Stranger in a Strange Land

Margarita e o Mestre de Mikhail Bulgakov

Posted in Livros/BD/revistas by Safaa Dib on July 17th, 2008

Desde a minha adolescência que tenho lido, com enorme fascinação, a literatura russa do século XIX. Fui sempre tomada por um profundo sentimento de que ao ler os russos, lia histórias de uma grande alma humana a sofrer silenciosamente, uma alma formada pelas vidas dos muitos homens e mulheres que pereceram na obscuridade, estóicos, resignados a uma estranha infelicidade que parece dominar permanentemente as terras de Inverno.

Autores como Pushkin, Tolstoi, Turgueniev, mas particularmente Dostoievsky e Tchékov, que melhor do que muitos exprimiram essa dor e peso de ser-se russo, conseguiram impressionar-me e para sempre deixaram a sua marca. Só muito mais tarde descobri Mikhail Bulgakov, devendo-se a uma curiosa canção dos Franz Ferdinand Love and Destroy em que Margarita voa pelos céus de Moscovo, em busca de vingança pelo seu amor.

Bulgakov viveu durante os anos Stalin e mesmo que não tenha perecido às mãos do regime, sofreu a opressão de uma vida literária asfixiada pela elite e condenada à censura. Empobrecido e doente, pede ao grande ditador para que lhe conceda autorização para deixar Rússia. É o próprio Stalin que lhe responde, oferecendo-lhe um emprego no teatro russo. É um famoso episódio da vida de Bulgakov sempre invocado em todos os prefácios e notas sobre as suas obras. Só podemos imaginar a sua conversa com Stalin e a sua aceitação do destino que lhe é imposto.

Mas custou-lhe que não tivesse a liberdade de escrever a obra-prima que alimentava o seu coração, uma obra em que denunciaria os males que então contaminavam a classe literária russa, irremediavelmente manchada aos seus olhos. Em segredo e com o constante temor de ser descoberto, trabalha no manuscrito de Margarita e o Mestre. Infelizmente, não viveu para assistir à sua publicação póstuma, nem à sua consagração como um dos maiores romances do século XX.

O romance alterna entre três partes distintas. A primeira foca a visita de Satanás, disfarçado de um misterioso professor mágico de nome Woland, a Moscovo durante os anos 30. Acompanhado pela sua hoste de figuras irreverentes, tais como o gato preto Behemoth, Koroviev, o demónio Azazello e a bruxa Hella, Woland está prestes a lançar caos em Moscovo, tendo como alvo especial a elite literária moscovita.

A cena de abertura, estranha e indecifrável como possa parecer, coloca em confronto a figura de Berlioz, um alto oficial burocrata pertencente à elite literária, e Woland que revela gradualmente os seus poderes mágicos e começa a narrar a história de Pôncio Pilatos, tal como é testemunhada pelo Diabo (narrativa esta que irá dar origem a uns capítulos peculiares). A estranha conversação entre o cavalheiro mágico e o burocrata é assistida por um poeta, Ivan, a quem é revelado antecipadamente a morte súbita e trágica de Berlioz.

Chocado pelas estranhas circunstâncias a que assiste, assim como a morte de Berlioz perante os seus olhos, Ivan lança-se em perseguição do bando de Woland, mas acaba por ser considerado louco e encerrado num asilo lunático.

É então que assistimos à intromissão do Diabo na cena moscovita quotidiana, expondo-a totalmente ao ridículo e satirizando-a através de um espectáculo de variedades, onde é colocada a nu a ganância, cegueira e ignorância da classe burguesa. Indiferente ao bem-estar das personagens, Woland, através de Koroviev e Behemoth, atormenta Moscovo e muitos começam a duvidar da sua própria sanidade mental.

A voz narrativa neste ponto é notável, sendo um dos grandes triunfos de Margarita e o Mestre. É uma voz que alterna entre o satírico, o humorístico, o grandiloquente, o trágico, o cómico, e o romântico. A voz acompanha-nos sempre, numa grande intimidade com o leitor, relatando as façanhas do Diabo e tirando gozo e proveito da ridicularização a que Moscovo é sujeita. As personagens não sabem o que pensar perante o oculto e o desconhecido, e são as suas reacções perante as circunstâncias singulares causadas pela visita de Woland que propiciam os melhores momentos satíricos do romance.

Mas a sátira à sociedade constitui apenas o cenário para a história central do livro, a do amor entre Margarita e o Mestre. Margarita é uma dama casada e aparentemente bem estabelecida na sociedade, mas profundamente infeliz, até que conhece o Mestre, um escritor desconhecido por quem se apaixona perdidamente. É este mesmo Mestre sem nome que escreveu um manuscrito sobre a crucificação de Jesus Cristo por Pôncio Pilatos, que está a ser narrada em paralelo com os capítulos sobre Moscovo.

Alimentando esta paixão secreta, pela qual está disposta a abandonar toda a sua vida passada, o amor de Margarita e o Mestre é testado desde o início e condenado à separação. O Mestre adoece e é enviado para o mesmo asilo lunático onde se encontra o poeta Ivan, com o total desconhecimento de Margarita. Julgando-se abandonada pelo seu amor, ela vagueia pelas ruas de Moscovo, observando acidentalmente o funeral de Berlioz, até ser abordada por Azazello que lhe realizar uma estranha proposta.

No momento em que Margarita aceita a proposta, não mais irá agir de forma convencional. Ela liberta-se de todo o peso da sua vida anterior, e aceita o pacto com o diabo com uma coragem notável. Algumas das mais belas cenas do romance são precisamente quando Margarita torna-se uma bruxa na noite do pacto. Nua, voa numa vassoura pelos céus de Moscovo, sentindo uma alegria que é partilhada com o leitor. Os espíritos da floresta saúdam-na e ela torna-se parte do mundo mágico, banhando-se no lago à noite, e celebrando a sua nova vida.

Mas ela não se esqueceu de toda a sua vida passada. Com os seus novos poderes, ela mostra a sua face mais cruél e violenta, ao exercer vingança em alguns críticos literários que tinham humilhado e maltratado o seu mestre amado. Como não partilhar a sua satisfação quando estilhaça a casa de um dos críticos?

Nessa mesma noite, Margarita tem que enfrentar o seu maior teste. Todos os anos, Satanás é o anfitrião de um baile que acolhe todas as personagens de mal e abre as portas ao Inferno e aos mortos. E todos os anos, uma mulher de nome Margarita (até o seu nome é simbólico, evocando Fausto de Goëthe) é escolhida para ser o acompanhante do Diabo. Se ela aceitar e sobreviver à noite do baile, e provar estar à altura da tarefa, Woland irá conceder o seu maior desejo.

Não irei contar o final, mas as três partes do enredo fundem-se no final, combinando religião e arte, história e ficção, sátira e denúncia política. No entanto, algumas questões permanecem. Qual o propósito da visita do Diabo a Moscovo, fazendo com que se envolva pessoalmente (assim como à sua hoste) em tumultos? Somos levados a acreditar que os seus actos são maléficos; faz desaparecer misteriosamente as pessoas, leva-as à loucura, mas em direcção ao fim, observamos como o alvo do Diabo é a ganância e a ambição desmedida de uma classe de russos que se tornara mesquinha e burguesa. Através do mal, o Diabo opera o bem. Não é à toa que a epígrafe do livro consiste numa resposta de Mephisto em Fausto de Goëthe: I am part of that power which eternally/ wills evil and eternally works good.

E o Diabo será o principal interveniente nos destinos do Mestre e Margarita. Se o final trouxe alguma medida de conforto a Bulgakov, deixa expresso também a sua crença de que as personagens, todas elas moralmente ambíguas, não merecem salvação, sendo apenas possível alcançar a paz. Confesso que é um final algo estranho, mas o livro estava inacabado aquando a morte do autor e foi completado pela sua mulher.

Houve uma primeira versão do manuscrito destruída pelo próprio Bulgakov, receando as consequências da sua descoberta pelo regime stalinista. Ele queria escrevê-lo mais do que tudo, mas vivia no tormento da censura e repressão ditatorial, muito à semelhança do próprio Mestre que queima também o seu manuscrito sobre Pôncio Pilatos, pelas mesmas razões. Mas o Diabo devolve o manuscrito ao Mestre, dizendo: manuscripts don’t burn, confirmando a supremacia da arte sobre tudo o resto, a arte que sobrevive à dominação política, à repressão e ao fim da razão.

Independentemente das suas temáticas, que devem ser aludidas no devido contexto da história e cultura soviética, é importante sublinhar que o impacto de Margarita e o Mestre ultrapassou em muito as circunstâncias geográficas, históricas e linguísticas que a viram nascer. Sobre a obra e a sua contribuição para o estabelecimento do realismo mágico, Robert Olen Butler escreveu:

I first read Mikhail Bulgakov’s The Master and Margarita on a balcony of the Hotel Metropole in Saigon on three summer evenings in 1971. The tropical air was heavy and full of the smells of cordite and motorcycle exhaust and rotting fish and wood-fire stoves, and the horizon flared ambiguously, perhaps from heat lightning, perhaps from bombs. Later each night, as was my custom, I would wander out into the steamy back alleys of the city, where no one ever seemed to sleep, and crouch in doorways with the people and listen to the stories of their culture and their ancestors and their ongoing lives. Bulgakov taught me to hear something in those stories that I had not yet clearly heard. One could call it, in terms that would soon thereafter gain wide currency, “magical realism.” The deadpan mix of the fantastic and the realistic was at the heart of the Vietnamese mythos. It is at the heart of the present zeitgeist. And it was not invented by Gabriel García Márquez, as wonderful as his One Hundred Years of Solitude is. García Márquez’s landmark work of magical realism was predated by nearly three decades by Bulgakov’s brilliant masterpiece of a novel.

É realmente uma obra-prima brilhante, produzida num tempo histórico que já não existe. Mas os seus ecos vibram ainda pelas décadas fora, alertando-nos para as vicissitudes da arte perante a tirania e opressão, tornando-se o mais sublime exemplo de resistência face à adversidade dos tempos.

O passado islâmico da Península Ibérica

Posted in Strange Land by Safaa Dib on July 13th, 2008

(O texto a seguir reproduzido surgiu pela primeira vez num dos fanzines dos Filhos de Athena no ano de 2005, e é de novo republicado para efeitos de preservação dos textos da autora)

O sol ia já alto quando o grito de «Allah hu acbar!» soou no centro dos esquadrões do Islame. Era a voz sonora e retumbante de Tariq. Repetido por milhares de bocas, este grito restrugiu e ecoou, como o estourar de trovoada distante, pelos pendores das serras e murmurou e perdeu-se pelos desfiladeiros e vales. […]
― Cristo e avante! ― bradaram os godos: e os esquadrões de Roderico precipitaram-se ao encontro dos muçulmanos.

Eurico, o Presbítero de Alexandre Herculano

Do outro lado da costa mediterrânica europeia, existe um mundo tão singular e incompreensível como as distantes paragens do Extremo Oriente onde florescem espantosas teias de diversidade linguística e cultural. Mas no Norte de África, na faixa de Levante e Ásia Menor prosperou ao longo dos séculos uma cultura que um olhar de um ocidental se apressaria a julgar como caótica, exuberante e guiada por preceitos estranhos e incompreensíveis. Falamos da cultura árabe, com uma história que remonta a Abraão, o pai de todas as nações, e diz o mito que o seu filho Ismael lançou a semente que daria origem aos filhos do mundo árabe. Ser árabe pode significar ser um cidadão de um país com língua oficial árabe, ser descendente dos povos que habitavam a península arábica, ser falante da língua árabe.

Mas houve um momento fundamental na história deste povo que para sempre mudaria o seu universo. Essencialmente nómadas e comerciantes, as diferentes tribos da Ásia Menor assistiram ao nascimento de um novo profeta no séc. VII, Mohammed, o último de uma linha que inclui Adão, Abraão, Moisés e Jesus Cristo. Em Mohammed foi revelada a palavra divina, o Corão, através do anjo de Deus ou Allah, Gabriel. Desde esse momento em diante, os árabes tornaram-se também muçulmanos. Não a totalidade deles, note-se. Embora maioritariamente seguidores do Islão, existem muitas outras minorias residentes em países de expressão árabe.

Após a conquista de Meca pelo Profeta, deu-se início a um processo político de Arabização e Islamização, poucas vezes pacífico, que se estendeu ao Levante e Norte de África. As elites árabes excluíam do poder as minorias étnicas não-árabes e, mais tarde, este factor viria a desestabilizar muitas das relações entre os mouros oriundos do actual Magrebe e Algéria e os árabes de Síria ou Arábia Saudita.

A morte de Mohammed iria eventualmente conduzir a acérrimas disputas acerca da sucessão do Profeta, que culminariam na grande cisão que dividiu os xiitas e sunitas. Na causa desse confronto estava a atribuição de poderes ao califa, o sucessor do profeta, o príncipe dos fiéis. Após forte dissensão, sobe ao poder aquela que veio a ser a primeira dinastia de Califas, os Omíadas, sendo a cidade de Damasco o centro do seu domínio.

Tendo como escudo a nova fé, foi no ardor dos primeiros séculos do Islão que os ensinamentos do Corão se propagaram e se tornaram o estandarte para os exércitos dos sarracenos, como eram comummente apelidados na Europa.

Em 711, deu-se a travessia do Mediterrâneo e os exércitos maioritariamente mouros, liderados pelo berbere Tarik Ibn-Ziyad, a mando dos governadores árabes, alcançaram solo europeu e trouxeram com eles os ventos do deserto e da mudança. A Hispânia, então governada por uma monarquia visigótica em decadência, não pôde fazer frente à primeira onda invasora. Nas margens do rio Barbate, Tárik alcança uma vitória esmagadora contra o último rei Visigodo, Roderico, traído pelos seus pares. Em pouquíssimos anos, quase toda a Hispânia viu-se conquistada, dividida e governada a partir de Damasco. Lisboa abriu as suas portas em 716, sendo então uma relativamente pequena vila portuária na margem do rio Tejo, mas que com os anos veio a prosperar com as trocas mercantis e viu a sua importância subir consideravelmente, acabando por se tornar um importante núcleo de moçárabes, isto é, de habitantes cristãos que não se converteram ao Islamismo.

A conquista de Hispânia não é um relato sanguinário e bárbaro que ceifou a vida a milhares de locais, mas antes uma história que implicou negociações e cedências de ambas as partes, até se chegar a um consenso que permitiu que a vida florescesse no Andalus, o nome que a Península Ibérica recebeu dos árabes. A conquista árabe podia ter-se estendido ao resto da Europa, não tivesse sido a valorosa resistência de Charles Martel (imagem em baixo) na batalha de Poitiers em 732. Só podemos especular sobre como seria a Europa de hoje caso esta batalha tivesse revertido a favor dos árabes.

Com a passagem dos séculos, o Andalus tornou-se um centro de erudição e ensino, de comércio e arte, onde cristãos, árabes e mouros coexistiam numa paz frágil mas que permitiu a construção de um legado importante na Península. A língua árabe, embora não tenha afectado as estruturas linguísticas daquilo que viria hoje a ser o português, contribuiu com um imenso e rico vocabulário normalmente reconhecido pelo artigo Al- no início da palavra.

Por esta altura, os eventos no plano internacional eram marcados por relatos de batalhas e golpes de estado, de traições e assassinatos entre os califas e pretendentes a califas. O califado dos Omíadas é destruído e no seu lugar, ascendem os Abássidas que proliferam em Bagdade. O único sobrevivente dos Omíadas consegue escapar para o Norte de África, e mais tarde, para Córdova, onde declara a sua independência como emir, desafiando o poder de Bagdade. Mais tarde, em 920, os emirs de Córdova ir-se-ão declarar como califas.

Estão criadas as condições e as circunstâncias que irão conduzir, nos próximos séculos, a um período excepcional na História Islâmica – a Idade de Ouro do Islão – uma era de inigualáveis proezas intelectuais e que permitiu grandes avanços em áreas tão diversas como Medicina, Astronomia, Geografia, Agricultura e anatomia. Figuras ímpares como o médico e filósofo Avicenna, o cartógrafo Idrisi, o filósofo Al-Farabi, o poeta Al-Mutanabbi, entre muitos outros, permitiram à Europa, com os seus ensinamentos e descobertas, que a Idade das Trevas se extinguisse e fosse substituída por novas luzes de conhecimento.

Na grande Hispânia, os cristãos escorraçados pelos exércitos de Tárik para o Norte da Península, sendo Pelágio a primeira grande figura de destaque da resistência, gradualmente ganham em força e organização e começa o moroso e difícil processo da Reconquista. Mas também a terra prosperava sob a soberania de Córdova; novos canais de irrigação tornavam a terra mais fértil, universidades foram construídas e a arquitectura dava novas maravilhas ao mundo na forma de grandes mesquitas.

O califado de Córdova, que governava a Hispânia Islâmica e o Norte de África, confrontado com contínuas dissensões e lutas de poder entre governadores, assim como uma escalada de tensão entre berberes, árabes e moçárabes, e ainda a perda de territórios para hostes cristãs, acaba por inevitavelmente soçobrar e cair no ano de 1031.

As muitas cidades e territórios sob controlo árabe fracturam-se em pequenos estados independentes, conhecidos como as taifas. Mas tal não implicou o fim da civilização islâmica na Ibéria, antes assistiu-se a um novo florescer. A obra de Averroes, natural de Córdova, influenciou profundamente todo o pensamento europeu, ainda que fosse incompreendido no seu próprio tempo.

Silves constituía um dos últimos bastiões de esplendor artístico e literário da civilização islâmica. Foi, aliás, nos palácios de Silves que habitaram, por breve tempo, duas das figuras literárias mais ilustres deste período, o rei poeta Al-Mu’tamid e seu amigo, também poeta, Ibn Ammar, cujas vidas e amizade são dignas de uma tragédia grega. Mas antes que o infortúnio arruinasse as suas vidas, e antes que Al-Mu’tamid fosse forçado a matar com as suas próprias mãos Ibn Ammar que o traíra, foi da lira do rei poeta que saiu este belo poema, o qual exprime bem o idílio efémero que ambos viveram no AlGharb.

Saúda, por mim, Abu Bakr,
Os queridos lugares de Silves
E diz-me se deles a saudade
É tão grande quanto a minha.
Saúda o palácio dos Balcões
Da parte de quem nunca os esqueceu.

[…]

Poema de Al-Mu’tamid enviado a Ibn Ammar, Evocação de Silves

Al-Mu’tamid não fica apenas na história como um poeta, mas como o rei da taifa de Sevilha que assistiu à perda de Toledo, em 1085, a favor dos príncipes cristãos. Numa desesperada tentativa de travar a Reconquista cristã, as taifas assinam a sua própria condenação e perda de independência ao convidarem, em seu auxílio, os Almorávidas, uma confraria religiosa.

Destronado pelos Almorávidas, Al-Mu’tamid é desterrado para o Magrebe, para uma vida de exílio e miséria. De forma a proteger e conservar a sua amada Andaluzia, pagara um preço demasiado elevado.

Começa um tempo na Península marcado pelo fundamentalismo religioso islâmico exercido pelos Almorávidas, mas também uma sucessão de conquistas lendárias pelo campeão hispânico e brilhante militar, Rodrigo Díaz de Vivar, mais conhecido por El Cid, que ironicamente começara como mercenário a soldo das taifas.

Posteriormente, uma Andaluzia já militarmente e politicamente fragilizada perante o avanço da monarquia Castilho-leonesa e as proezas militares de D. Afonso Henriques a Nordeste da Península Ibérica, sofre um duro revés com a reconquista de Lisboa em 1147, um marco importante não só pelo que representou para a nação portuguesa, mas pelo facto de ter induzido às taifas a recorrerem mais uma vez a islâmicos radicais do Norte de África, desta vez, a dinastia dos Almóadas.

Foi o princípio do fim. Estes radicais, longe de providenciarem um verdadeiro auxílio à Andaluzia, limitaram-se a anexar os territórios e mostravam profundas divisões no seio das suas tribos. Nos próximos dois séculos, eram já incapazes de fazer frente aos exércitos disciplinados e unidos dos príncipes cristãos, e em 1492, os reis católicos Fernando e Isabel completaram a Reconquista com a rendição da última taifa sobrevivente, Granada. A lenda diz que o seu rei, Boabdil, ao partir para o exílio, olhou uma última vez para a cidade e chorou pela sua perda, num momento que ficou conhecido como o Último Suspiro do Mouro.

E com esse suspiro, veio o fim de uma era e de uma cultura única em todo o mundo. O universo islâmico da Península não era unicamente árabe, mas composto por uma miríade de vozes e heranças que originaram um património singular presente nos magníficos mosaicos de Alhambra, na imponente mesquita de Córdova, ou na caligrafia árabe de Averroes ou Ibn Ammar.

Mas se há alguma verdade que possa ser dita acerca da história deste período é que, por breves sopros de tempo, os povos que habitaram a Península construíram uma nova identidade e essa identidade não rejeitou o legado árabe e islâmico, nem tão só o desvalorizou, mas assimilou alguma coisa dos conhecimentos e da cultura, e não é possível negar que durante esse breve intervalo de tempo na história de civilizações, o coração da Ibéria era árabe.

Casanova in love with Dancing Doll

Posted in Cinema e TV by Safaa Dib on July 11th, 2008

Depois de ver ontem Casanova de Fellini (1976) na Cinemateca, há uma cena maravilhosa que não me larga. Devo dizer que não é fácil gostar de Fellini. Temos que nos deixar levar e não esperar nenhuma lógica ou compromisso com a realidade e temos que nos deixar cativar pelas poderosas fantasias que irrompem da mente do cineasta. Penso que com a idade, Fellini cedeu cada vez mais ao seu próprio imaginário, fabricando sonhos de sonhos, enredando o espectador numa teia de ilusão e estranheza.

Em Casanova estão presentes todos os elementos fellinescos que constituem a imagem de marca do cineasta. Os freaks, que por norma seriam marginalizados por serem demasiado feios ou grotescos, são os filhos predilectos de Fellini e povoam todas as cenas. Eles fazem parte de circos ambulantes, companhias de actores, estão entre a ralé, escondidos nas nobres casas ou nos bordéis, nunca cessando de existir na imaginação de Fellini.

Mas é Casanova o centro da história, o homem de façanhas prodigiosas no amor, famoso pela sua erudição em artes e letras mas, principalmente, pela energia e paixão que devota a cada mulher que admira. Contudo, a sua vida é uma existência vácua, em perseguição de fama e fortuna, julgando-se uma grande figura que será relembrada através das eras, quando na verdade não passa de uma figura patética, humilhada no fim, destroçada pela perda da juventude e vigor. Diz-se que Fellini via em Casanova a representação de toda a imoralidade que abominava e que tinha tomado conta da Roma do seu tempo, nas décadas de 50 e 60. E a ser isto verdade, não nos podemos deixar espantar com o retrato desencantado e imoral que Fellini nos oferece do princípio ao fim.

Apesar disso, há uma cena em que é inegável que Fellini se superou e se deixou comover pela tragédia da vida de Casanova. Na parte final, o homem de letras deixa-se fascinar por uma boneca mecânica em tamanho real. Uma obra-prima, a beleza da boneca impressiona-o e, numa dança lenta, sedutora e quase mágica, ele faz amor com a boneca na talvez única cena de amor verdadeiramente tocante em todo o filme.

A cena é magnífica pela música de Nino Rota, coreografia de movimentos e monólogos de Casanova, tornando-se artística e bela como como só Fellini poderia criar. Mas vendo para além da beleza, a boneca mecânica representa uma metáfora que espelha a existência do próprio galã, vazia e desprovida de sentimentos. Não é por acaso que os sonhos finais da vida de Giacomo Casanova relembram o melhor da sua juventude em Veneza, enquanto dança lado a lado com a boneca. É um fim triste, mas apropriado, a uma vida devotada ao prazer e boémia.

Pode não ser o melhor filme de Fellini, mas a sua beleza é certamente algo para guardar na memória (e não terá esta cena reproduzida abaixo um toque de ficção científica? Esta boneca é demasiada avançada para o seu tempo, é antes um robô, embora o espectador saiba que é um humano a fingir que é um ser mecânico).

Es muss sein

Posted in Strange Land by Safaa Dib on July 8th, 2008

Sobrevivi a uma das semanas mais intensas e emocionais da minha vida.

Representou ao mesmo tempo o fim, o culminar e um novo início.

O fim de uma situação profissional que já se tornara insustentável, o que fez com que apresentasse a minha demissão. Foi também o culminar de anos de trabalho e dedicação ao fantástico, tendo atingindo um ponto alto na honra que foi entrevistar o escritor George R. R. Martin no seu 1º evento público em Lisboa. E um novo início porque não sei bem o que me reserva o futuro a partir do dia de amanhã. As últimas palavras de Crime e Castigo de Dostoievsky ecoam, de certa forma, aquilo pelo qual estou a passar.

But that is the beginning of a new story—the story of the gradual renewal of a man, the story of his gradual regeneration, of his passing from one world into another, of his initiation into a new unknown life. That might be the subject of a new story, but our present story is ended.

Para breve, o relatório completo da passagem de George R. R. Martin em Portugal no blogue da Épica. Para já, ficam com as minhas fotografias.

George R. R. Martin juntamente com as três pessoas que possibilitaram a sua vinda a Portugal

Fotografia de João Gonçalves

Sinais (incómodos) dos tempos

Posted in Strange Land by Safaa Dib on June 15th, 2008

Os leitores começaram a aperceber-se dos primeiros sinais de mudança no mercado dos livros quando a Leya decidiu desafiar os ditames da APEL sobre a organização da Feira do Livro de Lisboa, envolvendo o certame numa longa polémica polvilhada de contradições, ameaças e insultos velados da parte de todos os envolvidos. Se muitos suspeitaram que o episódio da Feira seria apenas o primeiro de muitos, foi com a abertura da Praça Leya que todos receberam a confirmação de que o grupo iria optar por tácticas agressivas e dominadoras para impor a sua lógica capitalista.

A infame Praça Leya da Feira do Livro eliminou todo o seu catálogo menos comercial e popular, colocando à venda apenas uma meia dúzia de livros bem-sucedidos por cada chancela. Num canto perdido de armazéns empoeirados ficaram todas as outras colecções publicadas no passado. A Leya e respectivas chancelas - e falamos daquelas que foram no passado algumas das maiores editoras históricas do país - Caminho, D. Quixote, Asa, Texto, Gailivro, com a notícia recente de que também a Oficina do Livro passaria a fazer parte do Grupo Leya - estão na origem de um profundo mal-estar que se começa a fazer sentir no seio das outras editoras, em particular, as pequenas e médias editoras.

O dinheiro move montanhas, e quando não se tem falta dele, não há muito que possa travar a marcha da máquina comercial dos gigantes da edição que se tornaram as chancelas da Leya. A parceria recentemente anunciada com a Casa Fernando Pessoa pode parecer inocente à partida, mas a julgar pelas palavras da actual Directora da Casa Fernando Pessoa, Inês Pedrosa (também autora publicada pela… Leya), o grupo é quem praticamente sustenta a Casa, uma vez que o orçamento disponibilizado para a gestão da CFP nem chega para pagar suficiente papel higiénico.

Talvez não seja de todo despropositado comparar-se a Leya ao monstro Caríbdes, o abismo que devora as ondas, e três vezes por dia, as vomita com formidáveis rugidos. Mesmo para os afortunados que conseguem escapar ao seu perigo, acabam devorados por Cila. Como poderão as editoras pequenas e médias fazer frente a tal formidável oponente que fará tudo para impor as suas tácticas dominadoras no mercado dos livros?

Mercado este que tem poucas qualidades positivas que se possam realçar. Todas as semanas saem centenas de novidades, impossíveis de serem absorvidas por um público generalista, mais atento a livros vistosos, caros e bonitos, em detrimento da qualidade literária. Não podemos cometer o erro de afirmar de que toda a gente que compra livros conhece os livros que compra.

É um público que ainda não conseguiu ver os benefícios da Internet na compra e divulgação de livros, sendo ainda totalmente alheado da compra de livros portugueses online. É na sua maioria indiferente à blogosfera, a não ser que alguma polémica se tenha instalado em torno de algum plágio (ver o caso insólito e grotesco das acusações de plágio a Miguel Sousa Tavares). Raramente dá atenção à crítica literária que surge nos (cada vez mais) parcos suplementos literários. E ao contrário da restante população mundial, os portugueses ainda descobrem as novidades literárias primeiramente através dos meios de comunicação social, e só mais tarde, através da Internet.

Esta falta de adaptação do leitor português aos tempos modernos poderá ser um reflexo dos próprios modelos tradicionais instaurados pelos livreiros e editores que temos. Até há cinco anos, quem é que me saberia apontar um site decente de uma editora portuguesa?

Se houve alguma coisa que mudou o panorama definitivamente para melhor foi a abertura das FNACs. Não só trouxeram uma incomparável diversidade na oferta de livros, como proporcionaram oportunidade para todos os protagonistas na área dos livros mostrarem os seus catálogos. Antes das FNACs, nem editores, nem tão pouco livreiros, se davam ao trabalho de escutar as necessidades do público leitor. Havia uma falta de profissionalismo gritante no atendimento público dos potenciais compradores de livros, e existia uma total falta de comunicação entre leitores e editores. Chegámos ao início do século XXI com o público moldado pelas editoras e livreiros que tínhamos: desinteressado, desinformado e atrasado em relação aos seus semelhantes europeus.

Felizmente, as coisas começaram a mudar com o surgimento de novas editoras, mais dinâmicas, acessíveis e inovadoras. O mercado dos livros em Portugal foi forçado a profissionalizar-se, mesmo que no fundo nunca tivesse sido nada mais do que caótico e desorganizado. E não irei abordar aqui os graves problemas de distribuição que afectam esta área, e que impedem um verdadeiro trabalho de edição e progresso cultural no país, pois aí o panorama é verdadeiramente deprimente e desencorajador.

Mas ainda assim, notou-se uma evolução positiva no mercado graças a esta crescente profissionalização. Até que o impensável aconteceu e todas as editoras de peso foram compradas, uniformizadas e tornaram-se máquinas de arrotar produtos. Correndo o risco de soar dramática, instalou-se um cenário orwelliano onde as instituições públicas são descaradamente compradas para fazer publicidade a grupos de esmagador poder financeiro, onde os livros que vendem menos do que cem exemplares por ano são eliminados e indignos de entrar nas livrarias, onde a classe jornalística foi silenciada porque têm os seus próprios interesses a defender, e onde o independente e alternativo, o pequeno e médio, deixaram de ter simplesmente lugar.

Os sinais de mal-estar multiplicam-se e, escondidas do público em geral, desenrolam-se muitas discussões onde se tem desafiado a lógica que a pouco e pouco se tem instalado. A discussão em torno dos booktrailers, iniciada pela editora Livros de Areia, foi apenas mais uma situação em que pudemos observar como os livreiros agora se têm descartado das suas responsabilidades de promoção e divulgação cultural e literária e se tornaram coniventes com esta absoluta dominação do mercado determinada a arrasar com a competição por todos os meios possíveis.

Em vez de serem as próprias livrarias a disponibilizarem os seus monitores para passarem booktrailers de todas as editoras, assistimos ao absurdo de serem as editoras a ter que fornecer os meios e a alugar o espaço para que seja possível tal exibição de trailers. Ganha quem tiver mais músculo financeiro, obviamente.

Apesar de tudo, é bom observar como se têm multiplicado os apelos para uma união dos editores independentes. Talvez seja agora a altura ideal para pôr em marcha uma associação profissional que defenda verdadeiramente os interesses daqueles que mais estão a ser prejudicados pela nova conjectura de mercado (não seguindo os maus exemplos da UEP), uma associação que crie a sua própria rede de distribuição e livrarias e construa a sua própria máquina publicitária. Pode parecer impossível ser criada semelhante coisa em Portugal, mas alguém tinha previsto o surgimento da Leya há 1 ano?

Amor obsessivo

Posted in Cinema e TV, Livros/BD/revistas by Safaa Dib on June 8th, 2008

Por um daqueles acasos engraçados, um livro que li e um filme que vi recentemente seguem o mesmo padrão, o do amor obsessivo, incondicional, que raia o absurdo e irracional, para descambar no patético e ridículo (esse rídulo tão temido pela corte de Versalhes do séc. XVII descrita por Patrice Leconte no filme Ridicule), culminando em nota eloquente trágica.

O livro era Carta de uma Desconhecida de Stefan Zweig (aquisição na feira do livro) e o filme era L’Histoire d’ Adèle H. de François Truffaut. Comprei o livro porque sou uma grande apaixonada pelo filme de Max Ophuls inspirado precisamente nessa noveleta de Zweig, e vi o filme porque interessou-me esta ficção romanceada em torno da loucura de Adèle H., a malograda filha do escritor Victor Hugo.

Em Carta de uma Desconhecida, um escritor recebe uma longa carta escrita por uma mulher desconhecida que principia por narrar os principais factos da sua vida inteiramente devotada a uma paixão não-correspondida por esse mesmo escritor.

A sua adolescência e vida adulta guiaram-se por este amor platónico até que um encontro ocasional na rua leva a três noites de paixão que rapidamente caem no esquecimento na mente do escritor. Mas para a mulher desconhecida esse amor era tudo e deu-lhe um filho. O final é arrasador, mas a tragédia da história reside no facto de que, de cada vez que ela se volta a encontrar com o seu amante, ele nunca reconhece o seu rosto.

Confesso que o filme é superior, com uma Joan Fontaine inocente e apaixonada, completamente rendida ao charme e sedução de Louis Jourdan. Partilhamos com a personagem o seu amor, que Max Ophuls jamais se atreve a ridcularizar, mas também a sua tristeza por jamais ser reconhecida pelo homem a quem entregou a sua vida.

Em L’Histoire d’ Adéle H., a personagem principal embrenha-se num longo jogo em que se ilude a si própria, julgando que o seu amado irá consentir no tão desejado casamento. O amor obsessivo de Adèle vai muito mais longe, assumindo uma face auto-destrutiva, submetendo-a a um processo de degradação inexorável.

É no seu diário secreto que Adéle escreve palavras incendiárias, e que reflectem o gradual fim da sua lucidez. Isabelle Adjani, com a sua beleza de Helena de Tróia, interpreta Adéle com a absoluta convicção de que se o Tenente Pinson não lhe pertence, então nunca poderá pertencer a mais ninguém. Sistematicamente, recorre a sabotagem e deliberadamente engana a sua família para conseguir o seu desejo. É por isso trágico que Adéle, nos momentos finais, já nem sequer reconheça o amado enquanto deambula pelas ruas de Barbados, a sua alma destruída pela dor deste amor não-correspondido.

Duas mulheres devoradas por amor, e destruídas por ele. A história destas duas mulheres poderia ser encarada como um melodrama vulgar, não fosse a excepcional intensidade espiritual manifesta nas palavras de ambas, na carta da mulher desconhecida e no diário de Adéle, mas também a incondicional entrega (não só no plano físico, uma vez que ambas confessam terem-se entregue à pessoa amada) e o incondicional amor que as mantém presas e altera as suas vidas, não mais pertencentes à esfera do racional e do humano.

Adéle e a mulher desconhecida tornam-se personagens que vivem à margem da sociedade, arruinadas pelo amor mais perigoso de todos, e não mais ao alcance da convenção.

Um acaso

Posted in Strange Land by Safaa Dib on May 19th, 2008

Qual é a probabilidade de me sentar no metro no regresso a casa, após um dia de trabalho, e descobrir que estou sentada em frente de uma pessoa que está a ler precisamente um livro que eu traduzi? Espero que as pessoas à minha volta nao tenham interpretado erradamente o meu riso mal disfarçado. É um riso que não expressa mais do que admiração por estes curiosos acasos.

Jerusalém através dos séculos

Posted in Livros/BD/revistas by Safaa Dib on May 16th, 2008

Publisher’s Weekly chamou-o de o melhor romancista americano desconhecido. E de facto, a palavra-chave reside em desconhecido. Edward Whittemore (1933-1995) mais de 10 anos após a sua morte, permanece um mistério para muitos dos leitores que tiveram a sorte ou privilégio de encontrarem a sua obra literária. Apenas 5 romances, intricamente ligados, povoados de aventuras excêntricas e a descrição exuberante de pessoas que vivem demasiado intensamente, fechadas no seu próprio mundo de imaginação.

São personagens obcecadas, determinadas a seguir um peculiar curso de vida, desiludidas e amarguradas a um certo ponto, atormentadas pelas visões que as perseguem, mas todas convivendo na mesma universal teia que as prende a Jerusalém.

E no entanto, todos estrangeiros numa terra estranha que adoptaram como sua, muito como o próprio Whittemore que viveu durante vários anos em Jerusalém e, diz quem sabe, que foram os anos mais felizes da sua vida.

Nenhuma descrição de The Sinai Tapestry, o primeiro em quatro volumes, poderá fazer justiça a esta obra-prima. O quarteto continua com Jerusalem Poker, Nile Shadows e Jericho Mosaic, narrativas multiculturais que cruzam as histórias e tragédias pessoais de muitas personagens.

Skanderberg Wallenstein, um monge fanático de Albânia, que desenterra a bília mais velha do mundo num mosteiro em Jerusalém e descobre que nega toda as verdades religiosas tal como foram transmitidas. Plantagenet Strongbow, um aventureiro inglês que se torna um homem santo muçulmano e finalmente, na véspera da Grande Guerra, o governante secreto do Império Otomano. O seu filho, Stern, um visionário que dedica a sua vida a estabelecer uma terra onde vivam em comunhão cristão, judeus e muçulmanos. Haj Harun, um guerreiro de 3000 anos de idade e um antiquário. E O’Sullivan Beare, um irlandês exilado que luta pela liberdade, enquanto trafica armas.

Ousado na criação de personagens alucinantes e alucinadas, Whittemore desafia as convenções e expõe uma intensa visão pessoal metamorfoseada em histórias fantásticas com os pés bem assentes na História do Médio Oriente.

Os capítulos dedicados a Esmirna são dos mais intensos e marcantes. Nas vésperas do ataque que vitimou as vidas de milhares de arménios e gregos às mãos de tropas turcas no ano de 1923, as personagens encontram-se presas nessa cidade, e têm que lutar para escaparem a salvo. Mas as atrocidades que testemunham testam os seus limites como homens e alguns abandonam a cidade para sempre transformados por esta experiência.

Livros apropriados neste tempo em que Israel celebra os seus 60 anos de precária existência, uma celebração que para muitos representa a Catástrofe, o dia da Nakba. Jerusalém permanece ainda o pomo da discórdia, mas é no seu centro sagrado intemporal que o crente encontra as raízes da sua fé. É cidade de sangue, mas também cidade de esperança para os que desejam acreditar, muito como as próprias histórias de Whittemore, em que a crueldade e violência se fundem com histórias de ternura e amor.

Excêntrico como possa parecer, Whittemore é um dos mais fascinantes e obscuros escritores norte-americanos, capaz de transmitir a intensidade e a poesia da vida, por vezes cómico, por vezes comovente e por vezes profundo, a atestar por esta curta passagem de Sinai Tapestry.

Love gentle and kind and ferocious, rich and starved and hallucinatory, damned and diseased and saintly. Love, the bewildering varieties of love. That and only that able to recall the lives lost in the spectacle, the hours forgotten in the dream.

Hopes and failures given to time, demons pressed into quietude, spirits released to memory in the chaotic book of life, a repetitious and contradictory Bible suggesting infinity, a Sinai Tapestry of many colours.

Whittemore foi também o autor de Quin’s Shangai Circus, o seu primeiro romance de novo reeditado, juntamente com o quarteto de Jerusalém pela Old Earth Books, uma excêntrica história de espionagem no Extremo Oriente, povoada de visões incendiárias e imaginativas que apresentam ao leitor um dos mais irreverentes e eloquentes escritores de ficção especulativa.

Por isso agora pergunto, qual o editor português que terá a coragem de publicar a irreverência e eloquência de Whittemore?

Welcome, Mr. Paine. How do you do, Mr. Warre?

Posted in Strange Land by Safaa Dib on May 9th, 2008
Cidadãos portugueses no Líbano estão “todos bem”
09.05.2008 - 15h09 Lusa, PÚBLICO

Os portugueses residentes no Líbano estão “todos bem” e, de momento, não estão previstas operações para os retirar do país, revelou o secretário de Estado das Comunidades.

“Portugal tem 34 cidadãos no Líbano e estão todos bem” declarou António Braga, garantindo que as autoridades nacionais estão a acompanhar a situação em Beirute, palco nos últimos dias de combates entre apoiantes e opositores do Governo.

Mas… e os cidadãos libaneses…? Mais uma vez, entregues a eles próprios perante a complacência do mundo inteiro?

The art of deceivement, ou o talento para enganar

Posted in Livros/BD/revistas by Safaa Dib on May 4th, 2008

As heroínas de romances são geralmente figuras trágicas, vítimas de circunstâncias que se poderão dever a um amor impossível, a uma sociedade opressora e dominante, ou tornam-se presas inocentes e incautas de má-fé da parte de terceiros. Os romances realistas do século XIX retrataram a mulher a uma luz pouco edificante, mas não a culparam pelos vícios da sua educação, antes culparam a sociedade. No entanto, a um certo ponto, heroínas tornaram-se estereotipadas. E esse é o pior serviço que se pode fazer a uma mulher. Descrevê-la com banalidade e vulgaridade. É curioso notar que, independentemente da época histórica, ou da geografia, houve autores determinados a quebrar os estereótipos e a defender a mulher como um ser infinitamente complexo e digno da nossa maior admiração, fascínio e compaixão.

Alguns dos maiores romances protagonizados por heroínas envolvem um mecanismo por parte dos seus autores que se poderia descrever como a técnica da falsa crença. Quer isto dizer que o autor escreveu o enredo baseando-se em grande parte na ideia falsa que formamos do carácter da personagem. O escritor quer-nos fazer acreditar que o que vimos como pecado é na verdade uma virtude, e o que vimos como uma virtude é na verdade uma terrível falha de carácter.

A técnica da falsa crença baseia-se no conceito de que o autor pretende que o leitor assuma uma falsa ideia do carácter da personagem, e recorro a dois romances para melhor ilustrar esta técnica, Rebecca de Daphne du Maurier (1938 ) e Helena de Machado de Assis (1876).

Muita da credibilidade e força da narrativa assenta neste jogo do autor, uma vez que todas as pistas deixadas são concebidas para formar uma ideia que, quando revelada a verdade, projecta uma nova luz na personagem e muda a inteira noção formada em relação ao romance. Em Rebecca, Mrs. de Winter vive as primeiras semanas do seu casamento com Maxim de Winter oprimida pela sombra omnipotente da sua primeira mulher, Rebecca. A decoração da mansão, Manderley, é especialmente conivente com os gostos e estilo de Rebecca, e para nos fazer constantemente lembrar as suas palavras, luxo e elegância, não falta a governanta, qual corvo da tormenta na vida da nova Mrs. de Winter.

Mrs. de Winter é levada a acreditar por um subtil jogo psicológico, em que a casa desempenha um papel determinante, que nunca poderá chegar aos calcanhares de Rebecca, uma figura que se crê ser bem amada e bem recordada por todos. A primeira parte da narrativa é inteiramente dominada por este confronto entre memórias do passado e o presente, até ao momento em que o barco em que Rebecca morreu é descoberto e alguns factos surgem que levantam questões sobre as circunstâncias da sua morte. Dá-se a reviravolta então, não do enredo, mas uma reviravolta de perspectivas. Maxim de Winter confessa, numa surpreendente revelação para o leitor, que Rebecca era tudo menos a cândida, inocente e devotada esposa. Tinha um estilo de vida opulento e dada a excessos e não tinha falta de amantes. E fazia vida de Maxim um inferno permanente. De anjo, Rebecca transforma-se num demónio prestes a acabar com as vidas do casal. É um brilhante romance precisamente pela falsa expectativa que induz no leitor, ou mais apropriadamente dito em inglês, pelo seu deceivement.

Da mesma forma, em Helena de Machado de Assis opera-se o engano, mas no sentido inverso. O que acreditámos ser uma personagem corrompida se revela no final como virtuosa. Helena é declarada no testamento do Conselheiro Vale como sua filha, fruto de uma relação ilegítima. Ela é adoptada pela família do Conselheiro, e cedo encanta a família e sociedade, em especial, o seu meio-irmão, Eustácio.

Inconscientemente, desenvolve-se uma afeição incestuosa entre Helena e Eustácio, e a rapariga foi beneficiada como herdeira de uma parte da fortuna do Conselheiro. Mas os seus encontros matinais com uma pessoa misteriosa levantam suspeitas sobre a sua honra e carácter e, assim, os homens da história encarregam-se de esclarecer os factos e, eventualmente, condenar Helena.

O que na verdade se revela é que a moça formosa e prendada é uma vítima das circunstâncias e está aprisionada entre o amor que surgiu inesperado e o dever para com um pai que a forçou, não como um pai vilão mas um homem destituído e miserável, a assumir uma farsa, de modo a que ela possa herdar a fortuna do Conselheiro. Helena é ilibada de qualquer pecado na mente do leitor, mas é esmagada por uma sociedade burguesa, que destrói todas as suas forças, e a sinceridade dos seus sentimentos para com Eustácio nunca se poderá consumar devido a motivos de ordem social. A imoralidade das pessoas que a rodearam toda a sua vida acabou por minar a sua própria credibilidade, mas ela permanece no fim, uma figura orgulhosa, embora trágica, ciente de que foi erradamente julgada, mas com a consciência de uma mulher que honrou o seu dever à custa da sua própria vida.

É não muito diferente do que sucede em La Princesse de Clèves de Madame de La Fayette (1678), considerado por muitos como um dos primeiros romances modernos europeus pela brilhante análise psicológica, inédita à altura, em que a heroína é acusada de adultério e traição quando, na verdade, honrara os seus compromissos, mesmo que certas acções aparentassem o contrário.

É também um dos primeiros romances em que o realismo da vida triunfa sobre histórias impossíveis de amor e aventura, onde o picaresco e o exótico que povoam as vidas dos heróis e amantes cedem lugar a histórias plausíveis onde domina a impossibilidade de uma vida feliz restringida pelos preceitos da sociedade. Madame de La Fayette não era nenhuma estranha à vida no meio da aristocracia francesa e fez amizade com as personalidades mais extraordinárias da literatura e teatro da época.

A princesa é uma mulher de grande virtude. E todo o enredo do romance gira em torno das tentativas de manchar essa virtude. A sua beleza tornou-a alvo das atenções do Duque de Nemours, um aristrocrata sedutor da corte francesa, e por mais que ela lute, não pode deixar de amar esse homem, em mente e espírito apenas.

Embora não haja nenhuma estratégia da parte do autor em enganar o leitor em relação ao carácter da Princesa, o deceivement opera-se a nível interno narrativo, quando a reputação da princesa é posta em causa pelo seu marido, que morre convencido que a sua mulher o traíra. Ela desafia as convenções ao manter os seus princípios e honra intacta. Ela desafia a sociedade ao manter a sua pureza, e recusando-se a ceder à pressão de Nemours, mesmo quando é livre para tal. E o romance termina com uma afirmação de admiração por essa mulher, et sa vie, qui fut assez courte, laissa des exemples de vertu inimitables.

Muito da técnicada falsa crença reside, essencialmente, na construção de uma aparência, de uma superfície enganadora que oculta uma verdade inesperada. E não será exagero dizer que muitos filmes assentam nesse jogo de ilusões, que é talvez o maior jogo de todos no cinema. Não se trata de conhecer melhor uma personagem, mas sim de jogar com as expectativas do leitor.

Há um outro romance (curiosamente, todos os romances escolhidos têm como títulos os nomes das heroínas) que destrói toda esta estratégia literária de entreter e enganar o leitor, através de uma técnica muito simples, e ao mesmo tempo, uma das mais complexas em literatura: expondo os pensamentos privados das personagens. Mrs. Dalloway de Virgina Woolf é um romance notável precisamente pelo seu exemplar uso de stream of consciousness. Em grande parte autobiográfico, A persona de Woolf reflecte-se em duas diferentes personagens, a do louco Septimus Smith, e a de Clarissa Dalloway, a mulher rica e submissa de um político que vive uma mentira.

A imagem que o leitor constrói de Mrs. Dalloway é constantemente alterada ao longo do romance, mas porque a personagem se expõe em absoluto. A falsa aparência existe e continua lá presente nas belas festas que Mrs. Dalloway anfitria, mas apenas sabemos que tudo é falso porque ela nos conta. Virginia Woolf descreve, exteriormente, o estereótipo que Mrs. Dalloway representa, mas ao mesmo tempo o destrói, quando nos dá acesso aos seus pensamentos íntimos.

Tanto Madame de La Fayette, como Daphne du Maurier, como Machado de Assis, embora autores vastamente diferentes entre si, revelam um talento para enganar e criar falsas aparências. A criação das suas personagens é tudo menos vaga, e deixam apenas espaços brancos suficientes para que o leitor crie as suas próprias noções, mas é uma tentativa, acima de tudo, de fuga do estereótipo.

Rebecca é, aparentemente, a esposa ideal, vítima de uma morte prematura. Julgamos a um dado momento que Helena é a imagem de uma herdeira oportunista e manipuladora. E a Princesa de Clèves poderia ser mais uma nobre aristocrata a sucumbir a amores ilegítimos, e não seria a primeira. E mesmo que possam parecer virtuosas ou demoníacas, são acima de tudo heroínas, ou mesmo anti-heroínas, cuja vida é muito mais tumultuosa e complexa do que julgávamos. A conclusão a tirar no final de todos esses livros é, banal como possa parecer, que a vida interior de uma mulher está longe de ser linear, e não nos devemos precipitar com jugamentos errados, correndo o risco de ver as nossas expectativas arrasadas.

Tal como na pintura de John Waterhouse, La Belle Dame Sans Merci (reproduzida em cima) é, na aparência, uma bela e vulnerável donzela que ludbria o cavaleiro e o enreda na sua teia de sedução; e o que revela afinal é um coração cruel e sem compaixão. O que nós vemos e o que cavaleiro vê roça apenas a superfície das coisas. E tendo em mente as vidas de Helena, a Princesa de Clèves e a de Rebecca, não basta julgar a aparência para atingir a profundidade destas personagens. Na imaginação dos leitores, elas realizam uma jornada inesperada da luz para a escuridão ou da escuridão para a luz.