St. Patrick’s Party!

March 19, 2006 at 12:51 pm (Strange Land)

patrick

Sexta-feira passada decidi alinhar no encontro dos Bookcrossers no pub irlandês O’Gillins, em Lisboa. Para quem desconhece o termo Bookcrosser, saibam que é um membro da comunidade do Bookcrossing, uma forma alternativa e elaborada de, basicamente, ler livros emprestados. Acreditem que vale a pena, pois por um registo grátis no site do Bookcrossing e o respeito a algumas regras elementares do processo de trocas de livros, passamos a ter à nossa disposição um vasto leque de livros de todos os géneros e para todos os gostos.

Como se realizam encontros todas as semanas para facilitar a troca de livros, desta vez propôs-se celebrar o dia de St. Patrick a 17 de Março, no O’Gillins (Cais do Sodré). Não conhecia o local e foi a primeira vez que aderi a esta celebração. Basta dizer que foi uma tarde que se prolongou até horas tardias, no meio de muita música, boa disposição e pints of beer.

E quem não faltou para nos fazer companhia o tempo todo foi o próprio santo. Um belo boneco, a quem se levantassem a túnica podiam ver uns bonitos boxers verdes, que tinha numa mão um cajado, e na outra uma serpente (mais parecia uma cenoura). Foi a estrela da noite de tantos flashs que foram disparados em sua homenagem.

A questão da serpente (cenoura…) levantou a pergunta interessante do mito de St. Patrick. Eu tinha uma noção de que o santo era o principal cristianizador dos povos irlandeses, mas despertada a minha curiosidade e interesse em saber mais, procedi a algumas leituras. Parece que St. Patrick fora inicialmente vendido como escravo na Irlanda e iniciado nos conhecimentos druidas, instruído pelos Altos Sacerdotes até ao momento da sua fuga. Intervenção divina motivou-o a regressar a Irlanda de modo a começar a sua grande obra evangelizadora e servir como guia a um povo abandonado pela administração romana.

Diz a lenda que expulsou todas as serpentes da Irlanda. É uma história que não deve ser interpretada no sentido literal, mas antes num sentido figurativo, sendo a serpente um dos símbolos mais poderosos na cultura celta e associada à noção de imortalidade e renascimento. Por todas as antigas civilizações, encontramos o mito da serpente a exercer um poderoso fascínio. Uma criatura mortal e subtil, foi cedo imbuída de poderes sobrenaturais e um misticismo que nem sempre implica necessariamente o mal.

Em Gilgamesh, a epopeia suméria e a mais antiga do mundo, Gilgamesh encontra a planta da imortailidade mas, enquanto dorme, é roubada por uma serpente, tornando-se a criatura doravante imortal. A acreditar na mitologia nórdica, a serpente marinha Jormungand vivia debaixo do mar, tão vasta e poderosa como o oceano.Quetzalcoatl, o deus serpente dos aztecas é o deus dos ritos de fertilidade e renovação da terra. E mesmo na Bíblia, muitas passagens reconhecem a sabedoria da serpente, dissociando-se da imagem de que causou a expulsão de Adão e Eva do Éden.

Face à sua longa história nas civilizações e culturas pré-cristãs, a serpente passou inevitavelmente a representar as crenças pagãs (de uma forma generalista) e não espanta que tenha sido o símbolo de tudo o que St. Patrick pretendia erradicar da Irlanda.

Claro que não houve ocasião para discutir tudo isto no O’Gillins, mas fiquei a conhecer melhor um pouco das raízes culturais irlandesas e o processo histórico que eventualmente acabou por fazer soar o canto do cisne para os antigos druidas. O mais curioso em tudo isto é que, por obra e graça dos monges copistas irlandeses, os grandes mitos celtas e os ciclos de histórias de grandes heróis chegaram hoje até nós. Houve uma posterior cristianização dos relatos, é certo, mas muito do coração celta de literatura oral e tradicional chegou intacto aos dias de hoje, graças a esses monges.

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