Entre os Dois Palácios de Nagib Mahfouz
Não faltam muitas páginas para terminar o 1º volume da trilogia do Cairo de Nagib Mahfouz, publicada pela editora Civilização, numa tradução directa do árabe. Espanta-me ainda ser capaz de ler um livro tão longo (mais de 500 páginas que requerem bastante concentração) não relacionado com literatura fantástica.

Tinha lido há muitos anos um livro de contos do escritor egípcio, mas não ficara de todo impressionada. Todavia, a famosa trilogia do Cairo estivera sempre na minha mente e nos meus horizontes de leitura, tão só pelas referências da minha mãe à série televisiva egípcia baseada na trilogia de Mahfouz que fez furor há algumas décadas no mundo árabe.
Entre os Dois Palácios (1º vol.) é uma revelação para mim. Uma magnífica obra-prima de um escritor no pico florescente do seu talento, baseando a história nas suas próprias vivências.
Trata-se de um relato íntimo e acutilante de uma família, contaminado de humor, crueldade, medo e ternura, mas é também a história da própria Cairo, a nível político e social. A sociedade egípcia dos anos 20 é descrita em toda a sua plenitude através da família de Ahmed Abd el-Gawwad, um comerciante abastado e pai de família que mantém a esposa e filhos sob os preceitos rigídos da moral e tradição islâmica. A hipocrisia vigente impele à dupla personalidade do pai que, enquanto de dia é a imagem da virtude e autoridade indisputáveis, à noite os seus sentidos absorvem profundamente a vida de prazer e boémia que Cairo tem para lhe oferecer.
Comovente, e por vezes déspota, embora nunca desprovido de um estilo ligeiramente irónico que despe a tragédia do seu drama inerente, torna-se impossível não continuar a ler e fazer parte dos serões de café a que assistimos como intrusos e nos quais a família discute os eventos que abalaram profundamente o Egipto após a I Grande Guerra.
Através dos filhos varões, temos acesso a personalidades diferentes entre si. Yassin que se deixa levar pela natureza devassa numa fuga cega do tédio. Fahmi, o estudante de direito, sonhador e idealista. Kamal, a criança traquinas e inocente, com ideias muito próprias acerca da vida e religião. E depois temos as mulheres da história, em especial, Amina, a esposa fiel e submissa que jamais se rebela contra a vontade autoritária do marido, mesmo que o coração lhe sussurre o contrário. Ambas as filhas, Aisha e Khadija, são os seus tesouros escondidos, o espelho da virtude e pureza, em oposição às mulheres cantoras e boémias que dão colorido às noites de Cairo.
Alguns pormenores podem chocar a sensibilidade feminina ocidental, mas é necessário não julgar as acções do homem, nem a religião que lhe está subjacente. As próprias personagens são as primeiras a admitir que o pai de família, Abd el-Gawwad, é demasiado purista e conservador, mesmo para os padrões da época. Algumas características profundamente árabes permanecem inalteráveis como o forte sentido de união familiar e a noção sempre vigente de que o pai é o protector e guardião da família e é sua obrigação velar e assegurar o futuro de todos os membros.
Tal como um Balzac ou Eça, Mahfouz expõe ao máximo nas páginas da trilogia do Cairo a sua fina ironia que nada deixa intacto, em particular os alicerces tradicionais da sociedade islâmica. Os habitantes de Cairo são dissecados pelo seu olho penetrante e rara é a descrição que não transmita a vivacidade do espírito, assim como todo o zeitgeist de uma época politicamente conturbada.
Vivamente recomendada, a trilogia continua com O Palácio do Desejo e O Açucareiro, ambas já publicadas pela Civilização.


Deixaste-me curioso
Quando puder, vou comprar este livro
Francisco Norega
February 20, 2009 at 12:13 am