Stranger in a Strange Land

The world we actually have does not meet my standards. – PKD

A resistência (do crítico) é fútil

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É curioso como podemos encontrar em textos de críticos literários ou jornalísticos alguns padrões. São ideias feitas sobre certos livros ou autores que acabam invariavelmente por se infiltrarem em toda a crítica formando uma noção sobre esse mesmo autor ou livro. Mas a pergunta que devemos colocar é: de onde vêm essas noções? Em Portugal sabemos que raramente as opiniões formadas por críticos sobre obras estrangeiras são originais, únicas, ou com um único pensamento genuíno. São, na maioria das vezes, copiadas ou inspiradas naquilo que é dito nos círculos literários norte-americanos ou europeus.

O marketing tem jogado um papel poderoso nos últimos anos de forma a lançar certas tendências no seio da crítica. Se uma certa perspectiva de um certo autor torna mais literariamente apetitosa a sua obra,  então é certo que as campanhas de vendas ir-se-ão basear nessa perspectiva, mesmo que represente uma distorção da realidade. O trágico é a fraca resistência do crítico perante estas promoções, e diria mesmo até cumplicidade.

E até posso dar um exemplo. Por esta altura, todos conhecem o autor chileno Roberto Bolaño devido à atenção mediática que a sua obra 2666 recebeu em Portugal. Subitamente, ler Bolaño tornou-se cool e obrigatório.  Sobre o autor, o crítico Eduardo Pitta escreveu o seguinte texto na revista LER, e do qual cito o seguinte excerto:

Bolaño nasceu no Chile mas passou a adolescência e o início da idade adulta no México. Em 1973 regressou a Santiago para lutar ao lado de Allende. Pinochet trocou-lhe as voltas e o jovem trotsquista, fundador do Infrarrealismo poético (ao tempo era sobretudo poeta), esteve preso oito dias. Quem ler Os Detectives Selvagens encontra referências ao surrealismo punk que distinguia o movimento. Depois do intervalo chileno voltou à diáspora. Essa parte inclui a amizade com o poeta salvadorenho Roque Dalton, que o introduziu na guerrilha da Frente Farabundo Martí. Acusado de colaboracionismo com a CIA, Dalton foi executado aos 39 anos por camaradas de uma facção rival. Foi então que Bolaño partiu para a Europa, onde lavou pratos em restaurantes (acontece a muito boa gente) antes de ver reconhecido o estatuto de escritor.

È fácil perceber a intenção de Eduardo Pitta em retratar um Bolaño rebelde, como sendo o Che da literatura, que sobreviveu a tempos difíceis e o representante de um tempo de cólera, em suma, o oposto do típico escritor da Ivy League.

Mas depois, por coincidência, li este ensaio interessante do escritor e amigo de Roberto Bolaño, Horacio Castellanos Moya, que encontrei por intermédio deste artigo do Guardian. Em baixo, reproduzo excertos, mas recomendo a leitura do ensaio de Moya na íntegra.

The market has its landlords, like everything on this infected planet, and it’s the landlords of the market who decide the mambo that you dance, whether it’s selling cheap condoms or Latin American novels in the U.S. I say this because the central idea of Pollack’s work is that behind the construction of the Bolaño myth was not only a publisher’s marketing operation but also a redefinition of the image of Latin American culture and literature that the North American cultural establishment is now selling to the public.

(…)

Maybe I was not the only one surprised when, on opening the North American edition of The Savage Detectives, I found a photograph of the author that I didn’t recognize. It is a post-adolescent Bolaño, with his long hair and mustache, the look of a hippie or of the young non-conformist in the time of the infrarealists—the poetry movement he helped found in Mexico in 1974—and not the Bolaño who wrote the books that we know. I was delighted at the photo, and since I’m naïve, I told myself that surely it had been a stroke of luck for the editors to get a photo of the time to which the greater part of the novel alludes.

(…)

It didn’t occur to me to think then, since the book had just come off the press and was beginning to cause a stir in New York, that this nostalgic evocation of the rebel counterculture of the sixties and seventies was part of a finely-tuned strategy.

(…)

The key idea is that for thirty years, the work of García Márquez, with its magical realism, represented Latin American literature in the imagination of the North American reader. But since everything tarnishes and ends up losing its luster, the cultural establishment eventually went looking for something new.

(…)

It was no casual fact, then, that the majority of articles profiling the author laid the emphasis on the episodes of his tumultuous youth: his decision to drop out of high school and become a poet; his terrestrial odyssey from Mexico to Chile, where he was jailed during the coup d’état; the formation of the failed infrarealist movement with the poet Mario Santiago; his itinerant existence in Europe; his eventual jobs as camp watchman and dishwasher; a presumed drug addiction; and his premature death. “These iconoclastic episodes coupled with Bolaño’s death at fifty,” writes Pollack, “are too tempting to narrate as anything but a tragedy of mythical proportions: here seems to be someone who actually saw his youthful ideals through to their ultimate consequences.” “Meet the Kurt Cobain of Latin American literature,” wrote Daniel Crimmins in Paste magazine.

(…)

No North American journalist highlighted the fact, Sarah Pollack warns, that The Savage Detectives and the greater part of Bolaño’s prose work “were written as a sober family man” during the last ten years of his life—and an excellent father, I’d add, whose major preoccupation was his children, and that if he took a lover at the end of his life, he did it in the most conservative Latin American style, without threatening the preservation of his family.

(…)

And he remained a non-conformist up to the end of his life, when fortune had already begun to touch him: he attacked the sacred cows of Latin American literature, especially the boom, which he called, in an email he sent me in 2002: “the rancid private club full of cobwebs presided over by Vargas Llosa, García Márquez, Fuentes, and other pterodactyls.”

It was this non-conformity that served to perfection the myth’s construction in the United States, in the same way that this aspect of Che’s life (the motorcycle journey and not the experience as minister of Castro’s regime or guerilla leader assassinated by the CIA) is what was used to sell his myth in the same market.

No mercado americano e atrevo-me a dizer em todos os mercados em que os seus livros foram traduzidos e vendidos. Até Eduardo Pitta prova isso referindo no texto para a LER precisamente todos os grandes clichés da vida de Bolaño que favorecem a imagem de James Dean rebelde, sendo cúmplice da fabricação do mito em torno do autor chileno.

Cansados do realismo mágico latino-americano que já espremera todo o seu sumo, as editoras norte-americanas moldam uma nova imagem da literatura latina, mais visceral e negra e é em Bolaño que encontram um representante por excelência. A sua obra é menos boa por isso? Não. Tem o valor que tem. Mas nunca teria a atenção que teve não fosse por uma brilhante e subtil estratégia de marketing.

Afinal de contas, o leitor gosta do mito do rebelde incoformista que sucumbiu à miséria e morte prematura no fim. The stuff of legend, como diriam os americanos. Mesmo que isso signifique umas quantas distorções pelo caminho de forma a vender melhor o produto. No caso de Bolaño tivemos sorte porque não é de todo mau autor. O que é preocupante em todos estas estratégias bem-sucedidas é que, se nos quiserem fazerem crer um dia que a mediocridade é genial, mesmo não passando tudo de uma fabricação, quem estará lá para nos avisar ou esclarecer? Certamente não o crítico cúmplice e pouco resistente.

Written by Safaa Dib

November 8, 2009 at 8:12 pm

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Em como se expõe uma pseudo-editora

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Lembram-se daquele meu post sobre as vanity-press em que dei o exemplo da Bubok? Pois bem, recentemente chegou ao meu conhecimento através de um determinado fórum mais um caso de vanity-press, aliás, neste caso será antes uma author mill.

Acontece que ontem, muito a propósito deste assunto, Jaime Bulhosa da livraria Pó dos Livros publicou no blogue da livraria um texto muito pertinente precisamente a alertar para estas pseudo-editoras. Não pude deixar de inserir um comentário que hoje foi destacado nesse blogue.

A situação que denunciei no blogue da livraria é relativa a uma editora de nome “Edita-me” da área do Porto e refere-se a uma antologia de talentos fantásticos. Antes do Verão, recordo-me de ter lido sobre esse concurso e o respectivo regulamento,  até ter lido o desenlace em torno dessa antologia num fórum que costumo visitar.

Vou começar pelo início. Acompanhem-me que vale a pena chegar ao fim deste post.

Alguns participantes do dito fórum decidiram enviar as suas contribuições para esse concurso nas categorias de conto, poesia e ilustração em que os seleccionados seriam publicados numa antologia de “talentos fantásticos”.

O regulamento tinha indícios que não auspiciavam muito de positivo na medida em que inseria uma definição de fantástico paupérrima: O Fantástico pode ser entendido como uma abordagem ficcional ligada a personagens como fadas, feiticeiras, vampiros, lobisomens, monstros de qualquer espécie, Deuses, gnomos, gigantes, sereias, extra-terrestres ou outras entidades não humanas.

O regulamento previa que, caso houvesse o mínimo de 50 candidaturas seleccionadas, os participantes escolhidos seriam publicados na antologia. Só o facto de ter sido estabelecido um número mínimo para a dita publicação era motivo de suspeita, mas avancemos que a procissão ainda só vai no adro.

Entretanto, graças a várias discussões que assisti nesse fórum e através de várias pessoas com quem me relaciono, descobri que sempre haveria uma antologia, tendo os editores recebido 113 participações, das quais foram seleccionadas 80, como noticiado no blogue da editora.

Uma festa de lançamento, na noite das bruxas, elegeria o vencedor em cada categoria que ganharia um portátil, oferta patrocinada pela Tsunami. As anormalidades começaram a ser desvendadas com os esclarecimentos por parte da editora sobre a participação nessa antologia.

De acordo com o editor, relativamente aos direitos de autor (isto é de causar uma paragem cardíaca):

4. Direitos de autor

Tomando em consideração tratar-se de 80 autores distintos presentes na Antologia, teriam de ser repartidos por todos em partes iguais os direitos de autor (10% sobre o preço de capa), originando que cada um recebesse o valor de 2.5 cêntimos por cada exemplar vendido. Desta forma, cada autor apenas atingiria o valor dos 2€ quando fossem vendidos 80 exemplares.

Por este motivo, resolveu a editora atribuir individualmente o valor de 10% sobre o preço de capa (2€) na forma de desconto sobre a compra.

Por outro lado, possibilitando aos autores adquirir mais do que um exemplar com o referido desconto (que poderão “revender” pelo PVP de 20€) está o autor a multiplicar o seu “ganho em direitos de autor” sem que tenha de estar dependente das vendas efectuadas, nem aguardar 1 ano por ele.

Pensamos que assim, encontramos uma forma mais eficaz e por ventura mais rentável para os autores, de atribuição dos direitos de autor.

Que falta de vergonha é esta? Como é possível sequer ser assumida tal coisa como se fosse algo perfeitamente natural pagar direitos de autor em descontos de 10% sobre o preço de capa do livro? E ainda encorajam o autor a ele próprio revender o seu livro de forma a ter uma margem de lucro. Mais chocante é o facto de esse referido desconto ter validade de 1 mês!

Se ainda não perceberam bem, passo a explicar. Os autores seleccionados não têm direito à oferta de um exemplar. O livro custa 20€, mas como está explicado neste ponto:

2. Prazo para usufruir do desconto concedido aos autores

O desconto concedido aos autores que façam a sua pré-reserva, é válido por um período de 30 dias. Ou seja, até dia 30/Nov.

Incrível, não é? Afinal os tais direitos de autor que vieram na forma de um desconto de 10% sobre o preço de capa deixam de ser concedidos após um período de 30 dias! Só tenho pena que este esquema não seja crime punível por lei.

E quanto à razão de não oferecerem exemplares aos autores? Passo a citar o editor:

Na Edita-Me optamos por colocar a participação livre, assumindo tanto todos os custos com a realização do concurso, como todos os riscos inerentes à publicação da Antologia.

E tendo em conta o número de participações, o tipo de livro que é, com a dimensão que tem, acreditem: para uma editora jovem como é o caso da Edita-Me, os custos são bastantes elevados e o risco é considerável.

Não nos seria possível encetar uma iniciativa destas, nestes moldes, se ainda para além destes custos tivéssemos de assumir o custo de 1 livro por participante.

Assim, entre cruzar os braços num acto de passividade (tão comum nos dias de hoje e ainda mais nos assuntos ligados à cultura) não levando a cabo nenhuma iniciativa de promoção de autores emergentes, ou levar a cabo um concurso destes, nos moldes em que o mesmo foi feito: A nossa opção foi um claro “SIM, vamos em frente, vale a pena, quanto mais não seja, pela divulgação dos autores, que de outra forma, dificilmente teriam possibilidade de ver um trabalho seu publicado”.

Que comovente. Saltou-me uma lágrima do canto do olho. Claro que não devemos cruzar os braços e se deve fazer tudo pela divulgação de autores emergentes. Que causa tão nobre atrás da qual se esconde a raposa à espera de cravar a dentuça na mass.. no osso! Atenção que não está aqui a ser posta a qualidade do conteúdo da antologia, sendo esse facto perfeitamente irrelevante. Questionam-se sim as tácticas pouco éticas desta pseudo-editora que pretende apenas obter lucro à custa da boa vontade de aspirantes a autores.

E agora dizem-me em defesa da editora: Não tivemos que pagar nada para participar no concurso nem para ser publicados. E agora digo eu: Tiveram que pagar 18 euros pelo exemplar e se os 80 participantes e respectivos familiares decidirem realmente desembolsar essa quantia (os familiares desembolsam 20€), é só fazer as contas e ver quem afinal ganha em toda esta situação. Portanto, não houve cobrança pré-concurso, mas houve pós-concurso. Considerando que não há investimento em distribuição, porque o livro não vai chegar às livrarias que interessam (a tabacaria da esquina não conta), sendo em grande parte vendido através do site da editora, e uma vez que não houve obviamente impressão de tiragem e os portáteis foram oferta da Tsunami,  a editora só teve despesas de impressão dos exemplares da antologia que foram encomendados.

Acontece que, de acordo com os testemunhos de pessoas que compraram a antologia, a qualidade da dita é péssima. As queixas que li foram as seguintes: má paginação com má fonte e sem margens, falta de revisão dos textos estando o livro repleto de erros, corte de texto dos autores, e nem sequer foi colocada a biografia dos autores porque não havia espaço… Em suma, uma antologia estupidamente cara que se limitou a despejar textos de 80 autores às quais foram atribuídas classificações. Isto não é edição, nem é trabalho de uma editora que se preze.

Se houve algum investimento da parte desta pseudo-editora foi numa festa na noite das bruxas num bar no Porto em que se garantiu aos autores que não lhes seria cobrado consumo mínimo nem entrada, quando afinal veio a saber-se que houve cobrança (verdade seja dita, prometeram reembolsar os autores indignados, cá esperamos para saber se houve ou não reembolso). E eu nem sequer vou referir o facto de que muitos participantes consideraram os vencedores dos portáteis de qualidade duvidosa, porque isso seria entrar em todo um campo especulativo e o que interessa são os factos.

Portanto, recapitulemos. Definição de author mill (quando tiver tempo traduzo para português):

Unlike vanity publishers or self-publishing services, author mills don’t charge upfront feeswhich is why they can convincingly present themselves as “real” publishers–but they often do their best to turn their authors into customers, heavily encouraging them to buy their own books, or incentivizing self-purchases with special offers and discounts. Because of the need for author volume, editorial gatekeeping is lax (though many author mills, knowing how much authors crave validation, claim to be selective). Author mills protect their profits by doing everything on the cheap, with minimal or nonexistent editing, interior and cover design that’s straight-from-template, and no meaningful marketing or distribution, resulting in tiny sales for the average author mill book. They also often have exploitive, nonstandard contracts.

Parece-me que depois desta exposição, podemos concluir que, no caso da “edita-me”, estamos perante uma author mill genuína.

Não me canso de repetir, e vou voltar a dizê-lo: Um autor não deve pagar para ser publicado. Um autor não deve aceitar jamais comparticipar custos de publicação com a editora. Um autor deve exigir pagamento pelos direitos de autor e esse pagamento nunca deve vir em forma de descontos ou promessas ou festas de lançamento. Um autor nunca deve pagar por exemplares de uma obra sua se não tiver recebido um livro sequer. E estas coisas envolvem sempre uma coisa chamada contratos. Exijam sempre um contrato e depois leiam as entrelinhas todas.

O Luís Rodrigues tinha aconselhado este site e também passo a palavra aos interessados onde poderão obter informações mais completas sobre os numerosos esquemas postos em práticas por pseudo-editoras.

Acreditem que é muito fácil saber distinguir o trigo do joio, basta colocarem as perguntas certas e terem noções básicas sobre edição de livros. Sejam sempre desconfiados e não se iludam com falinhas mansas ao vosso ego de escritores. Estas empresas não querem saber de qualidade ou talento, apenas lhes interessa como podem obter lucro da melhor forma possível.

E quem me atirar com os seguintes dois discursos:

- Tu trabalhas numa editora e estás a ser parcial e injusta, só queres é puxar clientes para a tua editora.

ou

- Isso é tudo inveja porque estamos a ser publicados e em Portugal só se gosta é de falar mal. Prefiro a “edita-me” do que enviar manuscritos para outras editoras onde só se publica com cunhas.

Vai levar com um livro bem pesado na cabeça para ver se ganha juízo!

Written by Safaa Dib

November 4, 2009 at 9:48 am

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O resto é Silêncio

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Em pequenas aldeias erigidas em regiões inóspitas e intocadas pela civilização urbana conserva-se, muitas vezes, a tradição ancestral vinda das bocas de avós e idosos que receberam essa mesma tradição dos seus próprios antepassados.

São terras onde a superstição ainda é forte, onde ainda se acredita piamente que o mau-olhado trouxe má sorte a uma casa ou arruinou o casamento de uma mulher bonita, invejada pela sua beleza. O bruxedo existe oculto no coração de vilas, mesmo que não plenamente assumido pelos habitantes e são os medos primordiais que mantém a magia (boa ou má) viva.

Tudo isto para falar sobre o álbum belga de BD de Didier Comès, Silêncio. Em pranchas a preto e branco, começa por retratar uma vila nas Ardenas, região em que o próprio autor nasceu, e onde se diz que muitas bruxas foram queimadas. A história centra-se na figura de um rapaz mudo e inocente, que recebeu o nome de Silêncio. Acedemos apenas aos seus pensamentos ingénuos e infantis, desprovidos de mal e ódio, mesmo que tenha todas as razões para odiar o homem que cuida dele, e que na verdade o explora e submete a maus tratos físicos e psicológicos.

Mas o rapaz é imune ao mal que o seu guardião inspira. Até ao momento em que conhece a misteriosa feiticeira cega, que vive em reclusão nos bosques, e então a sua vida muda. A cortina da ignorância em que vive é por uns momentos afastada e Silêncio passa a conhecer a história do sangue que lhe corre nas veias, sangue cigano castigado pela vila…

Mas agora que conhece a verdade, Silêncio não deixa de ser um peão num duelo letal de feitiçaria que conduz à loucura ou mesmo morte. Recordo-me na animação Princesa Mononoke de Miyazaki que a única cura para o príncipe Ashitaka contra a maldição do deus javali consistia em abandonar a sua terra e povo  “to see with eyes unclouded by hate”.

No caso de Silêncio, há apenas uma visão que inevitavelmente conduz a perdão e piedade, virtudes que não resistem perante a crueldade humana. Mesmo o amor brevemente conhecido por Silêncio pela feiticeira é incapaz de superar os obstáculos presentes numa comunidade temerosa e perversa que age na ignorância, nem que para isso tenha que cometer crimes.

Esta é, na essência, uma história sobre marginais, pessoas diferentes constantemente discriminadas por essa diferença, ainda mais quando vivem em meios onde domina a tacanhez e o provincianismo.  Afinal a maioria das bruxas eram queimadas não porque demonstravam poderes especiais mas porque, em algum momento das suas vidas, cometeram algum acto bizarro. Tal como o demonstra a aldeia nas Ardenas de Silêncio, é perigoso ser-se diferente, a custo da própria vida.

Todavia, mesmo que a realidade dura não ofereça qualquer alívio para os marginalizados,  Didier Comès não deixa de manifestar um toque de ternura e compaixão perante o destino final de Silêncio, mas apenas se o leitor estiver disposto a aceitar a morte como a passagem para o paraíso onde os sonhos se concretizam e onde se conquista a felicidade que escapa em vida (contradizendo assim directamente as últimas palavras de Hamlet que usei como título deste post).

É, sem dúvida, uma das mais bonitas, profundas e sensíveis histórias que tive a oportunidade de ler este ano, publicada em português pela Bertrand (edição fora de circulação) e Edições Asa, em 2 volumes.

Nota: Um agradecimento ao Pedro Marques por me ter emprestado o álbum (a 1ª edição!) e me ter dado a conhecer esta história.

Written by Safaa Dib

November 1, 2009 at 6:40 pm

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O Homem que Queria Ser Rei

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Sean Connery e Michael Caine em The Man who Would be King, John Huston (1975)

Sean Connery e Michael Caine em The Man who Would be King, John Huston (1975)

In any place where they fight, a man who knows how to drill men can always be a King. We shall go to those parts and say to any King we find – “D’you want to vanquish your foes?’ and we will show him how to drill men; for that we know better than anything else. Then we will subvert that King and seize his Throne and establish a Dynasty.

Sábias palavras de Daniel Dravot (Sean Connery), mas que lhe custaram caro. Baseado no conto de Rudyard Kipking, ele próprio é o narrador da estranha jornada de dois ex-soldados britânicos ao Kafiristão, uma terra intocada por civilização na qual  ambicionam ser reis.

A colonização britânica da Índia influenciou de muitas formas a literatura vitoriana do séc. XIX. Obras como The Moonstone de Wilkie Collins pintam um retrato impiedoso e cruel de uma terra que exerce vingança contra aqueles que roubam o que lhe pertence. A civilização de Londres nunca está a salvo perante esta terra de devoção e exaltação religiosa, terra de enigmas e beleza misteriosa aliada a morte. Mas é Kipling que, melhor do que nunca, descreveu Índia, a terra em que nasceu, no seu mais momento mais marcante, no auge e declínio do colonialismo britânico.

O Homem que Queria Ser Rei é pura aventura que capta o exotismo do Oriente que tanto fascinara o Império Britânico, é sentido de humor absoluto na pele dos dois homens vigaristas interpretados por Caine e Connery (duas fabulosas interpretações), e não podia faltar o toque de tragédia para aqueles loucos suficientes para se aventurarem no coração de antigos mistérios, julgando-se superiores em força e inteligência…

Written by Safaa Dib

October 17, 2009 at 10:00 am

Top de livros de ficção científica – Parte II

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Há cerca de um ano,  escrevi um top de livros de ficção científica em que descrevi cinco dos meus livros favoritos. Prometi então a segunda parte, com mais cinco livros, e eis que agora chega tardiamente. As minhas escolhas não pretendem ser inovadoras, pelo contrário, serão consideradas clássicas pelo cânone da ficção científica. Mas a verdade é que estes são os livros que me inspiraram e fizeram-me abraçar o género em pleno, partindo à descoberta de mais filões de ouro. Distopias, viagens no espaço, guerras planetárias, planetas misteriosos, história alternativa, vitória e domínio de ditaduras fascistas, são alguns dos elementos presentes nestas obras literárias.

Brave New World de Aldous Huxley. Se alguma vez houve um livro que me tenha surpreendido com a sua data de publicação é esta obra-prima de Aldous Huxley (descendente de T. H. Huxley, o “bulldogue” de Darwin).  Escrito nos anos trinta, e centrado em temas ainda hoje polémicos como manipulação genética, controlo e condicionamento da população, esta obra de Huxley tem para nos oferecer uma visão negra e assustadora de uma sociedade totalmente controlada desde o nascimento do indivíduo até à sua morte. Não há lugar para individualismo ou conceito de família ou mesmo relações pessoais nesta sociedade espartilhada.

Todos devem viver de acordo com um ideal que esconde uma autoridade totalitária e dominante. Mas é natural que alguns não se revejam neste tipo de sociedade tão aparentemente perfeita e dividida por castas. Quando um casal viaja a uma reserva de nativos, e encontra Linda, uma mulher que deu luz a um rapaz, John, torna-se aparente que se encontram perante um indivíduo que viveu inteiramente livre do condicionamento do governo. Mãe e filho desejam voltar ao novo mundo. Linda porque está cansada de ser maltratada e excluída (assim como o seu filho) pelos nativos, John porque anseia por ver as maravilhas do brave new world. À semelhança de Miranda, filha de Próspero em A Tempestade de Shakespeare, John nunca saiu da sua “ilha”, sempre protegido pela família.

Mas no novo mundo, o selvagem John não tem lugar. A sua angústia, medo, tristeza são completamente descartados perante o olhar ávido de pessoas que o tratam como uma aberração turística, conduzindo inevitavelmente ao clímax trágico. É uma visão inteiramente desencantada e distópica sobre a crueldade e cegueira da natureza humana, condicionada por mestres tiranos que governam o mundo de acordo com os seus ideais e caprichos, auxiliados por uma tecnologia ímpar.

Tradução disponível em português.

The Stars my Destination de Alfred Bester

Escrito nos anos 50, eis outra obra visionária e perfeita na sua construção narrativa, em torno do clássico tema da vingança. Gulliver Foyle é um homem à deriva no espaço, a sofrer uma morte lenta. Uma nave especial de passagem ignora o seu pedido de ajuda e é então que Foyle desperta da sua passividade e transforma-se num monstro psicopata.

Como diria um dos oficiais em Apocalypse Now, Every man has a breaking point, e o breaking point de Foyle é atingido no preciso momento em que vê a salvação recusada. Consumido por uma raiva e desejo de vingança inumanos, ele irrompe do seu estado de letargia e abandono para se tornar num dos homens mais perigosos do sistema solar.

Para conseguir a sua vingança, Foyle transforma-se num homem sofisticado, rico e inteligente, capaz de lidar com a nata da sociedade, representada pelo milionário Presteign. Todos perseguem Foyle implacavelmente, pois só ele sabe o segredo capaz de travar uma guerra interplanetária.

No entanto, esse segredo é secundário face à evolução de Foyle que assistimos; uma das personagens mais fascinantes, que começa por ser um vilão desprezível, assassino, com tendências de psicopata, mas que lentamente se torna em alguém com uma consciência e humano, humanizando até os seus próprios inimigos nesse processo de transformação. Ele é condenado e admirado ao mesmo tempo, e a sua natureza de tigre que se reflecte no rosto nunca é completamente apaziguada, mesmo quando tenta exercer controlo sobre as suas emoções.

Ainda hoje o livro apresenta as suas ideias frescas e um ritmo de acção alucinante e sem falhas, com cenas maravilhosas e profundamente imaginativas, e um dos finais mais assombrosos da literatura de FC.

Tradução disponível em português.

The Martian Chronicles de Ray Bradbury

Poucos são os livros que terão abordado o tema de colonização, ainda para mais uma colonização ficcional e imaginária, com a humanidade e emoção que Bradbury depositou nestes contos sobre o abandono da Terra à mercê de uma catástrofe militar ou humanitária e a subsequente fuga para o planeta Marte onde o Homem terá tentado iniciar uma nova vida.

Por vezes a lembrar o despojamento, busca pela dignidade e esperança cega presentes em As Vinhas da Ira de John Steinbeck, cada história representa várias etapas ao longo da colonização de Marte, contadas por ordem cronológica. Algumas histórias ficam na memória mais facilmente do que outras, mas todas são percorridas por um fio de inquietação. Não considero algumas histórias como sendo de horror, mas têm o dom de perturbarem profundamente o leitor.

Nunca esquecerei da história da Terceira Expedição a Marte em que os astronautas se deparam com uma cidade americana típica em que os familiares estão presentes para acolhê-los. Mas à noite, sentindo-se seguros no silêncio e protecção das casas,  os astronautas são mortos pela mesma família que os acolhe e pelo planeta que lhes montara a armadilha cruel.

Ou então a história do casal a viver em Marte que perdera um filho. Uma noite, o rapaz que perderam regressa a casa como se nunca tivesse desaparecido. A mãe deixa-se levar pelo conforto ilusório da sua presença, mesmo que o pai saiba que na verdade é um marciano com a habilidade de assumir identidades. Quando o rapaz é levado para a cidade, é separado da sua família, e  perante o caos da multidão morre, incapaz de suportar o peso das memórias e luto por familiares perdidos de cada uma das pessoas que o rodeia.

Não posso deixar de citar outro conto memorável nesta colectânea clássica. There Will Come Soft Rains, a descrição de uma casa controlada por aparelhos automáticos, vazia e abandonada perante um holocausto nuclear que dizimou a população. A tecnologia continua, indiferente ao destino da humanidade, limpando a casa e desempenhando as actividades quotidianas, até ela própria ser tragada pela Natureza.

Estes contos que seleccionei são uma amostra da brilhante reflexão de Bradbury sobre a colonização planetária e as suas consequências, indo beber ao consciente e inconsciente colectivo da Humanidade, aos sonhos, esperanças e angústias, às perdas e vitórias, numa demanda por um lugar onde nenhum Homem jamais foi a não ser na imaginação.

Tradução disponível em português.

The Man in the High Castle de Phillip K. Dick

Em 1963, o talento atormentado de Phillip K. Dick deu à luz uma obra pioneira no sub-género da história alternativa, O Homem do Castelo Alto (a ser republicado em 2010 pela editora Saída de Emergência). Embora não seja propriamente um livro de FC, decidi escolher esta obra, mais não seja porque é a minha favorita vinda de um dos autores mais conhecidos no género. O livro descreve uma realidade alternativa em que os japoneses e alemães ganharam a guerra. Roosevelt foi assassinado, substituído por um presidente que conduziu uma política isolacionista e não soube  solucionar a Grande Depressão. Os japoneses conduziram um ataque em larga escala bem sucedido a Pearl Harbour. Depois da derrota dos aliados, o território dos EU foi dividido entre os alemães e japoneses. Os alemães nos anos 60 já se lançavam em colonização espacial e tinham perpretado o Holocausto no continente Africano. Este é o cenário do livro.

Mas dentro deste cenário, muitas personagens estão a ler um livro escrito por Hawhtorne Abendsen, o Homem do Castelo Alto, em que os Aliados venceram a II Guerra, ainda assim, esta não se trata da verdade histórica. Este relato  também é ficcional,  referindo que a discriminação racial deixara de ser um problema nos EUA, o ataque a Pearl Harbour falhara, nunca houve uma revolução cultural chinesa, os britânicos derrotaram Rommel em África e a Grã-Bretanha acabara por emergir como a única superpotência no mundo.

Duas realidades históricas alternativas são descritas, caminhando para um final metaficcional. História, realidade, ficção interagem e questionam-se entre si, nunca estando o leitor seguro do terreno em que se move.  A impressão com que se fica é a de que o autor se deixou fascinar pela possibilidade de imensas realidades paralelas poderem vir a concretizarem-se, caso se tivessem tomado certas decisões em momentos cruciais da História.

Mas para além destes aspectos, o livro é extremamente recomendado tão só por certos brilhantes insights, no que diz respeito a identidade e cultura.

Tradução disponível em português.

Solaris de Stanislaw Lem

Tenho que admitir a verdade. É muito difícil falar sobre uma obra como Solaris que contém mundos de pensamentos, sentimentos e ideias por dizer. Não sei como começar a falar sobre este livro que me impressionou grandemente. Quando recomendo Solaris, o leitor estará na verdade a fazer um favor a si próprio se ler qualquer uma das obras de Stanislaw Lem, Fiasco, Memórias Encontradas numa Banheira, Congresso Futurológico, O Regresso das Estrelas, entre outros.

Mas Solaris será sempre a obra mais marcante deste saudoso escritor polaco tão só pelo intensa forma como retrata a solidão do indivíduo no cosmos face a forças poderosas que ultrapassam a sua compreensão. Solaris é um enigma, embora haja várias teorias. O que é certo é que o planeta tem acesso aos segredos mais recônditos do ser humano, manifestando-os numa forma física que quebra os fracos de espírito. Para Kris Kelvin, um psicólogo que irá verificar os estranhos fenómenos que ocorrem no planeta, Solaris traz-lhe de volta a mulher falecida que cometera suicídio, Rheya, despertando toda uma miríade de emoções complexas e dolorosas. O amor enlouquece ou consome a alma, mas é a natureza alienígena e enigmática de Solaris que mais assombra o leitor, aliada a uma descrição poética e profundamente perturbadora. Tradução disponível em português.

Espero que estas descrições breves destas obras tenham despertado o interesse de leitores porque estamos perante romances/contos de grande força e mérito, que mereciam muito mais do que o mero rótulo de ficção científica. São clássicos de literatura que trouxeram reflexões sobre o futuro de uma forma que nos faz temer, mas também ganhar expectativa e esperança por aquilo que esse futuro pode trazer. Afinal não é esse um dos objectivos da ficção científica? Termino este post com uma citação de Phillip K. Dick que penso que descreve na perfeição o amor do escritor de ficção científica pelo género:

“I want to write about people I love, and put them into a fictional world spun out of my own mind, not the world we actually have, because the world we actually have does not meet my standards. Okay, so I should revise my standards; I’m out of step. I should yield to reality. I have never yielded to reality. That’s what SF is all about. If you wish to yield to reality, go read Philip Roth; read the New York literary establishment mainstream bestselling writers… This is why I love SF. I love to read it; I love to write it. The SF writer sees not just possibilities but wild possibilities. It’s not just ‘What if’ – it’s ‘My God; what if’ – in frenzy and hysteria. The Martians are always coming. – Philip K Dick 1980

Written by Safaa Dib

October 7, 2009 at 10:04 pm

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Love Snapshot #7: A Marquesa de O

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Edith Clevel em Die Marquise von O (1976)

Edith Clever em Die Marquise von O de Eric Rohmer (1976)

O Pesadelo de John Henry Fuseli (1781)

O Pesadelo de John Henry Fuseli (1781)

Atente-se como a imagem acima extraída do filme de Rohmer recria tão notavelmente a pintura O Pesadelo de Henry Fuseli. Os tons sexuais e eróticos presentes na obra de arte são abertamente assumidos por esse caldeirão de caos e instinto que é o id. Será a pintura de uma violação? De um desejo sexual reprimido em que o demónio/homem toma posse da figura feminina? A analogia com a pintura, que influenciou muitos artistas e escritores no seu tempo, não é inteiramente despropositada face à noveleta de Heinrich von Kleist, Die Marquise von O.

Quando a marquesa de O, uma viúva jovem e virtuosa que vive na fortaleza do seu pai, é salva por um conde russo das mãos de violadores, ela desconhece que se tornou um irresistível objecto de desejo para este homem que se irá aproveitar do seu estado perturbado e induzido em ópio.

Após essa fatídica noite, a marquesa é assombrada pela dúvida pois sente uma semente a crescer no seu ventre. Mas a consciência diz-lhe que tal não é possível. Confirmados os seus piores receios, e perante uma gravidez assombrosa, é injustamente acusada pela sociedade e família de se envolver numa relação sexual ilícita e desonrosa. É neste momento que a marquesa revela a força do seu carácter, ao erguer-se do seu infortúnio com grande dignidade, aceitando a sua vergonha com a toda a resignação que o seu coração de filha renegada, mulher desonrada e futura mãe é capaz.

Numa tentativa de legitimizar a união e a criança, decide publicar um anúncio no jornal, solicitando ao pai da criança que revele a sua identidade. Ninguém acredita na sua inocência, excepto o conde russo que tenta clamá-la com grande determinação como sua esposa. Movido por uma consciência pesada e uma paixão exaltada, está determinado a salvar a reputação da marquesa.

Mas o que é mais fascinante nesta adaptação e obra literária, e aquilo que terá possivelmente intrigado Rohmer, é a coexistência no ser humano do anjo e demónio. O conde cai em desgraça ao cometer uma violação, mas é ao mesmo tempo encarado como o salvador a quem a marquesa presta uma enorme dívida de gratidão. Os anjos da natureza humana dão lugar aos servos do diabo que pregam as suas partidas a homens fracos. E serão as mulheres o objecto do desejo a precipitar essa queda para os extremos, tal como a marquesa provocou  com as suas formas voluptuosas o fogo demoníaco nos olhos do conde russo.

Written by Safaa Dib

October 5, 2009 at 9:39 am

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Os estranhos meandros do Motelx

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O festival de cinema de terror, Motelx, já terminou no passado domingo, mas só agora tive a oportunidade de partilhar no blogue os filmes e eventos a que assisti  entre 2 e 6 de Setembro no cinema S. Jorge, em Lisboa.

Flick

Imaginem uma típica cidade britânica dos anos 60 onde as noites são dominadas por danças de salão ao som do rockabilly. Um teddy boy solitário e com evidentes problemas em socializar deseja convidar a rapariga dos seus sonhos para uma dança. Acontece que o namorado-gorila-rufia da rapariga não está disposto a cedê-la. Espancado até atingir um ponto sem retorno, o rapaz comete um massacre no salão de dança. Com a rapariga  nos braços, foge de carro mas um acidente atira o seu carro da ponte.

Será apenas cinquenta anos depois que o carro e o cadáver do condutor é retirado do fundo do rio, e o morto desperta para a vingança com a música rock de uma rádio pirata…  O mais bizarro será certamente a personagem da actriz Faye Dunaway (lembram-se dela em Bonnie and Clyde e Network?), que interpreta uma detective maneta, encarregue de investigar o caso das mortes perpetradas pelo zombie. E confesso que considerei esta narrativa bizarra e bem escrita, com pranchas de BD tresloucadas a acelerarem o rimo da acção, muito divertida.

Trick ‘r Treat

O feriado do Halloween e o cinema de terror andam de mãos dadas desde há décadas. Longe vão os tempos em que Carpenter criou o clássico Halloween, um filme hoje em muito datado e a roçar o ridículo, sobre jovens a serem mortos por um psicopata na noite do Samhain. Mas ainda é possível encontrar variações muito interessantes e abordagens refrescantes como a que Michael Dougherty fez em Trick ‘r Treat.

Várias histórias cruzam-se nessa noite. A da virgem de 22 anos (a mesma Anna Paquin da série TRUE BLOOD e que ironicamente é perseguida por um vampiro…),    que procura por um homem com quem passar a sua primeira noite. A das crianças que batem de porta em porta pedindo por doces ou travessuras, acabando por relembrar uma história sombria do horror cometido contra crianças condenadas à morte há décadas naquela cidade. A do velho que vive num casarão solitário e é assombrado por um espírito demoníaco. E finalmente a do serial killer que não hesita em procurar vítimas para alimentar a sua psicose. Todas estas histórias acabam por se cruzar num encadeamento muito bem orquestrado pelo realizador. Não podia deixar de haver um elo que os une a todos e isso será a pequena criança com um saco enfiado na cabeça que assiste em silêncio a todos os males… Não hesito em recomendar este filme, um dos mais interessantes em homenagem ao espírito do Halloween.

A Maldição de Marialva

A dificuldade em encontrar imagens deste filme atesta a sua raridade. Numa tentativa de resgatar do fundo do baú pérolas esquecidas feitas em terras portuguesas que se enquadrem no género do fantástico, eis que o festival apresentou A Maldição de Marialva de António de Macedo. Por incrível que pareça, o realizador não tem cópias dos seus filmes, nem existem reproduções em DVD, estando disponíveis apenas nos arquivos da Cinemateca Portuguesa ou da RTP.

Passado no séc. X, numa aldeia a sul do rio Douro, Macedo inspirou-se nas lendas beirãs sobre a Dama de Pé de Cabra, imortalizada por Alexandre de Herculano num dos seus contos. O filme abre com uma impressionante cena de uma aldeia medieval onde três ladrões são sentenciados à forca. A mulher e a filha são forçadas a suportar o estigma de bruxas e marcadas a ferro, mas a filha é salva a tempo pela intervenção de um físico que as resgata das garras do povo.

A vila está nas mãos de Maria Alva, uma bruxa que irá confrontar o sábio Hélio até ao clímax final em que Alva amaldiçoa a terra e se precipita de uma torre. A maioria dos actores portugueses são nossos conhecidos do teatro, televisão e cinema, com destaque para Lídia Franco e Carlos Daniel. A cenografia e fotografia são fantásticas, tornando a reconstituição histórica medieval muito credível, nem sempre parecendo que algumas cenas na verdade são montagens de estúdio.

Passando às curtas portuguesas a que tive oportunidade de assistir, houve de tudo. Algumas obras bem mázinhas ou bastante fracas em conteúdo. Destaco várias, as que me ficaram gravadas na mente pelas mais variadas razões:

O Caçador de Joana Lindo

Interessante em termos visuais e poéticos, mas tão abstracto na linguagem e tão recheado de imagens desconexas que temo não ter compreendido a mensagem da curta.

Reborn de António Pascoalinho

Uma história simples e bem contada do luto recente de dois irmãos numa casa assombrada pelo espírito do pai. Podia ter tido um final mais eficaz, mas ainda assim achei que estava entre as curtas mais competentes.

No Silêncio de Pedro Rodrigues

Uma curta curtíssima, de facto, mas eficaz. Julgamos que se trata de uma curta banal em que um psiciopata retém uma vítima na cave e sujeita-a a uma tortura cruel, mas o flashback dos últimos minutos revela a verdade e é então que compreendemos melhor a frustração e angústia do torturador, que não é um psicopata, mas na verdade alguém que procura vingança em nome de uma criança abusada pelo pedófilo que tem preso nas suas mãos.

Papá Wrestling de Fernando Alle

Recebeu menção honrosa, mas por mim teria sido declarada a curta vencedora. Bem humorada, absurda, capaz de arrancar umas boas gargalhadas do público, eis que um menino de escola é atormentado por uns quantos rufias que lhe roubam a lancheira. Regressado a casa num estado deplorável de baba e ranho, o miúdo recorre ao papá wrestling que emerge, furibundo, e parte qual super-herói em busca de justiça… Hilariante! Podem assistir à curta no Youtube.

F. R. U.N.C de Paulo Prazeres

F.R.U.N.C. é… bem, pois… FRUNC. Acedam a esse link para acederem ao Frunc. E vale a pena ficar a assistir aos créditos finais.

Sangue Frio de Patrick Mendes

E foi esta a curta vencedora… Consigo perceber o fascínio que terá exercido no júri. Uma fotografia cativante a revelar à partida uma história de grande potencial, mas a verdade é que a concretização ficou aquém da ideia. Observamos uma mulher a retirar um espantalho do seu pouso de madeira, deitá-lo, ao que depois retira um aparelho de transfusão de sangue e começa a bombear o seu sangue para o espantalho. Durante dez minutos só ouvimos o aparelho a bombar o sangue e, embora se possam achar múltiplos significados existencialistas nesses dez minutos, teria bastado reduzir em nove minutos a cena e teríamos uma curta menos secante e pretensiosa, e bem mais suportável.

E foram estes os filmes e curtas que quis destacar desta última edição do Motelx. Houve muito mais, mas não me foi possível assistir a tudo. Se quiserem espreitar as masterclasses de Stuart Gordon e John Landis podem fazê-lo através deste link e deste. Tanto Gordon como Landis são homens confiantes, seguros, carismáticos, donos de uma experiência e conhecimentos invejáveis. Vale a pena seguir as obras de ambos estes mestres de horror.

Já na sua 3ª edição, é interessante ver o festival Motelx a crescer em público e diversidade. No primeiro ano ainda era de tendências claramente góticas, mas rápido se tornou um dos festivais mais “in” de Lisboa e agora ninguém quer perder esta festa do terror que se realiza todos os anos em inícios de Setembro. Cá aguardamos pelo próximo ano com expectativa.

Written by Safaa Dib

September 10, 2009 at 9:28 pm

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Quer publicar gratuitamente? Ou talvez não…

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Nunca como este ano se tem visto uma tal proliferação de empresas/indivíduos a oferecerem serviços especializados de edição que funcionem como uma alternativa à edição tradicional.

Num país em que se publica em excesso, não é inesperado que haja também aspirantes a escritores em excesso. Num mundo utópico, só se publicariam as obras de grande qualidade narrativa, mas não precisam que vos diga que isso não acontece. Temos livros de todos os tipos para todos os gostos. Alguns excelentes, outros tão maus que envergonhariam grandes editores da velha guarda. E se é verdade que nem tudo o que é publicado é ouro, também é verdade que nem tudo o que se deseja publicar é digno de alcançar o patamar da edição.

Acontece que neste mundo que se move a uma velocidade supersónica graças a redes sociais que nos permitem expandir a nossa rede de contactos e divulgar o fruto do nosso suor de formas impossíveis de alcançar há vinte anos, as pessoas são mais do que nunca encorajadas a mostrar os seus projectos. O lado pernicioso que existe nesta partilha de projectos é o facto de receberem opiniões demasiado positivas, induzindo o autor ou aspirante a autor a uma ilusão de que “talvez eu seja mesmo bom…”

Dar uma opinião sobre um manuscrito nunca é fácil. E se um editor gosta do manuscrito, já nem é sinónimo de qualidade estes dias, uma vez que o editor poderá julgar essa obra por padrões puramente comerciais, e não literários. Mas também não é o trabalho do editor escrever uma carta para o autor de cada manuscrito recusado a explicar as razões da recusa ou apontar formas de melhorar a narrativa.

Claro que neste mundo ultra-super-sónico já é possível encontrar alternativas à edição tradicional, embora essa ainda seja a forma mais almejada de publicação. Envolve uma certa noção de prestígio e sentido de realização a que poucos ficarão indiferentes. Mas sejamos honestos. Quantos desses ambiciosos aspirantes têm algo realmente de bom para partilhar com o público?

E chegamos à questão que quero abordar neste post. Os tais serviços especializados que agora abundam por todo o lado e que prometem publicação e assentam num sistema de print on demand. O sistema POD (print on demand) funciona com base no esquema de só imprimir consoante o volume de encomendas, logo, não imprimem tiragens como as gráficas convencionais. Muitos destes serviços optam por assumir uma fachada de editoras, mas na verdade são conhecidas no mundo anglo-saxónico por vanity-presses. Qual é a diferença em relação a uma editora tradicional? Ao passo que esta assume inteiramente o custo de publicação do livro e paga aquilo que é devido ao autor, as vanity press publicam às custas do autor.

É o autor que paga a publicação do livro e se isso for claramente assumido desde o princípio, não tenho nada contra este tipo de negócio em edição. Mas o problema das vanity press é precisamente a fachada enganadora que assumem. Não são verdadeiramente editores, pois não estão interessados em encontrar o próximo Murakami. Estão apenas interessados no dinheiro do autor. O que é bem pior neste tipo de editoras é a forma como se aproveitam da ignorância do público sobre o mundo da edição para alcançarem os seus objectivos. Prometem uma publicação gratuita, prometem pagamento de percentagem de vendas, prometem distribuição nacional, embora não prometam sucesso… Essa deve ser a única coisa em que são verdadeiramente honestos.

Mas há uma variante ainda mais perniciosa agora.  São os que oferecem os serviços de auto-publicação gratuita (ou não). Não se dão ao trabalho de fingir serem algo que não são. Estão interessados em oferecer uma oportunidade às pessoas que desejem publicar um livro. Para vos explicar melhor como funciona este esquema de auto-publicação, pegarei num exemplo que me chocou pela forma como foi imensamente publicitado nos meios de comunicação social portugueses, diria até cega e vergonhosamente publicitado, até por jornalistas que deveriam saber melhor do que anunciar o que vem nos press-release, sem sequer procederem a uma análise mais aprofundada. Falo da Bubok.

A Bubok assenta toda a sua estratégia nas palavras mágicas, A Bubok é um serviço de auto-publicação on-line e gratuito. Gratuito? I beg to differ. Antes de mais, o processo de publicação de um livro é composto por cinco passos:

1. Faça o upload da sua obra. Tem de enviá-la como documento PDF, DOC ou PPT. Após o upload clique em Continuar para avançar para o segundo passo.

2. Indique o título, o autor, a sinopse, etc…

3. Escolha o tipo de encadernação e o formato que pretende para o seu livro.

4. Escolha a imagem para a capa do livro.

5. E finalmente o quinto passo é o de definir o preço para o ebook e para a edição em papel. Pode também escolher se pretende que seja um livro público ou privado.

Ena, isto realmente parece fácil. E tudo à borla! Uau! Vou já enviar o meu manuscrito que está na gaveta. Vou ser um escritor! Não perco nada e ainda ganho 80% do lucro de livros vendidos!

STOP! REWIND!

Vamos analisar estes passos com calma. Publicar um livro não implica apenas pegar no ficheiro word, ajeitá-lo, fazer uma capa e voilá! Há todo um processo de edição desde a chegada do ficheiro em word até ao produto final.

O ficheiro word tem que ser primeiro limpo de gralhas numa primeira revisão rápida de verificação do texto, verificação de capítulos, ordenação, nomes correctamente escritos, etc. Depois é paginado por um designer num programa específico (não, não está disponível no Office). Segue-se a fase de revisão por um revisor especializado. O revisor não só lê o livro, como detecta todos os erros ortográficos e semânticos, inconsistências, más construções frásicas, and so on. Após a revisão, o designer ou outra pessoa que saiba fazê-lo, coloca as emendas do revisor no texto em computador. Segunda revisão para verificação de emendas (as verificações que forem precisas). Finalização do miolo pelo designer que implica a composição da ficha técnica, design interior, colocação de excertos, publicidade, listas de títulos, etc. Em paralelo, está a  ser preparada uma capa para o livro. Há que preparar a sinopse, as críticas, solicitar o ISBN e o depósito legal, calcular o PVP e o design da capa tem que coincidir com o design interior.

Todo este processo que expliquei muito sucintamente é moroso, complexo, recheado de detalhes que dão cabo da cabeça de um assistente editorial e designer (e eu nem falei das gráficas…),  e que leva semanas a ser feito. Os ficheiros finais têm que ser revistos x vezes por várias pessoas antes de irem finalmente para as gráficas. E mesmo assim, sentimo-nos com o coração na boca sempre que o livro chega à editora, tal é o medo de ter deixado passar algum erro horroroso e imperdoável.

Ora a Bubok é inteligente e sabe perfeitamente disto. Sabe que para fazer um livro não basta só fazer upload da obra. A parte gratuita é só mesmo essa, fazer o upload do livro e criar uma página no site para o livro. Sim, porque deixem-me apresentar-vos os packs editoriais da Bubok...

Acedendo a esse link, vemos realmente a extensão do quão enganosa é a palavra gratuito. Ora se a Bubok se propõe a imprimir o livro e a colocá-lo à venda, então o livro vai precisar de duas coisas: ISBN e depósito legal. ISBN não é obrigatório por lei, embora seja fortemente recomendado por razões comerciais, de distribuição e catalogação em bibliotecas.  Mas o depósito legal já é obrigatório por lei, assim como a entrega de 5 a 10 exemplares à Biblioteca Nacional. E se repararem bem nos packs, é só a partir do pack gestão integral que custa 195 euros que a Bubok solicita ISBN e depósito legal… Mas eu dou-vos uma dica preciosa. Não precisam da Bubok para pedir isso, qualquer indivíduo pode pedir gratuitamente junto à APEL o ISBN. E o mesmo para o depósito legal. Mas eis que é obrigatório enviar 5 livros… Ora a Bubok não disponibiliza exemplares gratuitos para o autor, logo, terá que os comprar. E a julgar pelos preços praticados, nunca será por uma quantia inferior a 16 euros (estimativa com portes) por cada livro. Ora façam as contas… São 80 euros só para poder enviar os livros ao depósito! E ainda haverá os exemplares que o autor quer para si.

Mas vejamos os outros packs. Temos o pack escritor profissional. Só o nome promete. Ora este pack inclui serviço de maquetização profissional (pesquisei no site e descobri que isto se trata da paginação), capa personalizada e 10 exemplares da obra. Ah boa! Precisam de ser vocês a paginar o vosso livro e precisam de ser vocês a a fazer as capas ou ficam apenas com uma mera imagem que nem sequer é capa… E pelas alminhas dos santinhos, não se metam no photoshop a inventar capas que isso é um trabalho feito por profissionais. O caminho mais certo para matar qualquer livro é uma capa que tem um aspecto amador. E se julgam que paginar um livro é fácil, então tenho pena de vocês.  Portanto, ou pagam a um designer para vos fazer a paginação e uma capa (conheço um muito bom se quiserem que recomende), ou aceitam os serviços da Bubok que custam… 980 euros. Claro que o futuro escritor pode sempre optar por um pack best seller que ainda lhe prepara o press-release, trata da revisão e ainda oferece um banner promocional, iuhuu…! E tudo pela módica quantia de 1770 euros.

Tanta massa por um livro publicado em print on demand? É um roubo. Claro que a Bubok não vos irá imprimir uma tiragem de 500 exemplares, era só o que faltava. Nem vai distribuir o livro ou colocá-lo à venda em livrarias. Mas reparem na parte que aborda os custos de produção do livro e os lucros que revertem para  a Bubok. O link a explicar tudo está aqui.

Vejamos primeiro o livro em papel. Escolhidas as características do seu livro, como o número de páginas, o número de imagens, a escolha do tipo de papel (etc), cabe ao autor decidir  se quer acrescentar ou não ao preço de custo, algum lucro na venda da sua obra. 80% da quantia escolhida reverte para o autor e 20% para a Bubok.Pt.

Neste exemplo, o custo de impressão do  livro é de €9,25 e o autor escolheu lucrar €3 pela venda de cada livro. Com a soma do custo de impressão e do lucro escolhido, o livro será vendido na Livraria da Bubok a €13.00.

Eu não sei como calcularam o custo de produção como 9,25 € mas tenho cá a suspeita que esse valor já está à partida inflacionado. E ainda cobram uns adicionais 20%…!

Mais engraçado ainda é colocarem ao autor a opção de disponibilizar gratuitamente ou vender PDFs. Quem é que compra PDFs de edições de autor…? Hmmm, talvez os amigos que não queiram comprar as edições em papel que são bem mais caras.

Inteligentes como eles são, a táctica agora é a de angariar colaborações com empresas de forma a aliciarem as pessoas a pagarem pelos packs... Que bonito!

Portanto, meus amigos, este é apenas um exemplo de um negócio que tem proliferado e prosperado à custa de pessoas que deviam pensar três, cinco, cem vezes antes de investirem as suas poupanças neste tipo de serviços. Custa-me ver pessoas a deixarem-se iludir por isto e por outras vanity-press ainda piores (as tais que fingem que são editoras!).

E não vale a pena culpar as editoras tradicionais, as únicas que publicam gratuitamente, porque nunca foi tão fácil como hoje publicar uma obra minimamente aceitável. É um facto (lamentável) que os padrões baixaram e precisam apenas de persistência e conhecer minimamente as regras do jogo. E eu poderia talvez ter abordado muitas outras coisas em relação à Bubok, mas esta exposição de hoje acho que é bastante elucidativa.

ADENDA: Um esclarecimento relativamente à atribuição do depósito legal. Em Portugal, por lei, devem ser depositados 11 exemplares na Biblioteca Nacional. Os tais 5 exemplares referidos pela Bubok referem-se ao indicado na legislação espanhola. Mas a lei indica também que só é necessária uma cópia para edições até 100 exemplares, ou edições luxuosas até 300 exemplares. Sendo estes livros impressos em sistema POD, só seria necessária na verdade um exemplar. Será? Porque o livro pode ter sucesso e imprimir mais de 100 exemplares. E há outra questão: acontece que o pedido do depósito legal só é feito através de tipografias. Penso que particulares não o poderão fazer, pelo que alguém que tencionasse publicar na Bubok teria que necessariamente recorrer aos seus serviços para conseguirem o depósito legal. De qualquer modo, o melhor seria um especialista ou advogado clarificar esta parte.

Written by Safaa Dib

September 7, 2009 at 10:17 pm

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O Nome do Vento de Patrick Rothfuss

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Nota: Para quem tenciona ler este livro, aviso que a crítica contém alguns spoilers, mas podem ser lidos os primeiros três parágrafos e o último.

Taborlin could see the sky and breathe the sweet spring air. He stepped to the edge, looked down, and without a second thought he stepped out into the open air. So Taborlin fell but he did not despair. For he knew the name of the wind and so the wind obeyed him.


Esta é apenas um dos mitos contados no mundo criado por Patrick Rothfuss no seu primeiro livro de fantasia, The Name of the Wind, o primeiro volume da Crónica do Regicida, que li em inglês. Muitas histórias são contadas em estalagens e aldeias, cidades e casas de nobres sobre grandes feitos em tempos onde a magia era poderosa. Transmitidas oralmente, tornam-se matéria de lendas, esquecida a verdadeira história, permanecendo apenas o poder da magia.

Há um amor pela arte de contar histórias presente no livro, a tal ponto que esse amor se irá tornar o centro nevrálgico que irá desencadear a inteira trilogia. A escrita está ao nível do melhor que se tem feito no género e estamos perante um autor que domina muito bem a linguagem, e claro que isso se torna essencial para obter uma fantasia verosímil, uma suspensão de descrença que nos permita ser envolvidos pela história.

Numa estalagem num fim do mundo, homens reúnem-se para contar os rumores de tempos negros e estradas assoladas por ladrões e criaturas demoníacas. Há um ouvinte atento a estas histórias, o estalajadeiro, um homem aparentemente inofensivo mas na verdade nenhum dos homens que bebe da sua cerveja desconfia que ele é uma das próprias lendas que é contada de casa em casa.

Kvothe é o seu verdadeiro nome e como ele próprio confessa I have stolen princesses back from sleeping barrow kings. I burned down the town of Trebon. I have spent the night with Felurian and left with both my sanity and my life. I have talked to Gods, loved women, and written songs that make the minstrels weep. My name is Kvothe. You may have heard of me.

Mas porque é que um homem de tal fama e proezas se esconderia como estalajadeiro num canto esquecido do mundo? Após alguns capítulos em que nada é revelado, eis que finalmente conhecemos a figura do cronista que, após ouvir alguns rumores, decidiu partir em busca de Kvothe para conhecer a verdadeira história da sua vida.

Mesmo perante a evidência de tempos conturbados, o cronista encontra milagrosamente (demasiado milagrosamente para o meu gosto) Kvothe uma noite na estrada e aí começa a relação entre o cronista e o mago que irá revelar toda a sua história em três dias.

O Nome do Vento relata apenas o primeiro dia, um dia em que iremos ouvir a narração de Kvothe acerca da sua infância como Edema Ruh, um povo versado nas artes performativas e que viajam de cidade em cidade apresentando peças de teatro ou participando em festivais, muito à semelhança das companhias teatrais isabelinas patrocinadas por um mecenas.

É um início muito auspicioso para a história de Kvothe, e sem dúvida uma das melhores partes do livro em que a criança muito inteligente e curiosa é iniciada nos segredos de magia através de um velho arcanista, ao mesmo tempo que desenvolve um amor por teatro, música e viagens.

Ao lermos as histórias contadas pelo arcanista ao rapaz, começamos a ter uma perspectiva mais abrangente do mundo de Rothfuss e é impossível não notar a profunda influência do universo de Earthsea de Ursula Le Guin. Tal como em Terramar, o poder reside no domínio dos nomes. Saber o nome do vento é conquistar a sua obediência, mas descobrir o nome das coisas é a mais difícil das artes embora Kvothe demonstre uma excepcional habilidade para o Arcanum mesmo em tenra idade.

Há uma clara vontade da parte do autor em mostrar-nos o mito em torno da figura de Kvothe, da mesma forma que Ged era um dos maiores arquimagos da história de Terramar. Mas Ursula Le Guin era excepcional no feito de contar a história de Ged desde a sua infância e adolescência até à idade adulta, revelando a sua faceta íntima, mas ao mesmo tempo preservando o mito. Mas não me quero antecipar em revelar aquele que foi um dos pontos negativos do livro para mim.

Após uma tragédia, Kvothe irá aprender da forma mais dura a sobreviver sozinho nas ruas da cidade como pedinte. São três anos da sua vida narrados em algum detalhe, mas que não deixam de ser interessantes de seguir, mais não seja pelos mitos contados sobre os Chandrian, figuras misteriosas demoníacas que se crê nunca terem existido…

Finalmente dá-se a entrada na Universidade, também um dos momentos mais fascinantes do livro e não pude deixar de reparar nas semelhanças em certos aspectos com a escola de feiticeiros de Ged em Terramar. A vida de Kvothe na Universidade irá dominar a segunda metade do livro. E aqui o autor começa a derrapar naquilo que até então tinha sido uma narrativa muito boa.

A aprendizagem na universidade está pejada de obstáculos e perigos: desde a rivalidade da parte de um herdeiro de uma casa nobre, passando pela extrema pobreza de Kvothe, tendo que inventar estratégias para pagar as propinas, até ao facto de o seu génio e talento lhe terem angariado uma reputação logo desde o primeiro dia de aulas que lhe trouxe inimizades, mas também fervorosa admiração.

Tudo contado em detalhe, extremo detalhe. Algumas partes alongam-se em demasia, outras são intensas e bem conseguidas como a cena em que Kvothe prova o seu talento musical com a flauta, mas no geral revela-se uma descrição demasiado imersa em pormenores que tornam Kvothe ordinário (por vezes simplório), arruinando um pouco do seu mito. Nunca senti nas aventuras de Ged em Earthsea que a personagem se tornara banal. Havia sempre algo profundo e intocável em Ged que permaneceu até à sua velhice, uma fonte de poder que o tornava inalcançável. Até mesmo na personagem de Raistlin do universo Dragonlance era possível sentir isso.

Mas Kvothe, que supostamente aprendera linguagens arcaicas em dois dias, não é mais do que um rapaz extremamente inteligente, imensamente ingénuo em relação a raparigas, e determinado a sobreviver e alcançar a verdade sobre os Chandrian.

E é com infelicidade que constatamos que Rothfuss tomou a decisão de relegar as grandes proezas de Kvothe para o segundo livro. A personagem avisou-nos desde o início que fora expulsa da Universidade, mas Rothfuss nem sequer conta o episódio da expulsão neste livro, optando por inserir capítulos desnecessários, aborrecidos e supérfluos sobre a luta de Kvothe com um dragão junto com a rapariga que ama, Denna. E assim termina o livro a saber a pouco, demasiado a pouco, depois de uma primeira metade tão auspiciosa. As últimas duzentas e cinquenta páginas são estranhamente as mais pobres do livro.

Terminamos o primeiro dia da crónica sabendo que Kvothe finalmente é aceite pelo Mestre dos Nomes para iniciar a sua aprendizagem na arte dos nomes.

Quanto às personagens secundárias, nenhuma se revelou grandemente inspiradora sendo Bast, o companheiro demónio de Kvothe, o mais intrigante de todos. Denna, a rapariga protagonista, nunca verdadeiramente empatiza com o leitor, tendo recebido uma descrição algo unidimensional. Nenhum dos seus motivos ou razão para as suas acções foi revelado; é uma rapariga bonita, cruel e selvagem e isso parece justificar tudo. Engraçado como todas as raparigas no livro de Rothfuss são bonitas.

Tenho que confessar que li o livro por curiosidade, uma vez que a editora Gailivro irá lançar a edição portuguesa em finais de Setembro. A recepção muito positiva que o livro tem tido levou-me a tentar descobrir se estava perante mais uma grande fantasia épica. E embora O Nome do Vento não tenha alcançado para mim a alta esfera onde se encontram as grandes obras de fantasia, é ainda assim um primeiro romance a transbordar de talento e aguardemos que o segundo livro revele as histórias favoritas de Kvothe. E esperemos que também se tornem as nossas histórias favoritas.

O segundo e terceiro livros ainda se encontram a ser escritos.

Written by Safaa Dib

August 30, 2009 at 10:56 am

Posted in Livros/BD/revistas

Deixa-me entrar

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Porque é que este livro ainda não existe entre nós disponível numa edição portuguesa? Ia jurar que já tinha sido traduzido, mas ainda nada foi anunciado.

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Conhecido pelo título inglês Let me In, a obra do sueco John Ajvide Lindqvist tornou-se uma das maiores revelações dos últimos anos na literatura de horror. Curioso como os suecos se têm revelado como uma força literária a não menosprezar nos últimos tempos.

Esqueçam tudo o que sabem sobre romances eróticos de vampiros vocacionados para o público feminino. Let me In é leitura forte recomendada apenas para adultos. Existe também o filme sueco baseado na obra, igualmente um grande sucesso, e é inesquecível a ambiência sombria, invernal e assombrosa que envolve a ligação cada vez mais perturbante entre Oskar, um rapaz de doze anos dos subúrbios e Eli, a vampira que se torna a sua amiga.

É certamente o melhor filme contemporâneo que vi em anos, sem ceder a facilitismos ou soluções morais convencionais. E para quem procura um romance bem escrito com vampiros, está perante uma tal obra literária. Let me In (ou Let the Right One In como também é conhecido) não irá falhar em cumprir todas as expectativas.

Written by Safaa Dib

August 26, 2009 at 9:38 pm

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