Stranger in a Strange Land

The world we actually have does not meet my standards. – PKD

2666 ou o próximo Ulisses

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Este comentário de Eduardo Pitta sobre o livro 2666 vai de encontro ao que secretamente muitas alminhas pensarão. Em público, fica bem acompanhar as tendências da actualidade, mas quando se fala de um romance monumental como 2666, a pergunta a colocar é: seremos nós capazes de devotar tempo para ler uma obra de 1000 páginas só porque se fala bem dela e é consagrada entre a crítica? Muitos certamente o tentarão, mas quantos chegarão ao fim?

Para quem ainda não sabe, e estranharei certamente quem não saiba tanto que a blogosfera divulgou esta notícia, a editora Quetzal anunciou para Setembro a publicação da obra-prima póstuma do chileno Roberto Bolaño, intitulada 2666. Há já alguns anos que a obra de Bolaño alcançou estado de graça entre a crítica literária internacional e não serei eu a julgar o mérito ou desmérito dessa notoriedade, não tendo lido nenhum dos seus livros.

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Roberto Bolaño

Mas a publicação de 2666 prevista para Setembro em Portugal, e anunciada com pompa, circunstância e reverência pela blogosfera portuguesa como a publicação do ano deixou-me, de certa forma, divertida. E isto porque, apesar das vozes entusiastas entre jornalistas, bloggers, críticos, interessados, sei que serão muito poucos os que lerão a obra monumental de Bolãno. Poderia dizer que o preço do livro deverá ser proibitivo para certas bolsas. Mas não é só isso.

O editor da Quetzal, Francisco José Viegas, comparou o livro com Ulisses de James Joyce, essa obra mítica e também grandiosa que fica muito bem em estantes de livros intocada ao longo dos anos… Fosse eu uma leitora menos formada e experiente, essa afirmação do Viegas ter-me-ia assustado tão só porque o Ulisses de James Joyce não é um livro para qualquer leitor. Simplesmente não é. Seja em tamanho, seja em conteúdo que requer persistência da parte do leitor.

Mas talvez a questão seja mesmo essa. A editora não pretende que 2666 seja para qualquer leitor. A escolha da Quetzal é certamente interessante para certos gostos mais requintados e com certas tendências intelectuais (afinal temos que estar a par do que se diz bem lá fora…), mas a julgar pela capa algo comercial e desinspirada, não sei dizer se conseguirão atingir o sonho de qualquer editor: ser um sucesso entre a crítica em paralelo com uma significativa adesão das massas que desejem ler o livro. Desejem ler, logo, comprar.

Eu sei que muitos são os que compraram Ulisses, considerado um dos melhores romances do séc. XX, mas quem terá lido essa história que narra um único dia na vida de várias personagens na cidade de Dublin? É bom? Não há qualquer dúvida sobre a sua excelência. Mas é chato? Certamente que é. Só tenho pena que 2666 vá cair inevitavelmente na armadilha dos lugares-comuns que são ditos sobre magníficas obras de 1000 páginas sem, no entanto, ter um público que verdadeiramente o aprecie.

Pensando bem, talvez Francisco José Viegas tenha razão em comparar o 2666 ao Ulisses. 2666 poderá vir a ser o próximo livro a integrar a lista dos mais populares e menos lidos entre os leitores. E isso certamente que não é mau em termos de vendas.

Written by Safaa Dib

August 20, 2009 at 9:20 pm

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Receita de galinha com sabor a Irão

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Na sua última obra numa carreira já consagrada, Chicken with Plums (Poulet aux Prunes), Marjane Satrapi oferece-nos uma obra que herda as características tão singulares dos seus livros anteriores, a saber, um sentido de humor mordaz e a capacidade de expor um retrato a preto e branco com um traço incisivo, qual Eça, de uma sociedade que atravessa décadas de história política conturbada, com costumes e tradições únicos em todo o mundo.

Os iranianos são um dos povos mais duros e extraordinários que já me foi dado conhecer. No meu primeiro emprego convivi durante dois anos com a cultura iraniana que descobri ter muito pouco de comum com a cultura árabe. Até em coisas que pensava que conhecia, como a religião do Islão, descobri que o Irão vive o xiismo de formas que nenhum muçulmano aceitaria. Mas mais do que a questão religiosa, vivem num mundo ditado pelos seus próprios calendários, nomes de meses, feriados, e o ritmo de vida de um iraniano raramente será entendido por alguém de fora da cultura.

Dotados de uma incrível resiliência, a espinha dorsal dos iranianos raramente se quebra, forçados a lidar constantemente com a adversidade. Mas é curioso que Satrapi queira contar precisamente a história de um músico iraniano que deseja morrer, facto invulgar numa região onde os homens raramente se dão ao luxo de baixarem os braços e deixarem-se esmagar sob o peso das circunstâncias.

Mas a verdade é que Ali Nasser Khan, grande músico e tocador do instrumento tar, não deseja mais viver após o seu instrumento favorito ter sido quebrado. A história começa com as suas tentativas sucessivas de encontrar um substituto adequado ao seu muito amado instrumento, mas as lágrimas correm pelas suas faces ao ouvir as notas dissonantes de reles tares incapazes de transmitir a verdadeira música da sua alma.

Finda a música do tar, é como se tivesse findado a razão de viver de Ali Nasser Khan, um homem casado e pai de quatro filhos, infeliz no casamento e na vida. Ao contrário de Persepolis em que os acontecimentos históricos e políticos influenciam profundamente o rumo de vida da protagonista, para Nasser Ali Khan o mundo é como se tivesse cessado de existir. Sabemos que a história ocorre em Teerão em 1958, num tempo em que o primeiro-ministro Mossadegh perdeu o poder com um golpe de estado que deu lugar ao Xá da Pérsia (apoiado pelos EUA e Reino Unido). Mas isso é apenas uma nota de rodapé na vida de Nasser Ali Khan. O tar era tudo o que importava e a sua fonte de prazer.

Decidido a morrer, a autora revela-nos que a 22 de Novembro de 1958, oito dias depois de tomar a sua decisão em deixar de viver, foi enterrado no cemitério com a presença da família e amigos em luto.

E nas páginas seguintes passará a desenrolar-se a narração memorável dos oito dias finais na vida de Nasser Ali Khan em que se recordam os momentos mais importantes da sua vida; a sua relação com a mulher e os filhos, a sua juventude e paixão por uma mulher que não se concretizou, a sua mãe, figura tutelar na sua vida, até por fim ser visitado por Azrael, o anjo da morte, que lhe recorda a efemeridade da vida através de versos do poeta Khayyam.

Apenas Satrapi sabe transmitir a terrível emoção presente na vida das suas personagens, emoções dilacerantes como as que me fizeram chorar nos momentos finais do filme de Persepolis (tão curioso que as duas melhores animações que vi nos últimos anos sejam uma israelita e outra iraniana), emoções subtis mas impossíveis de esquecer como o momento em que Satrapi descreve como a primeira amada de Nasser Ali Khan não o reconhece muitos anos depois num encontro ocasional na rua para depois revelar ao leitor que nunca o esquecera e ainda o chorava…

Os leitores gostarão de ler a obra de Satrapi mais não seja para terem acesso a uma cultura extraordinária, mas inteiramente desconhecida. Galinha com ameixas é um prato tradicional iraniano e o favorito do protagonista. Por breves momentos, Ali Khan esquece-se do seu desejo de morte e é tentado de volta à vida pelo sabor da ameixa (será uma homenagem ao filme O Sabor da Cereja de Kiarostami?), mas declara por fim que perdeu a capacidade de saborear e apreciar.

Assim termina a vida de um homem insatisfeito que não foi capaz de viver em pleno, submisso a um profundo sentimento de que a sua alma ferida encontrou apenas conforto na música que expressou toda a dimensão da sua perda e tristeza. Citando os versos do poeta persa Rumi do poema Gone to the Unseen:

At last you have departed and gone to the Unseen.
What marvelous route did you take from this world?

Beating your wings and feathers,
you broke free from this cage.
Rising up to the sky
you attained the world of the soul.

[...]

Now the words are over
and the pain they bring is gone.
Now you have gone to rest
in the arms of the Beloved.

Written by Safaa Dib

August 18, 2009 at 9:42 pm

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A Invenção do Mundo Fantástico…

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Um dia gostaria de trabalhar num jornal diário e viver o dia-a-dia repleto de pressão de um jornalista para que possa assim encontrar uma justificação para os erros lamentáveis que vão recheando as páginas de jornais, revistas e suplementos nacionais e onde se nota por vezes uma gritante falta de profissionalismo, seja ela ditada por completa ignorância do jornalista que não sabe fazer o seu trabalho de casa, seja ela ditada por uma direcção de jornal que certamente tem os seus próprios interesses a defender.

Serve isto para expor o texto que saiu no NOTÍCIAS MAGAZINE de 15 de Agosto, suplemento do Diário de Notícias, intitulado A Invasão do Mundo Fantástico sobre a literatura fantástica em Portugal.

Comecemos pelo óbvio. O texto começa por falar sobre um género em clara ascensão e parece que a onda dos autores estrangeiros de maior sucesso trouxe com ela uma nova vaga de portugueses dedicados a este tipo de literatura. Espera-nos então um texto com uma abordagem completa sobre o panorama editorial do fantástico escrito por portugueses?  É de esperar um texto conciso que refira quais as editoras que têm desenvolvido um trabalho de destaque na área? É melhor não terem as expectativas muito elevadas…

Antes de mais, o texto começa por sublinhar como o género que conta histórias de castelos, dragões ou vampiros provou ser apreciado por um público de todas as idades. Logo, as editoras, sabendo a aposta ganha que têm entre mãos, andam a publicar dezenas de livros de fantástico nos últimos tempos. É curioso que refira este número de “dezenas” quando o próprio texto da jornalista Mariana Correia de Barros só aborda livros que se contam pelos dedos de uma mão mutilada (esta tem direitos de autor…).

Diz ela “A moda talvez tenha sido lançada por Tolkien e seguida por muitos autores como o recente fenómeno da norte americana Stephenie Meyer.” Talvez? Então não tem a certeza? Então não sabe dizer porque começou o boom do fantástico? Essa afirmação pouco rigorosa ainda comete a proeza de destacar Tolkien saltando logo para Stephanie Meyer, um fenómeno em nada relacionado com a fantasia épica que Tolkien inspirou, omitindo toda uma série de autores, colecções, projectos, subgéneros que viveram e morreram neste país antes de chegarmos à Meyer. Tudo ignorado pela jornalista porque o que interessa realmente neste texto é destacar Meyer nem que se tenham que fazer ligações forçadas de parentesco entre a vaca e a baleia, ora pois.

Segue-se uma citação do editor da Gailivro, Pedro Reisinho, sobre a popularidade do género fantástico no estrangeiro ao que se parte logo para a definição do fantástico e a sua natureza abrangente.

Nele podem ser incluídos os livros de ambiente medieval, com dragões e grandes batalhas de capa e espada, como vampiros que vivem no presente e se fundem na sociedade, ou até zombies que habitam num planeta mais futurista. Alguém tem alguma dúvida sobre a que obra se refere “vampiros que se fundem na sociedade”? Só quem tiver andado a dormir nos últimos meses e não tiver visto a campanha de marketing agressiva em torno dos livros de Charlaine Harris a ser presentemente publicados com sucesso em Portugal pela editora Saída de Emergência. Engraçado como o trabalho dessa editora nem existe para esta jornalista. Mas continuemos a dissecar o texto.

A própria fantasia urbana é um estilo em franca expansão que caminha lado a lado com o género da ficção científica. Se quer fazer uma afirmação destas, então complemente-a com exemplos de obras que mostrem a validade desse argumento. Não digo que não seja verdade, mas afinal do que se trata a fantasia urbana? Não foi explicado, simplesmente acabamos de descobrir que anda lado a lado com a ficção científica. Como e porquê, não sei, mas parece que não interessa muito.

Depois das citações de Pedro Reisinho, passamos para as de Inês Mourão, responsável de comunicação da editora Presença, que partilha connosco a ideia da vertente escapista presente na literatura fantástica, sendo essa na sua opinião a chave de sucesso do género. 

Aliás, a designação de trilogias ou tetralogias foi abandonada e hoje apenas se fala em sagas e ciclos. Pedro Reisinho diz que isso tem a ver com o facto de essas séries acabarem sempre por publicar um ou mais livros. Mas a melhor parte vem a seguir:

Mais raros, mas que começam agora a surgir, são os chamados stand-alone, títulos de fantasia ou ficção científica lançados isoladamente.

Hmm? Estou perdida. Mas afinal falamos ainda do panorama nacional ou essa é uma referência ao que se tem feito agora no estrangeiro? Se falamos do estrangeiro, stand-alones já existem há anos incontáveis ainda antes de eu sair da barriga da minha mãe há vinte e seis anos. Se estamos a falar do que se passa em Portugal, essa é uma frase que se refere apenas a um livro e um livro apenas que saiu nos últimos meses no mercado português publicado pela… Gailivro. Ai que os leitores já devem estar fartos de ver mencionados os autores da Gailivro neste texto e ainda nem chegámos à segunda página. Vai piorar, acreditem. Falo da obra do Octávio dos Santos Espíritos das Luzes. Claro que é o autor que é referido logo de seguida no texto e também entrevistado.

A seguir ao Octávio, é a vez de a Madalena Santos ser entrevistada, autora da saga Terras de Corza. Para que não restem dúvidas, conheço o Octávio e a Madalena, estive presente nos lançamentos dos seus últimos livros (embora o Octávio só tenha conseguido chegar no fim) e são duas pessoas que estimo bastante, e não coloco em questão as suas obras, mas este texto jornalístico por esta altura já começa a parecer um apanágio à Gailivro e de como o seu trabalho tem sido ÚNICO e FUNDAMENTAL neste país. O que é FALSO, porque estão longe de ser a única editora a apostar no campo da literatura fantástica. Mas quero continuar a dissecar o texto.

E saltemos para o último autor entrevistado e citado, que não poderia deixar de ser referido, claro. Referido até à exaustão em todos os textos jornalísticos sobre fantasia em Portugal, ele é considerado o pioneiro da fantasia épica portuguesa. Verdade seja dita, é o pioneiro da primeira fantasia épica portuguesa que VENDEU em Portugal. Falo do Filipe Faria, claro, com direito a foto e tudo (a barba fica-te melhor, Filipe, e ainda bem que já te desligaste do ar neuro-gótico).

E este malfadado texto termina com um parágrafo:

Estes três autores são apenas alguns dos autores que têm aproveitado agora a vaga do fantástico para tentar a sua sorte. Também na Internet se multiplicam os contos do género e há editoras que apostam na criação exclusiva de colecções exclusivas do fantástico.

Q-U-A-I-S? Um texto sobre “a invasão do mundo fantástico” em Portugal não pode lançar essa afirmação e ficar-se por aí impune. Quais colecções exclusivas de fantástico? Eu posso ajudar. Será a colecção Bang? Ou a colecção Teen? Ou a colecção Argonauta que vai ser revitalizada em breve? Provavelmente nem sabia dessa a jornalista.

Vergonhoso e deplorável, é o que chamo a este texto. E como se não fosse mau o suficiente o conteúdo completamente parcial e propagandista dos produtos com a marca Gailivro, ainda é inserida uma coluna lateral, cúmulo dos cúmulos, com o título OS GRANDES DA FANTASIA INTERNACIONAL. Esta é fulminante.

Começa por referir JRR Tolkien, inspiração de centenas de autores, para depois referir Marion Zimmer Bradley e o marco especial que constituiu para o público feminino com o seu quarteto As Brumas de Avalon, sendo os grandes nomes da fantasia internacional a seguir mencionados… Christopher Paolini e Stephenie Meyer… Como diria Sookie Stackhouse (personagem de Charlaine Harris) em verdadeiro calão white trash sulista, SHUT THE FUCK UP. Eu digo-vos um gigante da fantasia internacional que não mencionaram mas que deviam: George R. R. Martin, mas se calhar não era conveniente porque, por acaso, é um autor da Saída de Emergência que está a vender que nem pãezinhos quentes e não precisa de mais ajudinhas para vender.

É um insulto este texto. Insulto às editoras que são tão boas ou melhores que a Gailivro na promoção do fantástico em Portugal, insulto aos autores portugueses dessas editoras que mereciam também destaque, insulto à inteligência dos leitores por pensarem que se não referirem os outros elefantes no centro da sala ninguém vai reparar neles, e insulto ao próprio género da literatura fantástica por ter que sofrer com jornalistas que ou são forçados a escrever com limitações impostas pela direcção ou porque simplesmente o trabalho foi encomendado.

São as regras do mercado mas eu não tenho que aturar isto e engolir bullshit.

Written by Safaa Dib

August 15, 2009 at 6:31 pm

Crime e Castigo

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As edições Relógio d’Água anunciam uma nova edição do clássico de literatura russa Crime e Castigo de Fiódor Dostoievski, numa tradução do russo por António Pescada. Não será a primeira tendo a 1ª edição portuguesa traduzida do russo surgido sob alçada da Editorial Presença (tradução de Nina e Filipe Guerra).

Embora tenha lido a obra pela primeira vez na língua inglesa, seria interessante proceder a uma nova leitura tão só porque algumas traduções em línguas europeias terão romantizado ou suavizado a aspereza e crueza do russo de Dostoievski. E porque se trata de uma das obras cimeiras da literatura mundial? O texto de apresentação revela uma história aparentemente simples.

Raskólnikov, um estudante pobre e desesperado, vagueia pelos bairros degradados de São Petersburgo e comete um assassínio. A vítima é uma velha usurária. Raskólnikov imagina-se um grande homem, agindo por uma causa que está para além das convenções da lei moral e o coloca acima do comum dos mortais.

Crime e Castigo

A acção não é movida apenas por miséria ou extrema necessidade, mas por uma intensa crença de que o acto do crime o irá colocar acima de qualquer princípio moral que possa imperar na sociedade. Raskólnikov deseja pertencer ao panteão exclusivo dos homens que não tremem perante as consequências morais dos seus actos, mesmo que possam semear tragédia.

Mas o crime persegue-o e abala a essência do seu ser. Grande parte do romance trata-se do dilema psicológico que a personagem tem que enfrentar. Ele afunda-se num crescente desespero, exacerbado pela miséria a que assiste nas ruas de São Petersburgo. Através de Sónia, uma prostituta, conhece algum alívio espiritual e a fé da rapariga poderá trazer-lhe eventualmente salvação, mas apenas se Ráskol der o passo final para o abismo, a confissão.

Não é fácil acompanhar a mente distorcida do estudante durante as páginas de Crime e Castigo, mas o leitor não consegue recusar ver a humanidade e os males que a corroem. Somos inteiramente absorvidos e exauridos das nossas forças pela caminhada de Raskólnikov em direcção às trevas e das trevas para a luz.  Assusta-nos a solidão, a miséria, a falta de esperança que mina todas as acções de personagens destituídas, corrompidas pelos vícios de uma sociedade cruel, como o jogo, alcoolismo e o crime. Mas nem tudo são trevas. A história de Raskólnikov ensina-nos que apenas através do sofrimento pode o homem alcançar a redenção. Apenas quando os pés tiverem tocado o fundo do abismo, pode o medo e a fé e a crença em amor salvar um homem e guiá-lo de novo em direcção à vida.

Raskólnikov poderá não ser Napoleão, um homem para além de qualquer compromisso moral, mas representará melhor do que qualquer outro as limitações e imperfeições que assolam o ser humano. Apenas profetas e loucos poderão atingir a transcendência e Raskólnikov nem é profeta, nem louco o suficiente para renegar tudo o que aprendeu.

Leiam o livro, mas apenas se tiverem a coragem para acompanhar a jornada de Raskól. Nem todos são capazes como Dostoievski de pôr a nu a alma e enfrentar os terríveis segredos que lá se ocultam.

Written by Safaa Dib

August 2, 2009 at 5:29 pm

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Lex Talionis

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Eu sou a eterna optimista, embora grande parte das pessoas com quem me relacione não o sejam muito. Eu sou a optimista que acredita que com trabalho duro e dedicação as pessoas certas conseguem chamar a atenção e ultrapassar o mediano ou o medíocre que ultimamente parece imperar em todo o lado.

Mas a optimista em mim não se deixa enganar. Há uma parte de mim que se queda a observar e nota que a evolução é uma coisa ilusória e que os progressos que se pensava terem sido feitos, parecem na maioria das vezes embater numa parede ou cair em saco roto. Mas chega de abstracções e passemos a coisas mais concretas.

Estou de volta à actividade neste blogue (e pretendo mantê-la a um ritmo mais regular, embora já tenha tentado anteriormente) e a razão que me fez de novo escrever tem a ver com uma série de reflexões que têm circulado em vários blogues sobre um tema que me é caro no qual me envolvi bastante: o fantástico em Portugal. Muito se falou nestas últimas semanas, por vezes num tom bastante azedo, e segui atentamente tudo o que foi escrito.

O meu amor por livros, especialmente os de literatura fantástica, é o fio condutor  que alimentou todo o meu trabalho, mesmo quando eu não suspeitava dos frutos que iria colher. As coisas que faço por amor, como diria Jaime Lannister, a minha personagem favorita em As Crónicas de Gelo e Fogo. Ele fez coisas hediondas, mas eu prefiro pensar que dei o meu contributo para a divulgação dessa literatura e uma maior consciencialização do potencial do fantástico em Portugal. Gosto de pensar que dei toda a minha alma e empenho enquanto os projectos me interessaram e enquanto acreditei neles.

Em 2006, escrevi um post sobre a situação da fantasia e ficção científica em Portugal e agora a relê-lo penso como está tão incrivelmente datado e incompleto. Detecto naquele post um certo tom, lá está, optimista. Mas com os anos eu sei que esse optimismo converteu-se num certo azedume e impaciência, e as pessoas que melhor se dão comigo o terão detectado.

Houve os grupos de discussão de Tolkien, os sci-freaks, os filhos de Athena, os 1ºs Encontros Literários, a Épica, o Fórum Fantástico, os trabalhos freelancers para a Saída de Emergência. Ultimamente esse papel de divulgadora,  moderadora e organizadora tem estado um pouco mais apagado porque, simplesmente, desenvolvo hoje um trabalho em prol do género a um nível muito mais profissional e sério.

O que era uma brincadeira, uma actividade de tempos livres, um passatempo, um projecto para me manter sã, rouba-me agora quase todo meu tempo e energias. Trabalhar como assistente editorial no Grupo Saída de Emergência abriu-me os olhos para a realidade do lado de quem faz os livros e de quem os vende. E acreditem que é uma perspectiva inteiramente diferente. Pensamos que sabemos coisas como tradutores, autores, revisores ou por conversas com editores em feiras do livro, mas na verdade o mundo da edição é aquele que determina as tendências, que pode quebrar ou elevar um bom escritor, que pode abrir portas ou fechá-las irremediavelmente. Muitos podem invejar o poder do editor, mas é um poder que não está isento de regras e limitações. Raro é o editor que se dá ao luxo publicar aquilo que os seus gostos ditam. Esqueçam essa ideia, porque não é verdadeira. Prometo escrever um post mais detalhado sobre edição de literatura fantástica em Portugal, mas agora o assunto é outro.

Porque falo deste trabalho agora? Porque permite-me ter uma noção mais clara do que tinha em 2006 do que realmente se passa no mundo da literatura fantástica em Portugal. Recentemente, o Luís Rodrigues foi convidado pela Sf Signal para escrever um texto sobre a situação do fantástico em Portugal. Ora eu conheço o Luís há anos e sei bem qual a opinião dele, que não me surpreendeu minimamente. É uma opinião informada e sei que o Luís acompanha bem as coisas que se têm feito em Portugal (e muitos não saberão do seu contributo insuspeito e não reconhecido para muitas iniciativas importantes). O problema do Luís é o problema que houve desde sempre: é por vezes demasiado hostil e ácido na forma como entra em discussões. A atitude dele torna-se problemática para muitas pessoas que se revoltam com a sua abordagem da questão.

Na caixa de comentários do blogue do Correio Fantástico, assim como na Sf Signal, surgiram as reacções ao texto do Luís que só me surpreenderam numa coisa: era o mesmo tipo de reacção azeda e exacerbada que testemunhava em fóruns há muitos anos.  Pensei eu “mas ainda estamos nisto depois de tantos anos? Ainda esta celeuma e despeito todo?” Deixem-me explicar o principal motivo da reacção: o Luís Rodrigues é um alvo suspeitíssimo, um membro há muitos anos do mítico e famigerado fandom nacional.

Não é nenhum segredo de que existe um grupo de pessoas que há anos tem-se mostrado activo, em maior ou menor grau, na divulgação do género.  E também não é nenhum segredo que o convívio regular com os principais protagonistas deste grupo deu-me a conhecer muitos defeitos, virtudes, episódios lamentáveis, outros memoráveis, mas absorvi tudo e aprendi a interagir de acordo com a personalidade de cada figura.

A maioria tem opiniões muito fortes sobre o estado da nação, alguns dirão que são os eternos pessimistas que professam que nada com a etiqueta nacional merece considerações. A maioria dos membros do chamado fandom desenvolvem um trabalho já reconhecido na área e são as suas opiniões que são normalmente ouvidas pelos meios de comunicação social ou outros eventos quando é preciso uma voz que saiba do que está a falar.

E depois há a ideia que a maioria dessas pessoas tem de que o fandom despreza a fantasia inspirada em Tolkien, a que se chama vulgarmente de fantasia épica derivativa que, como se sabe, foi a fantasia que mais vingou em Portugal nos últimos anos. Mas há que colocar aqui uma questão importante: o fandom critica negativamente a fantasia inspirada em Tolkien por ser uma mera cópia ou porque é má? Porque se criticam por ser meramente uma cópia, então eu sou obrigada a divergir deles.

Conheço imensas fantasias derivativas que hoje são consideradas clássicos ou obras bem amadas.

Uma das primeiras obras de Guy Gavriel Kay, A Tapeçaria de Fionavar, é abundantemente inspirada em Tolkien, tendo sido escrita no seguimento do seu trabalho de edição do Silmarillion juntamente com Christopher Tolkien. E apesar de um início fraco e tremido, Kay vai conquistando uma voz cada vez mais segura, lírica e emocional que o tornou famoso em obras posteriores. Também posso dar o exemplo de Terry Brooks na série Shannara. The Sword of Shannara acaba por ser um simples remastigar do enredo do Senhor dos Anéis mas isso não impediu que o livro conquistasse milhares de fãs porque de facto tem algumas qualidades.

E o mesmo poderia dizer dos livros Dragonlance escritos por Margaret Weiss e Tracy Hickman, dois escritores que fizeram as delícias de milhares de jovens com histórias e aventuras bem escritas de grande carga emocional e personagens que acabaram por se tornar lendárias.

E não posso deixar de mencionar o David Gemmell, um grande autor de fantasia cujos mundos se inspiram fortemente nos clichés de fantasia épica, mas isso não o impediu de criar histórias memoráveis. E depois poderia destacar o caso de Poul Anderson em The Broken Sword que não só respeitou as convenções do género, mas ainda o levou mais longe.

Já tive a oportunidade de ler inúmeros manuscritos, contos, excertos e obras publicadas por portugueses que se poderiam incluir em fantasia épica. Não posso dizer que tenha encontrado uma obra ou texto que me tenha satisfeito plenamente e que me tenha enchido as medidas, mas vi potencial em algumas, um potencial que muitas vezes andava de mãos dadas com algumas falhas sérias a nível de construção narrativa, enredo ou situações risíveis e ridículas em que as personagens são colocadas. Tudo facilmente emendado, creio, com trabalho rigoroso e disciplina, empenho e dedicação. Mas aqui há um aspecto que não posso deixar de abordar.

É imperativo que acabe uma certa mentalidade que existe em Portugal de que o livro, apenas porque é publicado, é obra de um génio. E o que é pior: Ao constatarem que o livro não tem o sucesso desejado ou não atingiu as estantes de livrarias no país inteiro, consideram que o livro é obra de um génio incompreendido, e vai daí a lamúrias e protestos que não dignificam muito o autor. Ainda poderia falar do caso dos autores que julgam que o manuscrito não precisa de nenhum trabalho de edição, mas isso é assunto para outros posts, até que porque faz falta um verdadeiro trabalho de edição em Portugal. Eu não quero ofender ninguém com esta afirmação, mas compreendam que publicar um livro em Portugal não é sinónimo de se ser escritor. Eu não sou obrigada a reconhecer uma pessoa como escritor apenas porque publicou obras, seja numa grande casa editorial ou numa vanity-press. E nem o Luís Rodrigues é obrigado a reconhecer o trabalho de muitos jovens autores apenas porque foram publicados e venderam e têm fãs. Se o Luís leu esses livros e considerou-os que não deviam ser mencionados no seu texto, é porque a sua consciência assim o ditou. Podia tê-lo mencionado por respeito a essas obras, mas não há nenhuma lei que o obrigue a tal.

Durante anos assumi uma posição moderada, juntamente com o Rogério Ribeiro, uma posição que medeia entre a inflexibilidade do fandom e uma maior abertura e desejo de contar histórias de muitas pessoas que fomos conhecendo graças ao fórum fantástico e outros. No último ano ou dois, muitos poucos sabem que eu e o Rogério começámos a divergir cada vez mais sobre o conteúdo do evento. O Rogério defendia que, independentemente das qualidades da obra apresentada, devíamos dar-lhe lugar no evento, mesmo tendo nós consciência das suas limitações. Eu defendia que, precisamente por não estarem a um nível minímo desejado, deviam ser excluídas de apresentação. Eu acreditava que por maiores que fossem as boas intenções do Rogério em apresentar a obra e apontar ao autor a necessidade de melhorias, achava que o evento estaria conotado com um nível de mediocridade que a minha consciência recusava-se a divulgar. Felizmente, chegámos a um consenso em grande parte das vezes, houve vários que não foram convidados, houve outros que aceitaram o convite. Mas o que importa é que a lógica do Rogério sempre imperou no Fórum, que foi a de permitir divulgar tudo o que era feito em Portugal, seja por membros do fandom, seja por pessoas que nunca se envolveram em grupos, facções, etc.

A atitude é a falha principal no meio. A atitude daqueles que se mostram intransigentes nos seus standards. A atitude daqueles que se ressentem com a rejeição e falta de apreciação pelos seus esforços e optam por enveredar por vezes pelo mesmo desrespeito de que os primeiros são acusados. A atitude dos invejosos que querem nada mais do que destruir o mérito do trabalho dos outros. A atitude daqueles que se julgam salvadores da pátria, mas não lhes reconheço as qualidades para salvarem coisa alguma.

E deixem-me que vos diga. Por mais defeitos que tenha o fandom, há algo em que geralmente não falham. Marcam presença nos lançamentos, estão sempre disponíveis em contribuições e sugestões para o Fórum Fantástico, estão lá sempre quando é preciso guiar autores estrangeiros em Portugal, compram os livros, divulgam-nos à sua maneira. Recentemente, foi lançada a antologia COM A CABEÇA NA LUA, que foi provavelmente o evento do ano em ficção científica em Portugal, e constatei, desiludida, que só as habituais caras do fandom tinham marcado presença no lançamento. Onde as novas caras? Onde os leitores ávidos? Onde os bloggers entusiastas (À excepção da Cristina Alves, editora do Rascunhos, que tem sido exemplar e quem me dera que houvesse mais 500 como a Cristina)? Onde os editores de e-zines de fantástico? Em lado nenhum!

Assim não é possível fazer crescer o género fantástico em Portugal.

Mas voltando à literatura em si, e deixando as atitudes de lado, se os autores que temos não querem seguir as pisadas de Jack Vance, Michael Moorcock, Gene Wolfe ou Stephen R. Donaldson, devemos ignorá-los por isso? Ou devemos construir pontes que lhes façam abrir os olhos para toda a diversidade que existe na literatura fantástica?

E agora pergunto para o lado dos jovens leitores e autores que tanto criticam o fandom: Querem alguém que fale sempre bem dos vossos textos e digam que são a figura mais influente e talentosa dos últimos tempos? Querem apenas elogios? Querem alguém que aceite tudo o que publicam sem um olhar crítico que aponte uma ou outra falha? Eu suspeitaria imenso do editor que me propusesse a publicação de um manuscrito meu sem que me desse uma opinião fundamentada e esclarecida, a opinião de alguém que já adquiriu a experiência e conhecimentos suficientes para saber se valho a pena ou não como escritora.

Mas se há uma coisa que mudou para melhor desde 2006 é que temos muitos mais leitores do que há cinco anos. Leitores que não se ficaram por J. K. Rowling e Harry Potter, mas procuraram mais e mais e tornaram-se exigentes. É o sinal mais positivo que encontrei nos últimos tempos. Eu vejo no fórum Bang! a quantidade de fãs que devoram a colecção e anseiam pelo próximo título de Moorcock, George R. R. Martin, Dan Simmons, Richard Morgan e outros. Eu leio as sugestões que fazem e espanto-me e fico contente porque demonstram um nível já bastante superior que era praticamente inexistente em Portugal há uns anos. A facilidade de compras na Internet também ajudou bastante a este fenómeno, assim como a facilidade de encontrar o melhor que se tem feito através de word of mouth na Internet.

Será sonhar muito a ideia de que talvez alguns destes leitores revelem no futuro uma escrita capaz de fazer o Luís Rodrigues mencioná-los com orgulho na SF Signal?

Confesso que ainda não vi um escritor português de fantasia que me tivesse impressionado, e disse-o no twitter, ao que me foi perguntado: “Mas não serás tu difícil de impressionar?” A pergunta é perigosa porque evidencia uma linha de pensamento de que eu devia baixar os meus padrões de exigência para tornar assim mais fácil a aceitação de novos autores. Quando começo a ler um novo texto, não estou à espera de ver o próximo George R. R. Martin, apenas algo que eu goste de ler, que me emocione, que me faça virar a página com entusiasmo, que me faça entrar no maravilho mundo da suspensão de descrença, porque eu quero mesmo acreditar. Mas se o português nao for bom o suficiente, se os diálogos não soarem naturais o suficiente, se o enredo for aborrecido ou mal feito, não posso acreditar.

Algumas pessoas sugeriram à própria SdE que incentive workshops de escrita criativa, mas a SdE é uma empresa, embora se faça muito ali por amor à camisola. É a outros que cabe a organização de workshops; a edição de revistas, seja em papel ou online; a organização de encontros e tertúlias; a procura de colaboradores dispostos a contribuir diariamente com textos e novidades. Passei por tudo isso, mas o que se tem feito mesmo assim não é suficiente enquanto não houver mais colaboradores, mais união no meio, menos suspeita e indiferença, mais vontade em ensinar e aprender, em dar e receber.

Tem que acabar a política azeda de retribuição que impera no meio da literatura fantástica em Portugal, a de olho por olho, dente por dente, que eu diria que é um passatempo favorito de certas pessoas. A ideia é discutir, mas não pôr no lugar. A ideia é sugerir, mas não denegrir ou rebaixar. A ideia é aceitar, e não ignorar. A ideia é construir e fazer crescer, e não destruir com ódio, dor de cotovelo, inveja, incompreensão, falta de comunicação, uma terrível e estúpida e dispensável falta de comunicação.

Written by Safaa Dib

July 19, 2009 at 12:30 pm

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Love snapshot #6: The Go-Between

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Julie Christie em The Go-Between de Joseph Losey

Julie Christie em "The Go-Between" de Joseph Losey

Quando o rapaz Leo é convidado para passar um Verão crucial da sua adolescência com uma família aristocrática inglesa, é ainda demasiado inocente para se aperceber do mundo subtil dos adultos, permeado de jogos e silêncios eloquentes, de mentiras e manipulação.

Tudo o que vê é a beleza fulgurante e angelical de Marian (Julie Christie), irmã do seu amigo, destinada a ser uma futura Lady. A sua paixão de rapaz é inteiramente ingénua, levando-o a devotar-se a Marian com toda a sua alma. Mas a jovem mulher, mesmo tendo a face de um anjo, tem segredos que nunca revela por inteiro. Força Leo a servir de mensageiro entre ela e o homem por quem está apaixonada, um agricultor inferior à sua classe (Alan Bates). De forma inconsciente ao rapaz, é através dele que o casal consuma a sua relação  sexual ilícita, nunca revelada por palavras em todo o filme (e essa é um dos feitos notáveis do argumento de Harold Pinter em que tudo está subeentendido nas entrelinhas, mas nunca claramente expresso).

Descrevendo uma Inglaterra de início de século que já não existe, e em particular uma classe extremamente opulenta e antiquada que se extinguiu para dar lugar a uma classe mais enérgica e consciente dos seus pares, The Go-Between é um filme todo ele sobre desejo e amor. Mas um desejo esmagado pela força das circunstâncias e por uma sociedade hipócrita que mantém as aparências da convencionalidade, ignorando propositadamente a imoralidade que corre no seu seio.

Aprisionado entre os amantes, e manipulado sem escrúpulos, o rapaz irá entrar da pior forma possível no mundo adulto, servindo de testemunha a um amor trágico. Ele será, acima de tudo, a principal vítima do egoísmo de outros, um mero peão no jogo entre deusas e homens que não são fortes o suficiente para resistir à luz tentadora que irradia do Olimpo dos deuses.

Written by Safaa Dib

April 19, 2009 at 6:27 pm

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If…

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The thing I hate about you, Rowntree, is the way you give Coca-Cola to your scum, and your best teddy bear to Oxfam, and expect us to lick your frigid fingers for the rest of your frigid life.

Se há um filme que deve ser relembrado e salvo do baú do esquecimento é If… de Lindsay Anderson. Uma pessoa jamais se esquece do fulgurante papel de Malcolm McDowell como Mick Travis, o estudante insurgente que irá declamar tiradas poéticas a favor da violência e revolução.

A citação acima é retirada de uma cena particularmente sublime em que Travis desafia frontalmente as pessoas responsáveis pelo seu sofrimento, sem medo, apenas a coragem dos rebeldes.

Muitos não saberão que If… é o primeiro filme de Malcolm McDowell, lançando-o para a fama no Reino Unido e chamando a atenção do realizador Stanley Kubrick que acabaria por escolhê-lo para o infame papel de Alex DeLarge em Clockwork Orange. Embora ambos os filmes tenham protagonistas semelhantes que lutam contra o establishment, o estudante que incita à revolta em If… está longe da psicose que invade cada canto da mente perversa de Alex deLarge. O estudante é de natureza idealista, arrogante, seguro, confiante nas suas capacidades e ciente de que estão a ser completamente desperdiçadas no ambiente enclausurado e rigído da escola privada  inglesa.

Malcolm McDowell em  If... de Lindsay Andersin (1968)

Malcolm McDowell em If... de Lindsay Anderson (1968)

É um filme notável, cheio de cenas inesquecíveis, que tive a oportunidade de ver pela primeira vez na Cinemateca Portuguesa em 2008. A história é aparentemente simples. Numa escola privada no Reino Unido, os alunos são ensinados a conformarem-se aos seus superiores e a nunca desafiarem a autoridade da direcção ou dos estudantes mais velhos que controlam os alunos.

Neste cenário tão tipicamente Eton, surge no início do filme um jovem qual Guy Fawkes a esconder com a sua capa um bigode rebelde. Mick, juntamente com dois amigos, é o eterno insubmisso que se aliará a favor dos oprimidos contra a injustiça. Mas não é assim tão simples. De facto, o filme de Lindsay Anderson pouco tem de simples e politicamente correcto. Não é apenas uma afirmação contra a moral hipócrita vigente ou a autoridade  senil, mas é também um espelho das grandes transformações que se iriam operar nessa década, os anos sessenta.

Lançado no ano simbólico de 1968, o filme acabaria por ter um profundo impacto numa geração de espectadores e na própria história do cinema britânico que se afasta então dos modelos clássicos a favor de uma nova abordagem de denúncia e reveladora da sociedade moderna em que o homem recupera o controlo do seu destino.

Travis não é apenas um mero defensor de estudantes mais fracos ou alguém que deseja vingar-se dos seus opressores. É o revolucionário incendiário que afirma que One man can change the world with the bullet in the right place ou Violence and revolution are the only pure acts. Não tem uma consciência de herói que separa nitidamente o bem do mal, até porque Mick não hesitará em roubar uma mota ou usar armas ou bombas. É o anarca completo sem consciência moral, uma criatura perigosa de deixar à solta, e não é por acaso que o filme envereda cada vez mais  num tom surreal e satírico que irá terminar da forma mais brilhante e politicamente incorrecta que me lembro de ver em cinema.

O que importa é o acto de rebelião, a derradeira ofensa à instituição. Um grito de liberdade que estava reprimido há demasiado tempo e que acabaria por ecoar as próprias mudanças da sociedade inglesa nessa década.  É curioso notar como a homossexualidade é abordada de um ângulo muito suave e naturalista, algo invulgar na altura.

A cinematografia é excelente e o espectador poderá estranhar algumas imagens a preto e branco de interiores (a lenda diz que o filme não tinha orçamento suficiente para filmar todas as cenas a cores). Os jovens actores, seja os vilões ou os rebeldes, são todos de um realismo admirável e McDowell nunca esteve tão bem num filme que acabaria por definir o rumo da sua carreira de forma tão marcante.

Lindsay Anderson realizaria mais dois filmes com a personagem de Mick Travis, O Lucky Man! e Britannia Hospital que não vi, mas se forem tão marcantes como If…

Written by Safaa Dib

March 29, 2009 at 7:40 pm

[Círculo de Leibowitz] The Centauri Device de M. John Harrison

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Consigo compreender os leitores que se recusam a aventurar em obras de ficção científica. É um erro julgar que é para todos os gostos, porque não é. Um leitor de ficção científica precisa de estar disposto a descodificar os parâmetros que foram instituídos no mundo criado pela imaginação do autor. E precisa, acima de tudo, de uma mente aberta que se prepare para absorver, às vezes com dificuldade, a estranheza da história de modo a tentar compreendê-la.

E isso torna-se especialmente verdade no livro The Centauri Device de M. John Harrison, um dos autores de vanguarda da New Wave dos anos 70, a vaga literária que viria a dar nova vida à literatura especulativa.

Poderíamos afirmar que o livro se inscreve no género popular da space opera porque não lhe faltam muitas das características que definem a space opera, tais como, as viagens interestelares com conflitos a uma escala grandiosa entre poderosos inimigos,  mas evitemos cair em rótulos desnecessários porque M. John Harrison certamente não estava interessado em seguir as velhas fórmulas ao escrever The Centauri Device.

A história centra-se essencialmente em torno de John Truck, um capitão de uma nave espacial que vadia pela Galáxia, e que passa grande parte do seu tempo a tentar manter a cabeça à tona por entre o mar de decadência e desespero que afogaram grande parte das populações dispersas por colónias no espaço. A maioria das descrições de cidades e personagens parecem dar a entender que não há muita esperança ou alegria e que a única coisa que poderá dar alguma fuga ao desespero são as drogas.

De facto, o leitor tem a constante sensação de que as personagens lutam contra a sua dependência por algo que alivie a dor e a depressão. Na melhor analogia que poderia encontrar, muitas das personagens não são muito diferente de dharma bums, poetas ou músicos vagabundos que viviam na miséria, cedendo a álcool e vícios, e qualquer talento que possuíam era lentamente destruído pela cruel percepção de que o universo nunca quis saber deles.

A acção presente na história, por mínima que seja, está constantemente pontuada por divagações metafísicas e reflexões sobre a natureza do desespero e a vastidão do espaço galáctico indiferente à fragilidade humana. E será esse o calcanhar de Aquiles de The Centauri Device. De tal forma está embrenhado M. John Harrison em expor a miséria e a futilidade de guerra que se esquece de dar mais carne e osso à história.

A história resume-se de forma simples. O planeta Terra está subjugado pela luta entre IWG, Israel World Government, e UASR, United Arab Socialist Republics. No profundo ódio fanático que nutrem um pelo outro, ambas as organizações estão dispostas a tudo para que as suas ideologias imperem acima de todas as outras, mesmo que implique práticas como o genocídio.

John Truck, um aparente zé-ninguém que esteve envolvido na sua dose de violência e combates, torna-se o homem mais procurado da galáxia devido aos seus genes que o indicam como o último da sua raça, os Centaurianos. Uma raça velha, uma das primeiras civilizações, foi totalmente exterminada (ou cometeram suicídio em massa, confesso que não percebi bem), não antes que concebessem uma poderosa arma que poderia conceder-lhes a vitória, o Centauri Device. Desenterrada por um arqueólogo seguidor de uma religião chamada Openerism, presume-se que seja um mecanismo alienígena poderoso que pode destruir todos os inimigos e pôr um fim à guerra galáctica.

Mas apenas um indivíduo com os genes centaurianos poderá operar o mecanismo e daí todas as facções começarem a perseguição por John Truck, um piloto solitário traficante de drogas, e um homem com quem dificilmente o leitor irá simpatizar.

Ao longo da narrativa, a personagem não passa de um joguete nas mãos dos vários grupos que pretendem controlar o misterioso Centauri device. Inicialmente nas mãos dos israelitas, ele é capturado pelo submundo do tráfico de droga, pelos anarquistas, depois pelos openerists, uma religião fanática que trará imensa miséria ao protagonista, e por fim, os árabes. Todos deixam as suas marcas, mas raramente a história evolui e os líderes políticos, General Gaw, Ben Barka,  não são mais do que meras caricaturas ridículas, paródias das ideologias que defendem.

Ao longo de mais de duzentas páginas, não vemos mais do que o carácter fraco e cretino de Truck a arrastar-se penosamente até ao desfecho, momento em que alcança o Centauri device e produz uma cena que eu diria quase induzida por ácido em que a sua mente confraterniza com todos os fracassados, fracos de espírito, dependentes e miseráveis que jamais conheceu, e assim ele compreende aquilo que deve fazer.

Se me custou a ler esta pequena obra, é porque gosto de uma boa história que não se limite a reflectir o quão erradas são as ideologias e os efeitos devastadores que estas  exercem na sociedade. Frequentemente, as descrições do livro parecem uma constante alucinação induzida por uma droga poderosa e aguardamos que as personagens acordem do buraco profundo em que as suas mentes se afundaram. O enredo torna-se assim oco, vazio, desprovido de interesse.

Mas seria injusto se não salientasse algumas das melhores passagens do livro, que na minha opinião são as que descrevem a captura de John Truck pelo líder dos anarquistas, um homem  excêntrico com um apurado sentido artístico de nome Swinburne Sinclair-Pater, dono de uma frota de naves alienígenas que irão confrontar o inimigo.

Pater, um dos últimos anarquistas interestelares, consegue elevar o espírito de John Truck e despertar nele uma profunda consciência pela beleza cruel do espaço infinito, indiferente aos conflitos ideológicos desesperados da existência humana.

‘Here we begin to guess at the nature of space’, said Pater soflty to Truck. ‘Our palette is prepared. The Galaxy has given us our canvas, a dead dragonfly has bequeathed us the brushes we have to hand. We make Space. We define it. Look out there. IWG and UASR see at best a conduit for Earth’s rubish of politics. We infer reality. None of this belongs to Earth or ideology. It is inviolate.’

E mesmo Himnation, o suposto filho de Pater, ao se aventurar no final do livro numa dimensão desconhecida da Galáxia, the Third Speed, não mais consegue fazer parte da Humanidade, impelido pelo intenso desejo de ser absorvido e absorver o além desconhecido.

The Centauri Device é o tipo de ficção científica que afasta muitos leitores do género. A prosa, por vezes poética, é impressionante mas densa e difícil, as personagens são na essência toxicodependentes falhados e os cenários à sua volta são tenebrosos e dominados por miséria e decadência. Certamente não recomendo este livro para aqueles que se desejem iniciar na literatura de ficção científica, embora seja um bom exemplo da abordagem inédita e experimental que a New Wave incutiu na ficção científica dos anos setenta.

Outras críticas  a TCD no Círculo de Leibowitz:

Cristina Alves

João Seixas

Nuno Fonseca

Correio Fantástico (entrevista ao autor M. John Harrison)

Written by Safaa Dib

March 21, 2009 at 6:35 pm

Love snapshot #5: Tess

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tess

Nastassja Kinski em Tess de Roman Polanski (1979)

O início de Tess de Roman Polanski pode levar-nos a pensar que estamos perante uma obra sentimental e lírica, mas se há uma qualidade enervante na obra literária de Thomas Hardy é o seu desejo inflexível de expor a crueldade da natureza humana que é dominada pelos caprichos de homens poderosos. Todavia, até os homens podem ser as vítimas dessa marcha implacável do destino que tudo mancha de vermelho, a cor da tragédia.

O morango que Alec, um fidalgo que se enamora de uma prima plebeia, força Tess a comer não é mais do que o símbolo do fruto proibido que irá fazer a jovem mulher cair nas malhas do desejo masculino. Como poderia a sua pureza resistir perante o rosto de ignomínia e uma sociedade tão moralmente espartilhada que condena a rapariga a expiar uma culpa que nunca lhe pertenceu?

Mas mesmo quando Tess luta contra todas as expectativas em se livrar da mancha do pecado, e julga ver a salvação na forma de um anjo, o diabo não consegue esquecer o rosto que a sua vilania deseja possuir de novo. É um dos momentos mais notáveis quando Alec  não se consegue contar perante a beleza de Tess, I was your master once!  I shall be so again. If you are any man’s wife, you’re mine.

A força desta declaração revela-se profética. A tirania do desejo triunfa, mas condena ambos os amantes ao Hades. Impossibilitada de de viver o seu verdadeiro e único amor, Tess escolhe a única via que lhe resta no seu desespero, condenando-se perante uma sociedade indiferente a verdadeira justiça.

Written by Safaa Dib

March 15, 2009 at 1:07 pm

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Watchmen

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watchmen-rorschach-poster

É difícil descrever Watchmen sem cair no ridículo. É um dos marcos fundamentais na história moderna da banda-desenhada não só pela sua complexidade narrativa, mas também pela sua inédita abordagem ao mito do super-herói. A partir da sua data de publicação, a escrita da BD não mais passou a ser a mesma e o formato tornou-se terreno fértil de exploração visual e narrativa das idiossincrasias do nosso tempo.

A novela gráfica amplificou a paranóia causada pela Guerra Fria, expondo o conceito vital de guerra que subjuga todo o enredo e o qual testemunhámos ao longo da História – Whoever we are, wherever we reside, we exist upon the whim of murderers.

Em Watchmen assistimos também ao notável uso da técnica da história alternativa, a recriação de um tempo e espaço semelhante ao nosso mas em que certos eventos históricos tomaram precedência sobre outros, alterando o curso da Humanidade. E se a guerra do Vietname tivesse sido ganha e Nixon eleito uma terceira vez? A resposta está em Watchmen.

Mas regressemos aos anos 50 da presente América criada por Alan Moore, altura em que um bando de super-heróis ganha fama assumindo-se como uma liga de combate ao crime. Eis que surge a primeira geração de super-heróis mascarados, sem poderes especiais, e que iria dar lugar a uma nova geração que viria a ser ilegalizada por Nixon.

A América alternativa dos anos 80 de Alan Moore venceu a guerra do Vietname graças à intervenção de Dr. Manhattan, um cientista que, após um terrível desastre, torna-se um semi-deus com a capacidade de alterar espaço e tempo. E é apenas graças a ele que ainda não se deu a deflagração da III Guerra Mundial e o holocausto nuclear, consequência da corrida às armas entre americanos e soviéticos.

No entanto, a guerra está iminente, e faltam apenas cinco minutos para a meia-noite, a hora simbólica que anuncia a proximidade ao dia do Armagedão.

Para compreender as personagens principais que compõem a história principal, é essencial compreender o background e Snyder fez um trabalho notável na sequência de abertura ao recriar toda a história do grupo de super-heróis desde a sua criação. Embora eu tenha sérias dúvidas que o espectador sem conhecimentos da história tenha conseguido acompanhar a torrente de informação.

Alan Moore fez algo na altura que nenhum argumentista tinha alguma vez feito. Descreveu o super-herói como um ser vulnerável, sujeito a falhas, profundamente afectado pelo ambiente que o rodeia e não imune a dor. Às vezes a dor torna-se tão forte que alguns atingem o ponto de não-retorno como Rorschach, tornando-se vigilantes psicóticos a calcorrear as ruelas sombrias do submundo do crime e penetrando nas trevas sem compromisso, desprovidos de emoções humanas.

A justiça em termos de branco e preto aplicada por Rorschach é irónica, considerando que as personagens que a aplicam estão longe de serem linearizadas e mesmo um super-herói como o Comediante, que abate a tiro mulheres grávidas e não é mais do que um mercenário sem escrúpulos de instintos violentos, vacila perante o abismo.

Todos eles, com as suas neuroses, medos e dúvidas tornaram-se objectos do passado até ao momento em que o Comediante é brutalmente assassinado, lançando a paranóia em Rorschach, determinado a descobrir a identidade do seu assassino e os motivos.

A contrapor a Rorschach e o Comediante, temos personagens como Nite Owl, insatisfeito com a renúncia aos dias de vingador, Ozymandias, o homem mais inteligente do mundo que se equipara a Alexandre o Grande e Ramsés II ou Miss Jupiter, a filha da primeira Miss Jupiter, que mantém uma relação amorosa com Dr. Manhattan, este distanciando-se cada vez mais da Humanidade.

O filme não falha em ser fiel à obra, mas os grandes diálogos soam falsos e perdem toda a intensidade quando soam ditos pelos actores e é apenas quando Rorschach profere todo o seu desprezo pela imundice que assola Nova Iorque no seu diário que acredito que estes super-heróis existiram realmente. Patrick Wilson é um excelente actor, mas porque o senti desconfortável e pouco convincente na pele de mascarado? Laurie Jupiter é apenas uma sex-bomb que troca com facilidade um homem por outro, mas é na verdade uma mulher muito carente que precisa de ser amada, quem diria no filme? Ozymandias não aparenta ser mais do que o vilão fanático e alucinado, mas é na verdade aquilo que Raskolnikov tentou ser tão desesperadamente em Crime e Castigo de Dostoievsky, um homem que alcançou a grandeza ao superar dilemas de ordem moral, na essência, a linha ténue entre o bem e o mal.

Quando o relógio atinge o ponteiro da meia-noite libertando o Armagedão, o filme já perdeu alguma da qualidade com que começara e torna-se quase um mero confronto de velhos amigos. Faltou a magnitude e majestade da obra literária, tornando-nos estranhamente indiferentes.

Não julgo o filme Watchmen em comparação com a novela gráfica porque seria injusto. Todos nós sabíamos à partida que iria ser intransponível, mesmo que os detalhes da história estejam lá todos. Mas para o público que não conhece o material, que possível interesse poderá ter um grupo neurótico de super-heróis com máscaras decididamente más? Faltou a chama para que o espectador conseguisse perceber que estava perante uma obra-prima.

A história de Watchmen não pode ser contada numa sinopse, e fazê-lo é na verdade retirar-lhe toda a grandeza. Há tanto mais para dizer sobre a riqueza de uma obra como Watchmen e a própria erudição rigorosa de Alan Moore, uma das imagens de marca dos seus argumentos de BD. No entanto, para ser justa, não deixa de ter os seus bons momentos como a sequência de abertura ao som de The times they are a-changing de Bob Dylan, a evocação de Dr. Manhattan em Marte dos acontecimentos que conduziram ao seu acidente, ou a captura de Rorschach pela polícia, revelando a sua verdadeira identidade.

Todavia, pela primeira vez terei que fazer um reparo à banda-sonora de um filme. Era mesmo necessário repetir A Cavalgada das Valquírias numa sequência sobre o Vietname? Tenho a certeza de que, com algum esforço, teriam conseguido escolher algo mais original.

Written by Safaa Dib

March 8, 2009 at 4:13 pm