por este autor e agora traz-nos as aventuras de Salomão Kane, um herói com carcterísticas bastante diferentes e peculiares em relação às outras criações de Howard.

Uma das figuras mais influentes do sub-género de sword and sorcery, Robert E. Howard criou em Solomon Kane um herói puritano do séc. XVI que viaja pelo mundo em combate contra o mal. Com a maioria das suas aventuras publicadas na revista Weird Tales, esta estranha figura de olhos brilhantes e trajado de negro assume-se como um paladino do bem, mas é, na essência, um homem enigmático cujos olhos viram demasiado do mundo.
Participei nesta nova edição portuguesa com a tradução do poema Solomon Kane’s Homecoming. O poema que surge no final do livro reúne um relato de todas as suas aventuras narradas nos conto precedentes. É um poema muito bonito e tentei manter essa beleza em português, não sacrificando o esquema rimático nem a fidelidade ao texto original. Com este poema, tenho a sorte de de já ter traduzido romances, contos e agora poesia.
Ainda não tive oportunidade de ler todos os contos reunidos no livro, mas posso dizer que Kane é uma personagem muito mais fascinante que Conan, o Bárbaro, na medida em que Conan fora esboçado ainda nos primórdios de um sub-género que construía esterótipos de guerreiros saídos de lendas antigas, …between the years when the oceans drank Atlantis and the gleaming cities, and the years of the rise of the Sons of Aryas…, que vivem de acordo com as suas leis amorais.
Em Salomão Kane pareceu-me observar alguns dos aspectos de uma cultura literária que começou por ser reacção ao predomínio da literatura feminina que surgiu no séc. XVIII e XIX. Autores como Robert Louis Stevenson, Emilio Salgari ou Rider Haggard e Júlio Verne iniciaram uma tradição de aventuras e perigo, de terras exóticas, de viagens à volta do globo desafiando o desconhecido.
É no mesmo estilo que Kane desbrava perigos e terras nas suas viagens, e as suas muitas facetas não ocultam um lado negro tentado pelo mal. Existe também uma estranha dualidade entre as crenças pagãs de Kane e a mensagem cristã por trás do seu puritanismo, e nessa combinação de elementos reside outro dos aspectos fascinantes da personagem.
Não posso deixar de destacar o belíssimo design deste livro, talvez a minha capa favorita de todos os livros da Saída de Emergência. Para além de uma imagem sóbria em cor, ninguém fica indiferente à dimensão de fantástico que emana do desenho. As fontes escolhidas pareceram-me também integrar na perfeição, dando a impressão de estarmos a ler lendas num alfarrábio antigo. E para dar um toque ainda mais fantasy, não faltam pequenos desenhos a embelezarem ocasionalmente as margens do texto.
É um prazer possuir este livro, se é que os coleccionadores e consumidores compulsivos de livros me entendem.
Um pouco disto e aquilo
Esta noite vou ver o The Proposition de John Hillcoat no âmbito do Indie Lisboa. Será sessão única, por isso, os bilhetes devem esgotar antes do início da noite, o que me obriga a ir comprar o meu bilhete antes. Não faço ideia do que esperar deste filme, mas as críticas têm sido muito boas e contracenam alguns actores que admiro muito, como John Hurt e Emily Watson. Tenho a sensação de que vai ser uma boa experiência.
Entretanto, fui ver na segunda o famoso Mirrormask de Dave McKean e saí do auditório (cheio, diga-se de passagem) desiludida. O Gaiman é superior a uma história tão fraquinha e que não produz grande empatia com o público. Mas escrevi um texto mais detalhado no site da Épica e e podem ler aqui em
A organização do Fórum Fantástico já arrancou a todo o vapor e é uma benção o facto de não termos que começar da estaca 0 como em 2004. A espera é talvez o pior, mas também o facto de o tempo passar à velocidade de um relâmpago e não podermos dar-nos ao luxo de desleixo. Mas é nos próximos tempos que as coisas começarão a tomar forma. Cruzem os dedos.
Anda na moda entre os blogs americanos de autores e fãs de fantástico elaborar listas dos livros de leitura obrigatória dentro do género. Algumas mais extensas, outras mais limitadas, dependendo dos critérios que cada um usa. Não é fácil fazer essas listas, e nem eu sou a favor dessas escolhas de must read. São listas que se orientam por gosto pessoal e pelo conhecimento e experiência de leitura de cada indivíduo, e nem todas as pessoas são competentes para o fazer, sem correrem o risco de excluírem obras fundamentais do género.
Listas de obras que mais marcaram uma pessoa já é algo diferente. E talvez faça uma, avisando já à partida que eu não li nem metade das coisas que deveria ter lido em fantasia e ficção científica, embora não há nada mais que deseje do que me fechar em casa durante semanas e terminar a pilha de livros por ler que já ocupa uma parte substancial da prateleira. Mas eu gosto de fazer as coisas de forma difícil, e se fizer esta lista de livros gostaria de acompanhar cada escolha com um texto meu. NÃO É uma lista de obras representativas do género, embora algumas o sejam, mas uma lista exclusivamente orientada pelo gosto pessoal. Provavelmente, daqui a 1 ano a lista muda completamente, consoante os livros que for lendo.
E já que tenho um blog para manter o registo das coisas que escrevo, também optei por incluir uma lista dos livros que já li desde o início de 2006 até ao presente momento. Anotei isto pela primeira vez na minha vida.
The Drawing of the Dark de Tim Powers
Os Factos da Vida de Graham Joyce
The Stars my Destination de Alfred Bester
Harry Potter and the Half-Blood Prince de JK Rowling
A Torre de Vidro de Robert Silverberg
A History of Violence de John Wagner [BD]
Arrowsmith: A Guerra da Magia de Carlos Pacheco e Kurt Busiek [BD]
Uncle Vanya de Tchékov [teatro]
V for Vendetta de Alan Moore e David Lloyd [BD]
The Prestige de Christopher Priest
Terra de Neve de Yasunari Kawabata
O Código Da Vinci de Dan Brown
Y – The Last Man de Brian Vaughan e Pia Guerra [BD]
Flowers for Algernon de Daniel Keyes [noveleta]
Sandman de Neil Gaiman 1ºs dois números [BD]
E ainda encontro-me a terminar Um Estranho Numa Terra Estranha de Robert Heinlein.
Por um lado parece muito, mas há bastante BD incluída. Não faço ideia se o ritmo de leitura diminuiu ou aumentou em relação ao ano passado. COmpromissos académicos ou profissionais jamais abrandaram o meu ritmo de leitura. Sou uma pessoa que é incapaz de passar 1 semana sem ler um livro por prazer e sou bem capaz de sacrificar tempo de estudo a favor de tempo de leitura. É errado, mas é um hábito que faz parte de mim e não é agora que iria mudar.
De qualquer forma, penso que no ano passado li menos, mas obras mais extensas. Fiquei com a clara ideia de que li muita história alternativa no ano passado. E agora olho para a lista e acho pouco…
The Last Man
Ando a ler a comic Y – The Last Man de Brian K. Vaughan e Pia Guerra publicada pela Vertigo. Ainda nao terminou a publicação, mas dos 40 fascículos que já tive oportunidade de ler até agora revelou-se como uma inteira e agradável surpresa.

A história descreve um mundo em que os todas as criaturas com cromossoma Y foram dizimadas por uma praga. Todos os homens de um minuto para o outro sucumbiram aos efeitos dessa doença misteriosa, excepto um, Yorick Brown e o seu macaco, de nome Ampersand.
Existe uma tremenda fascinação pelo mito do último homem vivo na face da terra. Traz consigo uma simbologia poderosa e, muitas vezes, associada a cenários pós-apocalípticos onde morre toda a esperança. Mary Shelley, a mãe do monstro de Frankenstein, publicara o romance de Ficção Científica em 1816, The Last Man, a quem se fazem as devidas referências e homenagens na banda desenhada. Nietzsche abordara o conceito na sua obra Assim Falava Zaratustra e já O’Brien dissera a Winston no final desolador de Ninety Eighty-Four de George Orwell.
If you are a man, Winston, you are the last man. Your Kind is extinct. We are the inheritors.
No caso de Y – The Last Man, os herdeiros são as mulheres sobreviventes que terão que lidar com a morte de todos os homens e enfrentar uma sociedade inteira que colapsara de um momento para o outro. O mundo transformara-se num palco onde mulheres com sentimento de culpa e complexos de inferioridade têm a consciência aguda de que são a última geração na terra. Mas se Yorick sobreviveu, cedo se apercebe de que tudo o que o rodeia se tranformou num autêntico pesadelo que coloca a sua vida constantemente em risco.
Se por um lado, temos uma temática trágica e bastante negra, o humor contagia as páginas com a atitude de Yorick, um mágico de palco especialista em fugas. Ao seu lado, encontra-se a Dra. Allison Mann, de ascendência asiática, e geneticista que irá tentar encontrar o mistério por detrás da sobrevivência de Yorick e Ampersand e uma solução para pôr um fim à praga. A agente secreta 355 é outra das suas companheiras de aventuras, disposta a tudo para preservar a vida de Yorick, o último homem, embora pertença a uma fraternidade secreta que se desconhece os propósitos e origens.
O que é inteligente e notável na BD de Vaughan e Guerra é a maneira como expõe as várias formas que cada mulher encontrou para lidar com a extinção dos homens. Se por um lado temos as Amazonas que queimam o peito e louvam a morte da aberração do cromossoma Y, temos também as mulheres do exército israelita com as suas noções distorcidas de pátria e dever, mas também aquelas que decidiram assumir o papel masculino na sociedade, não só no plano psicológico, mas também físico. Tudo é meticulosamente pensado e delineado. Pessoalmente, adorei a parte em que os russos revelam que existem ainda dois homens astronautas vivos no espaço e procuram fazê-los aterrar em segurança. Ou quando Yorick e os seus companheiros chegam a uma pequena comunidade de mulheres que conseguiram lidar notavelmente bem com as suas circunstâncias, até se descobrir que na verdade são um grupo de presidiárias.
A série é intensamente dinâmica e com uma atenção ao pormenor e uma sensibilidade às relações e sentimentos humanos que já a tornou como uma das BDs mais aclamadas dos últimos anos. Recomendo fortemente, pois não só tem um humor delicioso, como destruiu por completo o mito do homem como super-herói, sendo uma BD na realidade sobre a (in)capacidade e força das mulheres para lidar com a adversidade. E não quero dizer com isto que seja uma BD feminista! Muito longe disso, muito longe disso. Leiam e vejam por vocês próprios.
E para que não duvidem da qualidade da BD, o autor recebeu uma nomeação para os prémios Eisner (os vencedores são anunciados na Comic Con de San Diego em Julho, e o George R. R. Martin também vai lá estar!) e a New Line Cinema comprou os direitos para uma adaptação cinematográfica, com guião escrito pelo próprio Vaughan.
Ditos&Feitos
RTP1 já fez porcaria hoje. Arruinou todo o horário dos fãs portugueses da série LOST que esperavam ver repetido hoje, ao Domingo, o episódio de Terça. Afinal qual não é o espanto quando se descobre, por acaso, que é um novo episódio! Apanhei por sorte os últimos vinte minutos e passei-os o tempo todo a insultar a RTP silenciosamente. Esperemos que repitam na próxima terça.
Trekkies vão ter um novo filme realizado por JJ Abrams, o mentor de séries como Lost, Alias e Felicity (adorava esta série, nem fazia ideia que tinha sido criada por ele). Também andou metido no MI3 com o Tom que teve agora uma tomkitten.
Os trekkies obviamente deliraram, repara-se, não é? -> Too excited. Can’t think. Having geekgasm. Must locate towels. Isto não é mentira. Ain’t it Cool News obteve a informação da Variety.
Project, to be penned by Abrams and “MI3” scribes Alex Kurtzman and Roberto OrciRoberto Orci, will center on the early days of seminal “Trek” characters James T. Kirk and Mr. Spock, including their first meeting at Starfleet Academy and first outer space mission.
Oh Lord, Um Spock e Kirk adolescentes…
Bolo-Rei com sabor absurdista
Ontem de manhã recebi um mail do Rhys Hughes a dizer que me referiu numa entrevista que lhe fizeram.
Curiosa, cliquei no link e observei que não era uma entrevista convencional, como estamos habituados a imaginar (e aqui coloca-se a pergunta do que é que é convencional com o Rhys Hughes), mas uma entrevista ao estilo round robin.
E em que contexto é que ele me mencionou?
Q – Leo Siren: If your writing was a delicious cake, what flavour would it be and why?
A – Rhys Hughes: It would be a ‘bolo rei’ without the fava bean, bought for me by my lovely friend Safaa Dib (hello Safaa!)… I shouldn’t eat it all in one go, but I might do just that, unless I was already full, in which case I’d share it with whoever was around at the time — probably resenting them later for eating my cake and then I’d spend the following day planning different types of revenge in my head, none of which I would act on, because I lack the money and influence.
Having said that, maybe I wouldn’t resent them later. I can’t be sure because I don’t know what sort of people they are, because they don’t exist. I would like to eat the cake somewhere near a place where I could wash my hands afterwards, because the ‘bolo rei’ is a sticky cake, unless it was given to me on a plate with a knife and fork. While eating it I would wear a blue silk shirt, loose trousers and sandals, because it would be summer, even though the ‘bolo rei’ is generally a winter cake.
Só posso dizer uma coisa. Isto é tipicamente Rhysiano!
Ofereci-lhe um bolo rei por altura do Fórum Fantástico 2005. Ele tinha-me oferecido um cd de músicas orientais que gostava muito e eu agradeci, retribuindo com o bolo. Mal sabia eu que iria adorar tanto.
Recentemente, voltou a Portugal para lançar o seu livro A Nova História Universal da Infâmia e infelizmente não houve oportunidade de conversar calmamente com ele. Mas agora está marcado. Sempre que vier a Portugal, terá um bolo-rei à espera dele.
Uma panorâmica muito geral das coisas
E para quem não sabe ainda, e por acaso acho que esta notícia ainda foi pouco divulgada, o novo Fórum Fantástico já tem data e local marcados. A edição deste ano ainda ir-se-á realizar nas magníficas instalações da Biblioteca Municipal Orlando Ribeiro, em Telheiras, de 30 de Novembro a 3 de Dezembro. A não ser que ocorra algum terrível imprevisto, não irá haver alterações.
Estou inscrita na mailing list da Associação Espanhola de Ficção Científica, Fantasia e Terror e estou agradavelmente surpreendida com a actividade intensa e a quantidade de blogs e sites dedicados a literatura fantástica no país vizinho. Evidentemente que não tem comparação o número de publicações dedicadas ao género em Espanha com o que se faz por aqui. Tomando o cuidado de distinguir as iniciativas privadas da actividade editorial, verifica-se que em Portugal o campo é extremamente errático e muito dependente da boa vontade, disponibilidade e muito amor à camisola de um pequeno grupo de fãs. Não quer dizer com isto que não haja mais pessoas interessadas, porque sei que elas existem, mesmo não fazendo parte de nenhum fandom. Mas estas pessoas interessadas raramente movem-se para fora do campo da leitura ou dos jogos.
Se as coisas melhoraram nos últimos tempos? Nem por isso. Publicações como a Hyperdrivezine e DragãoQuantico suspenderam actividade, E-nigma foi pelo mesmo caminho, embora tenha dado alguns sinais de vida no ano 2005, o blog A Trilha de Mobius daqui a 1 mês completa 1 ano de inactividade, entrando oficialmente para a lista de sites abandonados. O site de Luís Filipe Silva, Tecnofantasia, tem tido os seus altos e baixos mas ainda se mostra resistente. O site Fantastic Metropolis já não é actualizado desde o Natal. A associação Simetria desde há bastante tempo que deixou de incentivar uma verdadeira e regular actividade, embora nunca lhe tenha faltado boa vontade e meios da parte da Câmara Municipal de Cascais. Basta ver o fiasco que foi a Ibercon, a convenção de Vigo, sobre a qual mencionarei noutro post. A excepção foi João Barreiros que publicou, em 2004, A Verdadeira Invasão dos Marcianos. Nesse ano, também assistimos à publicação de As Furtivas Pegadas da Serpente de António Macedo. Tenho clara consciência de que se estes projectos mencionados se extinguiram, os seus mentores passaram a mover-se em outras áreas de divulgação, continuando sempre a contribuir com a sua experiência.
Mas porque é que simplesmente a FC e Fantasia em Portugal não entrou em estado comatoso? Porque este grupo de editores, críticos e escritores, embora possuam um vasto conhecimento na área, não inclui o grande número de pessoas interessadas e capazes de tomar outras iniciativas. Uma intensa actividade nasceu e cresceu fora do grupo do fandom nacional.
A Presença, graças ao boom gerado pelos filmes do Senhor dos Anéis de JRR Tolkien, encontrou um público juvenil e adulto ávido por mais contadores de histórias. E daí se iniciar uma nova colecção, a Via Láctea, que já publicou excelentes autores como Phillip Pullman, Neil Gaiman, Ursula Le Guin, David Gemmell, e ainda promover e encorajar novos autores nacionais a revelarem os seus manuscritos, embora até agora só tenham surgido clones de autores estrangeiros, isto é, os nossos jovens talentos da Presença limitam-se a fazer copy/paste do que se faz melhor lá fora, em vez de ousarem construir uma voz única e pessoal.
Surgiu também a colecção Viajantes no Tempo, dedicada à Ficção Científica, e finalmente passámos a ter ao dispor de todas as livrarias, alguns autores fundamentais, como Phillip K. Dick, Neil Asher, Ursula Le Guin, John C. Wright e Nick Sagan. Lamentavelmente, a editora não tem dado mostras de continuar a querer publicar. Altered Carbon de Richard Morgan já foi traduzido há mais de um ano mas remetido para as gavetas escuras da editora. Edenborn / Paraíso Virtual de Nick Sagan talvez não tivesse sido publicado não fosse a pressão da organização do Fórum Fantástico em ter o livro lançado por ocasião da visita do autor a Portugal. Esperemos que ao menos completem a trilogia e lancem o último livro, Everfree.
Já me esquecia da Gailivro, embora a colecção deles seja infanto-juvenil. Publicaram Paolini, outro clone, mas também têm contribuído positivamente para a fantasia nacional através de Inês Botelho e, num futuro próximo, Madalena Santos.
Mas muito antes da Presença, já existiam as colecções de bolso da Europa-América e as Argonautas da Livros do Brasil, duas colecções imprescendíveis para várias gerações de portugueses que assim tomaram contacto com a FC. Infelizmente, já só se encontram alguns volumes nos alfarrabistas e ocasionais feiras de livro.
A Argonauta ainda tem continuado a publicar em dois formatos. O Gigante e a edição de bolso. A última publicação de jeito e com capas aceitáveis que vi da parte deles publicada foi a trilogia de Guy Gavriel Kay, A Tapeçaria de Fionavar. Muito recentemente, lançaram uma nova autora brasileira, Márcia Guimarães.
A grande novidade e que realmente deu nova vida ao género, não se guiando por critérios exclusivamente comerciais, foi a actividade da editora Saída de Emergência. Para além de romances históricos, o fantástico foi uma das grandes apostas de Luís Corte Real e António Vilaça, a dupla responsável pelo lançamento de autores como Douglas Adams, Paul McAuley, Michael Moorcock, Lovecraft, Robert E. Howard, Fritz Leiber, autores de clássicos que faziam falta na língua portuguesa. As novidades têm-se sucedido a um bom ritmo e não faltarão grandes surpresas para este ano e o próximo.
Se ainda reina a ideia de que estas colecções devem ter como alvo o público mais jovem, também há quem ouse apostar numa literatura mais diversa, estimulante, imaginativa e absolutamente fantástica. Muitas outras editoras contribuem também com lançamentos esporádicos de verdadeiras preciosidades.
A editora Cavalo de Ferro, nesse aspecto, tem sido fértil e consistente. A Livros de Areia publicou o autor galês Rhys Hughes e a sua Nova História Universal da Infâmia, e promete ainda a publicação do autor norte-americano Jeff Vandermeer, aproveitando a sua visita a Portugal em Julho.
Mas se este é o panorama em linhas gerais da actividade das editoras, o que dizer das iniciativas a nível individual? Sobre os 1ºs Encontros Literários, fundação da Épica e Fórum Fantástico não há dúvidas que foi dado um importante passo. Claro que sou suspeita em dizer isto, mas nem eu, nem o Rogério Ribeiro andámos a fazer o que fizemos para não ver reconhecido o nosso trabalho.
Em publicações, temos agora a nova revista Bang! , editada por Rogério Ribeiro e dirigida por Luís Corte Real. O Antoloblogue, iniciativa de Jorge candeias e Luís Filipe Silva, é um projecto que está ainda em vias de ser levado a bom termo, sem garantias de sucesso. o fanzine Phantastes, tem um bom nº 0, mas o novo número ainda não deu sinais de vida.
Do que se tem feito na net, destaco a mailing list portuguesa de Ficção Científica, embora não prometa que ninguém saia arranhado de algumas discussões. Enter at your own peril. Para finalizar, realço a actividade do Fórum Sci-Freaks e o excelente blog do escritor David Soares.
O que eu gostava de ver feito por cá é exactamente isto como se faz em Espanha:
http://ccyberdark.blogspot.com/
Um webzine de crítica sobre ficção científica, fantasia e terror. Reparem na qualidade dos textos!
Também adoraria ver isto:
http://literfan.cyberdark.net/
O blog da Épica tenta cobrir muito do que se publica em Portugal, mas não temos o olho omnipotente de Sauron a vigiar toda a terra. De forma que são várias as coisas se escapam, com muita pena nossa.
Sabem qual a palavra chave para conseguir isto? colaboradores.
Escrever, escrever, bang, bang!
Como escrevo nos mais variados sítios por essa net fora, e por vezes vejo-me forçada a fazer malabarismos por todos os sítios em que escrevo…
onde é que vais escrever sobre este livro ou filme, Safaa? Filhos de Athena (site, fanzine ou fórum), Épica, sci-freaks? Estou a esquecer-me de algum sítio? *Coça a cabeça*
…vou colocando aqui no blog os links às resenhas e afins que for escrevendo. Desta forma, posso também manter um registo de escrita.
Hoje queria destacar uma resenha da minha autoria publicada na revista Bang, n.º 1, sobre a obra Os Factos da Vida de Graham Joyce, vencedor do World Fantasy Award de 2003. Neste novo número, também colaborei como tradutora, sendo da minha autoria as traduções dos contos The Winds of Unchange de Frank Roger e In Orbite Medievale de Tobias S. Buckell.
Cada conto é especial à sua maneira e se o de Frank Roger tende para um humor surrealista delicioso (adorei traduzir esta pequena pérola dele), Buckell já se propôs a um aliciante desafio, o de escrever uma história em que parte da premissa “E se a Terra não fosse redonda no tempo da viagem de Cristóvão Colombo?”
O Rogério já me entregou dois exemplares da revista e, de uma perspectiva estritamente imparcial, notei uma evolução em relação ao trabalho que já tinha sido efectuado no n.º 0. As gralhas são praticamente inexistentes (foi um dos problemas que mais saltou à vista na 0) embora tenha reparado que a tradução de Elric e a Fortaleza da Pérola foi apontada como sendo de Luís Rodrigues, quando na realidade é de João Seixas. Ao Luís pertenceu a tarefa da revisão.
Já existe um maior equilíbrio entre o espaço dedicado a imagens e texto. E por falar em imagens, temos a capa que é uma capa… como dizer… voluptuosa. Algumas amigas minhas lamentaram a capa por acharem que dá a entender que literatura fantástica é um mundo de homens. O meu lado feminino e adepto deste género tem que dar razão a essas vozes, embora saiba que não foi essa a mensagem que quis ser transmitida. Estranhamente, o texto de João Seixas “Ao Sol de Newton – A FC Hard, oitenta anos depois” parece ecoar essa mensagem, praticamente não mencionando nenhuma escritora de FC hard. E elas existem. Mas as meninas irão ter as suas compensações nos próximos números, pelo que me disse o editor.
Curiosamente, as duas entrevistas desta edição cabem a duas novas escritoras, a portuguesa Ágata Ramos, a mãe do Sr. Bentley, o Enraba-Passarinhos (a Bárbara Guimarães nunca teve a coragem de dizer o título em frente às câmaras de televisão no seu programa Folhas Soltas, faltou-lhe a coragem) e a brasileira Márcia Guimarães cuja entrevista se revelou muito interessante e surpreendeu-me pela positiva, embora fontes me tenham afirmado que o seu livro A Conspiração dos Imortais da Livros do Brasil tenha algumas fraquezas.
No campo da ficção, temos o regresso de um veterano, Luís Filipe Silva, mas também um novo nome, Vasco Luís Curado. A contra-capa é que está um riso autêntico.
Nomes que mais contribuíram para o terror moderno:
fotografia de Edgar Alan Poe, fotografia de HP Lovecraft e a terceira fotografia a de…
Deixo a descoberta da terceira fotografia por vossa conta e risco.
Para além da Bang!, destaco a resenha em estado embrionário que já publiquei no fórum Sci-Freaks sobre o livro de Christopher Priest, The Prestige, e também a resenha de V de Vingança publicada no site da Épica na semana passada.
Eis os respectivos links.
The Prestige
V de Vingança
Já estou mais reconciliada com a ideia de ter criado um blog. Habituei-me tanto a um estilo de escrita formal, muito por culpa dos hábitos da faculdade e de alguns sites que vou editando, que já não sabia o que era escrever de forma descontraída sem parecer que estava a cair no ridículo ou desleixo. Mas dá-me gozo poder falar de certos pormenores que nunca poderiam entrar em textos mais formais, ou poder dar uma opinião, ou até mesmo relatar desastres nos bastidores…
Leituras do momento:
Um Estranho numa Terra Estranha de Robert Heinlein
Ensaio sobre a Cegueira de José Saramago
E a roda gira no tempo
Há vários anos, encontrei numa livraria britânica, em Paris, os primeiros dois volumes de uma série de fantasia intitulada The Wheel of Time do escritor Robert Jordan. A leitura era viciante e o meu entusiasmo pelas sequelas da saga, actualmente constituída por onze volumes, não esmoreceu e tornei-me aquilo que se diria uma fangirl.
Muitos se queixam das serializações de livros de fantasia e, de facto, em certos casos é com bastante razão. Depois de ler o 10º volume, senti alguma decepção para com os livros de Robert Jordan, porque foi só então que me apercebi claramente da técnica de fazer render o peixe. As histórias arrastam-se interminavelmente, são criadas dezenas de sub-enredos que se alongam de forma exasperante e as personagens sofreram várias transformações que já mal nos lembramos das origens.
Mesmo sabendo disto tudo, o gozo de ler Wheel of Time foi imenso e proporcionou-me um grande entretenimento ao longo de nove volumes. Foi por volta desta fase que há uns anos, como mero passatempo, traduzi o prólogo do 1º livro que nos retrata um momento vital da mitologia do mundo de Wheel of Time (dêem-lhe um desconto que foi uma das minhas primeiras tentativas sérias a tradução literária). Gosto deste prólogo não só pela carga mitológica, mas também pelo impacto dramático que sempre foi um dos aspectos que inconscientemente procurei em literatura fantástica.
Agora dedico-me a um outro tipo de literatura fantástica, e tenho vindo a fugir de serializações. Mas com as notícias recentes da doença grave que aflige o autor, que se encontrava a trabalhar no 12º e último volume da saga, A Memory of Light, pareceu-me apropriado partilhar este pequeno trabalho que fiz e divulgar um pouco do seu trabalho na língua portuguesa.
Os onze volumes actualmente publicados seguem a seguinte ordem: The Eye of The World, The Great Hunt, The Dragon Reborn, The Shadow Rising, The Fires of Heaven, Lord of Chaos, A Crown of Swords, The Path of Daggers, Winter’s Heart, Crossroads of Twilight e A Knife of Dreams.
De que se trata? Em linhas muito gerais, descreve um mundo onde existe uma fonte inesgotável de energia, o poder que gira a roda do tempo, e que é manejado por homens e mulheres que se tornam os mais poderosos humanos à face da terra. Nem todos nascem com essa capacidade, mas aqueles que demonstram a habilidade de tocar a fonte e manipular o Poder, são treinados para se tornarem Aes Sedai, a classe mais elevada da escala social desse mundo.
No entanto, devido a uma devastadora guerra que ocorreu há milénios, a parte masculina do Poder foi contaminada e todos os homens Aes Sedai enlouqueceram, não sem causarem grande destruição antes de serem abatidos. Daí que quando o 1º volume começa só existem mulheres Aes Sedai e os homens que demonstrem a mais pequena habilidade são logo capturados e “amansados”.
Mas as profecias indicam que nascerá de novo um homem, a reencarnação do mais poderoso Aes Sedai masculino, e que irá defrontar o Grande Senhor da Escuridão e trazer com ele a Apocalipse. Mais não revelo. Estes livros actualmente são muito fáceis de encontrar nas FNACs mas só os recomendaria para quem estiver disposto a ler enormes calhamaços, em inglês.
E sem mais delongas, para os interessados, aqui partilho convosco a minha tradução do prólogo de The Eye of the World.
Prólogo
O monte do Dragão
O palácio ainda tremia ocasionalmente à medida que a terra ribombava com a memória, gemendo como se podendo negar o que se passara. Raios de luz infiltrados em fendas nas paredes faziam brilhar partículas de pó ainda suspensas no ar. Marcas de incêndio desfiguravam as paredes, o chão, os tectos. Extensas manchas negras cobriam pinturas arruinadas e ornamentos de outrora brilhantes murais, fuligem acumulava-se em esculturas desmoronadas de homens e animais que pareciam ter tentado caminhar antes da loucura se acalmar. Os mortos jaziam por todo o lado. Homens, mulheres e crianças, abatidos na sua tentativa de fuga das luzes que tinham irrompido por todos os corredores, ou cercados pelos fogos que os tinham perseguido, ou enterrados debaixo de pedra do palácio, pedras que tinham flutuado, quase vivas, antes da acalmia reinar de novo. Num bizarro contraste, tapeçarias coloridas e pinturas, todas elas obras de arte, permaneciam suspensas imperturbadamente, excepto onde paredes em ruína as tinham desordenado. Mobílias elaboradas e de grande requinte, embutidas de marfim e ouro, permaneciam intactas salvo onde tremores de terra as tinham deitado abaixo. A mente distorcida tinha atacado o centro nevrálgico, ignorando coisas periféricas.
Lews Therin Telamon vagueava pelo palácio, mantendo precariamente o seu equilíbrio quando a terra se deslocava.
― Ilyena, meu amor, onde estás?
A borda da sua capa cinzento pálido arrastou-se por sangue ao cruzar o corpo de uma mulher, a beleza dos seus cabelos dourados desfigurada pelo horror dos seus últimos momentos, os olhos ainda abertos, vítreos, espelhando a sua descrença.
― Onde estás, minha esposa? Onde se esconderam todos?
O seu olhar captou a sua própria reflexão num espelho torto pendurado em mármore. As suas roupas tinham sido noutro tempo magníficas, em cinzento, escarlate e dourado; agora os tecidos ricamente elaborados, trazidos por mercadores do além-mar, apresentavam-se sujos e rasgados, revestidos pela mesma camada de pó que cobria o seu cabelo e a sua pele. Por um instante, traçou com os dedos o símbolo na sua capa, um círculo metade branco e metade negro, as cores separadas por uma sinuosa linha. Significava algo, esse símbolo. Mas o círculo bordado não era capaz de prender a sua atenção por mais tempo. Depois olhou para a sua própria imagem quase com o mesmo espanto. Um homem alto, de meia-idade, outrora bonito, mas agora com o cabelo mais branco do que castanho, uma face envelhecida pela fadiga e pela preocupação e uns olhos escuros que já tinham visto demasiado. Lews Therin desatou-se a rir e o seu riso ecoou pelos corredores sem vida.
― Ilyena, meu amor! Vem até mim, minha esposa. Tens que ver isto.
Atrás dele o ar ondulou e vibrou até se solidificar num homem que olhou à sua volta, a sua boca contorcendo-se, por instantes, num esgar de nojo. Não tão alto como Lews Therin, estava completamente trajado de negro, salvo a renda branca ao pescoço e a prata nas canas dobradas das botas que lhe davam pela coxa. Caminhou com cuidado, manejando a sua capa fastidiosamente, de modo a evitar tocar os mortos. O chão tremia com réplicas, mas a sua atenção estava fixada no homem a olhar-se ao espelho e a rir-se.
― Senhor da manhã – Ele disse – Vim para assistir à tua hora.
O riso cessou como se nunca tivesse existido e Lews Therin virou-se, não parecendo surpreendido.
― Ah, um convidado. Possuis a Voz, estranho? Não tarda será o tempo para Cantar e aqui todos são bem vindos para tomar parte do Canto. Ilyena, meu amor, temos um convidado. Ilyena, onde estás?
Os olhos do homem de negro arregalaram-se de espanto, depois incidiram sobre o corpo da mulher de cabelos dourados para voltarem a observar Lews Therin.
― Que Shai’ Tan te leve, a corrupção já se apoderou tanto assim do teu espírito?
― Esse nome. Shai…
Lews Therin estremeceu e ergueu uma mão como se para repelir algo.
― Não deves pronunciar esse nome. É perigoso.
― Então ainda te lembras disso ao menos. Perigoso para ti, seu imbecil, não para mim. Que mais te recordas? Lembra-te, seu idiota cego pela Luz! Não deixarei que isto acabe contigo envolto em ignorância. Lembra-te!
Por um momento, Lews Therin ficou a admirar a sua mão erguida, fascinado pelas marcas de sujidade. Depois limpou a mão no seu ainda mais sujo casaco e devolveu a atenção para o outro homem.
― Quem és tu? O que desejas?
O homem de negro respondeu-lhe numa pose arrogante.
― Em tempos eu fui Elan Morin Tedronai, mas agora…
― Traidor da esperança. – Sussurrou Lews Therin. As suas memórias começavam a insurgir-se de novo, mas recusava-se a enfrentá-las.
― Então ainda te lembras de algumas coisas. Sim, Traidor da Esperança. Assim os homens me chamaram, como te chamaram a ti Dragão, mas ao contrário de ti, eu aceitei o nome. Deram-me esse nome para me injuriar, mas ainda os farei ajoelharem-se e venerá-lo. O que farás com o teu nome? Depois deste dia, os homens chamar-te-ão de Fratricida. O que farás perante isso?
Lews Therin franziu as sobrancelhas ante o palácio arruinado.
― Ilyena deveria estar aqui para oferecer as boas-vindas – Murmurou distraído, depois ergueu a sua voz. ― Ilyena, onde estás?
O chão tremeu, o corpo da mulher de cabelos dourados moveu-se como se em resposta ao chamamento. Os seus olhos não a viam.
Elan Morin fez um trejeito de repúdio.
― Olha para ti. ― Disse com desprezo.
― Em tempos, foste o primeiro entre os Servos. Em tempos, usaste o anel de Tamyrlin e sentaste-te no Alto trono. Em tempos, invocaste os nove bastões do Domínio. Agora olha para ti! Um desprezível e arruinado miserável! E como se tal não bastasse, humilhaste-me no Conselho dos Servos. Derrotaste-me às portas de Paaran Disen. Mas agora superei-te. E não te deixarei morrer sem que o saibas. Quando morreres, o teu último pensamento será a total consciência da tua derrota, do quão completa e implacável foi a tua derrota. Se permitir sequer que morras.
― Não consigo imaginar o que estará a reter Ilyena. Ela ir-me-á fazer ouvir um dos seus sermões se pensar que lhe andei a esconder um convidado. Espero que gostes de conversar, pois ela não há dúvidas que adora. Estás avisado. Ilyena far-te-á tantas perguntas que o mais provável é acabares por lhe contar tudo o que sabes.
Sacudindo para trás a sua capa negra, Elan Morai flectiu as suas mãos.
― É uma pena para ti que nenhuma das tuas Irmãs esteja presente. Nunca fui muito dotado em Cura e agora dedico-me a um Poder diferente. Mas mesmo elas só seriam capazes de te conceder uns breves momentos lúcidos, isso se não as destruísses primeiro. O que sou capaz de fazer serve perfeitamente para os meus propósitos.
O seu súbito sorriso foi cruel.
― Porém, temo que a cura de Shai’ Tan seja diferente daquela que conheces. Sê curado, Lews Therin.
Ele estendeu a sua mão e a claridade do dia extinguiu-se como se uma sombra tivesse coberto o sol.
Dores excruciantes atingiram Lews Therin, e ele gritou, um grito vindo do seu âmago, um grito que era incapaz de suster. Fogo queimava a sua medula, ácido corria nas suas veias. Tombou de costas, estatelando-se no chão de mármore. A sua cabeça atingiu a pedra e ressaltou. O seu coração batia tentando saltar do peito e cada batida induzia uma nova chama através dele. Vulnerável, o seu corpo entrou em convulsões, o crânio parecia uma esfera de pura agonia prestes a explodir. Os seus gritos roucos ressoavam por todo o palácio.
Lentamente, muito lentamente, a dor abrandou. A efusão pareceu demorar mil anos e deixou-o a estremecer fracamente, sugando ar pela garganta em sangue. Outros mil anos pareceram passar antes que ele se conseguisse movimentar com os músculos combalidos e tentasse de um modo tremido suportar-se nos seus joelhos e mãos. O seu olhar recaiu sobre a mulher de cabelos dourados, e o grito que lhe foi arrancado nesse momento ultrapassou qualquer som que tivesse feito antes.
Cambaleante, rastejou pelo chão até a alcançar. Precisou de todas as suas forças para poder suportá-la nos seus braços. As suas mãos tremiam à medida que afastava os cabelos da sua face.
― Ilyena, ajuda-me Luz, Ilyena!
Curvou o corpo em redor do dela, tentado protegê-la, os seus soluços a expressão de lamento de um homem a quem já não restava mais nenhuma razão para viver.
― Ilyena, não! Não!
― Podes tê-la de volta, Fratricida. O grande Senhor da Escuridão pode ressuscitá-la, se o servires. Se me servires.
Lews Therin ergueu a sua cabeça e o homem de negro recuou involuntariamente, afastando-se do seu olhar.
― Dez anos, Traidor – Lews Therin disse numa voz suave e perigosa como o som de aço a ser desembainhado – Durante dez anos, o teu vil Senhor causou destruição no mundo. E agora isto. Eu irei…
― Dez anos! Seu miserável! Esta guerra não dura há dez anos mas sim desde o início do tempo. Tu e eu já travámos mil batalhas com o girar da Roda, mil vezes mais mil, e continuaremos a lutar até o tempo morrer e a Sombra triunfar!
Terminou com um grito, de punho erguido, e foi a vez de Lews Therin se afastar, respiração acelerada ante o brilho dos olhos do Traidor.
Cuidadosamente, Lews Therin deitou Ilyena, dedos gentilmente acariciando os seus cabelos. Lágrimas nublavam a sua visão ao erguer-se, mas a sua voz permaneceu dura como o ferro.
― Por tudo o resto que fizeste não pode existir perdão, Traidor, mas pela morte de Ilyena eu destruir-te-ei para além de toda a capacidade de cura do teu Senhor. Prepara-te para…
― Lembra-te, seu idiota! Lembra-te do teu inútil ataque contra o grande Senhor da Escuridão! Lembra-te do seu contra-ataque! Lembra-te! Neste mesmo momento, os Cem Companheiros destroem o mundo e a cada dia que passa cem mais juntam-se a eles. Que mão chacinou Ilyena Cabelos Dourados, Fratricida? Não a minha. Que mão foi a responsável pela morte infligida ao sangue do teu sangue? A todos aqueles que te amavam, todos aqueles que tu amavas? Não a minha mão, Fratricida. Não a minha. Lembra-te. E que saibas ser este o preço a pagar por te opores a Shai’Tan!
Suor começou, subitamente, a escorrer pela face de Lews Therin, criando rastos por entre o pó e a sujidade. Então lembrou-se. As suas memórias pareciam nubladas como se fossem o sonho de um sonho, mas soube serem verdadeiras.
O seu uivo ecoou pelas paredes, o uivo de um homem que acabara de descobrir a alma condenada pelas suas próprias mãos e arranhou as suas faces como se numa tentativa de pôr fim à visão do que havia feito.
Para onde quer que virasse, o seu olhar encontrava os mortos. Os corpos dilacerados, quebrados ou queimados, ou meio enterrados em pedra.
Por todo o lado, jaziam rostos sem vida que conhecera, rostos que amara. Velhos servos e amigos de infância, companheiros leais ao longo dos muitos anos de batalha. E os seus filhos. Os próprios filhos e filhas, deitados como bonecos partidos, as suas brincadeiras para sempre terminadas. Todos chacinados por ele. As faces dos seus filhos acusavam-no, olhos apagados perguntando porquê, e as suas próprias lágrimas não serviam como resposta. O riso do Traidor fustigava-o, afogava os seus gritos. Não podia mais suportar os rostos, a dor. Não podia mais suportar aquele local. Desesperado, alcançou a Verdadeira Fonte, saidin contaminado, e Viajou.
A terra à sua volta era plana e vazia. Um extenso rio fluía perto e sentiu não existir mais ninguém num raio de cem léguas. Estava sozinho, tão sozinho quanto era possível a um homem vivo, e contudo, não conseguia escapar à memória. Os olhos perseguiam-no através das infinitas cavernas da sua mente. Não conseguia esconder-se deles. Os olhos dos seus filhos. Os olhos de Ilyena. Lágrimas brilhavam nas suas faces ao erguer o rosto para os céus.
― Luz, perdoa-me.
Não acreditava que pudesse obter perdão. Não para o que fizera. Mas gritou aos céus de qualquer maneira, implorando por aquilo que acreditava não poder receber.
― Luz, perdoa-me.
Ainda tocava saidin, a parte masculina do Poder que impelia o universo, que girava a Roda do Tempo, e conseguia sentir a mancha oleosa que pervertia a sua superfície, a corrupção que resultara do contra-ataque da Sombra, a corrupção que condenara o mundo. Por causa dele. Por causa do seu orgulho que o levara a acreditar que os homens podiam igualar o Criador, podiam emendar o que o Criador tinha feito e eles haviam arruinado. Na sua soberba, acreditara.
Absorveu profundamente da Verdadeira Fonte, e ainda mais profundamente, como um homem morrendo de sede. Rapidamente, já tinha absorvido do Poder mais do que um homem sozinho conseguia manejar. Sentia a sua pele como se estivesse em chamas. Com um tremendo esforço, forçou-se a si próprio a beber mais, tentou sugar tudo.
― Luz, perdoa-me! Ilyena!
O ar tornou-se fogo e o fogo tornou-se luz liquefeita. O raio caído dos céus teria queimado e cegado, nesse instante, qualquer pessoa. Dos céus ele caiu, brilhando intensamente através de Lews Therin Telamon, perfurando as entranhas da terra. Ao seu contacto, rocha tornou-se vapor. A terra abanou e tremeu como um ser vivo em agonia. Só por uma batida de coração a luz desse raio existiu, ligando terra e céu, mas mesmo após ter desaparecido, a terra ainda se encrespava como o mar numa tempestade. Rocha fundida foi expelida para o ar a uma altura de 500 pés e o terreno ergueu-se, expelindo o jacto ardente para cima, cada vez mais alto. Do Norte e Sul, do Leste e Oeste, o vento uivava, quebrando árvores como frágeis ramos, guinchando e soprando, como se tentando ajudar a montanha em crescimento a atingir o céu. A crescer cada vez mais em direcção ao céu.
Por fim, o vento esmoreceu, a terra acalmou os seus rugidos. De Lews Therin Telamon não restava sinal. Onde estivera, erguia-se agora uma enorme montanha, lava fluida ainda a ser despejada do seu cume partido. O extenso rio foi forçado a desviar-se da montanha, e lá dividia-se para fluir em redor de uma enorme ilha no seu centro. A sombra da montanha quase alcançava a ilha; estendia-se negra sobre a terra como a mão ominosa da profecia. Durante um tempo, apenas os fracos protestos da terra se fizeram ouvir.
Na ilha, o ar vibrou e coalesceu. O homem trajado de negro ficou a observar a montanha em fogo erguida da planície perante si. A sua face contorceu-se em raiva e desprezo.
― Não escaparás tão facilmente, Dragão. Ainda não está tudo resolvido entre nós. Não estará até ao fim do Tempo.
Ele partiu, então, deixando a ilha e o monte sozinhos. À espera.
E a sombra abateu-se sobre a terra e o mundo foi fendido não deixando nenhuma pedra intacta, os oceanos fugiram, as montanhas foram engolidas e as nações dispersas pelos oito cantos do mundo. A lua lembrava sangue e o sol cinzas. Os mares ferviam e os vivos invejavam os mortos. Tudo foi despedaçado e tudo se perdeu excepto a memória e uma memória acima de todas as outras, daquele que trouxe a Sombra e a Quebra do mundo e a ele deram o nome de Dragão.
De Aleth nin Taerin alta Camora, A Quebra do Mundo.
Autor desconhecido, Quarta era
Como fora antes e voltaria a ser depois, a Escuridão abateu-se sobre a terra e pesou nos corações dos homens. A natureza murchou e a esperança morreu e os homens ergueram as suas vozes para o Criador dizendo: Ó Luz dos céus, Luz do mundo, que o prometido nasça da montanha de acordo com as profecias, como ele nasceu há eras passadas e voltará a nascer em eras que virão. Que o Príncipe da Manhã volte a cantar para a terra que a natureza florescerá e os vales voltarão a abrigar cordeiros. Que o braço do Senhor da Madrugada nos volte a proteger da Escuridão e a grande espada da justiça nos defenda. Que o Dragão volte a caminhar nos ventos do tempo.
De Charal Drianaan te Calamon,
O Ciclo do Dragão, autor desconhecido, Quarta Era





